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Lavando a roupa suja (sem pagar por isso)

por Thais Torres, a mais nova Subvertida :)

Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.

A vida do professor no Brasil tem muitos desafios e discutir assuntos que envolvam os direitos daqueles que trabalham e que se subordinam às ordens da família dos alunos é um deles. Na tentativa de cumprir essa e outras tarefas, há insatisfações das mais diversas ordens, mas uma me incomoda em particular: a crueldade com que jovens de 17, 18, 20 anos, no máximo, olham para pobreza que caracteriza o país e o total desinteresse deles em mudar essa realidade.


Enfim, estou me desviando do assunto. Na leitura do referido caderno da Folha, encontrei um artigo, pretensamente divertido e descolado, chamado 'Empregada pra quê?'. Escrito pelo ilustre desconhecido Sandro Macedo, é de um machismo atroz. Não pude deixar de me lembrar de um post (ótimo) da Bárbara Falleiros, aqui nesse blog, sobre a associação entre mulheres e a responsabilidade de limpar a casa.

O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define: 

Felizmente, ou não, faço parte de uma turma que não tem uma empregada. Aliás, minha família nunca teve empregada. Se puxar pela memória, vou me lembrar de mim mesmo enxugando a louça, sem direito a mesada, num exercício a seis mãos (a irmã lavava e o caçula guardava).

Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:


Mas só de escutar os amigos reclamando ("Ela não sabe lavar", "Mudou tudo de lugar", "Comeu o alfajor argentino") dá um desânimo.


Logo em seguida, ele dá “dicas” para evitar a empregada doméstica em casa. Algumas pouco higiênicas (“O copo de cerveja de ontem, por exemplo, é o copo de hoje. Se você for moderninho e quiser tomar uma IPA ou uma stout, melhor ainda. Pode misturar aromas”), outras até engraçadas (“Primeira dica: a cama. Para que arrumar de manhã o que será bagunçado à noite?”).



As mais interessantes são as que envolvem uma espécie de mentira que ele prega na mãe e na namorada para ter a casa limpa. O foco do texto não parece ser outro senão ensinar o leitor, um “macho-cristão-ocidental-solteiro” como ele, a conseguir ter serviços de empregadas domésticas, sem precisar pagar por isso, já que elas têm carinho e amor por ele.



A primeira a ser usada é a namorada. A dica é um primor: ajuda até a fingir romantismo, quem sabe, o leitor “macho-cristão-ocidental-solteiro” não consegue usar a mulher para a sua segunda função mais comum, aquela que ele não mencionou no texto:


No dia em que quiser trocar a cama, chame a namorada para dormir lá e faça tudo a dois. Vai parecer romântico.

A segunda a servir de empregada é a mãe. Mas cuidado, leitor! Não vá exagerar! É preciso lembrar que ela não é a sua empregada mais. Ela já foi, mas isso passou. Agora você tem mais de 18 anos, mora sozinho e é um macho solteiro. Não seja infantil!

E importante: a cada 15 dias, convide sua mãe para fazer uma visita. Use a camisa amarrotada. Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado.

Roupa passada e até uma minifaxina são quase garantidos. Mas, lembre-se, ela não é sua empregada. Ela já fez tudo isso para você até os 18.

Preciso interpretar o machismo da frase “Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado”? E, a pergunta que não quer calar, “Filho que é filho” convida a mãe para uma visita apenas para ter suas camisas passadas?

Os absurdos não param por aí. A mãe é uma empregada muito mais barata. Não precisa de salário, muito menos dessas bobagens como direito a descanso, férias e hora extra que andam exigindo por aí... Basta pagar um almoço que fica tudo resolvido.

E, se você levá-la para almoçar em seguida, todo mundo vai ficar feliz e agradecido. E sua roupa vai ficar com o cheiro que você gosta.

Podem se passar anos sem que essa lógica seja quebrada... ou até você se casar.

O texto é idiota, é claro. Mas não deixa de ser sintomático o recado – claríssimo e límpido como a mãe e a namorada do autor da crônica devem deixar as roupas de cama dele: empregadas domésticas roubam nossos alfajores importados e, por esse motivo não devemos contratá-las. Além disso, é desnecessário pagar alguém para arrumar sua casa, se você tem uma mãe que faz isso para você até os 18 anos – e quinzenalmente depois disso. Isso até você casar, é claro. Depois disso, fique tranquilo: suas namoradas cumprirão a função que sua mãe exercia. Você não ficará um único instante desamparado.

O texto termina com uma indicação: a série Downton Abbey, que está passando no GNT. Assista, leitor-machão-solteiro, para matar as saudades do tempo em que “subalternos até se estapeavam para poder ajudar o patrão a colocar a luva, com direito a livro de ponto”. Bons tempos aqueles, não é?

Não consigo deixar de também dar a minha dica para o autor do texto e para os leitores que concordam com ele. Recebi a brincadeira abaixo esta semana, publicada por amigos do Facebook:


Procurando por imagens para ilustrar o que escrevi aqui, encontrei essa outra obra-prima na abordagem deste assunto:


O post fica sem a ilustração que eu queria, portanto, pois ao digitar no Google “Machão + limpeza”, não encontrei uma única imagem de um homem de vassoura na mão. Mas o cartoon anterior me parece mais ilustrativo para compreender a relação entre essas duas palavras.


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Uma Sociedade - Virginia Woolf

por Mazu


Quem tem medo da Virginia Woolf?
Um dos objetivos do blog é compartilhar, debater e popularizar a literatura feminista. Como o cotidiano machista nosso nesse mundão véio sem porteira vive nos dando outros assuntos e motivos para blogar, a gente acaba falando menos nisso do que era nossa intenção de fato. A Thaís e a Thaís trouxeram alguns textos para gente, mas era bom fazer crescer e aumentar o assunto por aqui.

Com isso em vista, vou apresentar um trecho de um dos textos mais amados da Virginia Woolf, Uma Sociedade, traduzido por mim, de maneira livre, leve e rápida (aceito sugestões) para evitarmos quaisquer problemas com direitos dos sujeitos por aí. Um trecho agora, outro logo mais porque talvez eu não possa publicar a tradução do texto todo e, talvez, eu obedeça #NOT.

O texto é uma delícia e tendo em vista a semana que tivemos (violência sexual no horário nobre da TV, nada de novo, não), merecemos alguma delícia nessa vida. Um grupo de mulheres se reúne para tentar avaliar, agora que sabem ler, o mundo liderado e civilizado pelos homens. Humor sutil e feminista, finalmente! Vou fazer como novela e parar no clímax, mas semana que vem eu volto.


Uma Sociedade

FOI ASSIM que tudo aconteceu. Um belo dia, seis ou sete de nós estávamos sentadas depois do chá. Algumas olhavam para o outro lado da rua para a janela de uma loja de roupas, em que a luz ainda brilhava fortemente sobre plumas vermelhas e sapatos dourados. Outras estavam muito ocupadas, só que não, na construção de pequenas torres de açúcar sobre a borda da bandeja de chá. Depois de um tempo, pelo menos é o que me lembro, reunimo-nos ao redor do fogo e, como de costume, começamos a louvar os homens, quão fortes, quão nobres, quão brilhantes, quão corajosos, quão belos eles eram, e como invejávamos aquelas que, por bem ou por mal, conseguiram se prender a um deles para a vida toda. Quando Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas. Preciso pontuar que Poll sempre foi esquisita. Para começar, seu pai era um homem estranho. Ele deixou uma fortuna em seu testamento, mas com a condição de que ela lesse todos os livros na Biblioteca de Londres. Nós a confortamos da melhor forma possível, mas sabíamos em nossos corações o quão isso era inútil. Ainda que gostássemos dela, ela não era nenhuma miss, deixava os cadarços desamarrados e devia estar pensando, enquanto elogiávamos os homens, que nenhum nunca iria se casar com ela. Finalmente, ela parou de chorar. Demoramos a entender o que ela disse. Por mais estranho que fosse, fazia sentido. Ela nos disse que, como já sabíamos, ela passava a maior parte do tempo na biblioteca de Londres, lendo. Ela disse que começou com literatura inglesa no último andar e o plano era ir em ordem e firmemente até Atualidades no térreo. E, agora, na metade no caminho ou, pelo menos, em um quarto do caminho, uma coisa terrível aconteceu. Ela não conseguia mais ler. Os livros não eram o que nós pensávamos. "Livros", resmungou ela, levantando-se e falando com uma desolação de uma intensidade que nunca esquecerei, "são, na maioria, indescritivelmente ruins!" 

Obviamente começamos argumentar com Shakespeare, Milton e Shelley.

Ao que ela respondeu "Ah, sim". "Vocês aprenderam bem, eu percebo. Mas vocês não são membros da Biblioteca de Londres." Nesse momento, os soluços a interromperam de novo. Por fim, recuperando-se um pouco, ela abriu um dos livros em sua pilha de livros que sempre carregava consigo. O livro chamava-se "De uma janela" ou "Em um jardim" ou alguma coisa do tipo e foi escrito por um homem chamado Benton ou Henson ou alguma coisa parecida. Ela leu as primeiras páginas. Ouvimos em silêncio. "Mas isso não é um livro", alguém disse. Então, ele escolheu outro. Dessa vez, uma história, mas não me lembro do nome do autor. Nossa trepidação aumentava conforme ela lia. Nenhuma palavra ali parecia verdadeira, e o estilo em que estava escrito era execrável. "Poesia! Poesia!" pedimos impacientemente. "Leia poesia para nós!" Não posso descrever a desolação que nos assolou quando ela abriu um pequeno volume e declamou a tolice verborrágica e sentimental que o livro continha.

"Deve ter sido escrito por uma mulher," uma de nós argumentou. Mas não. Ela nos disse que foi escrito por um jovem, um dos mais famosos poetas atuais. Imagine só o choque dessa descoberta. Ainda que tenhamos pedido e implorado para que ela não lesse mais, ela persistiu e leu alguns trechos da Biografia dos Chanceleres (Lives of the Lord Chancellors). Quando ela terminou, Jane, a mais velha e sábia de nós, levantou-se e disse que não estava convencida.

Ela perguntou: "Por que, se os homens escrevem esse tipo de asneira, teriam nossas mães perdido suas juventudes trazendo-os ao mundo?"


Estávamos todas em silêncio e, no silêncio, podíamos ouvir a coitada da Poll soluçando "Por que, por que meu pai me ensinou a ler?"

Clorinda foi a primeira a tomar as rédeas. "É tudo nossa culpa", ela disse. "Todas sabemos ler. Mas nenhuma de nós, a não ser Poll, deu-se o trabalho. De minha parte, dei como certo de que a função de uma mulher era passar a juventude tendo filhos. Venerava minha mãe por ter tido dez, mais ainda minha avó por ter tido quinze. Confesso que minha vontade era ter vinte. Nós, em todos esses séculos, supomos que os homens fossem igualmente engenhosos e que seu trabalho fosse de igual mérito. Enquanto dávamos a luz a crianças, eles, supúnhamos, davam a luz a livros e obras de arte. Nós populamos o mundo. Eles o civilizaram. Mas, agora, que podemos ler o que nos impede de avaliar o resultado? Antes de trazermos outra criança ao mundo devemos jurar que procuraremos saber como o mundo está."

Então, transformamo-nos em uma sociedade de fazer perguntas. Uma de nós visitaria os homens da guerra; outra se esconderia num escritório de um acadêmico; outra iria às reuniões de negócios; enquanto todas leríamos livros, apreciaríamos as pinturas, iríamos aos concertos, manteríamos os olhos abertos na rua e faríamos perguntas sem parar. Éramos muito jovens. É possível perceber nossa simplicidade pelo fato de que antes de terminarmos a noite, concordamos que os objetivos da vida eram produzir boas pessoas e bons livros. Nossas perguntas buscavam descobrir o quanto desses objetivos foi atingido pelos homens. Juramos solenemente que não engravidaríamos de um bebê sequer até que estivéssemos satisfeitas.

Assim, partimos, algumas para o Museu Britânico; outras para o Navio Real; algumas para Oxford; outras para Cambridge; visitamos a Academia Real e o Tate; ouvimos música moderna em concertos, fomos às cortes de justiça e assistimos a novas peças. Ninguém jantava fora sem perguntar ao acompanhante determinadas perguntas e anotar cuidadosamente as respostas. De tempos em tempos, nos reuníamos e comparávamos nossas observações. Ah, aquelas adoráveis reuniões! Nunca ri tanto na vida como na ocasião em que Rose leu suas nota sobre "Honra" e descreveu como se fantasiou de príncipe etíope e foi a bordo de um dos navios de sua Majestade. Descobrindo a farsa, o capitão foi visitá-la (agora, disfarçada de um cavalheiro do povo) e exigiu que a honra fosse satisfeita. "Mas, como?" ela perguntou. "Como?" ele berrou. "Com a chibata!" Vendo que ele estava fora de si de raiva e esperando que aquele fosse seu fim, ela se curvou e recebeu, para sua surpresa, seis chibatadas leves nas partes traseiras. "A honra da marinha britânica foi vingada!" ele gritou. Ao se levantar, ela percebeu que ele tinha o rosto pingando suor e segurava sua mão direita trêmula, "Alto lá!" ela exclamou, criando uma postura e imitando a ferocidade da expressão dele, "minha honra ainda deve ser satisfeita!" "Falou como um cavalheiro!" ele respondeu e ficou pensativo. "Se seis chibatadas foram o suficientes para vingar a honra da marinha real", ponderou ele, "quantas seriam necessárias para um cavalheiro do povo?" Ele disse que apresentaria o caso aos companheiros de tripulação. Ela disse com arrogância que não poderia esperar.  Ele elogiou a sensibilidade dela. "Deixa-me ver", disse ele de repente, "seu pai tinha uma carruagem?" Não, ela respondeu. "Ele andava a cavalo?" "Tínhamos um burro", recordou, "ele movia o moinho". Com isso, o rosto dele se iluminou. "O nome da minha mãe", ela acrescentou. "Em nome de Deus, homem, não mencione o nome da sua mãe!" ele riu alto, tremendo como uma vara verde, mas completamente vermelho de constrangimento, e levou pelo menos dez minutos para que ela conseguisse fazer com que ele continuasse. Finalmente, ele resolveu que se ela desse quatro golpes e meio de chibata no seu lombinho, região indicada por ele, (meio, conforme ele explicou, em reconhecimento ao fato de que o tio da avó dela ter sido morto em Trafalgar*), ele acreditava que a honra dela ficaria nova em folha. E isso foi feito. Então, foram para um restaurante, beberam duas garrafas de vinho, pelas quais ele insistiu em pagar, e se despediram com votos de amizade eterna.

Depois disso, a Fanny nos contou sobre sua visita às cortes de justiça. Em sua primeira visita, ela chegou à conclusão de que os juízes eram feitos de madeira ou eram personificados por grandes animais que se assemelhavam aos homens e que teriam sido treinados para mover com extrema formalidade, sussurrar e consentir com a cabeça. Para testar sua teoria, ela soltou um punhado de varejeiras em um momento crítico de um julgamento, mas não conseguiu determinar se as criaturas deram algum sinal de humanidade porque as moscas zunindo a induziram a um sono tão pesado que ela só acordou a tempo de ver os prisioneiros sendo levados às celas. Contudo, pela descrição trazida por ela, decidimos que era injusto supor que os juízes fossem homens.

Helen foi à Academia Real, mas, quando pedimos que ela relatasse as peças, ela começou a recitar o que lia em um pequeno livro azul: "Oh! pelo toque de uma mão envernizada e o som de voz parada. A casa é o caçador, a casa da colina. Ele balançou as rédeas de seus quadris. O amor é doce, o amor é breve. Primavera, a bela primavera, é a rainha adorável do ano. Oh! estar na Inglaterra agora que abril chegou. Homens devem trabalhar e mulheres devem reclamar. O caminho do trabalho é o caminho para a glória". Não podíamos mais ouvir aquela baboseira.


"Não queremos mais poesia!" protestamos.

"Filhas da Inglaterra!" ela começou, mas nós a fizemos sentar e jogamos um copo de água nela enquanto o fazíamos.

"Graças a Deus!" ela disse, sacudindo-se como um cão. "Agora vou rolar no tapete para ver se consigo tirar o que resta da Union Jack** de mim. Quem sabe." Então, ela começou a rolar energicamente. Ao levantar-se começou a nos explicar como eram as pinturas modernas, quando foi interrompida por Castalia.

“Qual é o tamanho médio de uma pintura?” ela perguntou. "Pouco mais de meio metro talvez", ela disse. Castalia fez anotações enquanto Helen falava e, quando ela terminou, e tentávamos não olhar uma nos olhos das outras, Castalia levantou e disse "Conforme combinamos, passei a semana passada em Oxbridge, disfarçada de faxineira. Assim, tive acesso às salas de vários professores e vou passar a vocês alguma ideia do que percebi", ela confessou, "Não sei como. É tão estranho. Esses professores", ela continuou, “vivem em grandes casas construídas ao redor de gramados, isolados em um tipo de célula. Ainda assim, eles têm toda conveniência e conforto. A única coisa a fazer é pressionar um botão ou acender uma pequena lâmpada. Seus documentos são lindamente organizados. Livros em abundância. Não há crianças ou animais, a não ser alguns gatos de rua e um galo velho”. "Lembram-me", ela confessou, "uma tia minha que vivia em Dulwich e tinha cactos. Você chegava na estufa depois de passar por uma grande sala de estar, e lá estavam, em tubos aquecedores, eram dúzias delas, plantinhas feias, esquálidas, eriçadas, cada uma em um vazo diferente. Uma vez a cada cem anos, a aloe dá flores, dizia minha tia. Ela nunca viveu para ver." Nesse ponto, pedimos que ela voltasse ao assunto. "Bem", ela retomou, "quando o professor Hobkin saiu, examinei o trabalho de sua vida, uma edição de Sappho. Trata-se de um livro de aparência estranha, 15 ou 16 centímetros de espessura, não é todo da Sappho. Ah, não. Trata-se, em sua maior parte, de uma defesa da castidade de Sappho, o que foi negado por um senhor alemão, e posso garantir como a paixão com que esses dois cavalheiros discutiram, o conhecimento que esbanjaram, a ingenuidade com que disputaram o uso de algum instrumento - que, para mim, tinha a importância de um grampo de cabelo - me assombrou, especialmente, quando a porta abriu e o Professor Hobkin apareceu em pessoa. Um senhor muito agradável e brando, mas como poderia saber qualquer coisa sobre castidade?" Nós a entendemos mal.

"Não, não", ela argumentou, "ele tem honra na alma, tenho certeza. Não que ele não se pareça com o capitão descrito pela Rose, de forma alguma. Eu pensava nos cactos da minha tia. Como eles saberiam qualquer coisa sobre castidade?"

Novamente, dissemos a ela para parar com as viagens mentais, afinal, os professores de Oxbridge ajudavam a produzir boas pessoas e bons livros? Os objetivos da vida.

"É isso!" ela exclamou. "Nunca pensei em perguntar. Nunca me ocorreu que eles pudessem produzir coisa alguma."

"Acho que você fez alguma coisa errada", disse Sue. "Talvez o tal Professor Hobkin fosse um ginecologista. Um acadêmico transborda humor e criatividade, com algum alcoolismo, mas e daí? São companhias deleitáveis, generosas, sutis, inovadoras, obviamente. Já que passam a maior parte de sua vida com os melhores seres humanos que já existiram".


"Hum", ponderou Castalia. "Talvez eu deva voltar e tentar novamente".

Uns três meses depois disso, aconteceu de eu estar sentada sozinha quando Castalia chegou. Não sei bem o que no jeito dela que me comovia, mas não pude me conter e, enquanto atravessávamos a sala, dei um abraço nela. Ela não estava apenas linda, mas parecia felicíssima. "Como você está alegre!" Exclamei, enquanto ela se sentava.
"Estive em Oxbridge", ela me disse.

"Fazendo perguntas?"

"Respondendo perguntas", retrucou.

"Você não quebrou nossa promessa?" Perguntei ansiosamente porque notei alguma coisa nela.

"Ah, a promessa", disse ela casualmente. "Vou ter um bebê, se é disso que está falando. Você não pode imaginar", disse de repente, "o quão excitante, lindo e satisfatório"

O quê?" perguntei.

"Responder perguntas", ela disse com alguma confusão. Foi aí que me contou a história toda. 


continua...

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Nas fronteiras do feminismo, só o que existe são nuances e articulações

Por Thaís Bueno

Muitxs sabem e muitxs falam das dificuldades pelas quais passa uma mulher que quer ser várias ao mesmo tempo, sendo apenas uma. Ela quer ser mulher, quer ser estudante, quer ser funcionária, quer ser mãe, quer ser esposa, quer ser uma pessoa que rala para pagar as suas contas, quer ser amiga, quer ser brasileira, quer ser latino-americana, quer ser cética.

Acredite em mim: gerenciar tudo isso custa tempo e articulação. Porque, por exemplo, para ser uma boa amiga, é preciso ter tempo para dedicar às amigas. Esse tempo precisa ser habilidosamente medido para não prejudicar o tempo dedicado ao marido, ou aos estudos, ou ao trabalho, ou à família, ou à leitura pessoal. Eu conheço algumas mulheres, as quais posso contar nos dedos das mãos, que sabem fazer isso muito bem. E as admiro, não por conseguirem fazer tanta coisa ou por carregarem a imagem da super-mulher, mas por conseguirem, na mistura de todas essas nuances que as compõem, serem pessoas dignas, admiráveis e generosas

Eu nunca consegui compartimentar ou separar as nuances que me compõem. Obviamente, tenho uma boa percepção delas, sei o que é que afeta minha postura como mãe e o que pode influenciar minha relação conjugal; sei dizer o que está bom ou ruim em minha carreira acadêmica e em meus trabalhos. Mas não é possível separar uma nuance da outra, pelo simples fato de que não sou um boneco lego, com várias peças de montar e desmontar. Não. Em mim, a mulher não se esquece, pelo fato de ter nascido mulher, de sua condição social, da cor de sua pele, de suas relações culturais, afetivas e políticas.

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Há três dias meu marido me chamou para ver esta foto, com certo espanto: 



Apresento-lhes a Barbie Mexico. Produto original (é de se questionar o peso da palavra “original” aqui) da Mattel, gigante do setor de brinquedos, esta Barbie Mexico faz parte da coleção Barbie Dolls of the World (Bonecas Barbie do Mundo). Claro, nós sabemos que, assim como a Coca-Cola e o McDonalds para quem não simpatiza com o capitalismo, a Barbie, para qualquer pessoa que seja a favor de igualdade de gênero, representa tudo o que está errado no mundo hoje em dia. Sim, a Barbie é símbolo de um modelo falido, em que as garotas brincam de boneca, vestem rosa, têm cabelos perfeitos, medidas nada realistas e um Bob de plástico sempre ao seu lado. Longe de ser uma boneca com a qual uma criança pode simular uma realidade diferente e ter sua criatividade estimulada, a Barbie é uma boneca-modelo, uma mera reprodução dos valores de nossa sociedade capitalista

Mas todas essas são coisas que muitxs de nós sabemos. Nesta imagem da Barbie Mexico, há muitos outros problemas que, mesmo para algumas mentes esclarecidas, passam despercebidos. Neste momento, eu gostaria de perguntar a você, que lê este post: quais outros problemas você vê nesta foto, além da visão em rosa que impera no conjunto e fere nossos olhos? Claro, os traços faciais produzidos na boneca, idênticos aos da Barbie caucasiana, são óbvios e dispensam comentário. Violência cultural, óbvia e descarada.

Tudo bem, falemos do cachorrinho no colo de la Barbie. Trata-se de um chihuahua, que não por acaso é o nome de um estado mexicano. E, embora a suposta raiz mexicana desse bichinho não seja comprovada, é óbvio que a Barbie Mexico precisa ter um desses cachorrinhos de colo, afinal, é o que todos os mexicanos fazem. Todos eles têm um chihuahua, assim como todos os brasileiros amam samba, carnaval e futebol. Não sei como não colocaram um sombrero na cabeça da boneca e uma garrafa de tequila em uma das mãos – ah, mas aí nossa boneca não seria sofisticada; afinal, ainda estamos falando da Barbie. 

No entanto, há algo a mais nessa foto, algo muito mais violento que o cachorro, o vestido ou os traços da boneca. Há na imagem do kit um documento de brinquedo. Ou seja, esta Barbie, modelo da mulher ocidental capitalista, é uma documentada. Não é uma undocumented, uma mera wetback, uma cucaracha, uma alien que atravessa deserto, rio e patrulha de fronteira com artilharia pesada para correr atrás do “sonho americano”, do “american way of life” que a nossa Barbie caucasiana ajuda a construir. Não, a Barbie Mexico é uma moça direita, que trabalha e ganha seu dinheiro de forma justa, e que com ele compra a liberdade de se mover para onde quiser, de viajar quando quiser pelos EUA pelo mundo. Ela tem o direito de ir e vir com tranquilidade. 

É de se perguntar qual é o efeito de uma boneca dessas sobre a vida de uma criança, de uma garota mexicana cuja família não tem boas condições financeiras (ou seja, a grande maioria no México). Ou mesmo sobre a vida de uma mulher que tenha se arriscado a cruzar a famosa fronteira entre o México e os EUA, independentemente daquilo que a tenha motivado. Ou, ainda, sobre a vida de umas das milhares de mulheres que já tentaram cruzar a fronteira e foram assassinadas. É de se perguntar se essas mulheres ainda querem ser Barbies, se ainda querem um Bob ao seu lado, se ainda querem ter uma casa dos sonhos (mais uma explosão rosa me veio à mente agora). Eu gostaria de saber se, para essas mulheres que já tiveram que cruzar a fronteira, qualquer fronteira, seja ela política, cultural, de gênero, raça, sexo ou credo (ou a falta dele), é possível pertencer a uma condição social e cultural injusta e ainda se preocupar em ter um chihuahua e um vestido rosa; ou se é possível separar sua condição de mulher de sua condição social. Se é possível separar sua etnia de suas crenças e ideologias, tal como acontece com o lego. 



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Mais um indício de que todas essas nuances que nos compõem acabam se misturando e modificando umas às outras: enquanto estou escrevendo para este blog feminista, ou seja, afirmando minha condição feminina, acabo me lembrando de minha própria vida intelectual e de minhas experiências na academia. Desta forma,  trago dois textos da chicana (denominação atribuída estadunidenses de ascendência mexicana) Glória Anzaldúa, escritora feminista sobre a qual escrevi em meu primeiro post aqui no Subvertidas, e que eu escolhi para fechar minha despedida a este blog, de que eu tanto gosto. O primeiro texto é um poema, emocionante, sobre a experiência de viver na fronteira e internalizá-la, em vários aspectos. O segundo é um trecho de uma entrevista, em que Anzaldúa comenta sobre uma experiência de incursão no movimento feminista dos Estados Unidos

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El otro Mexico
(Gloria Anzaldúa)

Vento balançando minhas mangas
pés afundando na areia
eu fico no limite onde a terra toca o mar
onde os dois se sobrepõem
um encontro gentil
em outros tempos e espaços, um choque violento.

Através da fronteira do México
   silhueta dura de casas com vísceras ao oceano
       penhascos dissolvem-se ao mar
          ondas prateadas e marmoreadas com espuma
               abrindo um buraco sob a cerca que forma a fronteira.
             
              Miro el mar atacar
           la cerca en
Border Field Park
        con sus buchones de agua
     uma ressureição pascoalina
do sangue escuro que corre em minhas veias.

Oigo el llorido del mar, el respiro del aire,
   meu coração palpita com as ondas do mar.
      Na neblina cinzenta do sol
        o grito estridente e esfomeado das gaivotas,
          o aroma cítrico do mar infiltrando-se em mim.
     
     Eu atravesso pela      fenda da cerca
                     até o outro lado.
     Sob meus dedos, sinto o arame impregnado de areia
             com uma ferrugem de 139 anos
              de hálito salgado do mar.

Sob o céu de ferro
crianças mexicanas chutam suas soccer balls para o outro lado,
correm atrás dela, entrando nos EUA.
           
               Eu aperto com minhas mãos a cortina de ferro –
         cerca que é elo da cadeia, coroada com arame farpado e enrolado –
    ondulando com o mar, onde Tijuana toca San Diego
            estendendo-se sobre montanhas
                                    e planícies
                                                 e desertos,
esta “Tortilla Curtain” transforma-se no Río Grande
              escorrendo pelas terras planas
                    do Magic Valley of South Texas
              abrindo e esvaziando sua boca no Golfo.

Ferida aberta de 1.950 milhas
      dividindo um pueblo, uma cultura,
      percorrendo toda a extensão do meu corpo,
            fincando a cerca em minha carne
                   divide-me    divide-me
                      me raja   me raja
                      
                        Esta é minha casa.
                    essa sutil borda feita de
                          arame farpado.
          
             Mas a pele da terra não tem emendas.
             O mar não pode ser vedado,
             el mar não para nas fronteiras.
     Para mostrar ao branco o que ela achou de sua
                           arrogância,
                   Yemayá soprou e derrubou aquela cerca de arame.
                   
                     Esta terra foi uma vez mexicana,
                         foi sempre indígena
                            e é.
                       E de novo será.

Yo soy um puente tendido
           del mundo gabacho al del mojado,
lo pasado me estira pa´ ‘trás
           y lo presente pa’ ‘delante,
Que La Virgen de Guadalupe me cuide
Ay ay ay, soy mexicana de este lado.


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Trecho de entrevista de Gloria Anzaldúa (em: Borderlands/La Frontera – The New Mestiza):

Quando me mudei para São Francisco, (...) eu entrei para o Feminist Writers Guild. (...) Então, descobri que essa pequena comunidade de escritoras feministas de São Francisco, Oakland e Berkeley excluía abertamente as mulheres negras e chicanas. A maioria das mulheres brancas que eu conhecia faziam parte da organização. (...) Nós nos encontrávamos a cada duas semanas, e aí todas falavam de seus problemas enquanto brancas e suas experiências enquanto brancas. Quando era minha vez de falar, era quase como se elas pusessem palavras em minha boca. Elas me interrompiam enquanto eu ainda estava falando ou, após eu terminar, elas interpretavam o que eu tinha acabado de dizer, de acordo com seus pensamentos e suas ideias. Elas achavam que todas as mulheres sofriam o mesmo tipo de opressão, e tentavam me forçar a aceitar a imagem que tinham de mim e de minhas experiências. Elas não queriam se abrir à minha própria forma de me apresentar e aceitar que talvez eu fosse diferente daquilo que elas achavam que eu fosse, até aquele momento. Portanto, a mensagem do livro This Bridge Called My Back é que o gênero não é a única forma de opressão. Há também classe, raça, orientação religiosa; há coisas relacionadas à geração e a idade, as questões físicas etc. Quer dizer, de certa forma, essa mulheres eram geniais. Elas eram brancas e muitas delas eram muito generosas. Mas elas também eram cegas, no sentido de não conseguirem enxergar as múltiplas opressões que sofremos. Elas não entendiam tudo pelo qual nós estávamos passando. Elas queriam falar por nós porque elas tinham uma concepção de feminismo, e queriam aplicá-la a todas as culturas. This Bridge Called My Back foi, portanto, minha resposta contra aquele feminismo do tipo “Somos todas mulheres então todas vocês estão incluídas e nós somos todas iguais”. Elas achavam que nós não pertencíamos a nenhuma cultura pelo fato de sermos feministas; que não tínhamos qualquer outra cultura. Mas elas nunca deixaram sua branquidade em casa. A branquidade daquelas mulheres estava em tudo o que elas diziam. Apesar disso, elas queriam que eu desistisse de minha chicanidade e me tornasse uma delas; elas queriam que eu deixasse minha raça na porta de entrada
 
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Dedico este post às quatro mulheres, subvertidas e subversivas, que tão generosamente me permitiram trazer minhas palavras para este blog: Bárbara, Mazu, Roberta e Tággidi. Muito obrigada, meninas.

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Margaret Thatcher não é um ícone feminista, mas...

por Roberta Gregoli

Margaret Thatcher morreu esta semana, mas muito do que ela começou sobrevive. Ela introduziu medidas que até hoje norteiam a política inglesa e mundial: livre mercado, privatizações, desmantelamento dos sindicatos e do Estado de bem estar social, promoção da cultura bélica, suspeita com relação à Europa continental (uma das primeiras eurosceptics)... Tony Blair e David Cameron são seus descendentes diretos. Não é difícil entender por que a esquerda a detesta. E com razão. Muito do que foi semeado durante o seu governo resulta hoje numa das piores crises econômicas da modernidade.

Como feminista e de esquerda, me vejo num dilema que só consigo resolver separando as políticas conservadoras de Thatcher de sua conquista enquanto mulher no poder. Sendo de esquerda, não pretendo redimi-la; em contrapartida, como feminista, estou ciente do machismo generalizado, presente, inclusive, na militância e na elite intelectual de esquerda. Sem desconsiderar ou minimizar os malefícios do governo Thatcher, então, me proponho a analisar as reações a ela enquanto figura pública na política mundial.

Se eu não fosse feminista, seria fácil odiar Margaret Thatcher. Se eu não considerasse constantemente a dimensão de gênero, simplesmente me juntaria à multidão que a apedreja sem cessar, mesmo depois de morta. Como feminista, no entanto, acredito que muito da bile que ela atiça tenha base nos padrões duplos que nós, feministas, tão bem conhecemos.

Como feminista, esta imagem não pode ser nada além de notável -
insuficiente, mas notável
Thatcher foi ambiciosa - característica até hoje mal-vista numa mulher - e ousou chegar ao poder. Mais que isso, ousou se agarrar a ele por mais de uma década. O mundo não perdoou tamanha ousadia: acho difícil pensar em outra figura política que tenha gerado tamanha expressão pública de ódio: Reagan implementou medidas similares nos EUA e morreu carismático aos olhos do grande público; FHC continua admirado apesar de toda a Privataria Tucana e nem mesmo o irredimível Fernando Collor de Mello viveu o ostracismo político e pessoal experimentado por Thatcher (que, sublinhe-se, nunca foi acusada de corrupção), após ter sido traída por seu próprio partido e chutada para fora do número 10 da Downing Street. Nem George Bush mereceu um blog para contar os dias para a sua morte. Talvez Sarah Palin cause semelhante ira, mas, bom, ela também é mulher.

Thatcher foi a primeira mulher chefe de Estado na Europa e a primeira e única Primeira Ministra da Inglaterra. E isso é, sim, extraordinário. Na Inglaterra, uma sociedade tão classisista como a brasileira e a pior em mobilidade social no mundo desenvolvido até hoje, Margaret Roberts, filha de um quitandeiro, saiu da working class das East Midlands (que, como todo o norte da Inglaterra, é alvo de preconceito regional) e, de bolsa em bolsa, chegou a Oxford.

Estando eu mesma em Oxford, sei bem do sexismo - por vezes velado, outras nem tanto - destilado no bastião da tradição inglesa. Isso em 2013, imagino como teria sido na década de 1940, quando não havia educação mista e mulheres eram segregadas a alguns poucos colégios. E não para por aí, já que o Parlamento inglês é notadamente uma extensão de Oxbridge: 75% dxs Primeirxs Ministrxs da Inglaterra estudaram em Oxford ou Cambridge e, ainda nos dias de hoje, o ministério de Cameron têm mais ex-alunos de um único colégio de Oxford do que mulheres.

A ingenuidade de se tomar qualquer mulher como ícone feminista

A morte de Thatcher suscitou também reações positivas, já que ela era uma dessas figuras polarizadoras, que agitam amor ou ódio. O Economist, como bom jornal neoliberal, traz uma matéria intitulada 'A Dama que Mudou o Mundo'. O Femen Brazil a homenageou com a imagem acima, cuja incongruência a Lola Aronovich já analisou em detalhes. Realmente não é o caso de celebrar Thatcher como ícone feminista, e a chamada por luta na imagem do Femen é absolutamente enganadora: a Dama de Ferro não lutou pelas mulheres. Longe disso, ela era abertamente anti-feminista e muitas de suas políticas foram detrimentais às mulheres e aos demais grupos minoritários. Thatcher tampouco é modelo de conduta para mulheres no poder: dizem que sofria da síndrome da abelha rainha, sentindo-se à vontade cercada por homens e fazendo pouco ou nenhum esforço para promover outras mulheres a posições de poder.

Enquanto é verdade que Thatcher usava o fato de ser mulher para promoção pessoal, sem compromisso com o feminismo, para mim é difícil não soltar um sorriso ao ver uma mulher num palanque, proferindo as seguintes palavras para uma plateia homogeneamente composta por velhos brancos da elite britânica:

Eu me ponho diante de vocês esta noite, no meu vestido de chiffon vermelho de gala, meu rosto levemente maquiado, meus lindos cabelos gentilmente enrolados: a Dama de Ferro do mundo ocidental!

Como a própria Thatcher, sua fala é ambivalente: ao mesmo tempo em que ironiza sua feminilidade, ela traz o seu gênero para o holofote. Esse tipo de ostentação não deixa de ser uma afronta e, muito antes de Zagallo, é uma maneira sutil de dizer que o mundo teria que engolir uma mulher dirigindo um dos países mais poderosos do Ocidente.

Celebração sexista: "a bruxa está morta"

Não há dúvida de que o estigma de gênero a acompanhou sempre. No documentário da BBC pela ocasião de sua morte, além de elementos sexistas como constantes referências a sua aparência e expressões como "uma mente masculina num corpo feminino" e "histriônica", xs entrevistadxs dizem abertamente que se acreditava que uma mulher não teria capacidade para governar e, na sequência, narram o ressentimento em se ter uma líder mulher.

Isso sem contar o recente filme A Dama de Ferro, que optou por enfatizar sua doença e sua vida familiar em detrimento de sua carreira política. E aqui discordo da Lola Aronovich quando ela diz que essa abordagem é positiva pois a humaniza. Para mim, esse viés não é arbitrário e se insere na longa tradição de patologização das mulheres, diminuindo uma líder histórica forte à figura patética da mulher vulnerável e desequilibrada.

O ângulo alto literalmente rebaixa Thatcher (Meryl Streep)
enquanto o enquadramento reforça seu isolamento político e mental

Produto de seu tempo e de suas origens conservadoras, Thatcher se apropriou do discurso machista e o utilizou a seu favor. É sob esta ótica que é possível entender a fala: "As feministas me odeiam, não é? Eu não as culpo, porque eu odeio o feminismo. É um veneno" (minha tradução). Para evitarmos uma retórica redutora e maniqueísta, nós, feministas, temos que dar crédito a suas conquistas num mundo tão machista que as próprias mulheres são co-optadas.

Mais celebração sexista: "a vadia está morta"

Ambiciosa, honesta, focada, trabalhadora árdua, Thatcher não é um ícone feminista, mas foi uma mulher notável. Tendo dado uma espiadela nesta incubadora hostil da política inglesa que é Oxford, confesso que admiro Thatcher por ter chegado lá. É preciso respeitá-la por esse feito, enquanto mulher e contra todas as probabilidades.

O que ela fez com o poder que tão arduamente conquistou, no entanto, é uma pena. É triste que o mundo que ela ajudou a formatar seja um mundo pior, tanto para as mulheres quanto para as outras minorias. Por outro lado, não deixa de ser verdade que este mundo foi, e é, particularmente duro com ela.

É verdade que, naquela altura, qualquer outrx Primeirx Ministrx teria feito coisas similares, e que todos os que a seguiram continuaram na mesma linha. Também é verdade que um homem teria se safado da ira da mídia com muito mais facilidade. Mas isso não faz de Thatcher nem um pouco menos vilã. Se queremos ser justxs e quebrar com a vilanização por gênero, vamos nos preparar para chutar o pau da barraca quando Blair bater as botas.
- Coletivo Feminista de Liverpool (minha tradução, original aqui)

Thatcher não é ícone feminista nem modelo de conduta para mulheres, mas odiá-la singularmente por todas as mazelas do capitalismo, sem atenção aos mecanismos misóginos em operação para suscitar tamanho ódio é igualmente reducionista. Com convicções praticamente imutáveis, Thatcher operava no preto no branco. Nós não devemos cair no mesmo erro.


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Filosofia e mulheres - Franco Volpi e Schopenhauer

por Tággidi Ribeiro


Este é mais um post que não começa nem ter termina aqui - e qual o faz? Há alguns meses escrevi um, para as subvertidas, pelo menos, memorável texto sobre as mulheres na visão de alguns filósofos iluministas. Hoje transcrevo e comento trechos da Introdução irritantemente machista do filósofo italiano Franco Volpi (1952-2009) para o abertamente misógino livro de Schopenhauer, A Arte de Lidar com as Mulheres.

1. "Se o mundo nasceu de um capricho de Deus, então a mulher é o ser em que o Supremo Artífice quis manifestar da melhor maneira o lado imprevisível de sua insondável natureza. Esse bon mot, não tão distante das convicções mais radicadas no espírito masculino, deveria persuadir qualquer pessoa, homens e mulheres, da utilidade deste pequeno tratado."

Acho muito interessante a escolha de palavras aqui, porque na possibilidade de ser Deus algo diferente do perfeito, sua imperfeição é imediatamente associada ao feminino, dentro de um discurso que já conhecemos e que moldou não somente nossa ideia de como sejam as mulheres, mas também moldou de fato o comportamento de muitas mulheres. A fala da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em vídeo publicado no post da semana passada, sublinha a palavra expectativa: se há expectativa de que meninas tenham desempenho medíocre em matemática, provavelmente o terão; assim como, se há expectativa de que meninas sejam caprichosas, imprevisíveis e insondáveis, é o que provavelmente serão, porque estarão autorizadas a sê-lo - quem porventura não se encaixe nesse perfil será percebida e descrita como menos mulher, menos feminina e por isso defeituosa, um pequeno monstro (para reusar uma expressão pop). 

2. "O que podem nos ensinar os filósofos – depositários de sabedoria por definição, mas falidos no amor – sobre como tratar as mulheres? O que aconselham para deter os vagos comportamentos e frear esse nosso obscuro objeto do desejo? Que estratégia sugerem para desfazer os caprichos do sexo frágil?"

Deter, frear e desfazer. Como um homem, depois do feminismo, sobretudo, tem a capacidade de querer se relacionar com  mulheres como se elas fossem seres irracionais, que precisam ser domesticadas para caber dentro de alguma ordem racional superior masculina? E como não deplorar a arrogância desse 'depositário de sabedoria'?

Ou coloco a culpa na mulher.
3. Desde os tempos antigos, as relações entre os filósofos e as mulheres foram marcadas por uma irreparável mésalliance. Revisitando a história do pensamento filosófico nessa perspectiva, tem-se num primeiro momento, a impressão de que a filosofia sempre foi e sempre será uma questão tipicamente masculina.

Tem-se a impressão de que filosofia é algo tipicamente masculino, matemática é algo tipicamente masculino, pensar é algo tipicamente masculino. Só as feministas têm a impressão de que mulheres, desde os tempos antigos, tiveram seu destino selado cedo demais? Claro que não. No volume 1 da História da Vida Privada, por exemplo, Paul Veyne nos conta que as meninas romanas deixavam de estudar por volta dos 12 anos. O motivo? Casar e ter filhos. Hoje em dia, essa tradição perversa se encerra nas classes baixas e, em geral, culpamos as meninas por sua escolha. Quanto mais estudam, mais provam, as mulheres, que não há campos de conhecimento definidos por gênero. 


Por hoje é só. Semana que vem tem mais. Gostaria de que fosse claro para todxs que a leitura de textos tais é fundamental tanto para compreender a construção dos gêneros quanto para a desconstrução de seus papéis.