3

Nossa guerra cotidiana


por Barbara Falleiros

Même la guerre est quotidienne.
 Marguerite Duras

Perdõem-me o teor egocêntrico desta introdução. Mas quando meus textos começaram a aparecer aqui no Subvertidas,  todo mundo achou assim... meio esquisito. É que, embora eu tenha estudado um pouco sobre a vida das mulheres na Idade Média, nunca tinha levantado bandeiras. Ninguém diria de mim com convicção: "Ah, aquela lá é uma feminista!" Certamente pela palavra carregar consigo um estigma muito grande. O fato é que conheço pouco da teoria feminista. Porém, como qualquer mulher, tenho minhas histórias de horror pra contar, guardo na memória a imagem enevoada do medo. Como toda mulher, enfrento as pequenas violências cotidianas, as piadinhas que parecem inocentes, os abusos verbais travestidos de cantadas, o dilema da família versus carreira, o acúmulo de responsabilidades, as pressões com relação ao corpo, à idade, à maternidade, aos cabelos brancos que já insisto em esconder...

Desde que comecei a escrever aqui, passei a observar com mais atenção esses detalhes cotidianos. No post de hoje reproduzo algumas notas sobre o que vi e ouvi nos últimos dias.

QUINTA-FEIRA

Acompanho por alto um grupo do Facebook que tentou organizar - sem sucesso - um debate com a Führerin do Femen Brazil, Sara Winter. Como não houve diálogo e o Femen Br perdeu sozinho toda a credibilidade, o tal grupo do Facebook mudou de rumo e passou a debochar da Sara, ao mesmo tempo em que tentava promover discussões feministas. O volume de mensagens é grande mas, se entendi bem, a Sara estava se fazendo de morta para evitar as perguntas quando alguém teve a ideia da seguinte "piadinha", com base na imagem, ao lado, do best-seller Onde está Wally? A resposta, que vinha em seguida, era esta:

E o pessoal achou graça. As semanas passaram e é como se nada tivesse restado da polêmica em torno do comercial do homem invisível, da Nova Schin. No entanto, os elementos da imagem são os mesmos: na praia, uma mulher é importunada por um jovem e, num sobressalto, acaba mostrando os seios; os dois homens que se viram para olhar a cena estão sorrindo, enquanto outras duas mulheres exibem uma expressão de espanto. Assim, esse livro que é um clássico da nossa infância mostra que submeter uma mulher a uma situação vergonhosa é engraçado (para os homens). E o pessoal riu... dentro de um grupo feminista, o pessoal riu. Como se não bastasse, a própria ideia da "piadinha" ridiculariza não só o sumiço, mas também a nudez de Sara nos protestos. Surpresa! Exatamente como a propaganda do Fiat Punto.

SEGUNDA-FEIRA
No trem. Duas mulheres adultas conversam ao lado de um homem de uns quarenta anos, vestindo terno e gravata. Ele interrompe uma delas: "Com licença, senhora, posso fazer uma pergunta?" A mulher, surpresa, responde com educação:  "Sim, claro, senhor!" E ele continua: "Vocês estão na menopausa? Por que não ficam quietas?"

... A violência do sexismo ordinário numa manhã de segunda-feira. Contei isso no meu mural do Facebook. Alguns ficaram chocados, sensíveis à agressividade da cena. Outros riram. Outros botaram na conta do tão famoso mau humor parisiense. Perguntaram-me o que as mulheres responderam. Não é difícil adivinhar: balbuciaram uma resposta, ficaram sem jeito e finalmente se calaram. O homem conseguiu o que queria.

Alguém acha graça?
Sinto muito, mas não tem graça. Tampouco é um caso de mau humor. O que este homem disse não é o fruto de uma reação individual de exasperação provocada por um estado particular de espírito, é a reprodução de um discurso arraigado sobre a relação das mulheres com a palavra. "Pleurer, parler, filer, femmes l'ont de nature", disse no século XIV o cronista Gilles Li Muisis, amigo de Dante: "É da natureza feminina chorar, falar e fiar". A mulher é tradicionalmente associada à esfera da sensibilidade, enquanto o homem é colocado do lado da racionalidade. E somos educados para isso. Meninos não choram, certo? Qual a porcentagem de homens num curso de literatura e de mulheres num curso de engenharia? A mulher sente e fala, o homem reprime e pensa. É por isso que este homem do metrô se considera no direito de repreender duas pessoas desconhecidas em um local público, simplesmente porque ele é o homem (sério, detentor da autoridade) e elas são as mulheres (desequilibradas, falam demais).

"A mulher louca é alvoroçadora, é simples e nada sabe", lemos nos Provérbios 9:13, enquanto que "A mulher sábia se mantém calada", lembra o Bispo Edir Macedo. Afirmar que a mulher fala demais é o mesmo que dizer que sua palavra não tem nenhum valor.

Isto não é uma piada, é uma estratégia de desvalorização da palavra feminina

QUARTA-FEIRA

 Nos corredores do metrô, passo por dois cartazes publicitários de uma marca de roupas. 

"Solteira, mas chique". Quanto sentido se esconde atrás de uma mera conjunção adversativa! Celibato e elegância, dois termos inconciliáveis que se unem por intermédio da Kookaï. O que diz a marca é que ela é capaz de conferir algum valor a uma pobre mulher incapaz de seduzir e manter um homem ao seu lado. Vestindo Kookaï e sem descer do salto, esta mulher troca sozinha o pneu do carro, já que não tem um homem que o faça por ela. Viva a independência! A marca tenta dar uma outra nuance à propaganda traduzindo "single" por "sozinha no mundo". Não convenceu. Aliás, não dá pra saber o que é pior.

"Esfomeada, mas chique". Uma geladeira cheia de salada, um iogurte na mão, do tipo desses "iogurte de mulher" com 0% de gordura e de açúcar. Apologia a um padrão de beleza magro e incentivo à anorexia, assim, abertamente. Os que conceberam esta propaganda devem ter se sentido muito orgulhos de criar um conceito "provocante", reprodução tão original do discurso dominante...

SEXTA-FEIRA

No ônibus lotado, cheio de idosos, um lugar fica vago. Um homem de uns 50 anos, com uma das mãos enfaixada, oferece o lugar para uma garota adolescente. Ela recusa. Ele insiste. Ela recusa novamente. Ele se senta e diz sorrindo: "Bom, se hoje em dia as mulheres não querem se sentar, sento eu!" Um homem educado, não é? Na verdade, não. Mesmo que ele tivesse as melhores das intenções, ao insistir para que a garota se sentasse, este homem estava assumindo que toda mulher é fraca, mais fraca que um homem, mais fraca que um homem mais velho e machucado...

DOMINGO

Comentando com uma amiga o nome curioso de um conhecido: "Ah, era um personagem de livro!" - digo. "Nossa, o pai dele devia gostar de ler!" - ela responde. O pai...  E por que não a mãe? Por que é o pai quem dá a palavra final com relação ao nome do filho? Por que se alguém na família tem um nível cultural elevado, é mais provável que seja o pai?

Pois esta foi a minha semana. 

Aqueles que estão tão bem acomodados a uma configuração social injusta lançarão mão de todas as estratégias de silenciamento, velhas como o mundo, e dirão mais uma vez que tudo isso é um grande exagero. Que é mania de perseguição, que é falta de senso de humor, que eu estou maluca, que não sei levar na brincadeira, que a gente é tudo um bando de drama queen, que é mal amada, que tem inveja porque é feia, que é burra e não entendeu, que bem-feito-quem-mandou-ser-desse-jeito, que não sabe fechar a matraca, que agora só falta chorar...

A força do machismo está no acúmulo de pequenas coisas. Um acontecimento isolado é um detalhe, um conjunto de pequenas coisas "sem importância" constitui um sistema de veiculação de ideias e valores que servem a uma determinada configuração do poder.

A realidade esta aí, toda, inteira. Basta ver e ouvir.

0

O corpo na berlinda - cirurgia íntima


por Tággidi Ribeiro


E eis que chegamos ao tempo em que há um padrão para a vagina. Não basta mais que esteja depilada, limpa e cheirosa, é necessário também que pareça uma vagina jovem, virgem (pois é), clara e magra (sim, magra). Essas vaginas-padrão vemos aos montes nos filmes pornográficos - completamente depiladas, lembram a genitália infantil, o que nos remete à questão da pedofilia, que não vou explorar nesse post. Além disso, essas vaginas-padrão nos dizem o quanto ainda somos preconceituosos, hipócritas e, claro, machistas. A vagina deve ser clara e magra, seguindo o padrão ariano. A vagina deve parecer virgem, pois a liberdade sexual feminina ainda não foi aceita e assimilada pela maioria dos homens (e, talvez, nem pelas mulheres). É evidente e essencial aqui, penso, a relação entre esses padrões e o mito da beleza e da eterna juventude.

Para alcançar a vagina perfeita, as mulheres se submetem, fora as sessões de depilação total, a clareamentos e à labioplastia. Nenhum desses 'tratamentos' é exatamente novo, mas todos estão se popularizando cada vez mais, com fins estéticos. A labioplastia é também chamada de cirurgia íntima e consiste basicamente em cortar ou inchar com gordura pequenos e/ou grandes lábios vaginais, de acordo com o 'defeito' que se julgue ter. O pós-operatório dura quase dois meses e, segundo os médicos, a cirurgia pode diminuir a sensibilidade dos lábios vaginais, o que leva à diminuição do prazer sexual.

O risco é alto mas, atendendo à demanda, por receio de ficarem sozinhas e por isso infelizes (outro mito), muitas mulheres deixam-se ao escrutínio do olhar alheio, o bisturi imaginário que as retalha constantemente nas revistas femininas, novelas, propagandas, nas ruas e dentro de casa. É certo que, se há submissão feminina aqui, há sobretudo muita pressão e muito poder masculinos, pois os homens são os donos das mídias (e também da rua). De toda forma, é difícil pensar em alguma parte do corpo feminino que não tenha sido avaliada e para a qual não haja um padrão: cabelos, olhos, pernas, barriga, joelhos, cotovelos, boca, nariz, bunda, peitos, costas, tornozelos, pés, mãos, ânus... e também nosso templo (?). 

Se me permitem a divagação: penso que assim se delineia o corpo pós-contemporâneo, por excelência feminino, já que da mulher se exige a manutenção e/ou 'conquista' da juventude e beleza. Esse é o corpo torturado, o corpo retalhado, costurado e cheio de cicatrizes. Não é a guerra, entretanto, nem o trabalho, que o torturam, mas a gama virtualmente infinita de intervenções estéticas que cortam, secam, incham, serram, enxertam... transformando-o em escultura sempre passível de remendos ou mesmo de refazimento. O corpo do nosso tempo é uma mulher em pedaços, permanentemente imperfeita.


50

E se sua irmã abortasse?


por Roberta Gregoli

Você iria visitá-la na cadeia?




Demorou mas juntei energias para abordar um assunto potencialmente sensível, porém essencial ao feminismo: o aborto. A primeira coisa que precisa ser esclarecida é que não existe feminista que seja "a favor do aborto", o que existe são pessoas contra a criminalização do aborto, o que é totalmente diferente. Nenhuma feminista quer que o pessoal saia por aí abortando... Mas também - e é esse o centro da questão - não quer que nenhuma mulher vá para a cadeia por interromper uma gravidez. Pense nisso: se você é "contra o aborto", você é a favor que mulheres sejam presas por praticá-lo.

By Laerte. Neste país NÃO se respeitam as decisões pessoais.
Mulheres assim são presas todos os dias.

E tem muita gente que diz que essas mulheres devem ir para a cadeia, sim. É que a discussão em torno do aborto é tão primária - alguém já viu algum debate decente, com um lado a favor e outro contra discutindo a questão? - que se resume a demonizar essas mulheres. Elas são colocadas como monstros que praticaram um ato criminoso e merecem pagar por ele. Acho que não é preciso discorrer sobre o papel da religião nessa linha de pensamento.

As coisas se tornam bem mais complicadas quando entendemos a dimensão da questão. Este mês foi concluído de maneira confiável o que até então eram estimativas: 1 em 5 mulheres de até 40 anos já praticaram aborto(s). Veja este ótimo vídeo, que, apesar de estar com os números desatualizados, vale muito a pena por traçar o perfil, surpreendente para alguns, da mulher que aborta:


Faça então um exercício bem concreto: saia na rua e conte 5 mulheres, uma delas já abortou. Pense em 5 mulheres da sua família. Uma delas já abortou. Talvez sua irmã ou sua mãe já tenha abortado. Mais difícil pensar em monstros e "assassinas", certo?

Um debate sério sobre o aborto nunca pode ser preto no branco: vida e assassinato, vilão (sempre vilã, infelizmente) e mocinha. Primeiramente, não consigo imaginar uma mulher optando pelo aborto de maneira leviana ou impensada, como muitos dizem num tom absolutamente cruel ("se liberar, aí ninguém mais se previne mesmo", "daí 'a mulherada' vai sair por aí abortando"). Trata-se de uma decisão extremamente difícil e dolorosa, e essa dor nunca deve ser menosprezada ou diminuída. Muitas vezes o parceiro não apoia a gravidez, ou mesmo encoraja o abortamento - este vídeo do filme Antonia (Tata Amaral, 2006) ilustra bem a situação - mas, caso descoberto, só a mulher vai para a cadeia, o que, vamos combinar, é uma tremenda injustiça por si só. Até onde me explicaram nas aulas de biologia, é preciso um homem e uma mulher para que haja a fecundação.


E vale salientar que a lei do aborto no Brasil na maioria das vezes só é, de fato, levada a cabo no caso de mulheres pobres e negras, como o vídeo acima coloca. Como dizem, se os homens engravidassem o aborto já seria legalizado há tempos. E eu vou mais longe e aposto que também já teria sido legalizado se mulheres brancas de classe alta fossem de fato presas por abortarem.

Numa perspectiva global, o mapa das leis do aborto deixa claro o alinhamento ideológico do Brasil com os países mais religiosos e conservadores do mundo, em total oposição aos países desenvolvidos.

Verde: sem restrição ou motivo, vermelho: somente para salvar a vida da mulher ou totalmente proibido.
Veja mais detalhes aqui.

Este é só o começo de um assunto que rende muito pano para manga e que deve continuar a ser discutido - e muito - até que as mulheres brasileiras finalmente conquistem o que, na verdade, é um direito: direito de planejar suas famílias, de planejar sua vidas, direito a ter controle sobre o próprio corpo, direito reprodutivo, enfim.

Mantenham suas opiniões longe dos nossos úteros

13

Violência Psicológica



por Mazu


Já falamos aqui no Blog em várias ocasiões sobre a violência contra a mulher e até sobre a violência da mulher contra o homem. Na maioria das vezes, falamos da violência física porque ela chama mais a atenção, é mais evidente pelas marcas que produz e, consequentemente, mais evidente nas estatísticas. 

A violência psicológica foi abordada de maneira geral porque quando falamos de diversos preconceitos e padrões acabamos tocando na questão. Se existe um padrão preconceituoso do que é mulher boa e certa e do que as que não o são merecem por não serem, isso é também violência psicológica.

O que aconteceu foi que, ontem, assisti um episódio de uma série policial que gosto muito chamada Criminal Minds, que tratou da violência doméstica psicológica.
Elenco de Criminal Minds

O enredo principal de "The Crossing", o episódio em questão, gira em torno de uma mulher que um dia disse "ops" para um técnico de informática que prestava serviço para sua empresa, e ele, então, com base nisso, passou a persegui-la e criou uma relação fantasiosa entre eles. Esse caso daria um debate bem interessante que vou deixar para a próxima, já que gostaria mesmo de comentar o enredo secundário, que trata de uma mulher que atirou no marido enquanto ele dormia.

Essa senhora nunca tinha sofrido nenhuma espécie de violência física, mas seus advogados estavam alegando "síndrome da mulher agredida" (tradução super literal, não sei se temos alguma coisa parecida no Brasil). Quando os agentes vão entrevistar os dois filhos do casal, eles dizem que o pai, na verdade, era super paciente com a mãe, que era uma péssima dona de casa e burra.  Os agentes visitam a casa da família que era muito limpa e tinha um esquema de organização quase milimétrico. E quando vão entrevistar a mulher, ela diz que não, que o marido nunca a agredira nem quando ela merecia e que, era, pelo contrário, muito paciente tendo em vista que ela era péssima em tudo. Disse também que não participava da vida escolar dos filhos porque já os constrangia bastante dentro do lar e não queria fazer isso também fora de casa. Ou seja, o marido criou para ela (e para os filhos) uma imagem de incompetente, incapaz e não-merecedora. E isso justificou anos de maus tratos (psicológicos) da família, enquanto ela era basicamente uma empregada doméstica na casa.
Mary-Margaret Humes, em sua excelente interpretação
da esposa assassina
Na hora, lembrei-me de diversas pessoas que conheci ao longo da vida, inclusive de mim mesma. Tive, durante a faculdade, por quase dois anos um namorado muito ciumento cuja tática era me fazer sentir burra e, às vezes, feia. Nunca chegou a nenhum extremo porque me livrei disso, graças a mim. Lembrei também de uma prima, uma amiga e do caso Yoki, que já comentei aqui. Mais uma vez, não quero dizer que devemos matar nem usar de violência, insisto nisso porque quando fui tratar do caso da Elise andaram dizendo por aí que eu estava defendo o ato dela, e eu não estava. Nem estou agora defendendo o ato da mulher fictícia que assassinou o marido no seriado. As Subvertidas são contra toda forma de violência. Estou só dizendo que a violência psicológica é uma das principais formas de dominação, se paramos para pensar. Já dissemos aqui, existe um imaginário idiota na nossa sociedade de que diz que tudo de ruim que acontece com uma mulher acontece por culpa dela. Esse imaginário besta junto com imposição psicológica e falsa de que não somos boas o suficiente ou não somos boas como são os homens em determinadas coisas é o que forma o aparelho da opressão feminina.

Lembra que a Tággidi escreveu sobre motivos para não casar? Então, essa crença do "amarre um homem se for capaz e, se não for, morra sozinha" é uma das maneiras de diminuir a gente. E mais, essa opressão psicológica "de ser menos" acaba por fortalecer outros imaginários patriarcais da nossa sociedade, tipo o de que precisamos de um homem para sermos inteiras, completas. O tipo de coisa que irrita muito. E as companheiras lésbicas? E se uma mulher simplesmente não quiser casar ou qualquer coisa do tipo? Porque, na real, relacionamento não completa, nem conserta ninguém.

E aí, enquanto esse aparelho da opressão funciona na nossa sociedade, algumas mulheres toleram violência, toleram o fato de trabalhar muito mais, como acabou de descrever a Bárbara, a gente vai ficando tolerante porque é incutida em nós a idéia de que temos que ser tolerantes, porque somos menos. Perigoso, não é mesmo? E já deu né? Passou da hora de romper com isso, nós não somos menos. Nunca fomos. Ser solteira não é defeito, muito menos ser independente. E se uma mulher tem um homem em sua vida, isso pode ser bom ou ruim, mas ela é o que é, com ou sem ele.

Hoje, estou de aniversário, 31, vai vendo. Minha irmã me ligou e eu estava me queixando de estar envelhecendo ao que ela respondeu: pelo menos você já casou. Fiquei tão chateada, de todas as coisas que já fiz nessa vida, em 31 anos, (não vou mentir: queria ter feito mais), mas, ainda assim, ela se lembrou só do meu casamento como um grande feito que deveria me acalmar diante do fato de passar dos trinta. Sei que ela não fez por mal, afinal, somos criadas assim. Escutamos nas novelas, filmes, em todos os lugares que casamento e filhos deveriam ser nossos grandes objetivos de vida. E é por isso que movimento feminista precisa crescer, ainda mais, para ocupar, ainda mais, esses espaços e quebrar esses padrões.

Enfim, todos os episódios de Criminal Minds começam e terminam com uma citação, vou copiá-los e terminar com a citação final do episódio que comentei:
"Woman must not depend upon the protection of man, but must be taught to protect herself."
Susan B. Anthony
(Uma mulher não deve depender da proteção de um homem, mas deve ser ensinada a defender a si mesma)

1

E a louça hoje é de quem?


por Barbara Falleiros

Este homem lava a louça! Ou quase...
A Organização Internacional do Trabalho publicou recentemente, em julho, o relatório  "Perfil do Trabalho Decente no Brasil - Um Olhar sobre as Unidades da Federação".  Ainda que avanços tenham sido constatados, as estatísticas comprovam a permanência de uma divisão desigual do trabalho doméstico, baseada no gênero. O peso das responsabilidades domésticas e familiares continua a recair sobre as mulheres, que acumulam uma jornada dupla. No cômputo geral, elas trabalham 5 horas a mais por semana do que os homens, sendo que realizam 12 horas e meia a mais de tarefas domésticas.

"Ao conjugarem-se as informações relativas às horas de trabalho dedicadas às tarefas domésticas e de cuidado com aquelas referentes à jornada exercida no mercado de trabalho, constata-se que, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado de trabalho ser inferior à dos homens (36 contra 43,4 horas), ao computar-se o tempo de trabalho doméstico dedicado aos afazeres domésticos (22 horas para elas e 9,5 horas para eles), a jornada semanal feminina alcançava 58 horas e ultrapassava em 5 horas a masculina (52,9 horas)."
Ele tem uma lava-louças e, sobretudo,
usa as pastilhas Senhor Limão, que
garantem uma louça brilhante!



O relatório comprova o quão perversa e viciada é a lógica do "Eu não vou lavar a louça porque volto cansado do trabalho", "Eu não preciso ajudar na limpeza porque eu já chego muito tarde em casa", "O meu trabalho é mais importante para a família porque eu ganho mais." Vale sublinhar que, segundo o IBGE, o salário feminino é 28% menor do que o masculino.

Em resumo, está comprovado o que sabemos:  a mulher ainda trabalha mais, ganha menos, obtém menos reconhecimento dentro e fora de casa. O fato de as mulheres trabalharem fora não acompanhou-se de uma evolução completa das mentalidades.

Mas estes dados tendem a focar uma certa organização no interior da família. Que dizer de pessoas solteiras, em especial, dos homens solteiros? Como eles vêem e exercem - ou não - as tarefas domésticas? Por curiosidade, xeretei algumas revistas dedicadas ao público masculino e outros sites do tipo para ver o que se dizia - ou não se dizia - sobre o trabalho doméstico. Aí vão alguns exemplos:

A independência do machão: uma mulher-canivete
com mil e uma utilidades
 1. "Resolveu cortar o cordão umbilical e sair da casa da mamãe? Seu casamento naufragou? Se você se enquadra em um desses casos, vai precisar montar um lar e recomeçar a vida. E, claro, ter uma faxineira." (Revista Men's Health) O exemplo não poderia ser mais revelador. Para a revista, que apresenta em seguida uma série de "dicas da diarista" para o solteiro perdido, o trabalho doméstico insere-se evidentemente numa esfera feminina.  O homem é tido como um ser incapaz de manter a casa em funcionamento, devendo estar sempre sob a dependência de uma mulher: primeiro a mãe, depois a esposa, na falta das duas, a empregada. Como escreveu certa vez a Lola, este modelo do homem inútil, do estilo solteiro bobalhão ao Homer Simpson casado, só reforça a divisão desigual do trabalho dentro de casa.

2. Ao discutir os "Cuidados com suas roupas" que os homens devem ter, a revista apresenta uma lista em que um só ítem pressupõe que o homem vá, de fato, lavar a sua roupa ("Como manter as cores vivas"). Os outros implicam a delegação da tarefa fastidiosa: "Quantas vezes lavar a seco uma peça" ou "Como escolher uma lavanderia". Isso me faz pensar em um amigo do meu namorado que, jovem independente de 25 anos, enviava sua roupa suja toda semana para sua mãe... pelo correio!


3. A tarefa doméstica só não aparece como "coisa de mulher" quando há alguma possibilidade de ser usada pelos homens como arma de sedução. Neste caso, há uma imposição vertical de saberes: o homem é aquele que é forte, aquele que sabe / domina; ele não detém o conhecimento primário quase intuitivo das coisas do dia-a-dia como as mulheres, muito pelo contrário, o homem é o especialista.

"O charme dos homens gastrossexuais" (Terra Mulher): "Pilotar o fogão agora é coisa de macho galanteador", diz a matéria. Da comidinha cotidiana simples, feminina, menosprezada, passa-se a uma atividade de status: gastronomia é coisa séria, requer curso especializado, cozinhar é uma arte e, o mais importante, as mulheres caem aos pés daqueles espécimes refinados e modernos que apresentam orgulhosamente uma redução de balsâmico com pupunha.

"6 motivos para você aprender a fazer tarefas domésticas de homem" (Papo de Homem). Repare bem a nuance: tarefa doméstica de homem - como se uma atividade pudesse mesmo ser determinada pelo gênero da pessoa que a exerce.  A matéria fala então do desenvolvimento de man skills, de coisas de macho, isto é, de atividades que requeiram técnica: serviços elétricos, consertar vazamentos, pintar paredes. Um claro reflexo dos estereótipos de gênero que predominam nas atividades e profissões técnicas: vale dizer aqui que, segundo o mesmo relatório da OIT citado acima, 93,8% dos frequentadores de cursos da área de construção civil, por exemplo, são do sexo masculino.

Na lista, há uma clara dimensão de orgulho envolvida: é preciso aprender para não ser enrolado por picaretas (outros homens, portanto) e para não se sentir constrangido ao precisar de ajuda (de outros homens, portanto). 

Finalmente, há o argumento da habilidade técnica como arma de sedução do macho alfa: "Sua vizinha gostosíssima bate na porta da sua casa pedindo ajuda porque o chuveiro elétrico dela não está esquentando e ela precisa se arrumar para a festa de hoje à noite." Ah, fala sério!

Para concluir, um último exemplo, da Revista Alfa. Em uma matéria intitulada "Homens que lavam a louça têm melhor vida sexual" afirma-se, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Riverside e um psicólogo chamado Joshua Coleman, que "as mulheres tendem a sentir mais atração sexual e afeição pelos maridos se eles compartilham as tarefas domésticas" e que "a partilha das tarefas domésticas está associada a um nível mais elevado de satisfação conjugal e sexual".

Mas claro, né? Porém, existe uma enorme diferença entre as tentativas de sedução mostradas nos exemplos anteriores e a divisão mais igualitária do trabalho em casa. É aquela velha diferença entre "machismo" e "respeito". Fazer as coisas para impressionar a presa é muito diferente de assumir suas responsabilidades na organização de uma vida em comum. É óbvio que qualquer pessoa, homem ou mulher ou nenhuma das alternativas anteriores, só pode ser feliz vivendo numa relação em que há equilíbrio. Pena que ainda seja preciso uma pesquisa da Universidade de X para que se entenda que você vai ser mais amado e feliz se tratar seu/sua companheir@ de igual pra igual...