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Nas fronteiras do feminismo, só o que existe são nuances e articulações

Por Thaís Bueno

Muitxs sabem e muitxs falam das dificuldades pelas quais passa uma mulher que quer ser várias ao mesmo tempo, sendo apenas uma. Ela quer ser mulher, quer ser estudante, quer ser funcionária, quer ser mãe, quer ser esposa, quer ser uma pessoa que rala para pagar as suas contas, quer ser amiga, quer ser brasileira, quer ser latino-americana, quer ser cética.

Acredite em mim: gerenciar tudo isso custa tempo e articulação. Porque, por exemplo, para ser uma boa amiga, é preciso ter tempo para dedicar às amigas. Esse tempo precisa ser habilidosamente medido para não prejudicar o tempo dedicado ao marido, ou aos estudos, ou ao trabalho, ou à família, ou à leitura pessoal. Eu conheço algumas mulheres, as quais posso contar nos dedos das mãos, que sabem fazer isso muito bem. E as admiro, não por conseguirem fazer tanta coisa ou por carregarem a imagem da super-mulher, mas por conseguirem, na mistura de todas essas nuances que as compõem, serem pessoas dignas, admiráveis e generosas

Eu nunca consegui compartimentar ou separar as nuances que me compõem. Obviamente, tenho uma boa percepção delas, sei o que é que afeta minha postura como mãe e o que pode influenciar minha relação conjugal; sei dizer o que está bom ou ruim em minha carreira acadêmica e em meus trabalhos. Mas não é possível separar uma nuance da outra, pelo simples fato de que não sou um boneco lego, com várias peças de montar e desmontar. Não. Em mim, a mulher não se esquece, pelo fato de ter nascido mulher, de sua condição social, da cor de sua pele, de suas relações culturais, afetivas e políticas.

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Há três dias meu marido me chamou para ver esta foto, com certo espanto: 



Apresento-lhes a Barbie Mexico. Produto original (é de se questionar o peso da palavra “original” aqui) da Mattel, gigante do setor de brinquedos, esta Barbie Mexico faz parte da coleção Barbie Dolls of the World (Bonecas Barbie do Mundo). Claro, nós sabemos que, assim como a Coca-Cola e o McDonalds para quem não simpatiza com o capitalismo, a Barbie, para qualquer pessoa que seja a favor de igualdade de gênero, representa tudo o que está errado no mundo hoje em dia. Sim, a Barbie é símbolo de um modelo falido, em que as garotas brincam de boneca, vestem rosa, têm cabelos perfeitos, medidas nada realistas e um Bob de plástico sempre ao seu lado. Longe de ser uma boneca com a qual uma criança pode simular uma realidade diferente e ter sua criatividade estimulada, a Barbie é uma boneca-modelo, uma mera reprodução dos valores de nossa sociedade capitalista

Mas todas essas são coisas que muitxs de nós sabemos. Nesta imagem da Barbie Mexico, há muitos outros problemas que, mesmo para algumas mentes esclarecidas, passam despercebidos. Neste momento, eu gostaria de perguntar a você, que lê este post: quais outros problemas você vê nesta foto, além da visão em rosa que impera no conjunto e fere nossos olhos? Claro, os traços faciais produzidos na boneca, idênticos aos da Barbie caucasiana, são óbvios e dispensam comentário. Violência cultural, óbvia e descarada.

Tudo bem, falemos do cachorrinho no colo de la Barbie. Trata-se de um chihuahua, que não por acaso é o nome de um estado mexicano. E, embora a suposta raiz mexicana desse bichinho não seja comprovada, é óbvio que a Barbie Mexico precisa ter um desses cachorrinhos de colo, afinal, é o que todos os mexicanos fazem. Todos eles têm um chihuahua, assim como todos os brasileiros amam samba, carnaval e futebol. Não sei como não colocaram um sombrero na cabeça da boneca e uma garrafa de tequila em uma das mãos – ah, mas aí nossa boneca não seria sofisticada; afinal, ainda estamos falando da Barbie. 

No entanto, há algo a mais nessa foto, algo muito mais violento que o cachorro, o vestido ou os traços da boneca. Há na imagem do kit um documento de brinquedo. Ou seja, esta Barbie, modelo da mulher ocidental capitalista, é uma documentada. Não é uma undocumented, uma mera wetback, uma cucaracha, uma alien que atravessa deserto, rio e patrulha de fronteira com artilharia pesada para correr atrás do “sonho americano”, do “american way of life” que a nossa Barbie caucasiana ajuda a construir. Não, a Barbie Mexico é uma moça direita, que trabalha e ganha seu dinheiro de forma justa, e que com ele compra a liberdade de se mover para onde quiser, de viajar quando quiser pelos EUA pelo mundo. Ela tem o direito de ir e vir com tranquilidade. 

É de se perguntar qual é o efeito de uma boneca dessas sobre a vida de uma criança, de uma garota mexicana cuja família não tem boas condições financeiras (ou seja, a grande maioria no México). Ou mesmo sobre a vida de uma mulher que tenha se arriscado a cruzar a famosa fronteira entre o México e os EUA, independentemente daquilo que a tenha motivado. Ou, ainda, sobre a vida de umas das milhares de mulheres que já tentaram cruzar a fronteira e foram assassinadas. É de se perguntar se essas mulheres ainda querem ser Barbies, se ainda querem um Bob ao seu lado, se ainda querem ter uma casa dos sonhos (mais uma explosão rosa me veio à mente agora). Eu gostaria de saber se, para essas mulheres que já tiveram que cruzar a fronteira, qualquer fronteira, seja ela política, cultural, de gênero, raça, sexo ou credo (ou a falta dele), é possível pertencer a uma condição social e cultural injusta e ainda se preocupar em ter um chihuahua e um vestido rosa; ou se é possível separar sua condição de mulher de sua condição social. Se é possível separar sua etnia de suas crenças e ideologias, tal como acontece com o lego. 



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Mais um indício de que todas essas nuances que nos compõem acabam se misturando e modificando umas às outras: enquanto estou escrevendo para este blog feminista, ou seja, afirmando minha condição feminina, acabo me lembrando de minha própria vida intelectual e de minhas experiências na academia. Desta forma,  trago dois textos da chicana (denominação atribuída estadunidenses de ascendência mexicana) Glória Anzaldúa, escritora feminista sobre a qual escrevi em meu primeiro post aqui no Subvertidas, e que eu escolhi para fechar minha despedida a este blog, de que eu tanto gosto. O primeiro texto é um poema, emocionante, sobre a experiência de viver na fronteira e internalizá-la, em vários aspectos. O segundo é um trecho de uma entrevista, em que Anzaldúa comenta sobre uma experiência de incursão no movimento feminista dos Estados Unidos

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El otro Mexico
(Gloria Anzaldúa)

Vento balançando minhas mangas
pés afundando na areia
eu fico no limite onde a terra toca o mar
onde os dois se sobrepõem
um encontro gentil
em outros tempos e espaços, um choque violento.

Através da fronteira do México
   silhueta dura de casas com vísceras ao oceano
       penhascos dissolvem-se ao mar
          ondas prateadas e marmoreadas com espuma
               abrindo um buraco sob a cerca que forma a fronteira.
             
              Miro el mar atacar
           la cerca en
Border Field Park
        con sus buchones de agua
     uma ressureição pascoalina
do sangue escuro que corre em minhas veias.

Oigo el llorido del mar, el respiro del aire,
   meu coração palpita com as ondas do mar.
      Na neblina cinzenta do sol
        o grito estridente e esfomeado das gaivotas,
          o aroma cítrico do mar infiltrando-se em mim.
     
     Eu atravesso pela      fenda da cerca
                     até o outro lado.
     Sob meus dedos, sinto o arame impregnado de areia
             com uma ferrugem de 139 anos
              de hálito salgado do mar.

Sob o céu de ferro
crianças mexicanas chutam suas soccer balls para o outro lado,
correm atrás dela, entrando nos EUA.
           
               Eu aperto com minhas mãos a cortina de ferro –
         cerca que é elo da cadeia, coroada com arame farpado e enrolado –
    ondulando com o mar, onde Tijuana toca San Diego
            estendendo-se sobre montanhas
                                    e planícies
                                                 e desertos,
esta “Tortilla Curtain” transforma-se no Río Grande
              escorrendo pelas terras planas
                    do Magic Valley of South Texas
              abrindo e esvaziando sua boca no Golfo.

Ferida aberta de 1.950 milhas
      dividindo um pueblo, uma cultura,
      percorrendo toda a extensão do meu corpo,
            fincando a cerca em minha carne
                   divide-me    divide-me
                      me raja   me raja
                      
                        Esta é minha casa.
                    essa sutil borda feita de
                          arame farpado.
          
             Mas a pele da terra não tem emendas.
             O mar não pode ser vedado,
             el mar não para nas fronteiras.
     Para mostrar ao branco o que ela achou de sua
                           arrogância,
                   Yemayá soprou e derrubou aquela cerca de arame.
                   
                     Esta terra foi uma vez mexicana,
                         foi sempre indígena
                            e é.
                       E de novo será.

Yo soy um puente tendido
           del mundo gabacho al del mojado,
lo pasado me estira pa´ ‘trás
           y lo presente pa’ ‘delante,
Que La Virgen de Guadalupe me cuide
Ay ay ay, soy mexicana de este lado.


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Trecho de entrevista de Gloria Anzaldúa (em: Borderlands/La Frontera – The New Mestiza):

Quando me mudei para São Francisco, (...) eu entrei para o Feminist Writers Guild. (...) Então, descobri que essa pequena comunidade de escritoras feministas de São Francisco, Oakland e Berkeley excluía abertamente as mulheres negras e chicanas. A maioria das mulheres brancas que eu conhecia faziam parte da organização. (...) Nós nos encontrávamos a cada duas semanas, e aí todas falavam de seus problemas enquanto brancas e suas experiências enquanto brancas. Quando era minha vez de falar, era quase como se elas pusessem palavras em minha boca. Elas me interrompiam enquanto eu ainda estava falando ou, após eu terminar, elas interpretavam o que eu tinha acabado de dizer, de acordo com seus pensamentos e suas ideias. Elas achavam que todas as mulheres sofriam o mesmo tipo de opressão, e tentavam me forçar a aceitar a imagem que tinham de mim e de minhas experiências. Elas não queriam se abrir à minha própria forma de me apresentar e aceitar que talvez eu fosse diferente daquilo que elas achavam que eu fosse, até aquele momento. Portanto, a mensagem do livro This Bridge Called My Back é que o gênero não é a única forma de opressão. Há também classe, raça, orientação religiosa; há coisas relacionadas à geração e a idade, as questões físicas etc. Quer dizer, de certa forma, essa mulheres eram geniais. Elas eram brancas e muitas delas eram muito generosas. Mas elas também eram cegas, no sentido de não conseguirem enxergar as múltiplas opressões que sofremos. Elas não entendiam tudo pelo qual nós estávamos passando. Elas queriam falar por nós porque elas tinham uma concepção de feminismo, e queriam aplicá-la a todas as culturas. This Bridge Called My Back foi, portanto, minha resposta contra aquele feminismo do tipo “Somos todas mulheres então todas vocês estão incluídas e nós somos todas iguais”. Elas achavam que nós não pertencíamos a nenhuma cultura pelo fato de sermos feministas; que não tínhamos qualquer outra cultura. Mas elas nunca deixaram sua branquidade em casa. A branquidade daquelas mulheres estava em tudo o que elas diziam. Apesar disso, elas queriam que eu desistisse de minha chicanidade e me tornasse uma delas; elas queriam que eu deixasse minha raça na porta de entrada
 
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Dedico este post às quatro mulheres, subvertidas e subversivas, que tão generosamente me permitiram trazer minhas palavras para este blog: Bárbara, Mazu, Roberta e Tággidi. Muito obrigada, meninas.

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Margaret Thatcher não é um ícone feminista, mas...

por Roberta Gregoli

Margaret Thatcher morreu esta semana, mas muito do que ela começou sobrevive. Ela introduziu medidas que até hoje norteiam a política inglesa e mundial: livre mercado, privatizações, desmantelamento dos sindicatos e do Estado de bem estar social, promoção da cultura bélica, suspeita com relação à Europa continental (uma das primeiras eurosceptics)... Tony Blair e David Cameron são seus descendentes diretos. Não é difícil entender por que a esquerda a detesta. E com razão. Muito do que foi semeado durante o seu governo resulta hoje numa das piores crises econômicas da modernidade.

Como feminista e de esquerda, me vejo num dilema que só consigo resolver separando as políticas conservadoras de Thatcher de sua conquista enquanto mulher no poder. Sendo de esquerda, não pretendo redimi-la; em contrapartida, como feminista, estou ciente do machismo generalizado, presente, inclusive, na militância e na elite intelectual de esquerda. Sem desconsiderar ou minimizar os malefícios do governo Thatcher, então, me proponho a analisar as reações a ela enquanto figura pública na política mundial.

Se eu não fosse feminista, seria fácil odiar Margaret Thatcher. Se eu não considerasse constantemente a dimensão de gênero, simplesmente me juntaria à multidão que a apedreja sem cessar, mesmo depois de morta. Como feminista, no entanto, acredito que muito da bile que ela atiça tenha base nos padrões duplos que nós, feministas, tão bem conhecemos.

Como feminista, esta imagem não pode ser nada além de notável -
insuficiente, mas notável
Thatcher foi ambiciosa - característica até hoje mal-vista numa mulher - e ousou chegar ao poder. Mais que isso, ousou se agarrar a ele por mais de uma década. O mundo não perdoou tamanha ousadia: acho difícil pensar em outra figura política que tenha gerado tamanha expressão pública de ódio: Reagan implementou medidas similares nos EUA e morreu carismático aos olhos do grande público; FHC continua admirado apesar de toda a Privataria Tucana e nem mesmo o irredimível Fernando Collor de Mello viveu o ostracismo político e pessoal experimentado por Thatcher (que, sublinhe-se, nunca foi acusada de corrupção), após ter sido traída por seu próprio partido e chutada para fora do número 10 da Downing Street. Nem George Bush mereceu um blog para contar os dias para a sua morte. Talvez Sarah Palin cause semelhante ira, mas, bom, ela também é mulher.

Thatcher foi a primeira mulher chefe de Estado na Europa e a primeira e única Primeira Ministra da Inglaterra. E isso é, sim, extraordinário. Na Inglaterra, uma sociedade tão classisista como a brasileira e a pior em mobilidade social no mundo desenvolvido até hoje, Margaret Roberts, filha de um quitandeiro, saiu da working class das East Midlands (que, como todo o norte da Inglaterra, é alvo de preconceito regional) e, de bolsa em bolsa, chegou a Oxford.

Estando eu mesma em Oxford, sei bem do sexismo - por vezes velado, outras nem tanto - destilado no bastião da tradição inglesa. Isso em 2013, imagino como teria sido na década de 1940, quando não havia educação mista e mulheres eram segregadas a alguns poucos colégios. E não para por aí, já que o Parlamento inglês é notadamente uma extensão de Oxbridge: 75% dxs Primeirxs Ministrxs da Inglaterra estudaram em Oxford ou Cambridge e, ainda nos dias de hoje, o ministério de Cameron têm mais ex-alunos de um único colégio de Oxford do que mulheres.

A ingenuidade de se tomar qualquer mulher como ícone feminista

A morte de Thatcher suscitou também reações positivas, já que ela era uma dessas figuras polarizadoras, que agitam amor ou ódio. O Economist, como bom jornal neoliberal, traz uma matéria intitulada 'A Dama que Mudou o Mundo'. O Femen Brazil a homenageou com a imagem acima, cuja incongruência a Lola Aronovich já analisou em detalhes. Realmente não é o caso de celebrar Thatcher como ícone feminista, e a chamada por luta na imagem do Femen é absolutamente enganadora: a Dama de Ferro não lutou pelas mulheres. Longe disso, ela era abertamente anti-feminista e muitas de suas políticas foram detrimentais às mulheres e aos demais grupos minoritários. Thatcher tampouco é modelo de conduta para mulheres no poder: dizem que sofria da síndrome da abelha rainha, sentindo-se à vontade cercada por homens e fazendo pouco ou nenhum esforço para promover outras mulheres a posições de poder.

Enquanto é verdade que Thatcher usava o fato de ser mulher para promoção pessoal, sem compromisso com o feminismo, para mim é difícil não soltar um sorriso ao ver uma mulher num palanque, proferindo as seguintes palavras para uma plateia homogeneamente composta por velhos brancos da elite britânica:

Eu me ponho diante de vocês esta noite, no meu vestido de chiffon vermelho de gala, meu rosto levemente maquiado, meus lindos cabelos gentilmente enrolados: a Dama de Ferro do mundo ocidental!

Como a própria Thatcher, sua fala é ambivalente: ao mesmo tempo em que ironiza sua feminilidade, ela traz o seu gênero para o holofote. Esse tipo de ostentação não deixa de ser uma afronta e, muito antes de Zagallo, é uma maneira sutil de dizer que o mundo teria que engolir uma mulher dirigindo um dos países mais poderosos do Ocidente.

Celebração sexista: "a bruxa está morta"

Não há dúvida de que o estigma de gênero a acompanhou sempre. No documentário da BBC pela ocasião de sua morte, além de elementos sexistas como constantes referências a sua aparência e expressões como "uma mente masculina num corpo feminino" e "histriônica", xs entrevistadxs dizem abertamente que se acreditava que uma mulher não teria capacidade para governar e, na sequência, narram o ressentimento em se ter uma líder mulher.

Isso sem contar o recente filme A Dama de Ferro, que optou por enfatizar sua doença e sua vida familiar em detrimento de sua carreira política. E aqui discordo da Lola Aronovich quando ela diz que essa abordagem é positiva pois a humaniza. Para mim, esse viés não é arbitrário e se insere na longa tradição de patologização das mulheres, diminuindo uma líder histórica forte à figura patética da mulher vulnerável e desequilibrada.

O ângulo alto literalmente rebaixa Thatcher (Meryl Streep)
enquanto o enquadramento reforça seu isolamento político e mental

Produto de seu tempo e de suas origens conservadoras, Thatcher se apropriou do discurso machista e o utilizou a seu favor. É sob esta ótica que é possível entender a fala: "As feministas me odeiam, não é? Eu não as culpo, porque eu odeio o feminismo. É um veneno" (minha tradução). Para evitarmos uma retórica redutora e maniqueísta, nós, feministas, temos que dar crédito a suas conquistas num mundo tão machista que as próprias mulheres são co-optadas.

Mais celebração sexista: "a vadia está morta"

Ambiciosa, honesta, focada, trabalhadora árdua, Thatcher não é um ícone feminista, mas foi uma mulher notável. Tendo dado uma espiadela nesta incubadora hostil da política inglesa que é Oxford, confesso que admiro Thatcher por ter chegado lá. É preciso respeitá-la por esse feito, enquanto mulher e contra todas as probabilidades.

O que ela fez com o poder que tão arduamente conquistou, no entanto, é uma pena. É triste que o mundo que ela ajudou a formatar seja um mundo pior, tanto para as mulheres quanto para as outras minorias. Por outro lado, não deixa de ser verdade que este mundo foi, e é, particularmente duro com ela.

É verdade que, naquela altura, qualquer outrx Primeirx Ministrx teria feito coisas similares, e que todos os que a seguiram continuaram na mesma linha. Também é verdade que um homem teria se safado da ira da mídia com muito mais facilidade. Mas isso não faz de Thatcher nem um pouco menos vilã. Se queremos ser justxs e quebrar com a vilanização por gênero, vamos nos preparar para chutar o pau da barraca quando Blair bater as botas.
- Coletivo Feminista de Liverpool (minha tradução, original aqui)

Thatcher não é ícone feminista nem modelo de conduta para mulheres, mas odiá-la singularmente por todas as mazelas do capitalismo, sem atenção aos mecanismos misóginos em operação para suscitar tamanho ódio é igualmente reducionista. Com convicções praticamente imutáveis, Thatcher operava no preto no branco. Nós não devemos cair no mesmo erro.


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Filosofia e mulheres - Franco Volpi e Schopenhauer

por Tággidi Ribeiro


Este é mais um post que não começa nem ter termina aqui - e qual o faz? Há alguns meses escrevi um, para as subvertidas, pelo menos, memorável texto sobre as mulheres na visão de alguns filósofos iluministas. Hoje transcrevo e comento trechos da Introdução irritantemente machista do filósofo italiano Franco Volpi (1952-2009) para o abertamente misógino livro de Schopenhauer, A Arte de Lidar com as Mulheres.

1. "Se o mundo nasceu de um capricho de Deus, então a mulher é o ser em que o Supremo Artífice quis manifestar da melhor maneira o lado imprevisível de sua insondável natureza. Esse bon mot, não tão distante das convicções mais radicadas no espírito masculino, deveria persuadir qualquer pessoa, homens e mulheres, da utilidade deste pequeno tratado."

Acho muito interessante a escolha de palavras aqui, porque na possibilidade de ser Deus algo diferente do perfeito, sua imperfeição é imediatamente associada ao feminino, dentro de um discurso que já conhecemos e que moldou não somente nossa ideia de como sejam as mulheres, mas também moldou de fato o comportamento de muitas mulheres. A fala da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em vídeo publicado no post da semana passada, sublinha a palavra expectativa: se há expectativa de que meninas tenham desempenho medíocre em matemática, provavelmente o terão; assim como, se há expectativa de que meninas sejam caprichosas, imprevisíveis e insondáveis, é o que provavelmente serão, porque estarão autorizadas a sê-lo - quem porventura não se encaixe nesse perfil será percebida e descrita como menos mulher, menos feminina e por isso defeituosa, um pequeno monstro (para reusar uma expressão pop). 

2. "O que podem nos ensinar os filósofos – depositários de sabedoria por definição, mas falidos no amor – sobre como tratar as mulheres? O que aconselham para deter os vagos comportamentos e frear esse nosso obscuro objeto do desejo? Que estratégia sugerem para desfazer os caprichos do sexo frágil?"

Deter, frear e desfazer. Como um homem, depois do feminismo, sobretudo, tem a capacidade de querer se relacionar com  mulheres como se elas fossem seres irracionais, que precisam ser domesticadas para caber dentro de alguma ordem racional superior masculina? E como não deplorar a arrogância desse 'depositário de sabedoria'?

Ou coloco a culpa na mulher.
3. Desde os tempos antigos, as relações entre os filósofos e as mulheres foram marcadas por uma irreparável mésalliance. Revisitando a história do pensamento filosófico nessa perspectiva, tem-se num primeiro momento, a impressão de que a filosofia sempre foi e sempre será uma questão tipicamente masculina.

Tem-se a impressão de que filosofia é algo tipicamente masculino, matemática é algo tipicamente masculino, pensar é algo tipicamente masculino. Só as feministas têm a impressão de que mulheres, desde os tempos antigos, tiveram seu destino selado cedo demais? Claro que não. No volume 1 da História da Vida Privada, por exemplo, Paul Veyne nos conta que as meninas romanas deixavam de estudar por volta dos 12 anos. O motivo? Casar e ter filhos. Hoje em dia, essa tradição perversa se encerra nas classes baixas e, em geral, culpamos as meninas por sua escolha. Quanto mais estudam, mais provam, as mulheres, que não há campos de conhecimento definidos por gênero. 


Por hoje é só. Semana que vem tem mais. Gostaria de que fosse claro para todxs que a leitura de textos tais é fundamental tanto para compreender a construção dos gêneros quanto para a desconstrução de seus papéis. 

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Você é gordx e a culpa é sua

por Barbara Falleiros

Quantidade de açúcar nas bebidas industrializadas
Nas cidades, as crianças de hoje não brincam na rua (perigosa demais, inadaptada) e passam a maior parte de seu tempo livre na frente do computador ou da televisão. Para os adultos, sair caminhando a pé ou de bicicleta são práticas que lutam para serem reabilitadas e assim, entre comodidade, segurança e falta de alternativas, não são poucos os que entram no carro até para ir à padaria. Tudo nos empurra para uma vida sedentária. A rotina pesada de trabalho e a falta de tempo encorajam o consumo de alimentos processados. Comida rápida, engolida por robôs eficientes. Se há um lugar em que a depressão me invade sem qualquer possibilidade de resistência são as praças de alimentação dos shoppings. Da luz pálida ao sorriso dos atendentes, tudo é irreal no templo do consumismo. Refrigerante no lugar de água, refrigerante na mamadeira, porções de porcariada cada vez maiores. "Amo muito tudo isso" - martelam na sua cabeça. Como de costume, os mais pobres são os primeiros a serem atingidos. Parece que no Brasil tomate agora é caviar. Crise passageira, que seja, mas frutas e legumes são artigos de luxo. Produtos orgânicos, então, é coisa de gente muito fina. E quem não pode ter sua própria horta (viva a horta urbana!) que encha o bucho de batatinha chips, bolacha recheada, coca-cola, miojo e salsicha. Desde pequenininhx.

No Brasil, um levantamento realizado em 2008/2009 mostrou que 50% dos homens e 48% das mulheres se encontram com excesso de peso, sendo que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam obesidadeUma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos está acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Há um excelente documentário, Muito além do peso (assistam! é longo, mas vale a pena), que mostra as relações nefastas entre a publicidade de alimentos destinados às crianças e a obesidade infantil. Porém... no início deste ano o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que tentava proibir a propaganda de alimentos infantis não saudáveis na televisão. Vetou. Anotaram?

Tudo isso para chegar a uma conclusão lógica e evidente: gordos e gordas, a culpa é de vocês. Não é lobby não, que história é essa? Não tem epidemia nenhuma e isso de predisposição genética é balela. Você é gordx porque quer! Mas pode não ser, você pode ser feliz em outro corpo comprando revista, remédio, produto. Mas ser gordo e feliz, isso é impossível.

...A gordofobia é para mim uma das mais grotescas formas de discriminação, e olha que a concorrência é rude. Nega a responsabilidade do nosso vender-comprar-vender way of life, dos padrões ditados por ele, culpabiliza a pessoa que sofre. Não levem a mal a comparação, que para mim é pertinente: ninguém jamais diria a uma pessoa com câncer "Nossa, você poderia dar um jeito nessa careca para ficar mais bonita! Você deveria fazer alguma coisa, se cuidar, ter mais força de vontade". Mas a/o obesa/o é sempre culpabilizado, mesmo quando se trata de um problema de saúde. Porque gordx é relaxadx, né? É culpa dele/a ser feio/a, largado/a, não se cuidar.

Vale lembrar

Gord@ é doente. Ou não.

Primeiramente, há pessoas que sofrem de obesidade e que estão, de fato, doentes. Se estão doentes, deveriam ser cuidadas por profissionais respeitosos. Aí está a primeira dificuldade. Quem já se esqueceu da conduta irresponsável e antiética do médico de Salvador que receitou "cadealina", ou cadeados na porta da geladeira, para uma paciente com problemas no fígado, que desejava emagrecer? A quem a/o obesa/o pode recorrer quando é estigmatizada/o pelo próprio profissional de saúde, que repassa ao paciente toda a responsabilidade por sua doença? A pessoa obesa tem todos seus passos controlados por uma patrulha desconhecida: se come demais e se continua sedentária, todos dizem "bem feito", se come de menos e tenta se exercitar, é "ridícula".

A discriminação no olhar. Projeto Wait Watchers da fotógrafa Haley Morris-Cafiero
Segundo ponto: por que é que pessoas doentes deveriam se sentir feias? Na verdade, escrevo este texto pensando em um post que vi outro dia, a respeito de um fotógrafo que retratou mulheres obesas. Como toda forma de expressão artística, a fotografia tem uma finalidade estética, e é aí que a coisa complica. Como é que o cara ousa criar beleza com modelos obesas? Não pode! E a desculpa muito sabida que encontraram para recusar toda beleza fora do padrão é... a saúde! Porque apreciar ou mesmo conceber que um/a obeso/a possa ser belo/a significa incentivá-lo na sua doença, lógico. E fiquem sabendo que isso é imoral. Ah, discriminação disfarçada de politicamente correto! A reação das pessoas é tão imediata que a autora do post em questão foi obrigada a fazer um adendo:

"*UPDATE: Nós do Hypeness não incentivamos a obesidade pois ela é uma doença e não é saudável. Os aplausos aqui foram para a atitude inovadora do fotógrafo de quebrar paradigmas e retratar uma realidade que existe, mesmo que a mídia e a sociedade deteste admiti-lo."

Espero que aqui no blog não precisemos desse adendo. E que a beleza dessas imagens possa ser apreciada sem hipocrisia.





Mas é sempre preciso lembrar que existem pessoas que são gordas e que não estão doentes. Porque a família é gorda, porque gosta de comer, porque com o passar do tempo o corpo foi acumulando mais "substância", porque é assim e ponto. Tem gente que é mais alta, tem gente mais baixa, forte, fraca, pouco importa! O inaceitável é que a/o gorda/o seja bombardeada/o pela "boa intenção" de conhecidos e desconhecidos que são como felicianos em pele de presidente da CDHC. Reproduzo aqui o trecho de um post da Lola que, ela mesma uma mulher gorda, pode falar da sua própria experiência:

Toda vez que falo sobre aceitação do corpo aqui no blog, vem um batalhão dizer que só é gorda quem quer. Ou seja, já associam gordura com falta de caráter, ou, pelo menos, falta de determinação. O fato de 99% das dietas falharem (a pessoa até perde quilos mas acaba recuperando tudo e mais um pouco depois) não mostra o óbvio – que dietas o funcionam. Mostra que as gordas é que não funcionam porque são umas desleixadas. Elas simplesmente não fazem o esforço. Esforço que, pra muita gente, equivale a viver pra isso. Eu fiz reeducação alimentar uns quatro anos atrás, durante quase um ano, e até gostei. Cheguei a perder oito quilos. Mas eu vivia pra aquilo. Não havia um só momento que eu não pensava em comida, em quilos, em calorias, em ginástica.

E alguém vai ter a coragem de me dizer que isso é libertador? Contra essa história de que se deve acabar com a autoestima da pessoa gorda para não "incentivá-la" a continuar cultivando esse "terrível defeito físico e de caráter", ela diz:

Mas aprenda o quê, may I ask? Que ela é gorda? Juro que ela já tinha se dado conta. Que ela é horrível por ser gorda [quer dizer, que a pessoa é tida como horrível por ser gorda]? Vai por mim: ela sabe disso desde criancinha. Que precisa emagrecer? Ela passou a vida toda tentando. Gente, a verdade é uma só: se ofender gordas fizesse que perdêssemos peso, não haveria uma só gorda no mundo. Todas nós já fomos insultadas. Todas nós já tentamos emagrecer, e a maioria vai tentar até morrer.
Então é isso. Para terminar contra os bullyings, fica o vídeo e o discurso dessa jornalista americana, em resposta à carta "bem intencionada" de um homem preocupado com o exemplo que ela, gorda, passava para seu público :



"Você não está me dizendo nada que eu não saiba [sobre a minha aparência], mas você não me conhece e não sabe nada sobre mim. Eu sou muito mais do que um número na balança."

Entendeu?
 


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Ah, os estereótipos...


por Mazu

Hoje, vamos falar de humor e estereótipos. Ah os estereótipos.... Sim, lá vem outro post mal-humorento contra o humor e a liberdade de expressão. ¬¬

A Roberta adora falar de humor e manda muitíssimo bem quando faz, dá uma olhada aqui, aqui e aqui. Dá para selecionar o marcador humor e ver os vários posts sobre isso no blog também.

Vou tratar especificamente do vídeo Mulheres do Porta dos Fundos. Na boa, eu vi dois vídeos deles antes disso e gostei muito (Spoleto e Deus). Mas esse, especificamente, se baseia num estereótipo que me incomoda muito. Vejamos:


Por quê, meu Deus, as titias feministas vamos implicar com esse vídeo engraçadinho (só que não) desse grupo humorístico tão querido da galera (que, segundo comentário forte nas interwebs, pertence ao rei dos coxinhas, Luciano Huck)?

Porque reforça um estereótipo.

Parece pouco para tanta implicância, não é mesmo? Mas não é. Vai vendo. O estereótipo de que as mulheres falam demais e reclamam demais é perigoso, sim, porque valida o velho "mulher boa é mulher calada". Além de dar aval para que não sejamos ouvidas. Por que escutar uma denúncia de assédio moral ou violência psicológica (que é mais difícil de detectar) quando o "natural" da mulher é reclamar? Para que agir com respeito e ser um bom companheiro se "haja o que hajar" a mulher vai reclamar?

O grande problema dos estereótipos é este: legitimar o comportamento de uma sociedade opressora. Dizer que mulher só reclama é um jeito de nos calar. E, caso você não tenha lido o post anônimo anterior ao meu, leia e veja como isso é um problema.

Por quê? a gente fica mais linda caladinha?

Vou retomar um trecho de um post da Rô, que pode ser lido na íntegra aqui, para formular um argumento sobre a falação das mulheres. Este trecho trata de um tipo específico de piada machista:

1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres

Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.


O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.

Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
E nem é verdade. Fato. A gente fala e reclama muito menos do que devia, companheirada! E essa é a verdade.

A Lola diz que "toda mulher tem um história de horror pra contar", mas a gente nunca conta. Nunca contei por aí que, quando tinha 14, um sujeito tentou me derrubar da bicicleta enquanto eu voltava da casa de um amigo. Nunca contei que, quando estudava em Campinas e trabalhava em São Paulo, desmaiei de cansaço no ônibus e acordei com o cara do lado me apalpando. Nunca admiti que acordo meu companheiro todo dia para me levar ao ponto de ônibus porque os números de violência sexual contra mulheres no DF são ridículos, e eu morro de medo de andar duas quadras sozinhas às 6h da manhã. Nunca admiti que fico calada de medo de perder o emprego diante do sexismo do meu chefe. Sério, eu milito há um tempão, desde a faculdade, e eu nunca disse nada disso em público. E tanta coisa para dizer, e o parágrafo ficando enorme, e, talvez, alguém tenha parado de ler porque, afinal, um parágrafo enorme de outra mulher reclamando...

Alô, alô, todas denunciando!

A gente não diz nada para não incomodar os opressores, porque a gente não quer ser a moça do vídeo que só reclama, porque a gente foi convencida pela sociedade patriarcal de que se essas coisas acontecem com a gente, de certa forma, a culpa é nossa, e que a gente não aprecia toda a "proteção" que o patriarcado nos dá. Bem-vindas ao mundo em que todos os mimimis são permitidos, menos os seus!

Só para constar, quando o Porta dos Fundos ironizou o comportamento masculino, que não distingue mulher de boneca inflável de companheiro homo, brincou com o estereótipo do homem incapaz de ouvir e perceber, eu me ofendi pelos homens. Pelos da minha vida e pelos que não conheço. Hipérbole e piadas à parte, não achei que representa, nem que faz rir.