0
Como sabe qualquer economista, crises são também oportunidades. Para os que já têm o capital, claro, não para os que estão na extremidade inferior da escala.
No contexto de gênero, proclamar uma grande crise é uma forma de se manter no poder, negando o próprio privilégio, negando a legitimidade da demanda do outro por poder e, consequentemente, reforçando e reinventando mecanismos de dominação.
Isso não quer dizer que os homens não sejam oprimidos pelo patriarcado, mas, bom, para desmantelar o patriarcado nós já temos o feminismo...
Referência:
por Roberta Gregoli
Hoje estou lutando com um capítulo da tese, então, infelizmente, não vou conseguir travar outra luta vã com um texto aqui no blog. Mas, para não passar batido, aproveito da minha pesquisa uma citação que vem bem a calhar tendo em vista os recentes comentários de nossos novos fãs masculinistas.
Como a proeminente Tania Modleski já dizia há mais de uma década, esses comentários:
Como a proeminente Tania Modleski já dizia há mais de uma década, esses comentários:
[...] confirmam minha própria convicção de que, por mais que a subjetividade masculina esteja "em crise", como muitas feministas otimistas [e homens que se sentem lesados] agora declaram, temos que considerar até que ponto o poder masculino não é, na verdade, consolidado através de ciclos de crise e resolução, por meio dos quais os homens, em última instância, lidam com a ameaça do poder das mulheres incorporando-o.
Como sabe qualquer economista, crises são também oportunidades. Para os que já têm o capital, claro, não para os que estão na extremidade inferior da escala.
No contexto de gênero, proclamar uma grande crise é uma forma de se manter no poder, negando o próprio privilégio, negando a legitimidade da demanda do outro por poder e, consequentemente, reforçando e reinventando mecanismos de dominação.
Isso não quer dizer que os homens não sejam oprimidos pelo patriarcado, mas, bom, para desmantelar o patriarcado nós já temos o feminismo...
![]() |
| É nisso que dá tentar reinventar a roda |
Referência:
Modleski, Tania. Feminism Without Women: Culture and Criticism in a "Postfeminist" Age. New York and London: Routledge, 1991. Minha tradução.
17 de abril de 2013
Categorias
feminismo,
masculinismo,
Roberta,
teoria feminista
1
Olha, quando eu li isso, pouco ou muito pouco me importei com o pouco caso que Franco Volpi usa para nos informar dessa história inimaginada por todxs nós. Que eu tenha pressentido a zombaria na referência a 'um livro inteiro' sobre filósofas pitagóricas; mais zombaria na descrição, que não transcrevi aqui, de Gilles Ménage e zombaria certeira em 'divertimento e proveito', não importa. Perlustrando com alguma impaciência mas com sobejado interesse esse parágrafo, lembrei-me de que 'a história é contada pelos vencedores'. Durante muito tempo da minha vida não havia percebido que nós mulheres também fomos vencidas, que tivemos uma história não dita ou esquecida. Quantxs de nós ainda comem a história oficial? Quantxs de nós a regurgitam, na forma da 'emotividade, sensibilidade, impulsividade, irracionalidade femininas'? As perguntas feitas agorinha por muitas de vossas cabeças vêm formuladas e respondidas logo abaixo.
Franco Volpi é tão erudito, né? Puxa vida, ler (e entender) Hegel no original deve ser difícil pra caráleo. Mas o que deve ser difícil mesmo é formular, sobre o destino histórico de toda uma biblioteca, uma questão em que o 'acaso' aparece como única possibilidade de resposta ante o grande julgamento universal hegeliano. Mais difícil ainda deve ter sido refazer tautologicamente a questão - tipo assim, pra quem não entendeu chegar mais fácil à categórica resposta. A facilidade fica por conta da antiga arrogância da razão masculina, branca e ocidental, que de tão racional e merecedora de conservação, nos fez acompanhar no século passado os maiores genocídios da história. Franco Volpi foi um homem do século passado, nasceu no baby boom depois da Segunda Guerra, foi adolescente nos anos 1960, frequentou ambientes definitivamente intelectualmente intensos e escreveu esse prefácio em 2004: ele nos prova que difícil mesmo é achar um homem branco heterossexual privilegiado que duvide do merecimento de seu privilégio. A razão é solapada aqui - so sorry.
por Tággidi Ribeiro
![]() |
| Rosa Luxemburgo: filósofa |
Dando continuidade ao post da semana passada, com comentários sobre o prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do Schopenhauer. Você sabia que 'já na Antiguidade não faltavam figuras de pensadoras mulheres'? Então, vê só!
4. Todavia, se observarmos bem, veremos que não faltavam, já na Antiguidade, figuras de pensadoras mulheres. No primeiro século a. C., o estoico Apolônio encontrou matéria suficiente para redigir uma história da filosofia feminina, e Filocoro escreveu um livro inteiro sobre as filósofas pitagóricas, que efetivamente formaram um grupo numeroso. Mas nossa gratidão maior vai para Gilles Ménage (...). Perlustrando pacientemente os séculos, Ménage recolheu em 1690 uma Historia mulierum philosopharum, que se lê ainda hoje com divertimento e proveito.
Olha, quando eu li isso, pouco ou muito pouco me importei com o pouco caso que Franco Volpi usa para nos informar dessa história inimaginada por todxs nós. Que eu tenha pressentido a zombaria na referência a 'um livro inteiro' sobre filósofas pitagóricas; mais zombaria na descrição, que não transcrevi aqui, de Gilles Ménage e zombaria certeira em 'divertimento e proveito', não importa. Perlustrando com alguma impaciência mas com sobejado interesse esse parágrafo, lembrei-me de que 'a história é contada pelos vencedores'. Durante muito tempo da minha vida não havia percebido que nós mulheres também fomos vencidas, que tivemos uma história não dita ou esquecida. Quantxs de nós ainda comem a história oficial? Quantxs de nós a regurgitam, na forma da 'emotividade, sensibilidade, impulsividade, irracionalidade femininas'? As perguntas feitas agorinha por muitas de vossas cabeças vêm formuladas e respondidas logo abaixo.
![]() |
| Susan Sontag: filósofa |
5. No entanto, ocorre de nos perguntarmos: por que, de todas as venustas filósofas mencionadas nessa obra, não restou um só pensamento, nem um único fragmento se salvou da fúria destrutiva do tempo? Foi um acaso ou devemos pensar, com Hegel, que nessa matéria a história universal (Weltgeschichte) também emitiu seu julgamento universal (Weltgerischt)? Quer dizer: no fundo, esses pensamentos não mereciam ser conservados?
Franco Volpi é tão erudito, né? Puxa vida, ler (e entender) Hegel no original deve ser difícil pra caráleo. Mas o que deve ser difícil mesmo é formular, sobre o destino histórico de toda uma biblioteca, uma questão em que o 'acaso' aparece como única possibilidade de resposta ante o grande julgamento universal hegeliano. Mais difícil ainda deve ter sido refazer tautologicamente a questão - tipo assim, pra quem não entendeu chegar mais fácil à categórica resposta. A facilidade fica por conta da antiga arrogância da razão masculina, branca e ocidental, que de tão racional e merecedora de conservação, nos fez acompanhar no século passado os maiores genocídios da história. Franco Volpi foi um homem do século passado, nasceu no baby boom depois da Segunda Guerra, foi adolescente nos anos 1960, frequentou ambientes definitivamente intelectualmente intensos e escreveu esse prefácio em 2004: ele nos prova que difícil mesmo é achar um homem branco heterossexual privilegiado que duvide do merecimento de seu privilégio. A razão é solapada aqui - so sorry.
Semana que vem termino essa série, que ainda nos guarda umas tantas emoções, e volto a falar do grande fantasma que precisamos enfrentar: o estupro.
ps: escrevo e a palavra filósofa aparece com o grifo vermelho de erro. Até aqui só existem filósofos. Precisamos urgentemente de outra história.
![]() |
| Hannah Arendt: filósofa |
4
Fonte: Nós estamos sujeitos a tudo, diz Bola sobre brincadeira ; Nicole Bahls sobre ataque de Gerald Thomas: "Fiquei abalada" ; Gerald Thomas responde a críticas.
por Barbara Falleiros
Olhando para as fotos, me bateu um desânimo tão grande que eu tive vontade de chorar. Então é isso mesmo, nós não valemos nada. Pensei nas vezes em que já senti sobre a minha pele mãos indesejadas. E me veio novamente aquela repulsa, reação infelizmente familiar a tantas mulheres. A todas as mulheres - ouso dizer - em pelo menos algum momento de suas vidas. Numa dessas vezes, quando eu tinha dez anos, um garoto da escola se divertia em passar a mão na bunda das meninas. Lembro-me bem da sua risada. Eu e as outras garotas não achávamos a menor graça, mas ele continuava. Como nos ensina desde cedo a cultura do estupro, agressão é brincadeira, assédio é humor.
O Pânico é um programa de "humor" fraco e primário que, como de costume na tv brasileira, funciona à base de brincadeiras de mau gosto e de humilhações, reforçando o preconceito e o sexismo desde a concepção de seus "personagens", do homossexual com hemorroidas à mulher planta meramente decorativa. No programa, o grau de importância das participantes mulheres se mede pela quantidade de roupa que vestem: aquela que aparece um pouco mais coberta tem um papel de destaque, embora permaneça sendo a loira burra japonesa gostosa. Nicole Bahls, antiga figurante de biquíni, estava feliz em voltar ao programa com uma promoção: "Não vou ficar mais usando biquíni. (...) Vou ficar sentada junto com os
outros humoristas. Estou me sentindo ótima, emocionada com a volta."
Já Gerald Thomas, embora se veja como grande expoente artístico com carreira internacional - há prova de maior provincianismo do que a idolatria do exterior e o desprezo puro e simples por seu paisinho de quarto mundo, do qual ele mesmo reproduz o pior da cultura sexista? - não passa de um babaca que gosta de chocar e de mostrar o próprio pênis. Freud explica. Vergonhoso nivelamento por baixo esta sua vingança grosseira contra o Pânico, tentando levantar o vestido de Nicole e abrir o zíper da calça do colega repórter.
A grande repercussão do episódio mostra que, pouco a pouco, começa-se a questionar os limites de supostas "brincadeiras" do tipo. Ótimos textos foram publicados sobre o que aconteceu no lançamento do livro do dramaturgo, como o de Nádia Lapa: A cultura do estupro gritando e ninguém ouve. Eu chego tarde para acrescentar algo novo ao debate, mas gostaria apenas de chamar a atenção para o teor das declarações dxs envolvidxs na cena, para o vocabulário, que não é outro que o das justificativas e desculpas comumente usadas em casos de agressões e abusos. É como a cultura do estupro, que discute Nádia Lapa em seu texto e da qual já falamos bastante aqui no blog, se constrói pelo discurso.
As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com o corpo dx outrx? Uma agressão é um direito? Não seria, por acaso, por ele ser homem - por seu corpo não ser imediatamente tido com um bem público - que ele esteja menos sujeito à falta de respeito do que sua colega mulher? E a culpa então recai sobre a própria mulher, cuja beleza atrai e justifica o assédio? Estratégia clássica de minimização do ocorrido: a naturalidade do colega, o "bom humor" de outro expectador da cena, a negação dos fatos pelo diretor do programa...
Lendo na internet discussões sobre os padrões de comportamento de agressores sexuais, li uma frase que *curiosamente* se aplica à situação descrita aqui. Dizia assim: "Um agressor sexual geralmente acredita que ele é melhor que os outros e que não tem que seguir as regras como as pessoas comuns. Geralmente define a si mesmo como forte, superior, independente, auto-suficiente e muito masculino". Bom, na verdade, essa descrição serve para qualquer machão de grande ego por aí (e pouco importa sua orientação sexual). Aqui, Geraldo não só afirma sua superioridade, inatingível face à impunidade reinante no país (e ao falar de impunidade, ele é consciente de que seu ato não constitui uma simples brincadeira), mas se serve também do subterfúgio perverso de culpabilização da vítima. A culpa de ter sido tocada e apalpada é da moça que estava com um vestido curto e um salto alto. Ela estava pedindo, certo? É o comportamento dela que está em questão aqui, não? É uma vadia mesmo, não é? Pelas fotos, não dá pra ver que ela está gostando? O pior é que muita gente continua concordando nesse ponto, de que a mulher que se expõe é responsável, moralmente responsável pelo assédio que pode vir a sofrer:
Nicole Bahls, com sua beleza formatada de Panicat, é ela mesma uma vítima da concepção machista e objetificadora da mulher. E ela mesma ignora que abusos, agressões, ataques, assédios, apalpadas não são uma questão de sexo, mas sim de poder. “Acho que ele é gay assumido. Se fosse homem, com outra intenção... Mas
era uma brincadeira. Se fosse um homem, talvez fosse mais agressivo”. Ledo engano. Nenhuma forma de assédio sexual manifesta o impulso incontrolável do desejo masculino pelo corpo feminino, essa é a desculpa para o que não passa de uma afirmação do poder de um sobre x outrx. Que importa que Geraldo sinta ou não desejo pela mulher que ele decidiu tocar e constranger publicamente! Somente o que importa é o consentimento. Nicole concordou em aparecer na tv de biquíni, concordou em tirar fotos para a Playboy, não concordou em que um desconhecido a agarrasse e tentasse levantar seu vestido em um evento diante de expectadores e fotógrafos. Simples assim. Ele não tinha o direito de fazê-lo, assim como os igualmente babacas do Pânico não têm o direito de fazer muito do que fazem.
Só que isso não é humor, não.
Fonte: Nós estamos sujeitos a tudo, diz Bola sobre brincadeira ; Nicole Bahls sobre ataque de Gerald Thomas: "Fiquei abalada" ; Gerald Thomas responde a críticas.
14 de abril de 2013
Categorias
Barbara,
feminilidade,
humor,
machismo,
mídia
4
Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.
por Thais Torres, a mais nova Subvertida :)
Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.
A vida do professor no Brasil tem muitos desafios e discutir assuntos que envolvam os direitos daqueles que trabalham e que se subordinam às ordens da família dos alunos é um deles. Na tentativa de cumprir essa e outras tarefas, há insatisfações das mais diversas ordens, mas uma me incomoda em particular: a crueldade com que jovens de 17, 18, 20 anos, no máximo, olham para pobreza que caracteriza o país e o total desinteresse deles em mudar essa realidade.
Enfim, estou me desviando do assunto. Na leitura do referido caderno da Folha, encontrei um artigo, pretensamente divertido e descolado, chamado 'Empregada pra quê?'. Escrito pelo ilustre desconhecido Sandro Macedo, é de um machismo atroz. Não pude deixar de me lembrar de um post (ótimo) da Bárbara Falleiros, aqui nesse blog, sobre a associação entre mulheres e a responsabilidade de limpar a casa.
O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define:
Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:
O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define:
Felizmente, ou não, faço parte de uma turma que não tem uma empregada. Aliás, minha família nunca teve empregada. Se puxar pela memória, vou me lembrar de mim mesmo enxugando a louça, sem direito a mesada, num exercício a seis mãos (a irmã lavava e o caçula guardava).
Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:
Mas só de escutar os amigos reclamando ("Ela não sabe lavar", "Mudou tudo de lugar", "Comeu o alfajor argentino") dá um desânimo.
Logo em seguida, ele dá “dicas” para evitar a empregada doméstica em casa. Algumas pouco higiênicas (“O copo de cerveja de ontem, por exemplo, é o copo de hoje. Se você for moderninho e quiser tomar uma IPA ou uma stout, melhor ainda. Pode misturar aromas”), outras até engraçadas (“Primeira dica: a cama. Para que arrumar de manhã o que será bagunçado à noite?”).
As mais interessantes são as que envolvem uma espécie de mentira que ele prega na mãe e na namorada para ter a casa limpa. O foco do texto não parece ser outro senão ensinar o leitor, um “macho-cristão-ocidental-solteiro” como ele, a conseguir ter serviços de empregadas domésticas, sem precisar pagar por isso, já que elas têm carinho e amor por ele.
A primeira a ser usada é a namorada. A dica é um primor: ajuda até a fingir romantismo, quem sabe, o leitor “macho-cristão-ocidental-solteiro” não consegue usar a mulher para a sua segunda função mais comum, aquela que ele não mencionou no texto:
No dia em que quiser trocar a cama, chame a namorada para dormir lá e faça tudo a dois. Vai parecer romântico.
A segunda a servir de empregada é a mãe. Mas cuidado, leitor! Não vá exagerar! É preciso lembrar que ela não é a sua empregada mais. Ela já foi, mas isso passou. Agora você tem mais de 18 anos, mora sozinho e é um macho solteiro. Não seja infantil!
E importante: a cada 15 dias, convide sua mãe para fazer uma visita. Use a camisa amarrotada. Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado.
Roupa passada e até uma minifaxina são quase garantidos. Mas, lembre-se, ela não é sua empregada. Ela já fez tudo isso para você até os 18.
Preciso interpretar o machismo da frase “Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado”? E, a pergunta que não quer calar, “Filho que é filho” convida a mãe para uma visita apenas para ter suas camisas passadas?
Os absurdos não param por aí. A mãe é uma empregada muito mais barata. Não precisa de salário, muito menos dessas bobagens como direito a descanso, férias e hora extra que andam exigindo por aí... Basta pagar um almoço que fica tudo resolvido.
E, se você levá-la para almoçar em seguida, todo mundo vai ficar feliz e agradecido. E sua roupa vai ficar com o cheiro que você gosta.
Podem se passar anos sem que essa lógica seja quebrada... ou até você se casar.
O texto é idiota, é claro. Mas não deixa de ser sintomático o recado – claríssimo e límpido como a mãe e a namorada do autor da crônica devem deixar as roupas de cama dele: empregadas domésticas roubam nossos alfajores importados e, por esse motivo não devemos contratá-las. Além disso, é desnecessário pagar alguém para arrumar sua casa, se você tem uma mãe que faz isso para você até os 18 anos – e quinzenalmente depois disso. Isso até você casar, é claro. Depois disso, fique tranquilo: suas namoradas cumprirão a função que sua mãe exercia. Você não ficará um único instante desamparado.
O texto termina com uma indicação: a série Downton Abbey, que está passando no GNT. Assista, leitor-machão-solteiro, para matar as saudades do tempo em que “subalternos até se estapeavam para poder ajudar o patrão a colocar a luva, com direito a livro de ponto”. Bons tempos aqueles, não é?
Não consigo deixar de também dar a minha dica para o autor do texto e para os leitores que concordam com ele. Recebi a brincadeira abaixo esta semana, publicada por amigos do Facebook:
O post fica sem a ilustração que eu queria, portanto, pois ao digitar no Google “Machão + limpeza”, não encontrei uma única imagem de um homem de vassoura na mão. Mas o cartoon anterior me parece mais ilustrativo para compreender a relação entre essas duas palavras.
13 de abril de 2013
Categorias
divisão do trabalho,
machismo,
mídia,
Thais T
4
por Mazu
![]() |
| Quem tem medo da Virginia Woolf? |
Um dos objetivos do blog é compartilhar, debater e popularizar a literatura feminista. Como o cotidiano machista nosso nesse mundão véio sem porteira vive nos dando outros assuntos e motivos para blogar, a gente acaba falando menos nisso do que era nossa intenção de fato. A Thaís e a Thaís trouxeram alguns textos para gente, mas era bom fazer crescer e aumentar o assunto por aqui.
Com isso em vista, vou apresentar um trecho de um dos textos mais amados da Virginia Woolf, Uma Sociedade, traduzido por mim, de maneira livre, leve e rápida (aceito sugestões) para evitarmos quaisquer problemas com direitos dos sujeitos por aí. Um trecho agora, outro logo mais porque talvez eu não possa publicar a tradução do texto todo e, talvez, eu obedeça #NOT.
O texto é uma delícia e tendo em vista a semana que tivemos (violência sexual no horário nobre da TV, nada de novo, não), merecemos alguma delícia nessa vida. Um grupo de mulheres se reúne para tentar avaliar, agora que sabem ler, o mundo liderado e civilizado pelos homens. Humor sutil e feminista, finalmente! Vou fazer como novela e parar no clímax, mas semana que vem eu volto.
continua...
Uma Sociedade
FOI ASSIM que tudo aconteceu. Um belo dia, seis ou sete de nós estávamos sentadas depois do chá. Algumas olhavam para o outro lado da rua para a janela de uma loja de roupas, em que a luz ainda brilhava fortemente sobre plumas vermelhas e sapatos dourados. Outras estavam muito ocupadas, só que não, na construção de pequenas torres de açúcar sobre a borda da bandeja de chá. Depois de um tempo, pelo menos é o que me lembro, reunimo-nos ao redor do fogo e, como de costume, começamos a louvar os homens, quão fortes, quão nobres, quão brilhantes, quão corajosos, quão belos eles eram, e como invejávamos aquelas que, por bem ou por mal, conseguiram se prender a um deles para a vida toda. Quando Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas. Preciso pontuar que Poll sempre foi esquisita. Para começar, seu pai era um homem estranho. Ele deixou uma fortuna em seu testamento, mas com a condição de que ela lesse todos os livros na Biblioteca de Londres. Nós a confortamos da melhor forma possível, mas sabíamos em nossos corações o quão isso era inútil. Ainda que gostássemos dela, ela não era nenhuma miss, deixava os cadarços desamarrados e devia estar pensando, enquanto elogiávamos os homens, que nenhum nunca iria se casar com ela. Finalmente, ela parou de chorar. Demoramos a entender o que ela disse. Por mais estranho que fosse, fazia sentido. Ela nos disse que, como já sabíamos, ela passava a maior parte do tempo na biblioteca de Londres, lendo. Ela disse que começou com literatura inglesa no último andar e o plano era ir em ordem e firmemente até Atualidades no térreo. E, agora, na metade no caminho ou, pelo menos, em um quarto do caminho, uma coisa terrível aconteceu. Ela não conseguia mais ler. Os livros não eram o que nós pensávamos. "Livros", resmungou ela, levantando-se e falando com uma desolação de uma intensidade que nunca esquecerei, "são, na maioria, indescritivelmente ruins!"
Obviamente começamos argumentar com Shakespeare, Milton e Shelley.
Ao que ela respondeu "Ah, sim". "Vocês aprenderam bem, eu percebo. Mas vocês não são membros da Biblioteca de Londres." Nesse momento, os soluços a interromperam de novo. Por fim, recuperando-se um pouco, ela abriu um dos livros em sua pilha de livros que sempre carregava consigo. O livro chamava-se "De uma janela" ou "Em um jardim" ou alguma coisa do tipo e foi escrito por um homem chamado Benton ou Henson ou alguma coisa parecida. Ela leu as primeiras páginas. Ouvimos em silêncio. "Mas isso não é um livro", alguém disse. Então, ele escolheu outro. Dessa vez, uma história, mas não me lembro do nome do autor. Nossa trepidação aumentava conforme ela lia. Nenhuma palavra ali parecia verdadeira, e o estilo em que estava escrito era execrável. "Poesia! Poesia!" pedimos impacientemente. "Leia poesia para nós!" Não posso descrever a desolação que nos assolou quando ela abriu um pequeno volume e declamou a tolice verborrágica e sentimental que o livro continha.
"Deve ter sido escrito por uma mulher," uma de nós argumentou. Mas não. Ela nos disse que foi escrito por um jovem, um dos mais famosos poetas atuais. Imagine só o choque dessa descoberta. Ainda que tenhamos pedido e implorado para que ela não lesse mais, ela persistiu e leu alguns trechos da Biografia dos Chanceleres (Lives of the Lord Chancellors). Quando ela terminou, Jane, a mais velha e sábia de nós, levantou-se e disse que não estava convencida.
Ela perguntou: "Por que, se os homens escrevem esse tipo de asneira, teriam nossas mães perdido suas juventudes trazendo-os ao mundo?"
Estávamos todas em silêncio e, no silêncio, podíamos ouvir a coitada da Poll soluçando "Por que, por que meu pai me ensinou a ler?"
Clorinda foi a primeira a tomar as rédeas. "É tudo nossa culpa", ela disse. "Todas sabemos ler. Mas nenhuma de nós, a não ser Poll, deu-se o trabalho. De minha parte, dei como certo de que a função de uma mulher era passar a juventude tendo filhos. Venerava minha mãe por ter tido dez, mais ainda minha avó por ter tido quinze. Confesso que minha vontade era ter vinte. Nós, em todos esses séculos, supomos que os homens fossem igualmente engenhosos e que seu trabalho fosse de igual mérito. Enquanto dávamos a luz a crianças, eles, supúnhamos, davam a luz a livros e obras de arte. Nós populamos o mundo. Eles o civilizaram. Mas, agora, que podemos ler o que nos impede de avaliar o resultado? Antes de trazermos outra criança ao mundo devemos jurar que procuraremos saber como o mundo está."
Então, transformamo-nos em uma sociedade de fazer perguntas. Uma de nós visitaria os homens da guerra; outra se esconderia num escritório de um acadêmico; outra iria às reuniões de negócios; enquanto todas leríamos livros, apreciaríamos as pinturas, iríamos aos concertos, manteríamos os olhos abertos na rua e faríamos perguntas sem parar. Éramos muito jovens. É possível perceber nossa simplicidade pelo fato de que antes de terminarmos a noite, concordamos que os objetivos da vida eram produzir boas pessoas e bons livros. Nossas perguntas buscavam descobrir o quanto desses objetivos foi atingido pelos homens. Juramos solenemente que não engravidaríamos de um bebê sequer até que estivéssemos satisfeitas.
Assim, partimos, algumas para o Museu Britânico; outras para o Navio Real; algumas para Oxford; outras para Cambridge; visitamos a Academia Real e o Tate; ouvimos música moderna em concertos, fomos às cortes de justiça e assistimos a novas peças. Ninguém jantava fora sem perguntar ao acompanhante determinadas perguntas e anotar cuidadosamente as respostas. De tempos em tempos, nos reuníamos e comparávamos nossas observações. Ah, aquelas adoráveis reuniões! Nunca ri tanto na vida como na ocasião em que Rose leu suas nota sobre "Honra" e descreveu como se fantasiou de príncipe etíope e foi a bordo de um dos navios de sua Majestade. Descobrindo a farsa, o capitão foi visitá-la (agora, disfarçada de um cavalheiro do povo) e exigiu que a honra fosse satisfeita. "Mas, como?" ela perguntou. "Como?" ele berrou. "Com a chibata!" Vendo que ele estava fora de si de raiva e esperando que aquele fosse seu fim, ela se curvou e recebeu, para sua surpresa, seis chibatadas leves nas partes traseiras. "A honra da marinha britânica foi vingada!" ele gritou. Ao se levantar, ela percebeu que ele tinha o rosto pingando suor e segurava sua mão direita trêmula, "Alto lá!" ela exclamou, criando uma postura e imitando a ferocidade da expressão dele, "minha honra ainda deve ser satisfeita!" "Falou como um cavalheiro!" ele respondeu e ficou pensativo. "Se seis chibatadas foram o suficientes para vingar a honra da marinha real", ponderou ele, "quantas seriam necessárias para um cavalheiro do povo?" Ele disse que apresentaria o caso aos companheiros de tripulação. Ela disse com arrogância que não poderia esperar. Ele elogiou a sensibilidade dela. "Deixa-me ver", disse ele de repente, "seu pai tinha uma carruagem?" Não, ela respondeu. "Ele andava a cavalo?" "Tínhamos um burro", recordou, "ele movia o moinho". Com isso, o rosto dele se iluminou. "O nome da minha mãe", ela acrescentou. "Em nome de Deus, homem, não mencione o nome da sua mãe!" ele riu alto, tremendo como uma vara verde, mas completamente vermelho de constrangimento, e levou pelo menos dez minutos para que ela conseguisse fazer com que ele continuasse. Finalmente, ele resolveu que se ela desse quatro golpes e meio de chibata no seu lombinho, região indicada por ele, (meio, conforme ele explicou, em reconhecimento ao fato de que o tio da avó dela ter sido morto em Trafalgar*), ele acreditava que a honra dela ficaria nova em folha. E isso foi feito. Então, foram para um restaurante, beberam duas garrafas de vinho, pelas quais ele insistiu em pagar, e se despediram com votos de amizade eterna.
Depois disso, a Fanny nos contou sobre sua visita às cortes de justiça. Em sua primeira visita, ela chegou à conclusão de que os juízes eram feitos de madeira ou eram personificados por grandes animais que se assemelhavam aos homens e que teriam sido treinados para mover com extrema formalidade, sussurrar e consentir com a cabeça. Para testar sua teoria, ela soltou um punhado de varejeiras em um momento crítico de um julgamento, mas não conseguiu determinar se as criaturas deram algum sinal de humanidade porque as moscas zunindo a induziram a um sono tão pesado que ela só acordou a tempo de ver os prisioneiros sendo levados às celas. Contudo, pela descrição trazida por ela, decidimos que era injusto supor que os juízes fossem homens.
Helen foi à Academia Real, mas, quando pedimos que ela relatasse as peças, ela começou a recitar o que lia em um pequeno livro azul: "Oh! pelo toque de uma mão envernizada e o som de voz parada. A casa é o caçador, a casa da colina. Ele balançou as rédeas de seus quadris. O amor é doce, o amor é breve. Primavera, a bela primavera, é a rainha adorável do ano. Oh! estar na Inglaterra agora que abril chegou. Homens devem trabalhar e mulheres devem reclamar. O caminho do trabalho é o caminho para a glória". Não podíamos mais ouvir aquela baboseira.
"Não queremos mais poesia!" protestamos.
"Filhas da Inglaterra!" ela começou, mas nós a fizemos sentar e jogamos um copo de água nela enquanto o fazíamos.
"Graças a Deus!" ela disse, sacudindo-se como um cão. "Agora vou rolar no tapete para ver se consigo tirar o que resta da Union Jack** de mim. Quem sabe." Então, ela começou a rolar energicamente. Ao levantar-se começou a nos explicar como eram as pinturas modernas, quando foi interrompida por Castalia.
“Qual é o tamanho médio de uma pintura?” ela perguntou. "Pouco mais de meio metro talvez", ela disse. Castalia fez anotações enquanto Helen falava e, quando ela terminou, e tentávamos não olhar uma nos olhos das outras, Castalia levantou e disse "Conforme combinamos, passei a semana passada em Oxbridge, disfarçada de faxineira. Assim, tive acesso às salas de vários professores e vou passar a vocês alguma ideia do que percebi", ela confessou, "Não sei como. É tão estranho. Esses professores", ela continuou, “vivem em grandes casas construídas ao redor de gramados, isolados em um tipo de célula. Ainda assim, eles têm toda conveniência e conforto. A única coisa a fazer é pressionar um botão ou acender uma pequena lâmpada. Seus documentos são lindamente organizados. Livros em abundância. Não há crianças ou animais, a não ser alguns gatos de rua e um galo velho”. "Lembram-me", ela confessou, "uma tia minha que vivia em Dulwich e tinha cactos. Você chegava na estufa depois de passar por uma grande sala de estar, e lá estavam, em tubos aquecedores, eram dúzias delas, plantinhas feias, esquálidas, eriçadas, cada uma em um vazo diferente. Uma vez a cada cem anos, a aloe dá flores, dizia minha tia. Ela nunca viveu para ver." Nesse ponto, pedimos que ela voltasse ao assunto. "Bem", ela retomou, "quando o professor Hobkin saiu, examinei o trabalho de sua vida, uma edição de Sappho. Trata-se de um livro de aparência estranha, 15 ou 16 centímetros de espessura, não é todo da Sappho. Ah, não. Trata-se, em sua maior parte, de uma defesa da castidade de Sappho, o que foi negado por um senhor alemão, e posso garantir como a paixão com que esses dois cavalheiros discutiram, o conhecimento que esbanjaram, a ingenuidade com que disputaram o uso de algum instrumento - que, para mim, tinha a importância de um grampo de cabelo - me assombrou, especialmente, quando a porta abriu e o Professor Hobkin apareceu em pessoa. Um senhor muito agradável e brando, mas como poderia saber qualquer coisa sobre castidade?" Nós a entendemos mal.
"Não, não", ela argumentou, "ele tem honra na alma, tenho certeza. Não que ele não se pareça com o capitão descrito pela Rose, de forma alguma. Eu pensava nos cactos da minha tia. Como eles saberiam qualquer coisa sobre castidade?"
Novamente, dissemos a ela para parar com as viagens mentais, afinal, os professores de Oxbridge ajudavam a produzir boas pessoas e bons livros? Os objetivos da vida.
"É isso!" ela exclamou. "Nunca pensei em perguntar. Nunca me ocorreu que eles pudessem produzir coisa alguma."
"Acho que você fez alguma coisa errada", disse Sue. "Talvez o tal Professor Hobkin fosse um ginecologista. Um acadêmico transborda humor e criatividade, com algum alcoolismo, mas e daí? São companhias deleitáveis, generosas, sutis, inovadoras, obviamente. Já que passam a maior parte de sua vida com os melhores seres humanos que já existiram".
"Hum", ponderou Castalia. "Talvez eu deva voltar e tentar novamente".
"Estive em Oxbridge", ela me disse.Uns três meses depois disso, aconteceu de eu estar sentada sozinha quando Castalia chegou. Não sei bem o que no jeito dela que me comovia, mas não pude me conter e, enquanto atravessávamos a sala, dei um abraço nela. Ela não estava apenas linda, mas parecia felicíssima. "Como você está alegre!" Exclamei, enquanto ela se sentava.
"Fazendo perguntas?"
"Respondendo perguntas", retrucou.
"Você não quebrou nossa promessa?" Perguntei ansiosamente porque notei alguma coisa nela.
"Ah, a promessa", disse ela casualmente. "Vou ter um bebê, se é disso que está falando. Você não pode imaginar", disse de repente, "o quão excitante, lindo e satisfatório"
O quê?" perguntei.
"Responder perguntas", ela disse com alguma confusão. Foi aí que me contou a história toda.
continua...
** Union Jack
12 de abril de 2013
Categorias
feminismo,
humor,
literatura,
Mazu













