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Sexismo de cada dia

por Ana Luiza Araújo Lopes

Entrei em um café em Cambridge hoje, chama Harriets, ao abrir a porta parecia que tinha aberto uma porta pra o passado. 

Um rapaz, vestido com calça social preta, colete e gravatinha nos encaminhou para a mesa. Olho em volta e vejo que todas as garçonetes estava vestidas como “maids” aquela clássica roupa de serviçais. Até não vi muito problema, mas junto com a roupa via o olhar baixo, o ombro baixo, e o constante Madam, your coffee is coming, madam do you need something else, madam. Éramos 3 mulheres, não muito mais velhas que aquelas moças trabalhando ali... 

Não sei explicar o que senti naquele lugar, mas aquela roupa trazia também um comportamento subserviente, e o mais engraçado os rapazes que trabalham naquele lugar, não tinham esse olhar, eram altivos e obviamente não me chamou de madam.

Me desculpem, mas pra mim naquele ambiente havia claramente uma política de gênero, uma que me deixou muito desconfortável, mas certamente não sentia metade do embaraço que aquelas meninas que trabalham ali sentem todo dia, vestidas daquele jeito. 

Eu me senti muito mal, e muito brava, certamente aquela porta não abrirei mais.


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Por que as titias estão paxonadas nas Guerrilla Girls

por Mazu



Hoje, resolvi falar de um movimento que merece ser falado, lembrado, amado, idolatrado, oh boy! Quero pedir as meninas do Guerrilla Girls em casamento, e elas provavelmente me diriam que não, que casamento é bobagem de uma sociedade machista e tals. Enfim, guerrilla girls, suas lindas!! 

1 - Quem são as Guerrilla Girls?

Nas palavras das gatas, ou melhor, gorilas:

"Somos um grupo de artistas mulheres que usa fatos, humor e visual chocante para expor sexismo, racismo e corrupção - no mundo da arte, na política e na cultura pop. Nós revelamos as entrelinhas, o subtexto, o que se faz vista grossa, o injusto" (...) "Tentamos retorcer um assunto e apresentá-lo de uma maneira que não foi feita antes, com a esperança de mudar a cabeça de algumas pessoas" (Käthe Kollwitz, uma das guerrilheiras fundadoras, em entrevista ao Estado de São Paulo).
 
Elas usam apelidos inspirados em grandes nomes femininos da arte, nas manifestações, nunca mostram o rosto, usam máscaras de gorilas (sério, como não amar?).

2 - Quando surgiram?

Elas começaram em 1985, em resposta a uma exposição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, a tal exposição, chamada de "Uma pesquisa internacional sobre pintura e esculturas contemporâneas", contava com 165 artistas, dos quais treze eram mulheres. Elas começaram com pôsteres nas redondezas do museu e foram crescendo. Passaram, então, a abordar não só temas relacionados à discriminação de gênero, mas também questões políticas e racismo.

3 - Por que máscaras de gorilas?

A lenda diz que uma das fundadoras era ruim de ortografia (história da minha vida) e escreveu gorila em vez de guerrilla. Outro motivo é que elas pretendem permanecer anônimas porque não querem o foco nas suas personalidades e sim nos fatos que elas expõem sobre machismo, racismo e discriminação.

4 -  O que elas fazem?

Como disse, elas começaram com pôsteres mostrando como a participação das mulheres nos museus era pequena. Conforme o movimento foi crescendo, os manifestos começaram a aparecer em outdoors. Grandes, gigantes manifestos com estatísticas, nomes e fontes. Muita gente ficou desconfortável, sabe? Essas feministas deselegantes, sério, como não amar?
Hoje, o movimento está maior com três divisões e com bastante reconhecimento. Elas fazem tours com workshops e apresentações teatrais.

Vale ler sobre, falar sobre e macacar por aí. Uma boa fonte é a Bravo! deste mês, na matéria da Nina Rahe, outra linda, sobre artistas mulheres.


Alguns exemplos do trabalho das Guerrilla Girls:

As vantagens de ser uma artista mulher:
1- trabalhar sem a pressão do sucesso;
2- Não ter que participar de apresentações com homens;
3- Ter uma fuga do mundo da arte em seus trabalhos gratuitos de free lancer
4- Saber que sua carreira pode decolar quando você tiver 80
5- Ter a certeza de que independente do tipo de arte que você produz, sua obra será classificada como feminina;
6- Não ficar presa em um cargo de professor titular;
7- Ver suas ideias no trabalho dos outros;
8 - ter a oportunidade de escolher entre a carreira e a maternidade;
9 - Não ter que engasgar com aqueles charutos enormes ou pintar vestida com ternos italianos;
10 - Ter mais tempo para trabalhar quando seu parceiro te larga por alguém mais novo;
11- Ser incluída em versões revisadas da história da arte;
12- Não ter que passar pela vergonha alheia de ser chamada de gênio;
13 - Ter suas fotos usando roupa de gorila publicada nas revistas de arte.

Pop-quiz das Guerrilla Girls:
Q. Se novembro* é o mês da consciência negra, e março o mês das mulheres, o que acontece o resto do ano?
R. (invertida) discriminação.

O Oscar anatômicamente representado:
Ele é branco e homem como os caras que ganharam.
Melhor diretor é um prêmio que nunca foi concedido a mulheres.
92,8% dos prêmios de roteiro foram concedidos a homens.
Apenas 5.5% dos prêmios de atuação foram concedidos a pessoas negras.

As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte Moderna?
Menos de 5% dos artistas são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.

É isso, minha gente, chega de corpos brancos e sarados e carinha de pato nas fotografias. Não sei vocês, mas eu vou ali por uma máscara de gorila e sensualizar nas internets. ;)


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Biologia da Evolução e Feminismo

por Roberta Gregoli

Uma leitora querida nos enviou um vídeo que me inspirou a abordar um assunto no qual venho pensando faz algum tempo: a biologia da evolução. Reproduzo abaixo o vídeo, que serve como ilustração para alguns pontos que quero traçar, mas já adianto que o conteúdo é ofensivo, de mau gosto e traz informações imprecisas:


Eu já havia detectado vários problemas no vídeo, mas para os detalhes científicos que desconheço entrevistei um amigo que faz doutorado na área aqui na Universidade de Oxford. Como ele não fala português, expliquei a tese do vídeo e os principais argumentos mobilizados e a primeira reação dele foi: "Um abastardamento da ciência!".

A partir daí ele foi me apontando as barbaridades imprecisões propostas pelo vídeo, que discuto abaixo, incorporando também a minha interpretação enquanto feminista.


Mito: Os poros nos seios e bunda liberam mais feromônios, por isso os homens gostam mais dessas partes


Primeiro, a atração por seios e bunda está ligada à visão, não ao olfato. Apesar da explicação capenga do 'professor' - que, aliás, acho que diz mais sobre o seu gosto pessoal por sexo oral (e aqui fica o meu único ponto positivo para ele!) - ninguém fica excitado por cheirar um seio, como qualquer assinante da Playboy pode atestar.

Em segundo lugar, nós, feministas, sabemos muito bem que os ideais de beleza são culturalmente construídos e socialmente impostos. Como já vimos, o padrão de beleza na Idade Média era de seios pequenos e testas largas. Como explicar essa mudança de acordo com o argumento do vídeo? Os poros dilatados que liberam feromônio migraram da testa para a bunda?


Mito: Lucy se escondia numa moita e o cheiro de sua genitália atraía parceiros sexuais


Ahn? Numa moita? Ele estava lá pra ver, né? Só pode, porque do punhado de fósseis existentes, não há um único que tenha sido encontrado numa moita ou com qualquer vestígio que possa indicar esse padrão para a cópula.

Marofa de pomba nada!
Igualmente sem embasamento é a história do cheiro da vagina, elegantemente colocada pelo 'professor' como "marofa de pomba". E é este o ponto mais negativo do vídeo, na minha opinião: ele reforça um clichê dos mais toscos (quem nunca ouviu piadas que comparam o cheiro da vagina ao do bacalhau?). A associação entre vagina/mulher e sujeira/impureza é antiquíssima, presente em diversas religiões tradicionais, e essa é uma maneira de atualizá-la para um contexto contemporâneo laico. Parabéns por esse desserviço, 'professor'!


Mito: A migração do canal vaginal criou a família nuclear


O bonobo (Pan paniscus), a espécie mais próxima do ser humano, e a única em que a fêmea tem o canal vaginal na mesma posição que as mulheres, não se organiza em torno da família nuclear. Ponto. Toda a tese da 'aula' vai por água abaixo.

E nem precisamos entrar no detalhe de que não é preciso transar na posição papai-e-mamãe para ser capaz de identificar x parceirx. Ah, e 'papai-e-mamãe' em inglês é missionary position, não father and mother, ok?


Just-so stories


Esse tipo de narrativa sem embasamento científico sólido é chamada na ciência e na filosofia de just-so stories ('foi mais ou menos assim', numa tradução livre) ou falácia ad hoc. Explicações desse tipo concatenam fatos observáveis - A, B, C - e criam uma narrativa (fictícia) que mais ou menos explica como se chegou de A a B a C.

E vale lembrar que a evolução não é um agente inteligente, com uma agenda presciente, sabendo onde quer chegar. Muitas coisas acontecem simplesmente por acaso e tentar encontrar um único fator que explique algo tão complexo como a formação da família nuclear não passa de um disparate.

Fato - hipótese - resultado: Essencialismo biológico


O Gene Egoísta


Mesmo Richard Dawkins no livro O Gene Egoísta, de 1976, considerado um divisor de águas do campo da biologia da evolução, não escapa do sexismo.

O livro traz um capítulo cujo título, "Batalha dos sexos", já anuncia o contexto no qual o autor enxerga as diferenças sexuais. O capítulo é permeado por linguagem sexista, com o óvulo sendo o "gameta honesto" e o espermatozoide o "gameta explorador" (p. 142*), os homens como sendo 'imprestáveis' ("Males, then, seem to be pretty worthless fellows", p. 143; homem como ser inútil é uma das estratégias de opressão do patriarcado - ao constantemente colocar a mulher no lugar retórico de superior, justifica-se maior cobrança e imposições às mulheres); e é interessante quando ele começa a narrar um cenário fictício em que existem dois sexos, iguais e sem hierarquia, A e B (pp. 300-301), e no final da história acontece, sem querer querendo, que A é o sexo masculino...

Não é o caso de atacar a biologia da evolução em si, mas a frequente falta de embasamento crítico e ético ao se fazer ciência. A ciência não é produzida no vácuo e xs cientistas inevitavelmente trazem sua bagagem cultural e social para suas hipóteses, análises e conclusões. Basta estudar um pouco da história da sexualidade para ver como a ciência já tratou as mulheres de maneira perversa. Não ter consciência e não incluir essa dimensão crítica com relação à própria formação resulta quase certamente na (re)produção de conhecimento preconceituoso.

De fato, sob o selo legitimador da ciência, muitos estereótipos de gênero nocivos são propagados: como o cérebro 'enxerga' homens e mulheres de maneira diferente ou mesmo como mulheres negras são menos atraentes que mulheres de outras etnias (sim, racismo puro por parte do doutorando da LSE, que mais tarde foi totalmente rechaçado). Essas pesquisas até têm sua utilidade, já que escancaram o que nós, feministas, tanto repetimos: que existe uma diferença na percepção de homens e mulheres e que o padrão de beleza imposto é branco, no caso desses dois exemplos. Mas o problema é que, despidas de questionamentos de ordem política, social e cultural, elas acabam por reforçar o que nós com tão duras penas tentamos minar e questionar.

Ao prover explicações baseadas somente na dimensão biológica (cérebro, cromossomos, hormônios), essas pesquisas afirmam as desigualdades como naturais, não sociais. Muitas vezes ignorando o debate natureza x cultura, esse tipo de pesquisa coloca a cultura (normalmente machista, classista e racista) como consequência inescapável de um hardware pré-instalado em nós, seres humanos.

Em contrapartida, o que nós, feministas, propomos é, no mínimo, que fatores sociais sejam levados em conta e que esses estudos sejam vistos não só como inseridos numa cultura como também como instrumentos de sua propagação. É por isso que precisamos de mais mulheres e mais feministas no campo da biologia da evolução.


* As páginas se referem ao original em inglês: Dawkins, Richard. The Selfish Gene: New Edition. Oxford, New York: Oxford University Press, 1989.

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"Pare de fingir que você é um ser humano"

por Thais Torres

("Pare de fingir que você é um ser humano")

Tomei conhecimento a respeito do "Project Unbreakable" pelo Facebook. Uma colega de trabalho (e leitora do blog) postou em sua página da rede social fotos do projeto e o link para o site. Fiquei chocada e não nego que me emocionei algumas vezes ao escolher as fotos para postar aqui.

O projeto foi criado em 2011, por Grace Brown. Trata-se de uma ideia simples e chocante na sua simplicidade. Sobreviventes de estupros são fotografados segurando cartazes em que se pode ler as frases que seus agressores disseram no momento do crime. Há ainda imagens em que as vítimas apresentam o que ouviram quando ousaram denunciar. Em geral, a crueldade desses dizeres gira em torno de dois pontos: a vilania que se declara como tal e a que se disfarça, ocultando-se em um discurso pretensamente amoroso e familiar. O fato é que pouco importa o que o estuprador diz ou como sua mente doentia julga esse ato cruel. Todos eles (pais, avôs, tios, maridos, colegas de escola ou desconhecidos) querem dizer o mesmo: Você não é um ser humano. 

A maior parte dos estupros é cometida por pessoas próximas da vítima. Isso é de uma crueldade ímpar, pois o agressor é alguém em quem a mulher geralmente confia ou depende. A ideia de "eu vou cuidar de você" aparece de uma maneira particularmente cruel em uma das imagens abaixo. Assim como o "beijo de boa noite" que o agressor exige de sua vítima.

  


 


(À esquerda, "Seus pais sairam para jantar, mas não se preocupe. Eu vou cuidar de você". À direita, "Me dê um beijo de boa noite")


Não bastasse a violência física, o estuprador quase sempre humilha a vítima, fazendo com que ela acredite que não é um ser humano, que mereceu isso, que até desejou ser estuprada e que ela teria gostado (ou deveria gostar) do que aconteceu. Tudo isso com um único objetivo: fazer com que a vítima se cale.

Na sequência abaixo, selecionei uma das poucas fotos do site que apresenta uma vítima do sexo masculino. É impressionante como o discurso é sempre o mesmo.



(À esquerda, "Seja forte", "Você não vai falar uma palavra sobre isso". Meu tio quando eu tinha 11 anos. À direita, "Se você contar para alguém seus pais não vão te amar mais")



("Não se preocupe. Meninos costumam gostar disso")


(À esquerda, "Isto é um teste. Se você contar para mamãe nós dois sabemos que você não será confiável". À direita,  "Ninguém vai acreditar em você. Eu sou seu marido e é a sua palavra contra a minha")

A culpa, inevitavelmente, é da vítima. Ela provoca, consente e até, para alguns, aprova o ato. Humilhada, silenciada, violentada naquilo que possui de mais íntimo, não há espaço para qualquer protesto. E ela é obrigada até mesmo a limpar a "bagunça" que ela mesma teria provocado.

("Anda logo e limpe essa bagunça". Ele estava se referindo ao sangue e ao sémen no chão)

Mas não são só os agressores que culpam a vítima. Na foto abaixo, a frase dita pela irmã choca pelo descaso com a situação. De fato, o único culpado do estupro é o estuprador. Mas isso não quer dizer que a família e a sociedade não possam se mobilizar, ao menos para compreender a dor de quem passou por esse trauma terrível.

("Não é nossa culpa que ela tenha bebido e se colocado nesta confusão. 
Diga a ela para superar isso". Minha irmã para minha mãe.)


Na sequência de fotos abaixo, o julgamento que vem de toda parte.



(À esquerda, "Por que você está chorando?". À direita, "Não estou questionando o que você está dizendo, mas demorou muito tempo para que você respondesse as perguntas" - Psicólogo.)
















(À esquerda, "Eu não a estuprei. Ela gostou quando doeu. Eu apenas dei a ela o que ela queria". À direita,  "Você namora um homem 20 anos mais velho. Não me surpreende que isso tenha acontecido com você" - Policial)


 
(À esquerda, "Por que você não quis fazer sexo com seu namorado?" - Ginecologista. À direita,  "Para alguém que foi estuprada, você não parece estar em estado de choque" - Psicólogo)

Parece impossível pensar qualquer coisa diante dessas frases e dessas imagens. A única coisa que consigo é admirar a coragem dessas pessoas que seguram esses cartazes, relatam essas histórias e tiram essas fotos, quer mostrando seus rostos ou mantendo-se anônimas. São sobreviventes e esse motivo já é suficiente para admirá-las.

PS: Agradeço à Luciana Balduíno pela sugestão (ainda que indireta) que deu origem a este post.

PS2: Peço desculpas pelas traduções. Não é minha praia, definitivamente.



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O que sua mãe gostaria de ser, além de sua mãe?

por Mazu


Uma vez, um colega com que trabalhei há algum tempo atrás me perguntou: "Por que quase não existem grandes nomes femininos na literatura?". Logicamente, refutei e citei os dois ou três nomes que me surgiram de pronto na cabeça, mas ele continuou dizendo que eram realmente poucas se comparadas com o grande número de homens. Eu era bem verde naquela época, estava no primeiro ano do curso de Letras e, diante da realidade, respondi: sei lá, talvez seja porque as mulheres são mães, e ser mãe é um negócio que exige muito, né?

Depois disso, na universidade, levei o assunto a um amigo querido e super estudioso de literatura que me disse: acho que não tem a ver, a Cecília (Meireles) teve filhos e era incrível como poeta e como mãe. Pelo menos, é o que dizem. 

Com o Coletivo Feminista e um breve período de militância estudantil, percebi que a questão era outra. E, ontem, lendo uma matéria maravilhosa da Nina Rahe, na Bravo!, decidi retomar essa questão. Antes disso, preciso dizer que a matéria em questão, "Mulheres ainda são minoria na arte?", está imperdível. A Carta da Redação que é tipo um editorial também está bem legal, pelo menos, a parte que a Nina escreveu, a parte do Editor-Chefe, o "machista involuntário", está meio besta. Mas vale demais a leitura.



Vou começar pela conclusão, afinal, estamos aqui para subverter. As mulheres ainda são minoria na arte (e em vários outros espaços) porque o patriarcado nos mantém "na cozinha". Entre aspas porque não é necessariamente na cozinha, mas nos lugares em que nos é permitido existir, numa sociedade super patriarcal. De maneira, às vezes, velada, às vezes, escancarada, o patriarcado vai nos dizendo os lugares que, como mulheres, podemos ocupar ou não. A Bárbara escreveu um post bem legal sobre o espaço urbano, sobre ocupar espaço de maneira física, e sempre falamos dos espaços de liderança nas questões sociais, mas, pela data de hoje e seu significado, compensa retomar a discussão.

Existem várias maneiras de manter uma mulher na cozinha, na matéria da Nina, por exemplo, ela mostra como determinadas obras são depreciadas financeiramente e artisticamente, depois que se descobre que a artista era mulher, e também como as mulheres não participavam de determinados movimentos artísticos por questões sociais, por exemplo, não participavam de discussões sobre os rumos da arte, porque isso foi feito em bares à noite, no século XIX. No século XVI, as retratistas mulheres não puderam pintar nus femininos porque isso não era socialmente aceito e assim vai.

Sob meu ponto de vista, uma das maneiras mais eficazes de nos manter "na cozinha" é a maternidade. Existe todo um mito sobre a maternidade envolver sacrifício e ser um trabalho de tempo integral que é muito eficaz na manutenção da ordem patriarcal. Se os filhos estão em primeiro lugar, todo o resto segue em segundo. E, nesse todo resto, está toda a vida de uma mãe que vai passar a ser mãe e só.

Por favor, eu tenho amigas queridas que decidiram ser mães e estão felizes com isso. De verdade, não questiono a opção, questiono só esse mito do sacrifício. Penso que se vivêssemos em uma sociedade mais igual, o sacrifício de criar um filho não seria tão grande, seria dividido entre os envolvidos. E mães poderiam ser outra coisa além de mães. 

Aqui em Brasília, tem uma propaganda de uma academia que me irrita a vida inteira! Ela mostra pessoas saradíssimas que não tinham tempo de malhar, mas agora têm porque a academia é 24 h de certo. Mas a questão é, na foto dos homens, colocam a profissão, nas fotos das mulheres, só colocam que ela é mãe e de quantos filhos. Sério, será que elas não são nada além disso?

Um monte de gente vai dizer, minha mãe é uma ótima profissional, ok, mas pode ter certeza que ela abriu mãe de uma porção de coisas para ser mãe e, talvez, ela nem seja a profissional que gostaria de ser, enquanto a maioria dos pais, dificilmente, mudam os planos por conta da paternidade. Que fique claro que este post trata da questão de maneira geral, este ou aquele caso isolado não tem como analisar.




Também vai ter quem diga "existem mães que abandonam seus filhos, existem pais que criam filhos sozinhos". Claro que existem! Só que, na minha vida, conheci apenas um. Em contrapartida, o número de mulheres que criam filhos sozinhas ou com uma participação inexpressiva dos pais é bem maior. E quando um pai vai embora ou trabalha demais ou vive sua vida, ele escuta um "você devia dar mais atenção pros seus filhos" ou, no caso de abandono, um "canalha", no máximo. Já as mulheres que abandonam filhos são a própria personificação do capeta, né? Onde já se viu? Só para constar, não acho que ninguém deve deixar os filhos, mas quem sou eu ou quem somos nós para julgar?

Estou com 31 e sou casada há um ano e meio, a pressão familiar sobre filhos vira e mexe aparece. Eu sobrevivo, ignoro, sigo a vida. Mas ser ou não ser mãe é, para a minha existência, uma das questões mais complicadas. Eu até queria ser, mas eu também queria passar em um concurso público, escrever uma estória e ter a minha vida, militar e tals. A impressão que a sociedade em que vivo me dá é que se eu decidir ser mãe, todo o resto vai ficar de lado. Outra impressão que essa mesma sociedade me dá é que se eu não for mãe ou não for mãe como se julga adequado, sou uma pessoa ruim e egoísta. Vai vendo o dilema. 

A decisão para qual me inclino, cada vez mais, é de não ser. Talvez se eu vivesse em uma sociedade em que ser mãe significasse o mesmo que ser pai, eu seria. Talvez se eu vivesse em uma sociedade em que casais em união homoafetiva tivessem o mesmo direito de ser mãe/pai que eu tenho, eu seria. No mais, me desanima muito pensar na possibilidade.

Bom, é isso. Feliz dia das mães ou feliz dia do sacrifício para as compas que optaram por isso. Talvez, o post tenha ficado um pouco pessoal demais. Mas penso que essa questão da maternidade transcende mesmo o pessoal e o social. Talvez a gente devesse mesmo homenagear as mães e pensar no que elas são, no que gostariam de ser, além de mães.