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Por uma voz feminina

por Thais Torres


Neste domingo, Ana Paula Padrão concedeu uma entrevista para a Folha de São Paulo. No texto, ela afirma ter se surpreendido ao assistir ao próprio trabalho feito há algumas décadas, pois quase não reconheceu a própria voz. Segundo a reportagem,

A mudança embutia mais do que amadurecimento do timbre ou maior segurança. Personalizava o que a fonoaudióloga Maruska Rameck descreveu em um estudo sobre o falar das mulheres poderosas: menos ar e menos espaço entre as palavras e o tom mais grave. "Ao pesquisar a voz de mulheres em posição de comando, a conclusão foi a de que mudamos a voz para chegar ao poder."

A famosa jornalista chegou a conversar sobre o assunto com a então Ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef. Segundo a mulher mais poderosa do Brasil: "Se a mulher só vive para o tempo da produtividade, que é diferente do tempo de educar uma criança, por exemplo, está pensando errado a vida familiar". Outra frase de Dilma calou fundo (para a repórter, que relata suas lembranças na referida entrevista): "A vida sem um companheiro, sem alguém para amar, sem filhos e família, é uma vida pobre". 

De fato, mas parece triste que seja preciso incorporar um padrão masculino para vencer na vida. Mais complicado ainda que o sonho de ter "alguém para amar, filhos e família" pareça se opor, quase excluir, o interesse por uma vida profissional bem sucedida. Para grande parte das empresas, o desejo de ter filhos dificulta o bom desempenho profissional das mulheres, pois há outro interesse em jogo. Da mesma forma, o desejo de ter uma vida profissional bem sucedida dificulta o bom desempenho familiar para muitos maridos, também por existir outro interesse em jogo além de cuidar da casa e dos filhos.

Mas para além do machismo inerente a essas empresas e a esses maridos, nos resta pensar nas razões que levam as mulheres a incorporar um padrão de comportamento masculino para vencer na vida. Ana Paula Padrão parece ser sincera ao afirmar que isso não foi intencional. Li recentemente, na revista Fapesp, uma entrevista de Beatriz Barbuy, astrofísica, membro da Academia de Ciências da França, presidente da Sociedade Astronômica Brasileira, de vasta produção científica e intelectual. Nessa entrevista, perguntada se as mulheres precisam produzir mais do que os homens para alcançarem o mesmo sucesso, ela parece relutante ao reconhecer a própria dificuldade:

Acho que tem que fazer mais por ser mulher. Há um pouco de machismo. Mas, se você fizer mais, tudo está resolvido. O Brasil não é muito rígido nessa questão. Mas se fizer um pouco menos... Se for séria e trabalhar, ninguém atrapalha, não...

Desculpe, doutora, mas não basta "ser séria e trabalhar". Pelo menos, é o que provam as pesquisas sobre o número de mulheres em cargos importantes e que se destacam na ciência. Não tenho os dados aqui (alguém tem?), mas me lembro de ter lido que a grande maioria dos grandes cientistas no Brasil, é homem. E isso não é por falta de seriedade, mas de oportunidade.

Da ciência para a arte, estou assistindo (entusiasmadíssima) a uma série de documentários de Ken Burn a respeito da história do jazz. São mais de 16 horas de história protagonizada quase que totalmente por homens.


Não é protecionismo, mas o momento mais emocionante da série para mim é quanod a história de Billie Holiday á paresentada. Fiz questão de copiar alguns trechos da narração para postar aqui, pois sua história confirma a necessidade das mulheres de se comportarem - mesmo que não intencionalmente - como homens para se destacarem em suas carreiras. Para Billie, ao que parece, seu comportamento auto-destrutivo (e masculinizado) parece ser uma reação mais do que natural para uma vida repleta de sofrimento.

Ela nasceu Eleanora Fagan, em 1915, em Baltimore. Seus pais nunca se casaram e ela passou toda a infância ansiosa para encontrar o pai ausente, Clarence Holiday, um violonista que chegou a tocar com Fletcher Henderson. O exemplo de seu pai a atraiu para o mundo da música, mas seus modos grosseiros se refletiram em muitos dos homens agressivos com quem ela se apaixonou a vida inteira.
Ela foi molestada e espancada na infância e, com 12 anos de idade, trabalhava como prostituta em um bordel à margem do rio. Conseguia um pouco mais de dinheiro cantando ao lado da vitrola. Aos 13, foi para Nova York. Cantava por gorjetas em festas e clubes do Harlem e cantava por diversão em jam sessions. Acabou mudando seu nome para Billie Holiday por causa do pai ausente.
(...)
Holiday era extremamente independente. Uma mulher que a conhecia desde a infância disse: “ela simplesmente não dava a mínima para nada”. Ela continuaria assim por toda a vida: xingando, bebendo, brigando, procurando pessoas de ambos os sexos e levando uma vida tão próxima do limite que os amigos se surpreendiam que ela conseguisse sobreviver. Mas de tudo isso, ela fez uma arte inesquecível e depois se tornou a mais importante cantora da história do jazz.
Para terminar, Autumn in New York, na voz de Billie Holiday. Segundo ums dos músicos entrevistados da serie, a gravação de jazz música mais linda de todos os tempos.




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Um ano de Subvertidas, obrigada!

por todas nós


Hoje o blog comemora um ano de existência. E estamos muito felizes. São mais de 200 textos, mais de 500 comentários e 96.000 visitas! Tentando com a nossa proposta de pluralidade, publicamos textos,  de sete colaboradoras fixas, 11 relatos enviados para o Sexismo de Cada Dia e nove Guest Posts. Este espaço é uma (pequena) plataforma, mas que nós podemos atestar pessoalmente ser muito significativa.

Questões de gênero são geralmente explosivas porque mexem com ansiedades relacionadas a normas sociais e inevitavelmente vêm atreladas à questão da sexualidade. O blog promove um fórum para podermos nos expressar livremente e desenvolver um argumento completo, que pode então ser lido e discutido. E é particularmente eficaz para contrabalancear páginas e blogs misóginos, ainda que muitos deles tenham milhares de seguidores.

Fora o desejo de transformar a sociedade hodierna, esse dado também evidencia a necessidade da existência deste espaço e dos espaços das nossas colegas feministas. Se a reação de disposição contrária à ação que clama liberdade e igualdade a todas as mulheres é tão intensa e, nos parece tantas vezes, desproporcional, então só podemos concluir que sob a superfície do humor e do afeto brasileiros esconde-se, ao lado do racismo e da homofobia, e de um sem número de preconceitos, também a misoginia, também a discriminação de gênero. Expor essa ferida é sem dúvida a melhor forma de sarar.

Precisamos de mais textos, mais relatos, 'causos', anedotas, reflexões. Enviem suas contribuições - de qualquer tamanho, linguagem, assinados ou anônimos.


Acima de tudo, muito, muito obrigada por tudo! Por nos acompanharem, por deixarem comentários, por todo o carinho!

E não se esquecem de nos seguir no Facebook e no Twitter!


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Saiu no Financial Times: slut shaming

por Roberta Gregoli


Deu no Financial Times - moça escreve carta para o jornal pedindo dicas para encontrar marido rico e leva um baita fora do editor:

MARIDO RICO
Saiu no Financial Times (maior jornal sobre economia do mundo)

Contudo, mais inacreditável que o "pedido" da moça, foi a disposição de um rapaz que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada. Sensacional!! Leiam...

E-mail da MOÇA:

"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas? Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West. Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Raphaella S.)"


Resposta do editor do jornal:
"Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa.
Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro.
Mas tem um problema. Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando.
Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta!
Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco.
Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como 'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (compre e retenha), que é para o quê você se oferece...
Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and hold') com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar.
Cogitar...Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa 'máquina', quero tão somente o que é de praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio... podemos marcar?"
(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)"

Vi este texto hoje compartilhado no Facebook, mas pelo visto a anedota é velha. Assim como é velha a premissa na qual se baseia: como diz a Barbara, a gostosona interesseira sendo colocada no seu devido lugar.

O pior é que não saiu no Financial Times. Procurei a referência original e o único texto em inglês que encontrei foi num site brasileiro, de um "orientador profissional" (?). Mas, é claro, a referência (inventada) vem a calhar: a legitimidade de um grande jornal serve para fazer passar um machismo descarado.


Na base do texto está o velho golpe do baú. Casar por dinheiro é, sem dúvida, uma ideia machista, já que sugere que uma mulher não tem capacidade de se fazer na vida, que é consumista e interesseira "por natureza", etc. Mas até que ponto não existe, sim, uma barreira concreta para que as mulheres cheguem ao topo? O teto de vidro é um fenônemo real e observável. Quantas são as mulheres que ganham mais de 500.000 dólares por ano nos Estados Unidos? Das 100 maiores fortunas norte-americanas, só 13% pertencem a mulheres.

E o texto leva a uma pergunta maior, ainda que tangencial: até que ponto a ideia do amor romântico também não serve a um discurso machista? Já vimos como muito do romantismo não passa de criação premeditada e meticulosa para vender. E quanto tempo e energia as mulheres não gastam - energia essa que poderia ser direcionada a outras venturas - na busca obsessiva e socialmente inculcada do par romântico? Quantas mulheres não permanecem em relações abusivas "em nome do amor" ou por medo de serem socialmente taxadas como 'solteironas'? Não digo isso para me juntar ao coro que culpa as mulheres por tudo (isso seria fomentar ódio a mim mesma, pois provavelmente todas as mulheres já passaram por alguma dessas situações pelo menos uma vez na vida), mas para entendermos como o machismo é altamente difundido na nossa cultura.

Mas, voltando ao texto, já disse e volto a afirmar: num mundo de opções limitadas para as mulheres, a beleza física e a sexualidade se tornam ferramentas de empoderamento e ascensão social. Não são maneiras de empoderamento pelas quais nós, feministas, lutamos - ou mesmo admiramos -, mas culpar as mulheres que se utilizam dessas práticas não deixa de ser tão (ou mais) machista quanto as práticas em si. 

No caso da suposta carta, se sentir vingadx pela resposta do editor não passa de slut shaming. Machismo com requintes de sadismo. 

Mesmo que a carta fosse real, a pergunta da moça é parva, mas mais parva ainda é a resposta, que naturaliza e leva às últimas consequências a comodificação do corpo feminino. A resposta do editor justifica essa comodificação através de um discurso técnico legitimado por sua própria (suposta) fortuna, e se aproveita da situação, se colocando como potencial "locatário". E por que ele não é constrangido da mesma maneira que ela por querer uma relação puramente monetária? O cara é comedor/esperto, a mulher é puta, que é provavelmente um dos padrões duplos mais batidos que existem.

O fato de pessoas de outro modo bem-intencionadas acharem graça de uma piada misógina como essa mostra o quanto o machismo está intricado social e culturalmente. Orai e vigiai porque, como sempre dizemos, o problema não é ver machismo em tudo. O problema é não ver.


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O esquecimento da mulher na filosofia - Franco Volpi e Schopenhauer

por Tággidi Ribeiro


Atena, deusa da sabedoria.
O prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, é ao fim interessantíssimo. A intenção clara do texto é não só desculpar a misoginia schopenhaueriana, posta na conta do humor ('é só uma piada'), mas também desculpar a misoginia da história e da filosofia ocidentais. Aliás, a palavra correta aqui é justificar, ou seja, demonstrar a justiça (histórica, universal) e legitimar as falas que calavam (ainda calam) a mulher. Contudo, nesse processo, Franco Volpi evidencia aquilo mesmo que o cega ou que ele se recusa a ver: o apagamento sistemático da figura feminina não por alguma sua inferioridade intrínseca, natural, mas dentro da própria construção discursiva dessa inferioridade. Vejamos o que ele nos diz:
6. Seja como for, a tradição do pensamento ocidental, apesar da diversidade das posições, das tendências e das escolas que a constituem, mostra uma surpreendente compactação ao remover, de princípio ou de fato, o sexo feminino, excluindo-o de um papel ativo na filosofia. Se o paralelo não suscitasse hilaridade, e se alguém já não o tivesse proposto, poderíamos arriscar a seguinte tese: assim como Heidegger afirmou que a filosofia ocidental é caracterizada pelo "esquecimento do Ser", poderíamos sustentar que ela é marcada por outro muito mais escandaloso: "o esquecimento da mulher".
O que me chama a atenção nessa fala, fora a questão posta, tanto histórica quanto metafísica, é que o paralelo traçado entre o esquecimento do ser e o da mulher seja, para mim, mulher, trágico, e nele provoque não só o riso, mas a explosão. A misoginia profunda de Franco Volpi tanto ri escandalosamente do esquecimento da mulher quanto esquece a mulher no tempo mesmo em que irrompe: as mulheres jamais seriam suas leitoras? Ou jamais chegariam a compreender, a penetrar esse discurso? Ou seriam obrigadas a capitular diante da verdade? Esta verdade(?):
 7. (...) na República, ele (Platão) reivindicou a igualdade dos direitos para as mulheres, admitindo-as até no estudo da filosofia: infelizmente, o fato é que nessa obra ele ilustrou apenas uma utopia. Já no Timeu, quando expôs a doutrina das metempsicoses, Platão afirmou que as almas são originariamente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a reencarnar num corpo feminino e, se novamente se comportassem mal, transmigrariam para o corpo de um animal. Desse modo, ele terminou por atribuir à mulher o estatuto de ser inferior, a meio-caminho entre o homem e o animal.
O homem ocidental clássico tem horror ao animal. Por animal entende aquilo que deixou de ser, aquilo a que se tornou superior e que deve necessariamente dominar. O homem ocidental construiu sua identidade tendo como alter, como outro, não a mulher, mas o animal. A mulher só passa a ser também o outro num momento posterior da dominação do homem sobre a natureza. E para justificar (principal verbo desse post) sua ascensão sobre qualquer ser, o homem imediatamente o associa, o assemelha ao animal. Keith Thomas nos conta, em O homem e o mundo natural, que crianças, jovens, pobres, negros, loucos, povos inteiros e, é claro, mulheres são comparados a animais, sobretudo até o século XIX, quando a biologia ganha o status de conhecimento e os animais têm reconsiderado o seu valor. Mas ainda no século XX o mesmo expediente é usado: antes e durante a Segunda Guerra os judeus são descritos como ratos, para ficar em um só exemplo. 

Quanto às mulheres, seguem animalizadas, ou melhor, seguem carregando a pecha que hoje pesa menos sobre o animal: praticamente todo o discurso midiático e muitas vezes também o biológico gira (propositadamente) em torno do estereótipo da mulher superemotiva, irracional. Seres irracionais não fazem filosofia, lugar primeiro da razão. Aqui o lugar de Franco Volpi.


ps: pincei apenas alguns trechos do prefácio e talvez em algum momento enfoque o texto de Schopenhauer, que segue de algum modo sendo replicado a sério. Veja nesta cena, para mim, tristíssima (min 11:06):


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Uma Sociedade - VIrginia Woolf - Parte Final

por Mazu

Primeiramente, aos seguidores, minha sinceras desculpas pelo sumiço bem no meio da nossa novela feminista. Teve gripe, intoxicação alimentar, visita dos pais, foi uma loucura. Prometo que não sumo mais assim, no meio de uma história.

Então, vamos lá, de volta com Virginia Woolf. A primeira parte do conto Uma Sociedade pode ser lida aqui.

E a segunda parte abaixo, clique em Mais informações para que o texto todo seja mostrado:


No meio de um relato que me interessava e me prendia mais que qualquer coisa que já tinha ouvido antes, ela deu o resmungo mais esquisito, meio choroso
"Castidade! Castidade! Aonde foi parar minha castidade!" ela lamentou. "Ai, ajuda! O vidro de perfume!"

Não tinha nada na sala além de um vidro de mostarda, que eu estava prestes a dar para ela quando ela recuperou a compostura.

"Você devia ter pensado nisso há três meses atrás" disse severamente.

"Verdade," ela respondeu. "Mas ficar pensando nisso agora não vai fazer bem nenhum. Falando nisso, que infelicidade minha mãe ter me colocado o nome de Castalia."

"Ah, Castalia, sua mãe", comecei a dizer quando ela pegou o pote de mostarda.
 "Não, não, não", ela disse, balançando a cabeça. "Se você fosse casta teria gritado ao me ver em vez de ter corrido até mim e me abraçado. Não, Cassandra. Nenhuma de nós é casta". Assim, continuamos conversando.

Enquanto isso, a sala foi enchendo, já que era o dia marcado para discutir o resultado das nossas observações. Pareceu-me que todo mundo se sentiu como eu me senti a respeito da Castalia. Beijaram-na e disseram como estavam felizes de vê-la novamente. Finalmente, quando estavam todas confortáveis, Jane levantou-se e disse que era hora de começar. Ela começou dizendo que já estávamos fazendo perguntas por mais de cinco anos e que, apesar disso, seríamos obrigadas a considerar os resultados inconclusos. Nesse momento, Castalia me cutucou e disse que não estava muito certa disso. Então, ela se levantou e interrompeu Jane, que estava no meio da frase, dizendo:

"Antes de você dizer mais alguma coisa, gostaria de saber se devo ficar no recinto". Então adicionou, "já que, devo confessar, sou uma mulher impura".

Todo mundo olhou para ela com espanto.

"Você está grávida?" perguntou Jane.

Ela assentiu com a cabeça.

Foi extraordinário perceber as diferentes expressões em seus rostos. Um zunido tomou conta da sala, do qual pude distinguir as palavras "impura", "Bebê", "Castalia" e outras coisas do tipo. Jane, que estava particularmente movida, perguntou:

"Ela deve ir? Ela é impura?"

Foi um rugido tão grande que deve ter sido possível escutar lá de fora. "Não! Não! Não! Deixem-na ficar! Impura? Bobagem!" Ainda assim, percebi que algumas das novinhas, as de dezenove ou vinte anos, mantiveram-se caladas como se oprimidas pela timidez. 

Então, nós a rodeamos e começamos a fazer perguntas e, por fim, uma das novinhas, que se mantinha no fundo, aproximou-se e disse a Castalia: "O que vem a ser castidade, então? Quero dizer, é bom, ruim ou simplesmente não significa nada? Ela respondeu tão baixo que não pude ouvir o que disse.

Alguém disse: "fiquei chocada por uns dez minutos".

"Na minha opinião", disse Poll, que estava ficando rabugenta de tanto ler na Biblioteca de Londres, "castidade não é nada mais que ignorância, o mais vergonhoso estado de espírito. Devíamos admitir apenas as não-castas na nossa sociedade. Eu voto que Castalia seja nossa Presidenta". Isso foi debatido violentamente.

"É injusto rotular mulheres pela castidade, seja pela presença ou ausência dela", disse Poll. "Algumas de nós não tivemos oportunidade. Além do mais, não acho que a própria Cassy vá dizer que fez o que fez por puro amor ao conhecimento".

"Ele tem vinte e um e é lindo de morrer", disse Cassy, com um gesto encantador.

"Eu voto", afirmou Helen, "que ninguém tenha permissão de falar em castidade ou falta de castidade, a não ser as que estiverem apaixonadas".

"Ora bolas", disse Judith, que esteve pesquisando assuntos científicos, "Não estou apaixonada e não vejo a hora de explicar minhas medidas para dispensar prostitutas e fertilizar virgens por lei do Parlamento".

Continuou falando de uma invenção sua que deveria ser construída nas estações de trem e em outros lugares públicos, invenção essa que, por uma pequena taxa, protegeria a saúde da nação, acomodaria seus filhos e aliviaria suas filhas. Pelo jeito, ela tinha inventado um método de preservar, em tubos lacrados, os germes dos Lordes Chanceleres do futuro ou, nas palavras dela, "poetas, pintores ou músicos", ela continuou, "supondo, obviamente, que tais espécies não estejam extintas e que as mulheres ainda se interessem em ter filhos".

"Mas é claro que queremos ter filhos!" disse Castalia toda impaciente.

Jane bateu na mesa. "Esse é justamente o ponto que viemos discutir", disse. "Faz cinco anos que estamos tentando definir se continuamos ou não com a raça humana. A Castalia antecipou a nossa decisão. Fica para o restante de nós nos decidirmos".

Então, em sequência, nossas mensageiras se levantaram e apresentaram seus relatos. As maravilhas da civilização excediam muito nossas expectativas, e, conforme descobríamos que os homens voavam, falavam uns com outros atravessando distâncias, penetravam os mistérios de um átomo e abraçavam o universo em suas especulações, um murmúrio de admiração nos escapava dos lábios.

"Estamos orgulhosas", dissemos, "que nossas mães tenham sacrificado suas juventudes por uma causa assim!" Castalia, quem estava ouvindo atentamente, parecia mais orgulhosa que o resto de nós. Então, Jane nos lembrou que tínhamos ainda muito que aprender, e Castalia pediu que fizéssemos rápido. Continuamos analisando uma vastidão de dados estatísticos. Descobrimos que a Inglaterra tinha uma população de muitos milhões e que alguma percentagem desse número passava fome constantemente e estava na prisão; que o tamanho médio da família de um trabalhador é tal e que um número muito grande de mulheres morria de moléstias causadas pelo parto. Foram lidos relatórios de visitas a fábricas, oficinas, favelas e estaleiros. Foram dadas descrições da Bolsa de Valores, de uma grande casa de negócios da cidade e de uma repartição do governo. As colônias britânicas foram, então, discutidas, e alguns relatos nos foram dados sobre a Índia, a África e a Irlanda.

Estava sentada ao lado de Castalia e percebi sua inquietude. "Não devíamos nos precipitar com conclusão nenhuma agora", ela disse. "Aparentemente, a civilização é bem mais complexa do que imaginávamos, não seria melhor nos limitarmos à nossa questão original? Concordamos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. Até agora, só falamos de aviões, fábricas e dinheiro. Vamos falar sobre os homens mesmo e sua arte, já que esse é o centro da questão".

Assim, as que foram jantar fora se apresentaram com grandes folhas de papel contendo as respostas para várias questões. Tais questões foram estruturadas depois de muita consideração. Um homem bom, conforme concordamos, deve, a qualquer custo, ser honesto, apaixonado e espiritual. Mas a única forma de descobrir se um homem possuía ou não essas características era fazendo perguntas, geralmente, começando de uma distância remota do centro da questão. Kensington é um lugar bom para se viver? Onde seu filho está sendo educado, e sua filha? Agora, diga-me, quanto você paga pelos seus cigarros? Falando nisso, Sir Joseph é um barão ou apenas um cavalheiro? Normalmente, descobríamos mais coisas com perguntas triviais desse tipo do que com aquelas mais diretas. "Aceitei meu título de nobreza", afirmou Lord Bunkum, "porque minha esposa assim desejava". Não consigo nem lembrar quantos títulos mais foram aceitos pelo mesmo motivo. "Trabalhando quinze das 24 horas como eu trabalho", começavam dizendo dez mil trabalhadores. "Não, não, claro que você não lê, nem escreve. Mas por que você trabalha tanto?" "Minha prezada senhora, com uma família que cresce" "Mas por que sua família cresce?" Também era culpa das esposas ou talvez do Império Britânico.

Ainda mais significativas que as respostas eram as recusas em responder. Muito poucos respondiam a todas as questões sobre moralidade e religião e, se respondiam, não era de maneira séria. As perguntas sobre o valor do dinheiro e poder eram quase invariavelmente evitadas ou ofereciam grandes riscos a quem perguntava. "Tenho certeza", disse Jill, "que se o Sr. Harley Botinhas Apertadas não tivesse fatiando o carneiro, no momento em que perguntei sobre o sistema capitalista, ele teria cortado minha garganta. A única razão de escaparmos com nossas vidas depois de tanta perguntação é que os homens são ao mesmo tempo famintos e cavalheiros. Eles nos desprezam demais para levar em conta o que dizemos".

"Claro que nos desprezam", disse Eleonor. "Enquanto vocês constatavam isso, eu fazia perguntas entre os artistas. Então, nenhuma mulher nunca foi artista, certo, Poll?” "Jane-Austen-Charlotte-Brontë-George-Eliot," gritou Poll, como um homem gritando rosquinhas em uma rua do bairro. "Maldita seja!" alguém desabafou. "Que chatice ela é!"

"Desde Sappho, nunca houve nenhuma mulher de qualidade", começou Eleanor, citando uma publicação semanal.

"Agora sabemos bem que Sappho era, de certa forma, uma invenção libidinosa do Professor Hobkin", interrompeu Ruth.

"De qualquer forma, não existe razão para supor que alguma mulher algum dia tenha sido ou seja capaz de escrever", continuou Eleonor. "E mesmo assim, sempre que estou entre os autores, eles não param de falar sobre seus livros. Magistral! Eu digo ou algo do tipo: é como o próprio Shakespeare! (já que a gente precisa dizer alguma coisa) e garanto a vocês que eles acreditam em mim".

"Isso não prova nada", disse Jane. "Todos eles fazem isso". E suspirou: "simplesmente não nos ajuda muito. Talvez seja o caso de examinar a literatura moderna. Liz, é sua vez".

Elizabeth se levantou e disse que, para dar conta de sua pesquisa, ela teve de se vestir como um homem e se fazer passar por um crítico. "Li novos livros de maneira bem constante nos últimos cinco anos", disse. "Sr. Well é o escritor vivo mais popular, então, vem o Sr. Arnold Bennett, em seguida, Sr. Compton Mackenzie; Sr. McKenna e Sr. Walpole pode ser considerados como se estivessem no mesmo patamar". Então, ela se sentou.

"Mas você não nos disse nada!" nos queixamos. "Ou você está querendo dizer que esses senhores superaram imensamente Jane-Eliot, e a ficção inglesa está -- onde estão essas críticas escritas por você?”

“Ah, sim, 'guardadinha com eles'. Guardadas, bem guardadas", disse ela, alternado de maneira inquieta a posição dos pés. "E tenho certeza que eles dão bem mais do que recebem".

Todas nós tínhamos certeza disso. "Mas", seguimos pressionando, "eles escrevem livros bons?"

"Livros bons?" disse ela olhando para o teto. "Vocês devem ter em mente", ela disse, falando com extrema rapidez, "que a ficção é o espelho da vida. E não se pode negar que a educação tem a maior importância e que seria extremamente irritante, se uma pessoa estivesse sozinha em Brighton, tarde da noite, sem saber qual a melhor pensão para se hospedar, e vamos supor que fosse um domingo chuvoso, não seria agradável ir ao cinema?"

"Mas o que isso tem a ver?" perguntamos.

"Nada, nada, nada, tanto faz", respondeu.

"Então, fale-nos a verdade", nós ordenamos.

"A verdade? Mas a verdade não é maravilhosa", ela confessou, "o Sr. Chitter vem escrevendo um artigo semanal, nos últimos treze anos, sobre amor ou torrada com manteiga e mandou todos os filhos para Eton".

"A verdade!" exigimos.

"Ah, a verdade", ela resmungou, "a verdade não tem nada que ver com literatura", sentou-se e recusou-se a dizer outra palavra sequer.

Tudo ficou super solto, sem conclusão.

"Senhoras, devemos tentar somar os resultados", Jane começou a dizer, quando um burburinho, que já tinha sido notado pela janela há algum tempo, apagou a voz dela.

"Guerra! Guerra! Guerra! Declaração de guerra!" - homens estavam gritando pelas ruas.

Olhamos umas para as outras horrorizadas.

"Que guerra?" gritamos. "Que guerra?"

Lembramos, muito tarde, que não nos ocorreu mandar ninguém para a Câmara dos Comuns. Simplesmente, esquecemos. Olhamos para Poll, que tinha lido prateleiras de livros de história da Biblioteca de Londres e pedimos que nos explicasse. "Por que os homens vão para guerra?", perguntamos.

"Algumas vezes, por uma razão; outras vezes, por outras", disse calmamente. "Em 1760, por exemplo,"... Os gritos que vinham de fora abafaram sua voz. "Novamente, em 1797. Em 1840, foram os austríacos, em 18661-1870, foram os franco-prussianos, em 1990, por sua vez".

"Mas já estamos em 1914!" nós a interrompemos.

"Ah, agora, eu não sei porque estão indo à guerra", admitiu.

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