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Versos e Subversas: Gioconda Belli





Gioconda Belli (Nicarágua, 1948) é uma das poetas nicaraguenses mais conhecidas dentro e fora de seu país. Ainda jovem se integrou às fileiras da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na luta pela derrubada do governo ditatorial de Somoza. Foi correio clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo recursos e divulgando a luta sandinista. E, claro, no meio de tudo isso, escrevia suas poesias. Com o triunfo da Revolução Nicaraguense, em 1979, ocupou vários cargos dentro do governo revolucionário. Com a posterior burocratização do partido no poder, Gioconda se afasta da FSLN e passa a criticar duramente seu “endireitamento”.

De início, a poesia de Belli, produzida no contexto da revolução nicaraguense, coloca grande ênfase na união dos nicaragüenses contra a tirania de Somoza, tratando o amor de um casal como metáfora da unidade sociopolítica e de gênero em oposição a tirania. Esse amor era "arma contra a opressão… o desejo dionisíaco que vence a morte, o desespero". Belli apresentava, então, a mulher como a entidade destinada principalmente a dar amor, associada com o sentimental e com o passivo. Ela era a natureza e a paisagem nicaragüenses, a terra que esperava ser possuída pelo amante-guerrilheiro (ativo, forte e que domina o espaço público), dicotomia de gênero própria do universo patriarcal.

Porém, Belli também já incluía em seus versos elementos inovadores da representação feminina, fissuras no discurso patriarcal que evidenciavam a negociação que a escritora fazia entre o tradicional e o novo.  Com a vitória da revolução nicaraguense, essas fissuras vão aos poucos crescendo e uma nova identidade feminina vai se assumindo como voz dominante em sua poética, ainda que com recaídas próprias das tensões com o velho discurso. Belli realiza uma corajosa autocrítica do eu-feminino, reconhece o excessivo idealismo com que encarava as relações amorosas, passa a questionar abertamente a submissão da mulher e a defender que esta possa estabelecer seus próprios limites, suas próprias regras, o que realmente quer ou não quer no amor.

Vista em sua totalidade, a poesia de Belli é um fantástico registro da trajetória do eu-feminino, com seus conflitos e contradições de identidade até uma consciência feminista. Um retrato bastante genuíno das latinoamericanas-lutadoras do século XX e começo do XXI, com seus acertos e também com sua incansável negociação com a opressão tradicional de nossa cultura machista e patriarcal.

Jeff Vasques

 
NOVA TESE FEMINISTA
(Gioconda Belli, tradução  de Jeff Vasques)

Como te dizer
homem
que não te necessito?
Não posso cantar a liberação feminina
se não te canto
e te convido a descobrir liberações comigo.

Não me agrada a gente que se engana
dizendo que o amor não é necessário
-"tenha medo, eu tremo"

Há tanto novo que aprender,
formosos homens da caverna a resgatar,
novas maneiras de amar que ainda não inventamos.

Em nome próprio declaro
que gosto de me saber mulher
frente a um homem que se sabe homem,
que sei de ciência certa
que o amor
é melhor que as multi-vitaminas,
que o casal humano
é o princípio inevitável da vida,

que por isso não quero jamais liberar-me do homem;
o amo
com todas suas debilidades
e gosto de compartilhar sua teimosia
todo este amplo mundo
onde ambos somos imprescindíveis.

Não quero que me acusem de mulher tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.

REGRAS DO JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES
(Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo)

I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.

II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.

III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.

IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.

V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.

VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.

VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com ações
e dar a vida, se necessário.

VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.

IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.

X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.

XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

NÃO ME ARREPENDO DE NADA
(Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)

Daqui, da mulher que sou,
às vezes me entrego a contemplar
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
trabalhadoras boas esposas
que minha mãe desejou para mim.

Não sei por quê
passei minha vida inteira me rebelando
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
a culpa que suas vidas impecáveis
por um estranho feitiço,
me inspiram;

revolto-me contra seus bons ofícios,
os prantos noturnos sob o travesseiro,
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.

Estas mulheres, no entanto,
olham-me do interior de seus espelhos,
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.

Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -

Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.

Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.

Irracionais boas meninas
rodeiam-me e desfilam suas canções infantis contra mim;
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.

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Sobre a violência psicológica

por Maria C.


Há uma forma de violência invisível, que estilhaça lentamente sem que vestígios evidentes de um crime sejam deixados. Falo da violência psicológica que se desenvolve no ambiente doméstico, em especial na vida a dois. Eis o drama: a falta de evidências materiais. Já foi escrito um post aqui, muito bom, por sinal, tratando da violência psicológica.

Temos uma legislação que protege da violência psicológica ou mesmo da violência moral que se perpetra contra a mulher no ambiente doméstico, art. 5º I e 7º, II da Lei 11.340/06:

“configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial no âmbito da unidade doméstica”.

Numa relação doméstica e/ou afetiva, a violência moral ocorre quando uma das partes, o dominador relativamente à outra, sua vítima, age repetidamente por palavras, gestos e atitudes a fim de aprisioná-la na relação: o dominado o seguirá inicialmente para satisfazê-lo, posteriormente por medo de frustrá-lo. Já a violência psicológica, também de cunho invisível e sutil, mas que dispensa o caráter habitual, é prevista expressamente nos arts. 147, 148, 139 e 140 do CP. Ou seja, ocorre violência psicológica quando a mulher é ameaçada da prática de algum outro crime ou violência dentro de seu ambiente doméstico, quando sofre injúria ou difamação – é ofendida em sua dignidade, é xingada. O clássico “vadia, puta”, ou então “sua inútil, imbecil, idiota, imprestável”, pode configurar esse crime.

Há inúmeras outras figuras que configuram estas espécies de violência: constrangimento ilegal, cárcere privado, vias de fato, abandono material, e ainda há a importante questão da violência patrimonial, tratada na esfera cível. Sabemos da dificuldade residente na denúncia destas espécies de crime. Mas o silêncio nunca levará à vitória ou à punição dos agressores.

E não se preocupe com seu marido, ninguém irá prendê-lo, torturá-lo! A Lei Maria da Penha prevê diversas medidas alternativas, esta é uma de suas qualidades – que se não encaradas com seriedade, se tornam em defeitos, em razão da inefetividade – assim, de início, determinam-se aos réus a participação em grupos de terapia, depois em medidas de afastamento, etc. O grande problema consiste no fato de que, bem ou mal, a família é uma instituição central no ordenamento jurídico (art. 226, CF), e nada obstante a mesma norma constitucional, em seu § 8º, determina que “O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.”

Intervir nos relacionamentos familiares implica na ingerência pública do espaço privado, permitindo-se a exposição predefinida e o respectivo questionamento dos papéis de cada um dos membros da família. Tal situação é extremamente desconfortável ao anteriormente estatuído, às situações dominadoras precedentes. Nesse ambiente se demonstra que os agressores consistem naqueles a quem a mulher está emocionalmente ligada: seu pai, padrasto, marido, filho (por vezes até mãe), conforme preceituado na Lei Maria da Penha, tratam-se das pessoas a quem a mulher está relacionada no ambiente doméstico e a quem se subjuga.

Em contrapartida, nada obstante a sutileza das formas criminosas, que evoluem para aspectos cruéis (tais como lesões graves e homicídios), a depender do grau de tolerância social, a relação de dominação – no caso de violência moral e psicológica – costuma ser aceita enquanto instrumento de educação ou coerção. Esta situação é reforçada pelos relatos de mulheres que procuraram delegacias de polícia (ao menos na região sul) e que, tendo relatado situações de violência moral ou psicológica foram orientadas a 'conversar melhor com seus maridos', e também ouviram que 'isso não era violência'.

Não sabemos se os policiais em questão estavam apenas com má-vontade, se estavam mal informados, ou se apenas eram machistas descumprindo deliberadamente a Lei material (Maria da Penha) e seu dever funcional de lavrar o Boletim de Ocorrência ante a notícia criminosa. De todo modo, devemos relatar a todas as mulheres que, diante de uma situação destas, em qualquer delegacia, o escrivão, o atendente, seja lá quem for, tem dever funcional de lavrar o Boletim de Ocorrência, pois incumbe apenas ao Juiz de Direito, através de uma sentença decidir se aquilo que você relatou configura crime ou não. Enfim, o policial não pode se recusar a lavrar o Boletim, por dizer que é 'briga de marido e mulher, e que é negócio de flores e tal'.

Nesse caso, anote o nome do policial, sua patente, seus dados, procure imediatamente a Defensoria Pública local, relate o caso (a violência doméstica sofrida, especialmente a exclusivamente psicológica e/ou moral), e também denuncie o policial ao Defensor Público. Caso em seu Estado não exista Defensoria Pública (como no Paraná, Santa Catarina e Goiás), vá direto ao Ministério Público local.

O mais difícil já foi feito, o direito foi previsto em lei. Vamos fazer com que o cumpram!

BIBLIOGRAFIA:
PORTO, Madge. COSTA, Francisco, Pereira. Estudos de Psicologia (Campinas) Vol. 27. Nº 4. Campinas Oct/Dec. 2010. Lei Maria da Penha: as representações do judiciário sobre a violência contra as mulheres. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2010000400006
HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: A violência perversa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

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"Faço porque gosto"

por Thais Torres



Recentemente, Gabriela Natália da Silva, conhecida como Lola Bevenutti, ganhou destaque na Internet. 21 anos, bonita e formada em Letras na UFSCAR, Gabriela decidiu ganhar a vida como prostituta, algo que muitas jovens estudantes fazem o tempo todo. O que chamou atenção não foi propriamente sua profissão, mas o motivo que ela alega ter sido determinante na escolha deste meio de vida. Em entrevista concedida para o canal de notícias G1, Gabriela afirma:

Sempre gostei de sexo, então tinha um desejo secreto de trabalhar com isso e não há nada mais justo. Faço porque gosto.

O que choca as pessoas não é o fato de Gabriela ser uma garota de programa bonita e inteligente, mas o fato de ela afirmar que gosta disso e que não se prostitui para pagar as contas ou sustentar os filhos pequenos. 

A imagem da prostituta sofrida e humilhada permeia a Literatura Ocidental (talvez a oriental também, mas minha ignorância não me permite afirmar isso categoricamente). Vide Sonya, de Crime e castigo ou  Fantine, de Os miseráveis. Um dos exemplos mais relevantes para nossa cultura está na Bíblia. Apesar da violência que a Igreja dirigiu às prostitutas ao longo da história, o livro sagrado dos católicos relata que, além de Maria, foi Maria Madalena, uma ex-prostituta, a única pessoa que esteve ao lado de Cristo durante a crucificação (apenas duas mulheres o acompanharam, portanto). Além disso, Madalena foi a primeira a constatar o milagre máximo e fundador do cristianismo: a ressurreição de Cristo.

Encontrei na Internet uma lista de 10 mulheres que interpretaram prostitutas no cinema e ganharam um Oscar pela atuação. A lista é antiga e não inclui  Anne Hathaway, que ganhou o Oscar este ano pela interpretação da famosa prostituta da obra de Victor Hugo.



O curioso  é que poucas são as prostitutas que durante todo o filme ou livro agem e argumentam sobre suas escolhas como a jovem e real Gabriela. A dama das Camélias, de Alexandre Dumas, por exemplo, diverte-se muito no início da história, mas acaba se apaixonando, sendo rejeitada pela família do rapaz e, após ser obrigada a abandoná-lo, sofre e morre tragicamente, arrependida de suas escolhas. 

Os exemplos são inúmeros. Basta lembrar de Vivian, a pretty woman de Julia Roberts ou mesmo da brasileiríssima Bruna surfistinha. Ambas vivem uma história de Cinderela, apaixonam-se por um homem rico e compreensivo, que as acolhe, enriquece e faz com que elas saiam da prostituição e adotem, de corpo e alma, padrões burgueses de comportamento, moda e estilo. Além, é claro, de serem fiéis e, portanto, felizes para sempre.



A imagem que cerca as prostitutas na literatura e no cinema é permeada pela culpa, pela dor e pelo sofrimento. Às vezes, algum glamour. Fico pensando qual é a vida real dessas mulheres e não consigo deixar de pensar que elas não ficam imunes ao desprezo e ao preconceito que um sociedade machista e conservadora como a nossa dirige a elas.

Não sei se vocês se lembram da Luisa Marilac. Celebridade instantânea da Internet, ela ficou famosa com um vídeo em que afirmava "não estar na pior", mergulhava em uma piscina localizada em um suposto ponto turístico do verão europeu. O uso precário da língua portuguesa e a falta de elegância real explicitavam a tentativa canhestra de forjar um pertencimento a uma elite a qual ela não pertencia. Elite essa que, por fim, riu de Luisa Marilac às gargalhadas ao longo de um (curto) período. De alguma forma, parecia engraçadíssimo rir da tentativa dela de tentar se parecer com quem a desprezava por completo.

Eu mesma, não posso ser hipócrita, ri de Luisa Marilac. Mas o riso tornou-se amarelo, constrangido e culpado quando recentemente vi outros videos no youtube protagonizados por ela. Em comum, só os erros de concordância. Nada mais.



O submundo da prostituição e a luta pela sobrevivência retratados nos vídeos tornam impossível o riso. Marilac conta sobre o dia em que quase morreu após um espancamento e pergunta, com a maior naturalidade, sobre as artimanhas que as jovens travestis adotam para não serem linchadas pelos "garotos que saem da balada". Parece comum apanhar, ser humilhada e forçada a fazer sexo de uma maneira que elas não desejam. Afinal, parece ser isso que as pessoas acreditam que elas - prostitutas, travestis, garotos de programa ou qualquer outra pessoa que faz sexo por pouco dinheiro - merecem.

Mesmo assim, muitas afirmam que "Faço porque preciso, mas eu gosto também", discurso que ecoa o da privilegiada ex-aluna da UFSCAR. Nos dois lados da prostituição, quer seja a menina rica que opta por fazer sexo por muito dinheiro ou a travesti pobre que faz o mesmo por poucos trocados, há o mesmo discurso: algumas optam por isso espontaneamente. Dois fatos me chamam a atenção:

1. Ao que parece, não é possível conceder o Oscar - ou ganhar notoriedade literária - para uma atriz que tenha interpretado uma personagem que QUER, DESEJA e GOSTA da prostituição. Seja ela rica ou pobre, em algum momento - no início ou no fim do filme ou romance, não importa - ela terá que sofrer.

2. Prostitutas - pobres e ricas - sempre foram estigmatizadas por simbolizar um universo em que o sexo se sobrepõe a todos os outros valores e interesses. Trata-se, segundo o filósofo francês George Bataille e o resto do mundo, de uma forma de sexo complementar ao casamento. Colabora com a manutenção do sexo ordenado e socialmente aceito, pois trata-se da institucionalização da transgressão. Cito Bataille, só para terminar:

O aspecto sagrado do erotismo (que as prostitutas incorporam, pois o universo em que elas se inserem celebra a necessidade do sexo e do prazer) convinha mais ainda à Igreja. Isso foi para ela a razão maior para maltratar (as prostitutas). Ela queimou bruxas e dexou vivas as mulheres do baixo meretrício. Mas afirmava a decadência da prostituição e se servia dela para sublinhar o caráter do pecado.

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Versos e subversas: Violeta Parra




VIOLETA PARRA (Chile, 1917-1967)
Cantora e compositora, poeta, ceramista, tecelã, pintora, pesquisadora e militante comunista, Violeta realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira como autodidata desde muito cedo. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Durante o ano de 1955 visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Em 1958 começa importante produção como artista plástica, chegando a expor no Louvre. Violeta Parra pode ser considerada a mãe da canção comprometida com a luta d@s oprimid@s e explorad@s, influenciando e inspirando milhares de artistas e trabalhadores na América e no mundo. Abaixo segue uma canção de Violeta, traduzida; um trecho curto de uma entrevista em que deixa clara sua posição acerca do caráter de sua arte; e um documentário (em espanhol) sobre essa mulher fascinante. Há uma ficção recente, chamada “Violeta se fue a los cielos”, de Andrés Woods, que apesar de não retratar tão intensamente a veia política da vida de Violeta, traz um tanto da poesia e luta dessa artista múltipla. Violeta Parra é uma mulher lutadora de "nuestra américa" que tod@s precisam conhecer!





Porque os pobres não têm 
(Violeta Parra)
Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a vista,
a voltam para os céus
com a esperança infinita
de encontrar o que seu irmão
neste mundo lhe tira.

pombinha!
que coisas têm a vida,
ai zambita!*

Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a voz,
a voltam para os céus
buscando uma confissão
já que seu irmão não escuta
a voz de seu coração.

Porque os pobres não têm
neste mundo esperanças,
se amparam na outra vida
como a uma justa balança,
por isso as procissões,
as velas, os louvores.

De tempos imemoriais
que se inventou o inferno
para assustar aos pobres
com seus castigos eternos,
e o pobre, que é inocente,
com sua inocência crendo.

O céu tem as rendas,
a terra e o capital,
e os soldados do Papa
lhes enche bem o embornal,
e ao que trabalha lhe metem
a glória como um cabresto.

Para seguir a mentira,
o chama seu confessor,
lhe diz que deus não quer
nenhuma revolução,
nem papéis nem sindicatos,
que ofendem seu coração.

* zamba: é uma dança cantada popular do noroeste da Argentinae que se espalhou por outras partes da América Latina.

Entrevista com Violeta Parra





Documentário sobre Violeta Parra (em espanhol)


(Seleção e tradução de Jeff Vasques)

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Um vagão pra mim, dois pra você: a guerra dos sexos quem insufla é o governo, não as feministas

por Tággidi Ribeiro


Nesta semana a Comissão de Transportes aprovou a separação de vagões para as mulheres, em ônibus e metrôs de São Paulo. Não consigo pensar de que ângulo pode ser defensável essa proposta, que em breve será apreciada pela Assembleia Legislativa do estado. 

As mulheres são 58% dxs usuárixs do metrô, mas certamente não terão 60% dos vagões a seu dispor. Se aprovada, além de não contemplar todas as mulheres, a proposta deixará ainda mais vulneráveis as tantas que não conseguirão lugar nos vagões a elas reservados. Imaginem a brecha para culpar as mulheres por seus próprios abusos: 'mas se ela estava no vagão dos homens...'.  Proposta retrógrada, me lembra de quando homens e mulheres não podiam estudar juntos na mesma escola, me lembra o mundo islâmico que tanto distingue espaços para os dois sexos, sem jamais resguardar de fato as mulheres porque a questão é cultural, definitivamente. 


As mulheres de todas as idades são assediadas por homens comuns, que julgam ser o assédio um direito seu, que julgam ser prova de 'macheza' 'aproveitar-se' delas. E o poder público só reforça essa percepção quando não pune adequadamente esses indivíduos, quando ignora na escola a necessidade mais que urgente de disciplinas que abordem (violência de) gênero, quando não esclarece apropriadamente sua polícia acerca do trato com as vítimas, quando não incentiva por meio de campanhas a denúncia. 


De uma perspectiva masculina, o que o poder público faz é apontar o dedo para todos os homens, como se fossem todos assediadores. Obviamente, se todos são suspeitos, fica dificílimo achar o culpado; se todos são culpados, não é possível punir alguém. Desde 2006 o Rio de Janeiro reserva vagões às mulheres, o que não fez diminuir o número de casos de assédio no transporte público. Na realidade, tanto o Rio quanto São Paulo viram as estatísticas de assédio e estupro saltarem - o que não sabemos é se há mais violência ou mais denúncias, fruto certamente mais da reação das mulheres que de esforços dos governos.

Tanto no Rio de Janeiro quanto na Índia, homens e mulheres disputam os vagões para mulheres. Essa guerra quem insufla são os governos. Em São Paulo, os vagões de metrôs e trens são disputados diariamente, sem distinção de sexo: fora a questão cultural, base que legitima a ação do assediador, o problema flagrante é a superlotação do transporte público, que praticamente zera a chance de defesa da mulher. Quem mesmo está cuidando de solucionar o problema da superlotação? De que ângulo mesmo a proposta do deputado Geraldo Vinholi do PDT é defensável?

Para mais reflexões, um post da Bárbara Falleiros (uma subvertida saudosa que logo volta!); um texto da Lola Aronovich e um do blog feminista da Carta Capital, por Nádia Lapa.

Educar homens e mulheres: o essencial.