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Versos e Subversas: Joan Baez


Aproveitando o texto da semana passada sobre a luta contra a "dependência afetiva" a que a mulher é """educada""", trago uma música muito interessante do Dylan e que fica ainda mais interessante na voz de Joan Baez (pela qual sou completamente apaixonado, me permitam a declaração).

Joan Chandos Baez nasceu em 9 de janeiro de 1941, em Staten Island, Nova Iorque, Estados Unidos. É considerada uma das maiores cantoras folk do mundo. Ativista, é também considerada uma das pessoas chave do movimento de protesto dos anos 60, ao lado de Bob Dylan, com quem foi "casada". Ambos participaram da marcha ao lado de Martin Luther King em Washington, 1963. Seus grandes sucessos foram compostos por Dylan especialmente para ela, desde 1961. Dona de uma voz poderosa, doce e extremamente afinada, seus sucessos sempre foram voltados para as canções politizadas. Nos anos 60 começou a misturar ritmos e sons latinos ao seu trabalho. Filha de mexicanos, Joan sempre se interessou pela musicalidade dos ritmos folclóricos da América Latina, chegando a participar de concertos e discos com Mercedes Sosa.

 Joan Baez, por mais que se diga não-feminista (em suas palavras, vê toda a humanidade fracionada e precisando de ajuda, e não só as mulheres) é certamente uma das cantoras fundamentais sobre a temática (procure, por exemplo, a canção "Birmingham Sunday" sobre o assassinato de 4 mulheres negras por racistas da Ku Klux Klan, ou então, "Bread and Roses", sobre a greve de trabalhadoras de uma indústria têxtil em 1912). Engajada em diversas causas políticas de seu tempo, sempre foi muito corajosa e deu a "cara a tapa" abertamente se posicionando contra machismos, guerras e políticas conservadoras. Inclusive, credita-se parte das razões do término da relação com Dylan, dentre outras coisas, a falta de posicionamento político explícito desse... e ela seguiu seu caminho.

A música que trago hoje, "It ain't me babe", não só crítica o padrão romântico de envolvimento afetivo, extremamente dependente a que as mulheres são "conformadas", como apresenta a possibilidade de uma nova forma de relação, aberta para o mundo e para as outras pessoas. Nada de "casais-gosma", fechados em si, nada de mulheres ou homens sanguessugas. Muito interessante que o discurso da música parte da negação, visível no título e no refrão. As canções de amor, em geral, partem da afirmativa: "você é o grande amor da minha vida!", "é você!", "eu faço tudo por você!"... e, aqui, Dylan (e Baez) vão negando, uma a uma, as proposições típicas do envolvimento afetivo romântico monogâmico, exclusivista e dependente: não sou alguém que vai sempre te ajudar; não sou alguém que vai sempre te impedir de cair; não sou alguém que vai morrer por você; não sou alguém que vai considerar tudo que você faz ótimo, só porque é você quem faz. O último verso, em especial, é muito forte e bonito: nega-se a idéia de um "amor para a vida"... ser um amor da vida é muito pouco!!! Dylan e Baez querem mais, toda uma geração, à época, ansiava por muito mais, por uma vida que não se fechasse em apenas um outro, mas que a partir desse se abrisse pra todos os demais e para o mundo, para as questões de seu tempo.

No lindo vídeo, abaixo, Joan Baez canta com aquele seu olhar meio ChicoBuarquiano, ao mesmo tempo doce e firme, ao mesmo tempo presente e ausente. E antes de começar a cantar ela diz: “Essa é uma música de protesto… dedicada a todas as pessoas casadas da audiência ou que estão pra se casar… porque eu sou contra o casamento!”. Para quem se interessar pela temática e pela cantora, vale muito a pena procurar seu "The Joan Baez Lovesong Album". Uma outra música do Dylan, também cantada pela Baez, sobre a desconstrução do amor romântico, é "Love is a four letters word". Mas esse é papo prum outro "Versos e Subversas"





NÃO SOU EU, BABY
(Bob Dylan, na voz de Joan Baez)

Vá embora pela minha janela
Vá embora na velocidade que você quiser
Não sou quem você quer, baby
Não sou quem você precisa.
Você diz que está procurando por alguém
Que nunca seja fraco, mas sempre forte
Para proteger e defender você
Sempre que você esteja errada ou certa
Alguém para abrir toda e qualquer porta.

Refrão:
Mas não sou eu, baby
Não, não, não, não sou eu, baby
Não sou eu quem você está procurando.

Vá calmamente do abismo, baby
Vá calmamente pelo chão
Não sou quem você quer, baby
Eu vou sempre te decepcionar.
Você diz que está procurando por alguém
Que prometa nunca partir
Alguém que feche seus próprio olhos por você
Alguém que feche seu coração
Alguém que morra por você e mais.

Refrão:
Mas não sou eu, baby
Não, não, não, não sou eu, baby
Não sou eu quem você está procurando.

Vá fundir-se novamente à noite, baby,
Tudo aqui dentro é feito de pedra.
Não há nada se movendo aqui
E, mesmo assim, eu não estou sozinho.
Você diz que está procurando por alguém
Que vá te segurar cada vez que você cair,
Que vá te dar flores constantemente
E que virá sempre que você chamar,
Um amor pra sua vida e nada mais.

Refrão:
Mas não sou eu, baby
Não, não, não, não sou eu, baby
Não sou eu quem você está procurando.


It Ain’t Me, Babe
(Bob Dylan)

Go ’way from my window
Leave at your own chosen speed
I’m not the one you want, babe
I’m not the one you need
You say you’re lookin’ for someone
Never weak but always strong
To protect you an’ defend you
Whether you are right or wrong
Someone to open each and every door
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

Go lightly from the ledge, babe
Go lightly on the ground
I’m not the one you want, babe
I will only let you down
You say you’re lookin’ for someone
Who will promise never to part
Someone to close his eyes for you
Someone to close his heart
Someone who will die for you an’ more
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

Go melt back into the night, babe
Everything inside is made of stone
There’s nothing in here moving
An’ anyway I’m not alone
You say you’re lookin’ for someone
Who’ll pick you up each time you fall
To gather flowers constantly
An’ to come each time you call
A lover for your life an’ nothing more
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

(texto e tradução de Jeff Vasques)

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Versos e Subversas: Dependência afetiva e poesia


Hoje, no Versos e Subversas, faço o cruzamento de poesias de duas grandes intelectuais e artistas (Rosário Castellanos e Idea Vilariño) para discutir um pouco da """educação""" afetiva das mulheres, a construção e imposição de sua dependência emocional e sua vulnerabilidade ao amor fatalista.



 

 MEDITAÇÃO NO UMBRAL
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)

Não, não é a solução
atirar-se debaixo de um trem como a Ana de Tolstoy
nem consumir o arsênico de Madame Bovary
nem aguardar na planície solitária de Ávila a visita
do anjo com a flecha
antes de amarrar o manto à cabeça
e começar a atuar.

Nem concluir as leis geométricas, contando
as vigas da cela de castigo
como o fez Sor Juana. Não é a solução
escrever, enquanto chegam as visitas,
na sala de estar da família Austen
nem fechar-se no ático
de alguma residência da Nova Inglaterra
e sonhar, com a Bíblia dos Dickinson,
debaixo de uma almofada de solteira.

Deve haver outro modo que não se chame
Safoni Mesalina nem María Egipcíaca
nem Madalena nem Clemencia Isaura.
Outro modo de ser humano e livre.
Outro modo de ser.




Neste primeiro poema, Rosário Castellanos busca repetidamente negar a vida de submissão e de condeanação trágica a que estão submetidas as mulheres: seja pela opressão social direta dos homens sobre sua liberdade de ação seja pelas saídas desesperadas a que se lançam as mulheres dominadas por amores  fatais. Ela nega as figuras típicas da subjetividade feminina na literatura e também um ou outro caso real, como a de Sor Juana, religiosa católica e poetisa, considerada a primeira feminista das Américas. São meditações que Rosário realiza sobre o destino das mulheres, seu fim, sobre o tipo de vida e morte que, em geral, têm ("meditação no umbral") e dialoga com sua própria experiência concreta: é público seu enorme sofrimento decorrente de suas relações amorosas conflituosas com o "don juan" Ricardo Guerra, que a mal tratava e a traiu diversas vezes. Essa situação conduziu Rosário à depressão, à hospitais psiquiátricos e tentativas de suicídio. É justamente contra este fim trágico, e que parece inevitável às mulheres, que se rebela Rosário.

 


A CANÇÃO E O POEMA
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Hoje que o tempo já passou,
hoje que já passou a vida,
hoje que me rio se penso,
hoje que esqueci aqueles dias,
não sei porque me desperto
algumas noites vazias
ouvindo uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora— de amor,
para que soubesses
como e quanto te queria,
quisera morrer, quisera… de amor,
para que soubesses…
Algumas noites de paz,
— se é que as há todavia—
passando como sem mim
por essas ruas vazias,
entre a sombra estreita
e um triste odor de glicínias,
escuto uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora — de amor,
para que soubesses
como e quanto te quería;
quisera morrer, quisera… de amor, para que soubesses…

Idea Vilariño, neste outro poema, expõe a típica imagem do ser "morto de amor" ou que deseja "morrer de amor": a incompletude e o vazio de sua vida sem o homem amado e a anulação de sua subjetividade evidente pelo desejo de morte. Assim como no caso de Rosário, é público o relacionamento conturbado de Idea com o grande escritor uruguai Carlos Onetti... Idea sempre o amou incondicionalmente e por isso sofreu terrivelmente, já que Onetti parecia oscilar em seus interesses com Idea, desenvolvendo um jogo de aproximações e desprezo regular. Idea se questionava por que sempre voltava a Onetti, o "burro, cachorro, besta" a quem dedicou todos seus poemas de amor. Por que o procurava mesmo depois das mais terríveis brigas? Idea, aparentemente, nunca conseguiu dar uma resposta clara a essa pergunta. Ironicamente, foi através de seus poemas de amor que, em geral, retratam seu sofrimento e anulação, que Vilariño se tornou conhecida. Impressionante ver como mesmo a raiva não tem lugar em seus poemas, a não ser uma raiva "fria", que se mostra indiretamente como no poema abaixo no desejo de morte do amante.



TE ESTOU CHAMANDO
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Amor
desde a sombra
desde a dor
amor
te estou chamando
desde o poço asfixiante das recordações
sem nada que me sirva nem te espere.
Te estou chamando
amor
como ao destino
como ao sonho
à paz
te estou chamando
com a voz
com o corpo
com a vida
com tudo o que tenho
e que não tenho
com desesperação
com sede
com pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.
Desde uma noite cega
desde o olvido
desde horas fechadas
no solo
sem lágrimas nem amor
te estou chamando
como a morte
amor
como a morte.


Tanto Rosário como Idea foram das maiores intelectuais de seu tempo, mulheres engajadas e lutadoras e que, mesmo assim, enfrentaram enormes conflitos internos, profundas contradições em suas relações afetivas. Isto porque uma sociedade machista as educou (e ainda educa as mulheres) para a dependência afetiva, para a aceitação do amor fatal como modelo, para a anulação de sua subjetividade, para que esta se veja como frágil, incapaz ou pouco capaz de realizar diversas atividades "próprias" dos homens, emocionalmente devotadas a um só grande amor (a um só grande homem) e, portanto, tendendo a estabelecer uma relação com o sexo menos livre. Não é preciso pensar muito pra perceber que isso forja  uma mulher com baixa auto-estima, totalmente ou em-grande-medida incapaz de estar sozinha e de fazer escolhas mais livres acerca de seus amores e relacionamentos.


Essa é a contradição profunda que as duas poetas enfrentaram com as armas de que dispunham: sua arte e sua luta concreta para transformar a sociedade. Acredito que ao espelhar em poesia seus sentimentos de submissão ou de amor trágico buscavam, de alguma forma, romper com esse ciclo, seja pelo questionamento direto (como em Rosário, ainda que sem encontrar possibilidades claras de saída), seja pela exposição nua e crua, mas profundamente elaborada, de seu sofrimento (como nos poemas de Idea). Dar palavras a esses sentimentos, transformar a opressão em poesia já é enfrentar a opressão íntima (socialmente construída), é se ver no espelho e permitir que outras também se vejam. E isso não é pouco. Mais do que expor as "fragilidades" de duas poetas, o intuito deste post, pelo contrário, é evidenciar a grandeza de suas lutas, a força de Rosário Castellanos e Idea Vilariño.


A luta feminista é profunda: deve não só enfrentar os casos mais cotidianos (e por isso mesmo terríveis) de violência contra as mulheres, mas também os aprisionamentos mais sutis da afetividade e da sexualidade feminina, libertando não só as mulheres de sua condicionada "fragilidade" e dependência afetiva, mas também auxiliando os homens a se libertarem de seu canalhesco don juanismo.


(Texto e traduções de Jeff Vasques) 

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Umberto Eco filosofando no feminino

por Tággidi Ribeiro


Publiquei uma série de textos chamada "Filosofia e mulheres", que criticava o prefácio machista do filósofo italiano Franco Volpi para o por demais machista livro "A arte de lidar com as mulheres", do Schopenhauer. Daí achei um texto do Umberto Eco que conta um tanto da mesma história da filosofia feita por mulheres que Volpi contou, mas sem menosprezar nem essa história, nem as mulheres. Vou reproduzir o texto de Eco em dois posts. É essencial.

Filosofar no feminino
Judite decapitando Holofernes, de Artemísia Gentileschi.
A antiga afirmação filosófica pela qual o homem é capaz de pensar o infinito ao passo que a mulher dá sentido ao finito pode ser lida de diversas maneiras: por exemplo, como o homem não sabe fazer filhos, consola-se com os paradoxos de Zenão. Mas, com base em afirmações do gênero, disseminou-se a ideia de que a História (ao menos até o século XX) nos fez conhecer grandes poetisas e exímias narradoras, e cientistas de diversas disciplinas, mas não mulheres filósofas nem mulheres matemáticas.
Em distorções desse tipo fundamentou-se por muito tempo a convicção de que as mulheres não tivessem talento para a pintura, a não ser Rosalba Carriera ou Artemísia Gentileschi, as de sempre. Natural que, enquanto a pintura foi afresco de igrejas, montar num andaime de saias não era coisa decente, nem era ofício de mulher dirigir um ateliê com 30 aprendizes, mas assim que foi possível fazer pintura de cavalete, as mulheres pintoras apareceram. Meio como afirmar que os judeus foram grandes em diversas artes, mas não na pintura, até aparecer Chagall.
Retrato de um homem, de Rosalba Carriera.
É verdade que a cultura judaica era eminentemente auditiva e não visual, e que a divindade não devia ser representada por meio de imagens, mas há uma produção visual de incontestável interesse em muitos manuscritos hebraicos. O problema é que era difícil, nos séculos em que as artes plásticas estavam nas mãos da Igreja, que um judeu fosse estimulado a pintar virgens e crucifixos. Seria como espantar-se por nenhum judeu ter se tornado papa.
As crônicas da Universidade de Bolonha mencionam professoras como Bettisia Gozzadini e Novella d'Andrea, tão bonita, esta, que tinha que dar aula escondida por um véu para não perturbar os estudantes, mas elas não ensinavam filosofia. Nos manuais de filosofia não encontramos mulheres ensinando dialética ou teologia. Heloísa, brilhantíssima e infeliz estudante de Abelardo, teve de se contentar em tornar-se abadessa. 
Hildegarda de Bingen.
Mas a questão das abadessas não deve ser subestimada; a elas se dedicou muitas páginas uma filósofa de nossa época, Maria Teresa Fumagalli. Uma abadessa era uma autoridade espiritual, organizativa e política, e desempenhava funções intelectuais importantes na sociedade medieval. Um bom manual de filosofia tem de enumerar, entre os protagonistas da história do pensamento, grandes místicas como Catarina de Siena, para não falar de Hildegarda de Bingen que, no que tange a visões metafísicas e perspectivas sobre o infinito, até hoje nos dá certo trabalho.    
A objeção de que a mística não é filosofia não se sustenta, porque as histórias da filosofia reservam espaço para grandes místicos como Suso, Tauler ou Eckhart. E dizer que grande parte da mística feminina dava maior destaque ao corpo do que às ideias abstratas seria como dizer que dos manuais de filosofia deve desaparecer, sei lá, Merleau-Ponty.  

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No olho do furacão: aborto e representação da mulher

por Maria C.



É fato o inchaço da legislação penal brasileira, e é também fato sua absoluta ineficácia.

Sem distorções: não sou a primeira a esbravejar contra a impunidade. Contudo, atribuir tratamento criminal àquilo que a sociedade não considera, é uma forma genial de protelar soluções: nada se resolve, mas se finge bem. Os problemas continuam reais e sumamente ignorados.

Juridicamente não há justificativa dentro da nossa Constituição para atribuir tratamento criminal ao aborto voluntário. Os constitucionalistas atuais entendem que a criminalização contraria os preceitos constitucionais que conferem dignidade humana à mulher, pois estes não estão sopesados na proteção absoluta do feto:

[...] tanto a vida do nascituro como os direitos fundamentais à saúde, à privacidade, à autonomia reprodutiva e à igualdade da mulher são interesses constitucionalmente relevantes, que merecem ser devidamente protegidos. [...] a solução legislativa dada ao aborto pelo vetusto Código Penal, em 1940, não ponderou adequadamente estes bens constitucionais em jogo, pois não atribuiu peso nenhum, ou praticamente nenhum, aos referidos direitos fundamentais da gestante. Parece-nos que seria bastante razoável adotar no Brasil solução semelhante àquela perfilhada por grande parte dos países europeus, que legalizaram a realização do aborto voluntário no trimestre inicial de gestação, mas, por outro lado, criaram mecanismos extra-penais para evitar a banalização desta prática, relacionados à educação sexual, ao planejamento familiar e ao fortalecimento da rede de proteção social voltada para a mulher. Uma solução desta espécie, na nossa opinião, não conflitaria com a Constituição, mas antes promoveria, de forma mais adequada e racional, os seus princípios e valores.[1]

Trata-se de opinião serena e majoritária na doutrina jurídica constitucional.

Se os Doutores da lei entendem que o sistema jurídico não justifica a criminalização do aborto, sua criminalização haveria de ter uma ampla aceitação social.

Eis a questão mais hipócrita deste Brasil. Embora as pessoas achem “errado” abortar, efetivamente há pouquíssimas prisões em decorrência do crime de aborto. Inclusive, desafio alguém a apontar uma pessoa real, sua irmã, sua prima, sua amiga, sua vizinha, que mereça ser presa unicamente por esta prática, você, acaso eleito jurado neste caso, a condenaria?

Sim meus caros, o aborto no Brasil é tão “terrível” quanto um homicídio, é um crime doloso contra a vida. Aliás, a mera tentativa de aborto leva a júri popular, passível de condenação. Você jurado, votaria sim ao quesito condenada e jogaria tal mulher na cadeia?

Parece-me, poucas pessoas teriam tal sangue frio: julgar que uma mulher deve ser encarcerada por tentar/retirar uma vida que poderia ter sido, apenas em tese, por efetuar o aborto de um feto, um embrião que o Conselho Federal de Medicina disse nada sentir pois não tem sistema nervoso central formado – defendemos o aborto apenas até este prazo, como em todos os países civilizados.

Neste caso há um pleno descompasso entre a lei e o sentimento de justiça que ela promove.

Ora, se as mulheres não merecem prisão por abortarem, porque não lhes permitir a realização do aborto em condições legais? Da forma como está o aborto é clandestino e gera apenas traumas, complicações, mortes e promove sempre a desigualdade.

Parece que temos assistido a uma falsa guerra santa, que afasta as pessoas do que realmente importa e do que o cristianismo buscava promover – a compaixão e a inclusão, e falo do cristianismo revolucionário dos Evangelhos, tão esquecido pelos nossos fariseus acusadores, padres e pastores, juízes do bem e do mau.

Em se tratando dos países latinos, Portugal, Espanha e Itália, todas as questões políticas passam pela fé e logo se aponta um inimigo oficial do cristianismo. Há sempre mouros a expulsar, e esta é uma questão que une os súditos, independentemente de suas práticas. Não há razão. Depois dos reis, Salazar, Franco, o próprio Mussolini usou a fórmula. Em tempos de caos, que venham as guerras santas.

Há 80 anos, nós mulheres não tínhamos direito a voto. O Código Civil de 1916 não atribuía plena capacidade civil à mulher casada – era uma espécie de eterna adolescente – que dependia da assistência do marido para os atos da vida civil. A situação cessou apenas com a edição da Lei 4.121/62, Estatuto da mulher casada (que dizia – o marido é chefe da sociedade conjugal); mas igualdade reconhecida e ainda em âmbito formal mesmo, apenas com a edição da Constituição Federal de 1.988.

Hoje as mulheres conquistam na vida real diversos papéis, por mérito exclusivo e próprio, galgando, pouco a pouco, posições de respeito e espaço profissional junto a áreas predominantemente masculinas.

De outro lado, a mídia nos representa como objetos de adorno de pouco valor, bibelôs substituíveis periodicamente por outro modelo mais atual, já que a única função é decorativa.

A TV aberta brasileira nos trata como putas ou santas – bundas ou rostinhos – mas jamais como seres humanos, pessoas com opinião, profissão, vida, sentimentos, enfim, cidadãs respeitáveis. Estamos lá a enfeitar, de forma sensual, pejorativa ou delicada. Função de menor de importância, secundária. Só.

Tanto antagonismo, entre representatividade e realidade, é extremamente nocivo. Quem são e o que reivindicam as mulheres reais? O que pensam e o que sentem além das preocupações com as próprias bundas e narizes?

A análise das transformações do papel social da mulher demonstra que estamos no olho do furacão e não sabemos. As questões referentes aos nossos direitos gerarão muita incompreensão e polêmica. Não à toa, a guerra santa é contra nós.



[1] SARMENTO, Daniel. Legalização do aborto e Constituição. www.mundojurídico.adv.br. 2005, p. 50-51.


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Versos e Subversas: Adela Zamudio


NASCER HOMEM
(Adela Zamudio)

Quanto trabalho ela tem
pra corrigir a torpeza
de seu esposo, mas na casa,
(permita-me o assombro)
tão inepto como fátuo
segue ele sendo a cabeça,
porque é homem.

Se alguns versos escreve
-“De alguém esses versos são
que ela só os subscreve”;
(permita-me o assombro)
Se esse alguém não é poeta
por que tal suposição?
-Porque é homem.

Uma mulher superior
em eleições não vota,
e vota o sacana pior;
(permita-me o assombro)
Com só saber assinar
pode um idiota votar,
porque é homem.

Ele se abate e bebe ou joga
em um revés da sorte;
ela sofre, luta e roga;
(permita-me o assombro).
Ela se chama “ser débil”,
e ele se apelida “ser forte”
porque é homem.

Ela deve perdoar
se seu esposo lhe é infiel;
mas, ele pode se vingar;
(permita-me o assombro)
em um caso semelhante
até pode ele matar,
porque é homem.

Oh, mortal!
Oh mortal privilegiado,
que de perfeito e honesto
goza seguro renome!
Para você que basta?
Nascer homem.

(tradução de Jeff Vasques)


Adela Zamudio (Cochabamba-Bolívia, 1854-1928) publicou seu primero poema aos 15 anos, entitulado "Duas rosas" e, desde então, não pararia mais de escrever, sempre assinando com o pseudônimo de "Soledad" (Solidão), seu nome de guerra. Apesar de ter cursado apenas até o terceiro ano do primário (essa era a educação máxima a que as mulheres bolivianas tinham direito à época), seu desejo por conhecimento e liberdade à leva a instruir-se por conta própria. Por suas idéias avançadas para a época é isolada socialmente e aprende desde cedo a lidar com a tristeza e solidão a que se viu ilhada.

Adela, já como professora, desenvolve uma fecunda atividade pedagógica buscando eliminar as travas reacionárias que conduziam a educação das jovens bolivianas. Em sua defesa dos direitos das mulheres de receber boa educação, Adela Zamudio clamava a necessidade de introduzir o laicismo nos  programas acadêmicos nacionais, lançando algumas propostas audazes para sua época, como a instauração do matrimônio civil, o direito ao divórcio e à separação dos poderes da igreja católica e do Estado. Impulsionou o ensino gratuito e laico, denunciou fortemente o ‘primitivismo patriarcal’ da sociedade e a exploração e dominação dominante. Adela Zamudio contribuiu com todos seus esforços para a formação do pensamento feminista na Bolívia: em 1921 aparece em Oruro o primeiro número da revista "Feminiflor", dirigida e escrita por mulheres que fortaleciam o ideal da liberação feminina; e, em 1923, se constituiu em La Paz a primeira organização autônoma de mulheres que lutou pelos seus direitos políticos, o "Ateneo Feminino". Por esse período, as mulheres se incorporavam ao movimento sindical, com sindicatos própios e com a Federação Operária Feminina.

Adela Zamudio forma parte da primeira geração de autoras hispânicas do período modernista que resistem à estética vigente. São autoras que apelaram em seus escritos a um projeto de autenticidade tanto pessoal e político como estético que desarticulava a visão estereotipada que se projetava da mulher no cânone socioliterário. Em Zamudio se encontra a prioridade dada a um compromisso íntegro com a realidade boliviana de seu tempo, denunciando o sistema em curso. Assim, Adela levou adiante seu projeto de legitimação e fortalecimento da mulher. Lydia Parada de Brown considera que "esta escritora boliviana foi uma das maiores da América, mas lamentavelmente não alcançou a fama de Gabriela Mistral, ou de Juana de Ibarbourou".  O poema que traduzi acima é um de seus poemas mais famosos.