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por Mazu
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| Nada mais parecido com um machista de direita que um machista de esquerda |
Este post não tem intenção nenhuma de defender ou atacar determinados regimes políticos, nem responder ou solucionar qualquer crise. Faço somente uma observação, baseada em notícias de jornal, sobre a situação do Partido Comunista Chinês (PCCh) e a crise do
atual regime na China. O objetivo maior deste texto é comentar o
relatório do partido sobre a expulsão de Bo Xilai, um dos grandes quadros do partido. O mencionado relatório afirma que a culpa das atitudes corruptas de Xilai são, na verdade, da mulher dele, Gu Kailai.
Um pouquinho de contexto e cautela nunca fizeram mal a ninguém
Vou resumir a história que o Ocidente tem contado
sobre a crise política chinesa, e eu sei o quanto isso é problemático.
O negócio é que, aparentemente, depois que tudo estourou, a censura internética
na China foi de "mencione a 'revolução cultural' e seu site/perfil será tirado do ar" para "mencione 'política' e receba uma visita da polícia
na sua casa". Exageros à parte, tenho tentado falar com amigo que estuda
lá para saber como ele está sentido a tal crise e ainda não consegui, quando
rolar, publico nos comentários.
Em julho de 2010, Bo Xilai foi um dos
protagonistas de uma mega-operação contra a corrupção na China que culminou,
entre outras coisas, na execução de um ex-comandante da Polícia, Wen Qiang,
acusado de aceitar suborno e proteger mafiosos. Segundo a Folha, alguns
analistas consideraram isso um "esforço ensaiado" para crescer no
cenário político, especialmente porque, na época, Bo Xilai ocupava um
ministério não relacionado diretamente com o combate à corrupção.
A história de Bo Xilai no partido comunista é
notória, ele já era uma liderança do partido na juventude. Teria passado cinco
anos preso por pertencer a uma família de intelectuais, durante a Revolução
Cultural. Filho de Bo Ybo, líder do PCCh e camarada de Mao Tsé-Tung, as ações
de Xilai no partido sempre demonstraram o quanto ele defendia a volta do
maoísmo, por isso foi apelidado de "vermelho".
Em março deste ano, Wang Lijun, ex-chefe de
polícia de Bo Xilai, então prefeito de Chongqing, uma metrópole chinesa de 31
milhões de habitantes aproximadamente, foi destituído do cargo por corrupção.
Ele teria procurado asilo político na Embaixada dos EUA, ocasião em que teria
delatado "aos inimigos do regime" o envolvimento de Bo Xilai e sua
esposa, Gu Kailai, em vários esquemas de corrupção e no assassinato do
empresário expatriado britânico, Neil Heywood.
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| Família Bo |
Então, em agosto deste ano, Gu confessou ter
envenenado o empresário porque ele teria ameaçado o filho dela, Bo Guagua. Depois da confissão, Gu
foi condenada à pena de morte suspensa (que é uma prisão perpétua desde que mantido o bom comportamento). O ex-chefe de polícia, considerado um traidor pelos
membros do PCCh, teve pena de 15 anos apenas por ter se entregado às
autoridades.
Na sexta-feira, 28/9/12, Bo Xilai foi expulso do
Partido Comunista Chinês por acobertar o assassinato do empresário britânico,
aceitar suborno, enquanto Ministro do Comércio, e manter relações sexuais
impróprias com várias mulheres. Com sua expulsão do partido, ele perde sua
imunidade e será entregue à justiça comum.
Ontem, começou a rolar umas notícias, aquelas com
fontes internas e misteriosas, enfim. E essas fontes secretas - dentro do
Partido Comunista chinês - afirmaram que o relatório interno do partido sobre
a expulsão de Bo Xilai colocava toda a culpa em Gu Kailai. Ela e
sua ambição desmedida por dinheiro e poder teriam sido o motivo da derrocada de
Xilai. Segundo as tais fontes misteriosas, ela também teria obrigado Xilai a
promover Lijun dentro da polícia.
Olha só, o cara aceitou propinas, subornos e fez
tudo o que fez por pressão da mulher. Alguém aí, levanta a mão se já escutou
alguma coisa parecida na história da humanidade antes!
Jackie Kennedy da China
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| Gu Kailai |
Gu é quase sempre descrita como brilhante e
ambiciosa. Formou-se em direito em uma importante universidade chinesa, ainda
jovem criou sua própria firma e teve algumas grandes vitórias no direito
corporativo que chamaram a atenção. Publicou um livro com um nome do tipo
"Como ganhar ações contra empresas norte-americanas".
Depois de conhecer e se casar com Xilai, ela
fechou sua firma. Muitos dizem em um momento de ápice e muito entusiasmo
profissional. A explicação seria o cargo público do marido, ela teria fechado a
firma para evitar conflitos de interesse e acusações de favorecimento. Ficava
lendo em casa, era o que diziam.
A história do assassinato de Heywood por Gu é
muito mal contada. Quer dizer, é contada de diversas formas diferentes, na
verdade. Para começar, ninguém desconfiou de assassinato até Lijun abrir a
boca. É, pois é.
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| Bo filho e Bo pai |
Enfim, li a Folha, The Guardian, Times e
blogueiros independentes e todos têm uma versão diferente. Ela, Gu Kailai,
afirmou, durante seu julgamento, que o empresário teria ameaçado seu filho e,
consequentemente, em um surto psicótico, ela o envenenou. Contudo, existem
várias teorias: alguns dizem que o garoto de 24 anos é um playboy festeiro em
Harvard (teria entrado lá com ajuda de Heywood, inclusive). E nessas aventuras
da vida universitária teria ouvido de Heywood "me dê 13 milhões ou eu vou
te destruir". Outros dizem que Gu e Heywood eram amantes. Quase todos
falam de um conflito de interesse econômico entre Gu e Heywood, ninguém
específica bem a natureza do negócio, contudo.
Por sua vez, Bo Guagua, o filho, fez um
testemunho morno no caso da mãe e uma defesa pública veemente, em diversos
meios, de seu pai. Vai vendo. Para mamãe "os fatos falarão por si
mesmos", para papai: "o pai que eu conheço é reto em suas crenças e
devoto às obrigações".
Complexo de Eva
| Jian Quing, companheira de Mao |
Como eu disse no começo, não temos a menor
condição de entender muito bem os fatos do que os especialistas estão chamando
de "maior crise política na China depois de 1989". Sinto, contudo,
que o complexo de Eva e do pecado original se repete. A gente pode lembrar, por
exemplo, que a esposa de Mao Tsé-Tung foi condenada pelos excessos da
revolução. Então, Mao = herói, esposa = condenada. Perceba.
Em outro lugar, em outro momento, Bill Clinton
mentiu em juízo e todo mundo acha que o problema da vida dele foi transar com a
estagiária. Estagiária, por sinal, que andava desempregada até esses tempos,
quando decidiu voltar a falar de um assunto que não a abandona e vai ganhar aí
uma boladinha. Bill, não, lavou ficou novo, e sua carreira como consultor sempre
foi e continua muito bem, obrigada. Na real, dá para fazer uma lista bem
extensa de todas as vezes que uma mulher foi a justificativa ou explicação de
um erro de uma grande personagem histórica masculina. Mas quem tem todo esse
tempo?
Eu insisto, não dá para dizermos que tipo de
pessoas são Gu Kailai e Bo Xilai. Aparentemente, são criminosas e corruptas.
Mas tudo é sempre tão obscuro quando se fala em um sistema político tão
fechado.
Crucificar Gu, unicamente, poderia ser um jeito
de minimizar a culpa e salvaguardar a imagem de um dos mais proeminentes
membros do Partido Comunista que, até a erupção dos escândalos, estava cotado para
integrar o Conselho Central do partido. Alguns diriam que Bo Xilai chegaria a
presidente.
Culpar a ambição e o consumismo feminino da
esposa também poderia ser um jeito de não falar da crise interna do PCCh que,
mesmo com todo secretismo do partido, vem vindo cada vez mais à tona. Alguns
colunistas dizem que o PCCh tem várias facções e que as brigas internas andam
implodindo o partido. Existem inúmeros defensores de Xilai, maoístas ferrenhos,
dizendo que tudo é um grande esquema para manter Xilai e o maoísmo fora do
poder. Um monte de gente vem falando em outra revolução cultural, o que
economicamente seria uma tragédia (inclusive para o Brasil, vide BRICS e tudo
mais).
E esse é justamente o problema: são muitos
fatores de ordem política e social para serem escondidos e explicados tão somente pela suposta ambição de Gu Kailai.
Cara, não é possível que este argumento cole.
Será? Será que vai ter gente achando mesmo que todos os subornos,
todos os crimes e, consequentemente, os problemas do sistema político que tais crimes
apontam, se devem ao fato da Gu Kailai gostar de dinheiro? Cara, na boa, espero
que não.
É engraçado que, quando um político vai bem e faz
coisas legais, ninguém dá os créditos para a sua companheira. Agora quando os
caras erram, uh, tem sempre uma mulher para mal encaminhá-los. Ah, tá, claro.
Pobrezinhos.
Bora abandonar isso, né?A gente atrai gente
parecida com a gente, oras. Nunca vi urubu voando com beija-flor.
No nosso ordenamento jurídico respondem pelo crime
o mandante e o executor, a não ser que haja coação. E se o Xilai foi coagido
pela mulher por tantos anos e tantos feitos corruptos, ia ser legal ele provar
e explicar bem explicadinho, porque a carta da "esposa interesseira"
não vai dar conta de explicar toda a sua fortuna, nem a boa vida do filhão.
1 de outubro de 2012
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Mazu,
padrões duplos
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por Barbara Falleiros
Catarina Migliorini não é a primeira a tentar vender sua virgindade pela internet. Casos como o dela têm se tornado corriqueiros nos últimos anos (já se trocou a virgindade por um iPhone 4 e até por ingresso pro show do Justin Bieber)... Mas a história desta jovem catarinense tem uma particularidade: para promover seu leilão, ela teve de passar por uma seleção e todo o processo está sendo organizado e filmado por um documentarista australiano. Para evitar problemas legais, o ato será consumado (ou consumido) durante um voo da Austrália para os Estados Unidos. Beijos não estão no contrato. O produtor também escolheu um outro jovem virgem do sexo masculino (oh, belo exemplo de paridade!) e os lances podem ser dados pelo site Virgin's wanted.
Os argumentos de Catarina para participar do "projeto" são triviais: conhecer novos lugares, ganhar dinheiro para uso pessoal - e se sobrar, para alguma causa social -, continuar os estudos. Em 2008, uma estudante americana conhecida como Natalie Dylan, recém-graduada em Women's studies, associou-se a um famoso bordel de Nevada e colocou sua virgindade à venda com o objetivo de financiar sua pós-graduação. Diz-se que os lances ultrapassaram os 3 milhões de dólares. Diz-se também que tudo não passou de um embuste publicitário. Vai saber se não é também o caso de Catarina e deste "documentário"... Mas, na verdade, isso pouco importa aqui, o que me interessa são os discursos que se constróem a respeito da "transação". Na época em que se tornou famosa, Natalie Dylan reivindicou-se feminista e afirmou, ao explicar suas escolhas:
"Quando aprendi isso, tornou-se evidente para mim que a virgindade idealizada é apenas uma ferramenta para manter as mulheres em seu lugar. Mas então percebi outra coisa: se a virgindade é considerada tão valiosa, o que me impede de beneficiar do que é meu? E o valor da minha castidade está num nível em que os homens não podem competir comigo. Decidi virar o jogo e transformar minha virgindade em algo que me permitisse ganhar, dos homens, poder e oportunidade. Tomei a antiga noção de que a virgindade de uma mulher não tem preço e usei-a como veículo do capitalismo. (...) Para mim, valorizar a virgindade como algo sagrado é simplesmente inconcebível. Mas valorizar a virgindade monetariamente, eis uma concepção que eu poderia adotar. Eu não vejo a venda de sexo como algo errado ou imoral (...)" [desculpem-me pela tradução precária, aqui está o depoimento completo]
Mas fazer do corpo uma mercadoria e do ato sexual uma "prestação de serviços" pode conferir efetivamente algum poder às mulheres? Ao ser tomada como produto, objetificada, negociada, a mulher não continua ocupando uma posição de subjugação ao domínio sexual do homem? Reclamar o controle do próprio corpo e da própria sexualidade num contexto que reforça a ideologia patriarcal e suas relações de poder, não é continuar a gritar a liberdade de dentro de uma gaiola?
De acordo com Carole Pateman, em seu livro O Contrato sexual (1988),
De acordo com Carole Pateman, em seu livro O Contrato sexual (1988),
"Quando os corpos das mulheres são vendidos como mercadorias no mercado capitalista, (...) a lei do direito sexual masculino é afirmada publicamente, e os homens ganham reconhecimento público como proprietários sexuais das mulheres, isto é o que há de errado com a prostituição."
Minhas perguntas acima não eram retóricas. Não sei mesmo o que pensar sobre isso... O problema da prostituição é de uma complexidade ímpar e suscita debates com uma infinidade de argumentos contrários, mesmo se falarmos apenas da chamada "prostituição de livre escolha" (que se opõe à "prostituição forçada"). Talvez possamos retomar essa questão em uma próxima ocasião. Por hoje, gostaria apenas de abrir o debate e comentar as regras do leilão que me chamaram a atenção, no tal site Virgin's wanted... Nas regras para os compradores, o vocabulário utilizado faz do ato em questão uma transação mercantil como qualquer outra: vende-se "a virgindade de um homem e de uma mulher" e objetiva-se "proporcionar uma experiência de compra agradável". Mas certas nuances mostram bem como funciona a objetificação de que falei acima. Rapidamente, percebe-se que não se trata de modo algum da contratação de um serviço sexual, mas da dominação e posse de uma pessoa: do direito à virgindade do vendedor ("to buy the right to the seller's virginity"), passa-se à compra da pessoa, d@ virgem ("purchasing the virgin"; "buy the virgin").
Uma última observação: alguém poderia contra-argumentar dizendo que não há aí qualquer problema de gênero, que homem e mulher estão em pé de igualdade, visto que os participantes são um garoto e uma garota. Mas a virgindade de um homem não se prova. E a de uma mulher, se tira. Vale notar, então, a enorme diferença na demanda. Quem são os compradores e que produto preferem? Até a noite de sábado, o jovem Alexander tinha recebido sete lances chegando a USD$ 1,300, sendo que quatro tinham sido feitos por homens (embora estes nem sejam elegíveis, visto que as regras definem claramente o ato sexual, neste caso, como a penetração do pênis na vagina). Os treze lances que recebeu Catarina, por outro lado, já alcançaram USD$ 160,000... Como negar, então, que o que motiva estes consumidores é a dominação machista?
30 de setembro de 2012
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por Tággidi Ribeiro
É triste perceber que, muitas vezes, mulheres são mesmo rivais e suas amizades se desfazem muito facilmente. E também que, por outro lado, homens mantenham suas amizades sob circunstâncias eticamente discutíveis. Digo isso só de observar, de ver como desde que era menina as intrigas se davam muito mais entre as meninas, ao passo que meninos brigavam e logo depois viravam melhores amigos de novo.
Nada de achar, contudo, que mulheres são naturalmente rivais. Se desde crianças criamos intrigas é porque imitamos o comportamento adulto (em casa e na tv) - é realmente muito difícil deixar o cerco da cultura. Se crescemos vendo nossas mães e tias falarem mal umas das outras, vamos falar mal umas das outras. Se aprendemos que devemos brigar para ter um homem, vamos fazê-lo. E se aprendemos que os grandes sofrimentos do mundo (fora perder um filho) são masculinos, não reconheceremos todas as nossas outras dores.
Mas o fato é que precisamos desaprender isso. E aprender a criar empatia pelas nossas iguais. Quer dizer, precisamos reconhecer o sofrimento feminino e nos solidarizar com ele. Por que será que é tão fácil, e aqui me refiro sobretudo às intelectuais, criar empatia pelos pobres, negros e homossexuais - cada grupo com sua história e lutas específicas - mas não pelas mulheres? Não teríamos nós também nossas lutas específicas? Entendendo o problema da opressão do pobre, não entendemos também o nosso? Entendendo o preconceito contra o negro, não entendemos também aquele que recai sobre nós? Deplorando a violência gratuita contra homossexuais, por que não choramos também as tantas violências que sofremos?
Em O Mercador de Veneza, de Shakespeare, o judeu Shylock, em sua fala mais conhecida e comentada, diz: "[Antonio] cobriu-me de desprezo (...), indispôs-me com meus amigos, excitou meus inimigos, e por que razão faria tudo isso? Por eu ser judeu. Então um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos? Nem órgãos, nem proporções, nem sentidos, nem afeições, nem sentimentos? Não se nutre com os mesmos alimentos? Não é ferido com as mesmas armas? Não está sujeito às mesmas doenças? Não se cura com os mesmos remédios?" Essa fala não resgata Shylock na peça de Shakespeare - ele se mantém vilão - mas aponta a humanidade que lhe é negada. Penso que ela sirva para nós, mulheres, também nos dando dimensão da nossa humanidade. Temos órgãos, afeições e sentimentos. Nos ferimos com as mesmas armas e nos curamos com os mesmos remédios. E, sim, sofremos violências somente por sermos mulheres.
O que nos falta talvez seja não deixar que nos indisponham 'com nossos amigos' - com nós mesmas. Não deixar que a tática de 'dividir para conquistar' continue fazendo entre nós o estrago que tão comumente fez e faz entre os povos mundo afora. Nossa rivalidade não é inata, mas fomentada por quem ganha com ela. Quanto mais conversamos e compartilhamos informações sobre o que vivemos, mais nos identificamos, deixando de pôr na conta do indivíduo aquilo que é problema geral e específico que afeta nosso gênero.
Se você é mulher e acha que vive muito bem, que não há pelo que lutar, que já 'conquistamos nosso espaço', que é só se 'portar' bem que nada acontece, tente se colocar no lugar de tantas outras mulheres que não vivem tão bem assim (mesmo que se comportem bem). Se você nunca (nunquinha) sofreu violência de gênero - estupro, abuso, assédio, constrangimento físico ou verbal, violência doméstica, preconceito na forma de dúvidas em relação a sua capacidade intelectual, emocional ou física etc. - saiba que é uma raríssima exceção que valida este e todos os blogs e coletivos feministas (todo o feminismo). Então, tente se colocar no lugar de todas essas outras mulheres - as que não são exceção. Ouça-as e as entenda. Reconheça-as.
por Tággidi Ribeiro
Sempre penso sobre a questão da 'conhecida' rivalidade feminina, que pode talvez ser descrita como a tendência das mulheres a brigar entre si, enquanto defendem os homens, nas mais variadas situações. Dizem que mulheres não podem ser amigas umas das outras, ou até podem, mas não da forma profunda e ao mesmo tempo tranquila com que homens são amigos uns dos outros. Se levarmos em consideração que tampouco mulheres e homens podem ser amigos - é o que reza o discurso comum -, chegamos à conclusão de que não há criatura mais desgraçadamente solitária que uma mulher.
É triste perceber que, muitas vezes, mulheres são mesmo rivais e suas amizades se desfazem muito facilmente. E também que, por outro lado, homens mantenham suas amizades sob circunstâncias eticamente discutíveis. Digo isso só de observar, de ver como desde que era menina as intrigas se davam muito mais entre as meninas, ao passo que meninos brigavam e logo depois viravam melhores amigos de novo.
Nada de achar, contudo, que mulheres são naturalmente rivais. Se desde crianças criamos intrigas é porque imitamos o comportamento adulto (em casa e na tv) - é realmente muito difícil deixar o cerco da cultura. Se crescemos vendo nossas mães e tias falarem mal umas das outras, vamos falar mal umas das outras. Se aprendemos que devemos brigar para ter um homem, vamos fazê-lo. E se aprendemos que os grandes sofrimentos do mundo (fora perder um filho) são masculinos, não reconheceremos todas as nossas outras dores.
Mas o fato é que precisamos desaprender isso. E aprender a criar empatia pelas nossas iguais. Quer dizer, precisamos reconhecer o sofrimento feminino e nos solidarizar com ele. Por que será que é tão fácil, e aqui me refiro sobretudo às intelectuais, criar empatia pelos pobres, negros e homossexuais - cada grupo com sua história e lutas específicas - mas não pelas mulheres? Não teríamos nós também nossas lutas específicas? Entendendo o problema da opressão do pobre, não entendemos também o nosso? Entendendo o preconceito contra o negro, não entendemos também aquele que recai sobre nós? Deplorando a violência gratuita contra homossexuais, por que não choramos também as tantas violências que sofremos?
Em O Mercador de Veneza, de Shakespeare, o judeu Shylock, em sua fala mais conhecida e comentada, diz: "[Antonio] cobriu-me de desprezo (...), indispôs-me com meus amigos, excitou meus inimigos, e por que razão faria tudo isso? Por eu ser judeu. Então um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos? Nem órgãos, nem proporções, nem sentidos, nem afeições, nem sentimentos? Não se nutre com os mesmos alimentos? Não é ferido com as mesmas armas? Não está sujeito às mesmas doenças? Não se cura com os mesmos remédios?" Essa fala não resgata Shylock na peça de Shakespeare - ele se mantém vilão - mas aponta a humanidade que lhe é negada. Penso que ela sirva para nós, mulheres, também nos dando dimensão da nossa humanidade. Temos órgãos, afeições e sentimentos. Nos ferimos com as mesmas armas e nos curamos com os mesmos remédios. E, sim, sofremos violências somente por sermos mulheres.
O que nos falta talvez seja não deixar que nos indisponham 'com nossos amigos' - com nós mesmas. Não deixar que a tática de 'dividir para conquistar' continue fazendo entre nós o estrago que tão comumente fez e faz entre os povos mundo afora. Nossa rivalidade não é inata, mas fomentada por quem ganha com ela. Quanto mais conversamos e compartilhamos informações sobre o que vivemos, mais nos identificamos, deixando de pôr na conta do indivíduo aquilo que é problema geral e específico que afeta nosso gênero.
Se você é mulher e acha que vive muito bem, que não há pelo que lutar, que já 'conquistamos nosso espaço', que é só se 'portar' bem que nada acontece, tente se colocar no lugar de tantas outras mulheres que não vivem tão bem assim (mesmo que se comportem bem). Se você nunca (nunquinha) sofreu violência de gênero - estupro, abuso, assédio, constrangimento físico ou verbal, violência doméstica, preconceito na forma de dúvidas em relação a sua capacidade intelectual, emocional ou física etc. - saiba que é uma raríssima exceção que valida este e todos os blogs e coletivos feministas (todo o feminismo). Então, tente se colocar no lugar de todas essas outras mulheres - as que não são exceção. Ouça-as e as entenda. Reconheça-as.
28 de setembro de 2012
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Tággidi
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por Roberta Gregoli
Dando continuidade ao meu post da semana passada e aproveitando as ótimas novas de que o Uruguai é o primeiro país da América Latina a descriminalizar o aborto, revisito o tópico. Já vi várias versões de mitos sobre o aborto circulando pela internet, mas resolvi criar a minha própria lista, na esperança de adicionar meu vintém ao debate:
Na verdade, existem diversas teorias sobre quando a vida começa. A Igreja Católica diz que é no momento da concepção, e essa é sem dúvida a ideia mais difundida no Brasil. Mesmo dentro da Igreja Católica, no entanto, há uma corrente dissidente chamada Católicas pelo Direito de Decidir, que realiza um trabalho excepcional.
Pois você sabia que a eficácia da camisinha gira em torno de 97 a 98%? E a pílula anticoncepcional em 98 a 99%? Ou seja, a cada 100 mulheres que tomam absolutamente todas as precauções para evitar uma gravidez, 1 a 3 podem terminar tendo uma gravidez indesejada.
Num país de mais ou menos 98 milhões de mulheres, isso representa de 980 mil a quase 3 milhões mulheres. É certo prender essas mulheres por abortarem?
E seguimos tentando para quem sabe um dia chegar a um Estado laico que preze pela escolha, pela saúde e pela vida de suas mulheres.
por Roberta Gregoli
1. "Ser a favor do aborto é ser contra a vida" ou "Aborto é assassinato"
Este é, na minha opinião, o argumento mais sedutor contra a legalização do aborto, e também o mais moralizante. Primeiramente, o conceito de vida deve ser tratado com muito mais complexidade do que normalmente vemos por aí. Um feto sem cérebro, que não tem chance nenhuma de sobreviver, é vida? Um óvulo fecundado é vida?
Na verdade, existem diversas teorias sobre quando a vida começa. A Igreja Católica diz que é no momento da concepção, e essa é sem dúvida a ideia mais difundida no Brasil. Mesmo dentro da Igreja Católica, no entanto, há uma corrente dissidente chamada Católicas pelo Direito de Decidir, que realiza um trabalho excepcional.
Se não há definição em relação ao conceito de vida, a questão é somente moral e religiosa e daí, num Estado laico, cabe a cada um fazer a sua escolha. Moral e crença religiosa não se impõem com leis.
O ponto central é que um embrião não é uma pessoa dotada de direitos e interesses - ao contrário da mulher. E então uma pergunta merece consideração: a "vida" de um embrião tem mais valor do que a vida de uma mulher? Porque o aborto inseguro é a terceira maior causa de óbitos maternos no Brasil.
Podemos, então, inverter completamente o argumento e dizer que a criminalização do aborto que é, na verdade, contra a vida - a vida de milhões de mulheres que fazem abortos inseguros. "Assassinato sancionado pelo Estado", como muitos gostam de apelar em relação à descriminalização do aborto.
Podemos, então, inverter completamente o argumento e dizer que a criminalização do aborto que é, na verdade, contra a vida - a vida de milhões de mulheres que fazem abortos inseguros. "Assassinato sancionado pelo Estado", como muitos gostam de apelar em relação à descriminalização do aborto.
2. "Se legalizar, todo mundo vai sair por aí abortando"
Em outras palavras, o número de abortos aumentaria, certo? Errado. É comprovado que nos países onde o aborto é legalizado, o número de abortos é muito menor do que nos países onde é criminalizado.
A taxa na América Latina, onde as leis são altamente restritivas, é de 32 abortos a cada 1.000 mulheres em idade fértil contra somente 12 em 1.000 na Europa Ocidental, onde o aborto é amplamente legalizado (veja o primeiro item da seção 'Abortion Law' aqui).
3. "A legalização do aborto encoraja uma postura sexual menos responsável" ou "Se legalizar, ninguém mais vai 'se cuidar'"
De certa maneira, a resposta ao mito 2 responde a este também, mas é preciso deixar claro: educação sexual e aborto são temas distintos. As feministas lutam pela descriminalização do aborto E por melhor educação sexual.
Acho que não é preciso lembrar que, quem não usa preservativo corre risco de pegar uma infinidade de doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a AIDS. E ninguém sai por aí dizendo que a cura da AIDS encorajaria uma postura sexual menos responsável. Ou diz?
4. "Hoje só engravida quem quer"
Pois você sabia que a eficácia da camisinha gira em torno de 97 a 98%? E a pílula anticoncepcional em 98 a 99%? Ou seja, a cada 100 mulheres que tomam absolutamente todas as precauções para evitar uma gravidez, 1 a 3 podem terminar tendo uma gravidez indesejada. Num país de mais ou menos 98 milhões de mulheres, isso representa de 980 mil a quase 3 milhões mulheres. É certo prender essas mulheres por abortarem?
Além disso, garantir a eficácia da pílula anticoncepcional não é tão simples assim. Muita gente não sabe, mas diversos medicamentos cortam o efeito da pílula. E se você esquecer de tomar a pílula um único dia e tiver tido relações sexuais na semana anterior, pode engravidar.
É justo condenar mulheres que engravidaram sob esta circunstância por optarem pelo aborto? Quem nunca esqueceu de tomar antibiótico um dia na vida que atire a primeira pedra.
5. "E se o bebê que você abortou tivesse encontrado a cura do câncer"
A Lola trata desse mito de maneira brilhante e eu complemento: E se a mulher que morreu em decorrência de abortamento inseguro tivesse encontrado a cura do câncer?
O ponto central deste mito é que é muito fácil idealizar a vida em potencial. Isso decorre, a meu ver, da ideia católica da "santidade da vida". Quando se pensa num bebê, se pensa num anjinho inocente e indefeso. Não que esse bebê é responsabilidade de pais que podem não estar preparados para criá-lo e que um dia, talvez até independente dos pais que teve, possa se tornar um bandido, um estuprador, um líder neonazista, um masculinista...
Da mesma forma, para muitos é fácil condenar a mulher que aborta e imaginá-la como um monstro. Mas os dados mostram que essa mulher pode, na verdade, ser sua tia, sua irmã, sua mãe.
Conclusão
O que todos esses mitos têm em comum é a culpabilização das mulheres e a isenção dos homens de qualquer responsabilidade sobre a reprodução e mesmo sobre o aborto em si.
A discussão sobre a legalização do aborto tem que ser problematizada numa profundidade e sutileza muito maior do que a persistência de mitos tão primários expõe, e a velha mídia brasileira, que todos sabem ser retrógrada e conservadora, não tem interesse nenhum em promover debates mais complexos sobre o tema. Ainda bem que temos as mídias alternativas e grupos feministas ativos, como os citados neste post e muitos outros, para trazer uma outra perspectiva para a mesa.
E seguimos tentando para quem sabe um dia chegar a um Estado laico que preze pela escolha, pela saúde e pela vida de suas mulheres.
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por Mazu
por Mazu
Eu me apaixonei por Kung Fu e Sanshou durante meu
namoro com meu companheiro, ele praticava e gostava muito e, um dia, me
levou para conhecer. O Kung Fu é uma arte milenar e linda, requer muito mais
concentração e inteligência do que as pessoas julgam. O nível de autoconhecimento
e autocontrole dos praticantes sérios é visível e admirável.
Apesar de toda a admiração, não tive nem tempo, nem oportunidade ainda de
praticar o Kung Fu (em especial o Choy lay fut, o estilo que tive contato, é bom dizer porque são muitos estilos). Mas conhecer o Sanshou, o boxe
chinês que compartilha alguns dos fundamentos, me fez muito bem. Em tudo, desde
entender e concatenar mais os movimentos físicos, ganhar mais coordenação e
mais cárdio até perceber que eu vivia
guardando muita raiva no coração. E, de verdade, é do coração que vem a força.
Nessa onda de praticar, eu comecei a assistir
lutas e acompanhar os treinos, me interessar mesmo. Ultimamente, o maridão anda
treinando com uma equipe de MMA aqui de Brasília, e eu acabei indo assistir ao Shooto Brasil 34, e convivendo mesmo com a
galera fã e praticante do Mixed Martial Arts, que como o nome diz, é uma
mistura de várias modalidades de artes marciais, as mais "pedidas"
são o Muay Thai, o jiu-jítsu e o Wrestling, mas não para por aí não.
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| Feliz em demonstrar o que "bater como uma menina" significa |
Bom, aí, neste convívio, comecei a notar algumas
coisas. Primeiro, refiri-me ao julgamento das pessoas ali em cima porque existe
muito mau julgamento e pré-julgamento no mundo, e com as artes marciais não
seria diferente. Existem vários preconceitos relacionados a esse tipo de
esporte, e eles não dizem respeito apenas às mulheres praticantes de artes
marciais.
Na verdade, o julgamento das pessoas com relação
às artes marciais é super preconceituoso também com relação aos homens, existe
um estereótipo, na maioria das vezes, falso, do marombado burro e violento que é mais ligado aos meninos do jiu-jítsu
e Muai Thay, mas acaba não deixando ninguém de fora. Agora, quando você
acompanha os praticantes sérios do esporte, você percebe que as coisas são bem
diferentes, eu, pessoalmente, acabei por conhecer muita gente legal e sábia. É, pois é, pois
é, pois é.
Mas este blog é feminista e a minha elegia
acaba aqui. E eu começo a pancadaria perguntando: se a imagem é ruim para os caras, imagina para as meninas?
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| Cris uma vez colocou para dormir um jornalista que disse que mulheres são mais fracas que homens |
Acho que vale ressaltar que características que
são consideradas masculinas, tipo força, porte físico, habilidade para luta,
são consideradas masculinas por imposição social. A gente falou disso em outras
ocasiões aqui no blog. Logo, as meninas mais fortes e mais centradas não são necessariamente
lésbicas. Vale dizer também que, por sua vez, nem todas as lésbicas possuem
essas que são consideradas as características masculinas. Força física, a falta
ou excesso, a percentagem de musculatura de um corpo nada tem a ver com sexualidade e, de acordo com pesquisas recentes,
nem com sexo. Eu me sinto boba afirmando o óbvio, mas a gente ouve cada comentário quando as meninas estão lutando, que olha...
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| Gina Carano e as marcas da guerra |
É verdade, as meninas têm ocupado seu espaço nas
artes marciais (vide as medalhistas olímpicas) e, durante o pouco tempo que
pratiquei, nunca senti nenhuma diferenciação ou discriminação na academia que
frequentei. Agora, o MMA insiste em manter as mulheres nuas segurando placas
nos seus eventos, e não consigo entender o porquê. Que sentido faz um evento ter
mais garotas de biquíni do que lutadoras, se estamos falando de um evento de
luta e não de um desfile de roupas de banho?
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| Mischa Tate, beleza padrão de ring girl, mas prefere descer a porrada |
Assistir ao Shooto Brasil 34 me deixou louca da
vida. Uma luta, dentre as onze do evento, foi feminina e, na minha opinião, a
mais legal. No resto do evento, meninas com bundas gigantescas de fora
mostravam em que round a luta estava porque né? Contar até três é phoda. A
gente precisava mesmo de ajuda. E se eu começar a falar dos eventos do UFC, não
vai ter espaço né? Porque lá, mulher lutadora nem existir, existe. Existem as
belas esposas, as belas ring-girls e uma juíza, porque os juízes são escolhidos
e designados pela Associação Atlética Norte Americana e não pelos grandes
empresários do evento. Não vou mentir, assisto, mas ô evento machista do
baralho.
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| Participação femina no Shooto 34: 1 lutadora... |
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| ...três ring-girls |
Vasculhando as internets por aí, encontrei este
documentário rapidíssimo sobre Meninas do MMA, vale pelo depoimento da atleta,
falando sobre ser mãe, mulher e lutadora, sobre o que é patrocínio para ela. É divertidíssimo
também o depoimento da dançarina que dizia que não conseguia "nem
olhar" para a luta de tão violento que era. É engraçado, o que 'violento'
significa para cada um. Durante o Shooto, eu não pisquei na luta da Claudinha
Gadelha (foto acima), que foi tão daora! Em compensação, cada vez que passava uma
daquelas meninas de bunda de fora e subiam os comentários do público, eu tinha
vontade de não ver e nem ouvir e, talvez, morrer ou matar alguém.
24 de setembro de 2012
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