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Tudo isso para chegar a uma conclusão lógica e evidente: gordos e gordas, a culpa é de vocês. Não é lobby não, que história é essa? Não tem epidemia nenhuma e isso de predisposição genética é balela. Você é gordx porque quer! Mas pode não ser, você pode ser feliz em outro corpo comprando revista, remédio, produto. Mas ser gordo e feliz, isso é impossível.
...A gordofobia é para mim uma das mais grotescas formas de discriminação, e olha que a concorrência é rude. Nega a responsabilidade do nosso vender-comprar-vender way of life, dos padrões ditados por ele, culpabiliza a pessoa que sofre. Não levem a mal a comparação, que para mim é pertinente: ninguém jamais diria a uma pessoa com câncer "Nossa, você poderia dar um jeito nessa careca para ficar mais bonita! Você deveria fazer alguma coisa, se cuidar, ter mais força de vontade". Mas a/o obesa/o é sempre culpabilizado, mesmo quando se trata de um problema de saúde. Porque gordx é relaxadx, né? É culpa dele/a ser feio/a, largado/a, não se cuidar.
Então é isso. Para terminar contra os bullyings, fica o vídeo e o discurso dessa jornalista americana, em resposta à carta "bem intencionada" de um homem preocupado com o exemplo que ela, gorda, passava para seu público :
por Barbara Falleiros
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| Quantidade de açúcar nas bebidas industrializadas |
Nas cidades, as crianças de hoje não brincam na rua (perigosa demais, inadaptada) e passam a maior parte de seu tempo livre na frente do computador ou da televisão. Para os adultos, sair caminhando a pé ou de bicicleta são práticas que lutam para serem reabilitadas e assim, entre comodidade, segurança e falta de alternativas, não são poucos os que entram no carro até para ir à padaria. Tudo nos empurra para uma vida sedentária. A rotina pesada de trabalho e a falta de tempo encorajam o consumo de alimentos processados. Comida rápida, engolida por robôs eficientes. Se há um lugar em que a depressão me invade sem qualquer possibilidade de resistência são as praças de alimentação dos shoppings. Da luz pálida ao sorriso dos atendentes, tudo é irreal no templo do consumismo. Refrigerante no lugar de água, refrigerante na mamadeira, porções de porcariada cada vez maiores. "Amo muito tudo isso" - martelam na sua cabeça. Como de costume, os mais pobres são os primeiros a serem atingidos. Parece que no Brasil tomate agora é caviar. Crise passageira, que seja, mas frutas e legumes são artigos de luxo. Produtos orgânicos, então, é coisa de gente muito fina. E quem não pode ter sua própria horta (viva a horta urbana!) que encha o bucho de batatinha chips, bolacha recheada, coca-cola, miojo e salsicha. Desde pequenininhx.
No Brasil, um levantamento realizado em 2008/2009 mostrou que 50% dos homens e 48% das mulheres se encontram com
excesso de peso, sendo que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres
apresentam obesidade. Uma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos está acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Há um excelente documentário, Muito além do peso (assistam! é longo, mas vale a pena), que mostra as relações nefastas entre a publicidade de alimentos destinados às crianças e a obesidade infantil. Porém... no início deste ano o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que tentava proibir a propaganda de alimentos infantis não saudáveis na televisão. Vetou. Anotaram?
Tudo isso para chegar a uma conclusão lógica e evidente: gordos e gordas, a culpa é de vocês. Não é lobby não, que história é essa? Não tem epidemia nenhuma e isso de predisposição genética é balela. Você é gordx porque quer! Mas pode não ser, você pode ser feliz em outro corpo comprando revista, remédio, produto. Mas ser gordo e feliz, isso é impossível....A gordofobia é para mim uma das mais grotescas formas de discriminação, e olha que a concorrência é rude. Nega a responsabilidade do nosso vender-comprar-vender way of life, dos padrões ditados por ele, culpabiliza a pessoa que sofre. Não levem a mal a comparação, que para mim é pertinente: ninguém jamais diria a uma pessoa com câncer "Nossa, você poderia dar um jeito nessa careca para ficar mais bonita! Você deveria fazer alguma coisa, se cuidar, ter mais força de vontade". Mas a/o obesa/o é sempre culpabilizado, mesmo quando se trata de um problema de saúde. Porque gordx é relaxadx, né? É culpa dele/a ser feio/a, largado/a, não se cuidar.
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| Vale lembrar |
Gord@ é doente. Ou não.
Primeiramente, há pessoas que sofrem de obesidade e que estão, de fato, doentes. Se estão doentes, deveriam ser cuidadas por profissionais respeitosos. Aí está a primeira dificuldade. Quem já se esqueceu da conduta irresponsável e antiética do médico de Salvador que receitou "cadealina", ou cadeados na porta da geladeira, para uma paciente com problemas no fígado, que desejava emagrecer? A quem a/o obesa/o pode recorrer quando é estigmatizada/o pelo próprio profissional de saúde, que repassa ao paciente toda a responsabilidade por sua doença? A pessoa obesa tem todos seus passos controlados por uma patrulha desconhecida: se come demais e se continua sedentária, todos dizem "bem feito", se come de menos e tenta se exercitar, é "ridícula".
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| A discriminação no olhar. Projeto Wait Watchers da fotógrafa Haley Morris-Cafiero |
Segundo ponto: por que é que pessoas doentes deveriam se sentir feias? Na verdade, escrevo este texto pensando em um post que vi outro dia, a respeito de um fotógrafo que retratou mulheres obesas. Como toda forma de expressão artística, a fotografia tem uma finalidade estética, e é aí que a coisa complica. Como é que o cara ousa criar beleza com modelos obesas? Não pode! E a desculpa muito sabida que encontraram para recusar toda beleza fora do padrão é... a saúde! Porque apreciar ou mesmo conceber que um/a obeso/a possa ser belo/a significa incentivá-lo na sua doença, lógico. E fiquem sabendo que isso é imoral. Ah, discriminação disfarçada de politicamente correto! A reação das pessoas é tão imediata que a autora do post em questão foi obrigada a fazer um adendo:
"*UPDATE: Nós
do Hypeness não incentivamos a obesidade pois ela é uma doença e não é
saudável. Os aplausos aqui foram para a atitude inovadora do fotógrafo
de quebrar paradigmas e retratar uma realidade que existe, mesmo que a
mídia e a sociedade deteste admiti-lo."
Espero que aqui no blog não precisemos desse adendo. E que a beleza dessas imagens possa ser apreciada sem hipocrisia.
Mas é sempre preciso lembrar que existem pessoas que são gordas e que não estão doentes. Porque a família é gorda, porque gosta de comer, porque com o passar do tempo o corpo foi acumulando mais "substância", porque é assim e ponto. Tem gente que é mais alta, tem gente mais baixa, forte, fraca, pouco importa! O inaceitável é que a/o gorda/o seja bombardeada/o pela "boa intenção" de conhecidos e desconhecidos que são como felicianos em pele de presidente da CDHC. Reproduzo aqui o trecho de um post da Lola que, ela mesma uma mulher gorda, pode falar da sua própria experiência:
Toda vez que falo sobre aceitação do corpo aqui no blog, vem um batalhão dizer que só é gorda quem quer. Ou seja, já associam gordura com falta de caráter, ou, pelo menos, falta de determinação. O fato de 99% das dietas falharem (a pessoa até perde quilos mas acaba recuperando tudo e mais um pouco depois) não mostra o óbvio – que dietas não funcionam. Mostra que as gordas é que não funcionam porque são umas desleixadas. Elas simplesmente não fazem o esforço. Esforço que, pra muita gente, equivale a viver pra isso. Eu fiz reeducação alimentar uns quatro anos atrás, durante quase um ano, e até gostei. Cheguei a perder oito quilos. Mas eu vivia pra aquilo. Não havia um só momento que eu não pensava em comida, em quilos, em calorias, em ginástica.
E alguém vai ter a coragem de me dizer que isso é libertador? Contra essa história de que se deve acabar com a autoestima da pessoa gorda para não "incentivá-la" a continuar cultivando esse "terrível defeito físico e de caráter", ela diz:
Mas aprenda o quê, may I ask? Que ela é gorda? Juro que ela já tinha se dado conta. Que ela é horrível por ser gorda [quer dizer, que a pessoa é tida como horrível por ser gorda]? Vai por mim: ela sabe disso desde criancinha. Que precisa emagrecer? Ela passou a vida toda tentando. Gente, a verdade é uma só: se ofender gordas fizesse que perdêssemos peso, não haveria uma só gorda no mundo. Todas nós já fomos insultadas. Todas nós já tentamos emagrecer, e a maioria vai tentar até morrer.
"Você não está me dizendo nada que eu não saiba [sobre a minha aparência], mas você não me conhece e não sabe nada sobre mim. Eu sou muito mais do que um número na balança."
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| Entendeu? |
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Hoje, vamos falar de humor e estereótipos. Ah os estereótipos.... Sim, lá vem outro post mal-humorento contra o humor e a liberdade de expressão. ¬¬
A Roberta adora falar de humor e manda muitíssimo bem quando faz, dá uma olhada aqui, aqui e aqui. Dá para selecionar o marcador humor e ver os vários posts sobre isso no blog também.
Vou tratar especificamente do vídeo Mulheres do Porta dos Fundos. Na boa, eu vi dois vídeos deles antes disso e gostei muito (Spoleto e Deus). Mas esse, especificamente, se baseia num estereótipo que me incomoda muito. Vejamos:
Por quê, meu Deus, as titias feministas vamos implicar com esse vídeo engraçadinho (só que não) desse grupo humorístico tão querido da galera (que, segundo comentário forte nas interwebs, pertence ao rei dos coxinhas, Luciano Huck)?
Porque reforça um estereótipo.
Parece pouco para tanta implicância, não é mesmo? Mas não é. Vai vendo. O estereótipo de que as mulheres falam demais e reclamam demais é perigoso, sim, porque valida o velho "mulher boa é mulher calada". Além de dar aval para que não sejamos ouvidas. Por que escutar uma denúncia de assédio moral ou violência psicológica (que é mais difícil de detectar) quando o "natural" da mulher é reclamar? Para que agir com respeito e ser um bom companheiro se "haja o que hajar" a mulher vai reclamar?
O grande problema dos estereótipos é este: legitimar o comportamento de uma sociedade opressora. Dizer que mulher só reclama é um jeito de nos calar. E, caso você não tenha lido o post anônimo anterior ao meu, leia e veja como isso é um problema.
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| Por quê? a gente fica mais linda caladinha? |
Vou retomar um trecho de um post da Rô, que pode ser lido na íntegra aqui, para formular um argumento sobre a falação das mulheres. Este trecho trata de um tipo específico de piada machista:
1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres
Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
E nem é verdade. Fato. A gente fala e reclama muito menos do que devia, companheirada! E essa é a verdade.
A Lola diz que "toda mulher tem um história de horror pra contar", mas a gente nunca conta. Nunca contei por aí que, quando tinha 14, um sujeito tentou me derrubar da bicicleta enquanto eu voltava da casa de um amigo. Nunca contei que, quando estudava em Campinas e trabalhava em São Paulo, desmaiei de cansaço no ônibus e acordei com o cara do lado me apalpando. Nunca admiti que acordo meu companheiro todo dia para me levar ao ponto de ônibus porque os números de violência sexual contra mulheres no DF são ridículos, e eu morro de medo de andar duas quadras sozinhas às 6h da manhã. Nunca admiti que fico calada de medo de perder o emprego diante do sexismo do meu chefe. Sério, eu milito há um tempão, desde a faculdade, e eu nunca disse nada disso em público. E tanta coisa para dizer, e o parágrafo ficando enorme, e, talvez, alguém tenha parado de ler porque, afinal, um parágrafo enorme de outra mulher reclamando...
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| Alô, alô, todas denunciando! |
A gente não diz nada para não incomodar os opressores, porque a gente não quer ser a moça do vídeo que só reclama, porque a gente foi convencida pela sociedade patriarcal de que se essas coisas acontecem com a gente, de certa forma, a culpa é nossa, e que a gente não aprecia toda a "proteção" que o patriarcado nos dá. Bem-vindas ao mundo em que todos os mimimis são permitidos, menos os seus!
Só para constar, quando o Porta dos Fundos ironizou o comportamento masculino, que não distingue mulher de boneca inflável de companheiro homo, brincou com o estereótipo do homem incapaz de ouvir e perceber, eu me ofendi pelos homens. Pelos da minha vida e pelos que não conheço. Hipérbole e piadas à parte, não achei que representa, nem que faz rir.
5 de abril de 2013
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Como diz a Lola Aronovich, toda mulher tem uma história de horror para contar. Ainda que não seja possível medir a dor, algumas histórias são particularmente contundentes. Recebemos o texto abaixo de maneira anônima, estamos tocadas e muito, muito revoltadas pelo absurdo da situação. Ficamos gratas em receber este texto, que com certeza confortará, na sororidade, outras sobreviventes e nos dá mais força para continuarmos no ativismo, mesmo contra a maré fortíssima da cultura do estupro.
Eu acho que já está mais do que na hora de “colocar tudo pra fora”. Por tudo o que tenho lido, por tudo o que tenho presenciado... por essa bizarra cultura do estupro em que vivemos.
Eu acho que já está mais do que na hora de “colocar tudo pra fora”. Por tudo o que tenho lido, por tudo o que tenho presenciado... por essa bizarra cultura do estupro em que vivemos.
Aos 17 anos a minha vida se transformou. Mas não porque na adolescência é normal que estas transformações aconteçam. Se transformou pois é o que acontece com o espírito de uma pessoa após um estupro. Você passa a não servir mais dentro de você mesma. E esse “aperto” muda você, muda a sua forma, muda o seu reflexo no espelho.
Em 1998 eu passava grande parte do meu dia na escola, estudava durante o dia e a noite, me preparando para o vestibular no fim do ano. Não sabia muito bem o que eu queria da minha vida, mas quem sabe aos 17 anos? Eram comuns os “xurras” aos finais de semana com a turma do cursinho. Sempre tinha alguém disposto a emprestar a chácara. Eram momentos pra relaxar e fugir um pouco dos livros. E claro, beber! É essa a maneira que os adolescentes encontram pra “fugir” dos problemas que pensam ter.
Fui convidada por uma amiga e me lembro até hoje que pensei em não ir... decidi de última hora.
Durante a festa, em uma chácara afastada da cidade, encontrei uma antiga amiga, com quem eu tinha brigado por ela achar que eu havia denunciado seu consumo de drogas à polícia e ao diretor da escola (o que de fato nunca aconteceu). Estranhei o fato de ela me tratar com tanta simpatia, como se nada tivesse acontecido! Me ofereceu uma cerveja (que eu aceitei) e nos juntamos a uma rodinha de amigos. De tempos em tempos aparecia um com mais uma rodada de cerveja e assim o tempo foi passando. Depois de umas cinco latas ela me disse que já estava enjoada de beber cerveja e que iria preparar algo diferente pra beber. Apareceu com um drink cor de rosa Quick e me entregou um copo.
Depois disso eu me lembro de pouca coisa...
Alguns flashes... pessoas, risadas, uma tatuagem de palhaço... eu estava inconsciente quase o tempo todo e nestes breves momentos de lucidez, eu só enxergava vultos.
Senti uma pontada de dor nas costas e desmaiei. Acordei não sei quanto tempo depois, semi nua, no chão, toda suja de terra e com pedaços de folhas nos cabelos.
Eu fui drogada e estuprada na frente de mais de duzentas pessoas e ninguém fez absolutamente NADA pra me ajudar. Eu conhecia aquelas pessoas, eram meus colegas de classe, alguns estudavam comigo desde o primeiro colegial. E ainda tiveram a frieza de trancar a minha amiga dentro da casa pra que ela não interrompesse o “show”.
A pontada que senti nas costas foi quando ele apagou um cigarro em mim...
Quando finalmente consegui sair daquele lugar eu não sabia para onde ir. Na verdade eu nem me lembro como voltei pra casa...
Entrei correndo com a minha amiga e no quarto conversamos se deveríamos contar para os meus pais ou não. Parece óbvio, mas não é. Só consegui sair do quarto depois de horas. Chamei os meus pais e contei tudo.
Eu vi quando uma parte do meu pai morreu, ali na minha frente...
Não denunciamos.
Não sei como essa decisão foi tomada, mas ela foi. Não denunciamos. Na verdade, não fizemos muita coisa...
O primeiro sentimento que te invade, por mais incrível que pareça, é a vergonha. Você não quer que mais gente saiba. Você só quer se esconder.
Eu voltei pra escola depois de alguns dias...
E o que já era um pesadelo, ficou pior ainda.
O estupro é o único crime em que a vítima é também ré.
Sofri com um bullying em massa!
Cada vez que eu entrava na sala, cada vez que eu me movia, uma catarse se iniciava e todos enlouqueciam gritando “Churrasco”, “Puta”, “Vagabunda”, e por aí vai.
Uma vez, quando eu entrei na sala havia uma pichação na parede. O desenho de uma mulher fazendo sexo oral em um cara e acima da figura a palavra “PUTA”.
Fui à diretoria (que SIM, sabia de tudo o que havia acontecido e também não fez NADA). Me deram um pano e um frasco de Veja e me disseram pra limpar, porque afinal de contas, a culpa de tudo o que estava acontecendo era minha. Todos os dias eu chegava e já passava na diretoria pra pegar o pano e o Veja... e todos os dias eu limpava a parede da sala...
Agüentei por algumas semanas...
E tentei o suicídio.
Minha mãe me encontrou a tempo e me levou para o hospital.
Foi lá que eu tomei a decisão de não permitir que aquilo me matasse. Não outra vez.
Continuei na escola. Foi o que me fez mais forte. Eu era uma vítima e ninguém ia me tirar o direito de andar de cabeça erguida. Cheguei a ser proibida de ir a uma excursão pelo que “eu poderia causar”... olha o nível do absurdo em que vivemos...
Passei no vestibular, saí da cidade e depois de quatro anos quando eu voltei ninguém mais se lembrava... quer dizer, eu nunca vou me esquecer, nem a minha família... mas aprendemos a deixar os fantasmas trancados no castelo... e depois de 13 anos eu ainda cuido para que a porta do castelo não se abra...
Não tenho grandes reflexões a fazer. Só uma vítima seria capaz de entender outra. Entender os sentimentos que te invadem, que te envergonham e que te calam...
Hoje eu sei que a gente deve ser mais forte que o preconceito, mas não é fácil, ainda mais em uma sociedade que culpa a exatamente a pessoa que não tem culpa!
Chegou a hora de falar.
4 de abril de 2013
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por Tággidi Ribeiro
O vídeo abaixo traz as falas da neurocientista Suzana Herculano-Houzel sobre as diferenças entre os cérebros de homens e mulheres cis e heterossexuais, principalmente. Esse vídeo é muito interessante por diversas questões, mas sobretudo, a meu ver, por trazer uma mini-história do discurso desenvolvido sobre esse tema. A neurocientista nem imagina que as pesquisas às quais se refere dão suporte científico ao que o feminismo vem afirmando desde quando não existia feminismo e erra feio ao supor que feminismo é o contrário de machismo - tudo bem, gostamos dela mesmo assim. Atenção: assista ao vídeo antes de continuar a ler o post.
E aí, gostaram? Olha, eu perguntaria à Suzana se a capacidade masculina de responder a estímulos sexuais implica maior desejo e/ou intensidade sexual. Perguntaria se essa capacidade determinaria a cultura ou seria culturalmente determinada. Perguntaria como foram realizadas as pesquisas de que ela fala - quantos homens e quantas mulheres, de que idade, classe social, nacionalidade; que tarefas essas pessoas executaram ou exatamente a que estímulos foram expostas. Quer dizer, eu pediria a referência d@s teses/estudos, né? Ou uma cópia - rs. Também perguntaria se seria possível afirmar que os dados obtidos valem universalmente e atemporalmente considerando, claro, a idade de nossa espécie. Louca ou burra ao questionar isso? (Questão interna ainda sem resposta). Por fim perguntaria, desde que se considera a condição homossexual uma condição natural, definida na gestação e de conhecida localização no cérebro, se seria possível extirpar a homossexualidade - essa pergunta é detestável, é dolorida e é melhor pensarmos sobre ela e sobre as implicações das respostas antes que os grupos de ódio o façam.
Termino reafirmando o compromisso do feminismo com a igualdade e fazendo coro ao que a Suzana (e outras tantas mulheres que não se consideram feministas) expõe: são as expectativas depositadas sobre nós que terminam por nos definir a todos, homens e mulheres cis e trans. Podemos todos ser racionais ou irracionais, sensíveis, irascíveis, criativos e, ainda, gostar de rosa e/ou azul. Podemos ser matemáticos, empresários, artistas, políticos ou cientistas. E, mesmo que não pudéssemos, mesmo que houvesse diferenças profundas entre gêneros, raças e culturas, ainda assim caberia apenas um comportamento ético: o do respeito, da compreensão, do esforço no sentido da convivência pacífica justa e da promoção da igualdade.
2 de abril de 2013
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Tággidi
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É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs.
Referência bibliográfica:
BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.
Por Thaís Bueno
Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.
Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.
Segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, em 2011, a TV paga atingiu, no Brasil, um crescimento de mais de 21,7%, chegando a quase 12 milhões de domicílios. Seria interessante pensar nos fatores que ocasionaram esse crescimento, mas, agora, penso em outra questão: quais seriam as consequências desse crescimento processo de recepção de conteúdos pelos telespectadores brasileiros, considerando o espaço e os papéis das mulheres nos programas exibidos nos canais fechados? Como muita gente sabe, as séries estadunidenses, ou sitcoms, predominam na programação de boa parte desses canais fechados no Brasil, e estão cada vez mais populares entre os brasileiros.
Seria interessante, então pensar: como é representada a imagem da mulher nesses seriados? Será que a mulher brasileira (ou as mulheres brasileiras) pode se identificar com os modelos femininos propostos por essas séries?
Felizmente, há muitos estudos interessantes feitos sobre o alcance desses programas de TV no Brasil e os padrões que eles disseminam. Segundo um desses estudos (BEZERRA, 2008), mesmo nos casos em que tais seriados se dedicam a contar histórias de mulheres (nessa categoria, o famoso Sex and the City é o que primeiro me vem à mente) e suas conquistas no momento atual de avanço das lutas feministas, essas conquistas se restringem a questões da esfera privada, não representando uma grande mudança no âmbito público:
...podemos ver a representação, feita através do discurso da personagem-narradora, de uma mulher que, sim, está num momento histórico decorrente de duras conquistas, um momento em que pode expressar o que pensa sobre variados tópicos, como: sexo, trabalho, amizades, espiritualidade e casamento. No entanto, podemos concluir que essa sua atuação ainda se restringe à esfera privada, em que suas preocupações, anseios, ações e relações não estão representadas como tendo impacto no âmbito social/público, esfera que historicamente vem sendo reservada aos homens.
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| Seriado Sex and the City: questões femininas podem ser interessantes, mas se restringem à esfera privada |
É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs.
Além desses números, o sindicato apresentou, no estudo, uma lista de séries de TV que não incluíram roteiristas mulheres ou negrxs em suas equipes de produção:
:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas mulheres na produção (temporada 2011-2012):
America’s Funniest Home Videos
Big Time Rush
Californication
Comedy Bang! Bang!
Dancing With The Stars
Eagleheart
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes)
Futurama
Geniuses
Gurland On Gurland
The Insider
Kickin’ It
Locke & Key
Magic City
Psych
Teen Wolf
Veep
Workaholics I
Workaholics II
:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas negrxs na produção (temporada 2011-2012):
America’s Funniest Home Videos
Anger Management
Are You Smarter Than A Fifth Grader
Baby Daddy
Best Friends Forever
Big Time Rush
Blue Mountain
State
Boss
Breaking Bad
Californication
The Client List
Comedy Bang! Bang!
Dancing With The Stars
Eastbound and Down
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes)
The Firm
Free Agents
Futurama
Game of Thrones
Geniuses
A Gifted Man
Glee
Good Luck, Charlie
Gossip Girl
Gurland On Gurland
Happily Divorced
Hart of Dixie
Homeland
How To Be A Gentleman
The Insider
Jane By Design
Kickin’ It
Lab Rats
Last Man Standing
The League
Longmire
Make It Or Break It
Man Up
Mike and Molly
Napoleon Dynamite
Once Upon A Time
One Tree Hill
The Protector
Ray Donovan
Revenge
State of Georgia
Stevie TV
Two And A Half Men
Veep
Web Therapy
Weeds
Workaholics I
Workaholics II
É frustrante notar que as listas são enormes. E, mais frustrante ainda, perceber que, entre esses programas, há alguns direcionados ao público infantil ou infanto-juvenil, como Futurama e Big Time Rush.
Como se pode imaginar, uma das consequências de termos apenas roteiristas homens e brancos escrevendo os programas televisivos aos quais assistimos é a homogeneização das histórias que esses programas contam e que, obviamente, não representam a mulher brasileira. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: um roteirista ou escritor branco pode, sim, apresentar um retrato interessante e complexo da atual situação feminina ou mesmo da cultura negra. Como escreveu Alyssa Rosenberg, esse seria o caso dos seriados Enlightened (que apresenta questões interessantes sobre o universo feminino) e Breaking Bad (que inclui em sua trama histórias interessantes de personagens negrxs). Mas isso não justifica que tais histórias sobre mulheres ou negrxs sejam sempre contadas por homens brancos. Obviamente, como bem mostrou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra no TED (ver vídeo abaixo), ouvir nossa história ser contada por outros pode ser interessante e enriquecedor, mas é também importantíssimo termos o espaço para podermos contá-las por nós mesmos.
Referência bibliográfica:
BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.


















