3
por Mazu
Este final de semana, li alguns textos da TPM Edição de aniversário de setembro de 2012. Cara, foi uma leitura muito prazerosa e interessante. E foi inesperado também porque eu nunca curti o slogan "Trip para mulheres" deles, mas enfim. A entrevista com a psicanalista Regina Navarro Lins sobre sexualidade, exclusividade e traição está muito legal, assim como a matéria que me fez comprar a revista "Sim, mulher adora sexo (fica com isso)".
Essa matéria trouxe vários depoimentos de mulheres diferentes (empresária, cineasta, blogueira e atriz) sobre o que é gostar de sexo para elas (quantidade, variedade, qualidade), e suas histórias dentro dessa vivência com a própria sexualidade. Os depoimentos estão bem interessantes e, dentre eles, está o da autora do Cem Homens, sobre a origem do seu blog: o plano era ir para cama com cem caras até o fim de um determinado ano e relatar no site. Não preciso dizer que ela recebeu reações super negativas, inclusive de amigos. Não preciso dizer também que se ela fosse homem, seria diferente.
Para se livrar desse estigma e ter uma vida sexual digna, a gente precisa se desfazer desses preconceitos que pairam sobre o gostar de sexo. Isso porque, nesse tipo de sociedade que vê a mulher como alguma espécie de patrimônio, a única mulher (dos tipos de mulheres possíveis) capaz de gostar de sexo é a que não presta. Por mais grosseiro e medieval que isso pareça, essa mentalidade ainda está presente, não está escancarada e super visível, mas, meu Deus, como é presente.
É preciso ficar claro que gostar de sexo não significa não ter padrões ou vontade própria. Quero dizer, uma pessoa que gosta de sexo não necessariamente vai fazer sexo a todo o momento com qualquer outra pessoa. É aquela velha história, por exemplo, uma menina ou um cara que transou com várias amigas ou amigos meus não é obrigad@ a ficar comigo porque já pegou todo mundo da minha turma. Todo mundo tem poder de escolha e deve ter a vontade respeitada. Uai.
Voltando a matéria da TPM, acho que o ponto (muito válido) da matéria é que existem mulheres que gostam de sexo e tudo bem. O mundo não vai
acabar, o chão não vai se abrir, nem nada. É uma iniciativa bacana de divulgação porque nós,
entre nós meninas, sabemos disso há muito tempo, mas isso ainda assusta alguns caras. Já vi caras considerados inteligentes e revolucionários se assustarem quando uma menina demonstra um comportamento sexual mais
livre ou mais parecido com o deles.
por Mazu
Este final de semana, li alguns textos da TPM Edição de aniversário de setembro de 2012. Cara, foi uma leitura muito prazerosa e interessante. E foi inesperado também porque eu nunca curti o slogan "Trip para mulheres" deles, mas enfim. A entrevista com a psicanalista Regina Navarro Lins sobre sexualidade, exclusividade e traição está muito legal, assim como a matéria que me fez comprar a revista "Sim, mulher adora sexo (fica com isso)".Essa matéria trouxe vários depoimentos de mulheres diferentes (empresária, cineasta, blogueira e atriz) sobre o que é gostar de sexo para elas (quantidade, variedade, qualidade), e suas histórias dentro dessa vivência com a própria sexualidade. Os depoimentos estão bem interessantes e, dentre eles, está o da autora do Cem Homens, sobre a origem do seu blog: o plano era ir para cama com cem caras até o fim de um determinado ano e relatar no site. Não preciso dizer que ela recebeu reações super negativas, inclusive de amigos. Não preciso dizer também que se ela fosse homem, seria diferente.
A matéria mostra ainda como, apesar do que chamaram de
liberação sexual feminina (eu tenho lá minhas dúvidas), o fato de a mulher
gostar de sexo ainda é uma coisa super tabu. Sim, a gente bem sabe. De qualquer forma, uma
generalização é evidente e comum para todas as mulheres que assumem publicamente
gostar de sexo, o tal do slut-shaming. Ou seja, todas são taxadas de piranhas,
biscates, piriguetes ou qualquer que seja o termo mais usado do momento.
Aí, com meus botões, fiquei pensando que isso tem
várias desdobramentos, inclusive os que justificam que algumas mulheres evitem de assumir do que gostam ou não. Esses desdobramentos tem sua origem em preconceitos e estereótipos estabelecidos pela sociedade machista e patriarcal: tem a mulher para casar, a mulher diferente dessa que serve para alugar, a mulher diferente de outra maneira que se rouba e violenta em guerras e ocasiões parecidas, e assim vai. Acho que posso generalizar dizendo que se trata do mito da mulher patrimônio (do homem, claro).
Para se livrar desse estigma e ter uma vida sexual digna, a gente precisa se desfazer desses preconceitos que pairam sobre o gostar de sexo. Isso porque, nesse tipo de sociedade que vê a mulher como alguma espécie de patrimônio, a única mulher (dos tipos de mulheres possíveis) capaz de gostar de sexo é a que não presta. Por mais grosseiro e medieval que isso pareça, essa mentalidade ainda está presente, não está escancarada e super visível, mas, meu Deus, como é presente.
É preciso ficar claro que gostar de sexo não significa não ter padrões ou vontade própria. Quero dizer, uma pessoa que gosta de sexo não necessariamente vai fazer sexo a todo o momento com qualquer outra pessoa. É aquela velha história, por exemplo, uma menina ou um cara que transou com várias amigas ou amigos meus não é obrigad@ a ficar comigo porque já pegou todo mundo da minha turma. Todo mundo tem poder de escolha e deve ter a vontade respeitada. Uai.
Parece uma afirmação boba e meio óbvia, mas as
pessoas (incluo os meninos nessa também porque rola com eles, e muito) que
admitem seu apreço por variedade são mais suscetíveis à violência, inclusive a
psicológica. Imagine alguém dizendo a um menino: 'não vai pegar não sei quem, por quê? Virou
gay?' e para uma menina: 'ficou com todo mundo e não vai ficar comigo?' Claro
que os meninos, ainda que colocados em situações desconfortáveis, são vistos
como heróis quando admitem gostar de sexo com várias garotas (porque se for com garotos, o papo já é outro). As meninas quando assumem esse comportamento, perdem simbolicamente o respeito, o valor nessa nossa sociedade de mascus. Ainda que os resultados do slut-shaming sejam diferentes para homens e mulheres, todas as ocorrências são formas de
violentar as pessoas, de certa forma.
Essa suscetibilidade a algum tipo de violência justifica que algumas
mulheres não assumam ou se proíbam de curtir o sexo. Isso é super complicado
porque faz com muita gente viva culpada ou infeliz.
Na verdade, sexo é muito pessoal e individual,
por mais maluco que possa parecer. As pessoas que gostam pouco ou nada não são
loucas, nem mal-amadas, nem necessariamente traumatizadas. As que gostam muito não
são necessariamente viciadas em
sexo. As que são viciadas não são necessariamente pessoas
ruins. As que gostam com vários parceiros ou parceiras não merecem desrespeito.
Assim como as que curtem um parceiro só não são ultrapassadas, nem românticas,
bobas ou idealistas. Não rola julgar, é mega pessoal. Como eu vou saber o que é
o comportamento admissível para a outra pessoa quando se trata de algo tão pessoal? Como uma única medida, um único peso de estigma social
poderia dar conta da infinidade de tipos de pessoas que existe e cada comportamento sexual respectivo e relacionado?
Como cada um tem um comportamento sexual seu, o ideal é se encontrar e se respeitar e buscar parcerias na
mesma sintonia. Do contrário, muita gente se machuca de tudo quanto é jeito. Alguém consegue pensar em coisa pior do que fazer sexo, fazer sexo assim ou assado, ou ainda, não fazer simplesmente para agradar outra pessoa?
Voltando a matéria da TPM, acho que o ponto (muito válido) da matéria é que existem mulheres que gostam de sexo e tudo bem. O mundo não vai
acabar, o chão não vai se abrir, nem nada. É uma iniciativa bacana de divulgação porque nós,
entre nós meninas, sabemos disso há muito tempo, mas isso ainda assusta alguns caras. Já vi caras considerados inteligentes e revolucionários se assustarem quando uma menina demonstra um comportamento sexual mais
livre ou mais parecido com o deles.
Durante a faculdade fiz dois grandes amigos e, em
um determinado dia, estávamos os três trocando histórias enquanto a gente
lanchava na cozinha da nossa antiga república. Eles falaram sobre algumas aventuras,
e eu também. Só que ninguém esperava, né? Afinal, sou uma menina. Depois de me
ouvir, um deles olhou para mim muito assustado e disse: olha só, você é pior
que eu. E eu respondi: pior não, sou igual. E ele fez uma cara de quem sentiu uma
ficha bem grande cair, e a gente riu.
9 de outubro de 2012
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2
No início de 2012 comemorou-se os 80 anos da oficialização do sufrágio feminino no Brasil: em 24 de fevereiro de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinava o decreto nº 21.076, instituindo o Código Eleitoral Brasileiro, em que constava, no Art. 2º: "É eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, alistado na forma deste Código", embora o Art. 121 ainda isentasse as mulheres da obrigação do voto. Além disso, só podiam votar as mulheres solteiras e viúvas que possuíssem renda própria e as casadas que tivessem a autorização do marido (estas restrições foram removidas em 1934; quanto à obrigatoriedade do voto feminino, esta veio somente em 1946, aplicada apenas às mulheres que exerciam uma atividade remunerada).
Foi no início do século XX que teve início, na Inglaterra, um
forte movimento feminista de luta pelo direito ao voto das mulheres, a
Women's Social and Political Union, cujas militantes ficaram conhecidas como suffragettes. Estas sufragistas pioneiras influenciaram um nome importante desta luta no Brasil, Bertha Lutz, segunda mulher a ingressar no serviço público (como bióloga, no Museu Nacional), fundadora (em 1919) da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher
e candidata (em 1933) a uma vaga na Assembleia Nacional. Embora não
tendo conseguido se eleger, foi deputada na Câmara Federal ao assumir,
em 1936, uma suplência. Antes dela, algumas (poucas) mulheres já haviam
ocupado cargos políticos, como Alzira Soriano, eleita em 1928 a primeira mulher prefeita (de Lajes - RN) ou a paulista Carlota Pereira Queirós, primeira deputada federal, em 1933.
A Roberta postou ontem na página Facebook das Subvertidas o link para o Guia Feminista para as Eleições 2012, muito elucidativo, do qual cito trechos abaixo:
A União Interparlamentar publicou um índice atualizado no final do mês passado referente à participação das mulheres em 190 parlamentos nacionais. E sabe qual país tem o maior índice de mulheres no parlamento? A Ruanda, que se reconstrói após o genocídio. Logo atrás dela estão, entre outros, Cuba, Senegal, Finlândia, Islândia, Noruega. O Brasil só aparece bem lá embaixo, no número 119, perdendo para uma série de países cujos nomes evocam a miséria, a violência dos conflitos e/ou a restrição cultural da liberdade feminina, como Afeganistão, Serra Leoa, Libéria, Emirados Árabes, Paquistão...
Em termos de participação feminina na política, dá pra ver que estamos mal. Por isso que a lei de cotas, em vigor nas eleições de hoje, é interessante, obrigando os partidos a apresentarem 30% de candidaturas femininas. Como afirmam no Guia citado acima, "votar em mulher pode ser visto como uma ação afirmativa visando fortalecer a participação das mulheres na política formal".
Aí vem o babaca e fala: "Ué, mas vocês aí não querem a igualdade, pra que então ter cotas? Só por que é mulher? Isso é discriminação!", e se for um babaca daqueles que se acha sagaz, "Vocês não falam que existem mais de dois sexos? Como é que tem que ter porcentagem de homem e mulher? E o travesti, não conta? E se o Laerte quiser se candidatar?"
É aquela velha história: Você não está sendo oprimido quando outro grupo ganha direitos que você sempre teve. A realidade e os índices mostram que não há distribuição igualitária do poder e que este desequilíbrio tem como base diferenças de gênero. Mas, claro, não basta votar em mulher só porque é mulher. O negócio é votar em pessoas que não sejam corruptas, desonestas, fundamentalistas, machistas, preconceituosas, elitistas... Diz-se por aí que estes espécimes estão em extinção: por isso mesmo, preocupemo-nos em criar condições para que cresçam e se reproduzam!
por Barbara Falleiros
Hoje é dia de eleição e a lei proíbe de declarar voto, de tentar pressionar eleitores em favor de um candidato, de fazer propaganda política. Mas não proíbe de relembrar a história e de refletir um pouco sobre o funcionamento das coisas...
No início de 2012 comemorou-se os 80 anos da oficialização do sufrágio feminino no Brasil: em 24 de fevereiro de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinava o decreto nº 21.076, instituindo o Código Eleitoral Brasileiro, em que constava, no Art. 2º: "É eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, alistado na forma deste Código", embora o Art. 121 ainda isentasse as mulheres da obrigação do voto. Além disso, só podiam votar as mulheres solteiras e viúvas que possuíssem renda própria e as casadas que tivessem a autorização do marido (estas restrições foram removidas em 1934; quanto à obrigatoriedade do voto feminino, esta veio somente em 1946, aplicada apenas às mulheres que exerciam uma atividade remunerada).
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| Bertha Lutz: grande nome da luta em prol do voto feminino |
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| Alzira Soriano: primeira prefeita mulher na América Latina |
Atualmente, temos uma mulher na presidência da
República, e ainda, uma mulher que foi torturada e perseguida durante o período mais sombrio da nossa história recente. Parece-nos que um longo caminho histórico foi percorrido. Mas é
o suficiente? Por que é importante termos mulheres participando
ativamente da vida política?
Ora,
estatisticamente, as mulheres são a maioria no país: ligeiramente a maioria da população
brasileira (e da população economicamente ativa), possuem um grau de escolaridade mais elevado e uma esperança de vida maior. No entanto, nas eleições municipais de 2008, foram eleitas apenas 504 mulheres, o que representa 9,7% do total de prefeit@s. E a porcentagem de vereadoras mulheres foi de 12,5%.
A Roberta postou ontem na página Facebook das Subvertidas o link para o Guia Feminista para as Eleições 2012, muito elucidativo, do qual cito trechos abaixo:
As mulheres representam hoje mais da metade da população do brasil (51,03%) e também mais da metade do eleitorado brasileiro (51,9%). São responsáveis por grande parte da riqueza produzida no país e realizam quase todo trabalho doméstico e as tarefas de cuidado, fundamentais para que as pessoas possam viver bem, sentirem-se protegidas, respeitadas e acolhidas no cotidiano da vida. No entanto, nos espaços públicos, onde são decididos os rumos do país, onde são elaboradas e aprovadas as leis, onde são planejadas e implementadas políticas públicas e definidos os projetos de desenvolvimento, as mulheres são minoria. Não porque não queiram estar ali, mas porque são excluídas desses espaços, uma vez que não são eleitas.
Mudar este quadro e eleger mulheres é, sobretudo, uma questão democrática, de justiça de gênero, de justiça distributiva do poder. Se as mulheres constroem a sociedade, produzem riqueza, cuidam das pessoas, cuidam do meio ambiente, educam, cuidam da saúde, é necessário que o poder de gerir o Estado, que gerencia a vida em sociedade, seja dividido igualitariamente entre mulheres e homens.
A União Interparlamentar publicou um índice atualizado no final do mês passado referente à participação das mulheres em 190 parlamentos nacionais. E sabe qual país tem o maior índice de mulheres no parlamento? A Ruanda, que se reconstrói após o genocídio. Logo atrás dela estão, entre outros, Cuba, Senegal, Finlândia, Islândia, Noruega. O Brasil só aparece bem lá embaixo, no número 119, perdendo para uma série de países cujos nomes evocam a miséria, a violência dos conflitos e/ou a restrição cultural da liberdade feminina, como Afeganistão, Serra Leoa, Libéria, Emirados Árabes, Paquistão...
Em termos de participação feminina na política, dá pra ver que estamos mal. Por isso que a lei de cotas, em vigor nas eleições de hoje, é interessante, obrigando os partidos a apresentarem 30% de candidaturas femininas. Como afirmam no Guia citado acima, "votar em mulher pode ser visto como uma ação afirmativa visando fortalecer a participação das mulheres na política formal". Aí vem o babaca e fala: "Ué, mas vocês aí não querem a igualdade, pra que então ter cotas? Só por que é mulher? Isso é discriminação!", e se for um babaca daqueles que se acha sagaz, "Vocês não falam que existem mais de dois sexos? Como é que tem que ter porcentagem de homem e mulher? E o travesti, não conta? E se o Laerte quiser se candidatar?"
É aquela velha história: Você não está sendo oprimido quando outro grupo ganha direitos que você sempre teve. A realidade e os índices mostram que não há distribuição igualitária do poder e que este desequilíbrio tem como base diferenças de gênero. Mas, claro, não basta votar em mulher só porque é mulher. O negócio é votar em pessoas que não sejam corruptas, desonestas, fundamentalistas, machistas, preconceituosas, elitistas... Diz-se por aí que estes espécimes estão em extinção: por isso mesmo, preocupemo-nos em criar condições para que cresçam e se reproduzam!
7 de outubro de 2012
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ativismo político,
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3
por Tággidi Ribeiro
Nesse post aqui eu falei sobre o fato de sermos sexualmente muito estimulados, mas sermos ao mesmo tempo sexualmente infelizes (ou incompletos, ou insatisfeitos - sem dúvida, ao mesmo tempo tolhidos). Falei também do potencial econômico dessa infelicidade - não por acaso, alusões a sexo em propaganda são usadas pra vender até hambúrguer.
E está na propaganda, justamente, a nossa doença: estamos doentes dos olhos. A propaganda mostra não o que queremos ver, mas aquilo que devemos querer ver; não o que queremos, mas aquilo que devemos querer e que, em algum momento, parece tornar-se o desejado e, mais, indispensável. Sim, a propaganda é perversa a ponto de transformar o desejo, fabricado por ela mesma, em necessidade. Desejo e necessidade são constitutivos do nosso ser e é só com isso que a propaganda brinca. "Pensar é estar doente dos olhos", diz um verso de Fernando Pessoa, como Alberto Caeiro. Enquanto olhamos a infinidade de imagens de todos os dias, a propaganda (quem ganha com ela) pensa por nós e nos molda.
Molda tanto a mente quanto o corpo de homens e mulheres. Mas o corpo ideal do homem mudou muito pouco desde os gregos, enquanto o corpo feminino sofreu uma mudança tão radical que mal reconhecemos nas imagens antigas as mulheres que um dia desejamos. Ao lado, Marylin Monroe, ícone máximo de beleza e sensualidade de sua geração, não parecia menos desejável por 'ter barriga'. Hoje em dia, contudo, ela estaria numa daquelas listas de celebridades 'descuidadas' ou de fotos antes do photoshop. "A origem do mundo", quadro de Gustave Courbet que esteve no centro de uma polêmica recente, tem apenas pouco mais de 150 anos e, no entanto, o corpo de mulher ali representado seria rejeitado pela maioria dos homens do nosso tempo (e criticado pela maioria das mulheres - inclusive pelo 'excesso' de pelos). E o que dizer da Monalisa, da Vênus de Milo? Os homens se dizem naturalmente atraídos pelas mulheres bonitas, mas a propaganda nos vem mostrar a força da construção cultural ao adoecer os olhos de todo um gênero, fazendo-o crer que há um universal, no tempo e no espaço, para a beleza de catálogo.
Além de reconhecer a beleza em uns poucos estereótipos, estar doente dos olhos é também exacerbar o uso da visão e saber muito pouco dos outros sentidos. Tem gente, por exemplo, que faz sexo mas não é capaz de sentir a pele e o cheiro do parceiro, ou de ouvi-lo - gente reduzida ao olho. Se falo de sexo é porque é sem dúvida na nossa atividade mais potencialmente satisfatória, prazerosa e desestressante, que os sentidos se fazem sentir. Contudo, a nossa falta de preparo, a nossa falta de exercício dos sentidos está cotidianamente, ininterruptamente, em nós. Não nos damos conta dos cheiros à nossa volta, nem dos barulhos, nem do que tocamos ou que nos toca. Nosso paladar é sofrível. Só aquilo que é agudo demais é que a gente percebe: sal demais ou açúcar demais; funk alto no busão; o cheiro do rio poluído. Somos uns coitados, nesses sentidos - sempre tendo que ignorar o mais possível o que nos incomoda ou o que nos faz bem porque, enfim, temos pressa, e porque, afinal de contas, não podemos consertar tudo o que não presta, nem gozar de tudo que nos faria feliz. Não temos o nosso tempo. Só temos tempo de olhar as imagens em ultravelocidade na rua, na tv, na internet - desejar ter ou ser aqueles corpos da propaganda, gastar o quanto for preciso para tanto. Sonhar solitariamente com eles.
E está na propaganda, justamente, a nossa doença: estamos doentes dos olhos. A propaganda mostra não o que queremos ver, mas aquilo que devemos querer ver; não o que queremos, mas aquilo que devemos querer e que, em algum momento, parece tornar-se o desejado e, mais, indispensável. Sim, a propaganda é perversa a ponto de transformar o desejo, fabricado por ela mesma, em necessidade. Desejo e necessidade são constitutivos do nosso ser e é só com isso que a propaganda brinca. "Pensar é estar doente dos olhos", diz um verso de Fernando Pessoa, como Alberto Caeiro. Enquanto olhamos a infinidade de imagens de todos os dias, a propaganda (quem ganha com ela) pensa por nós e nos molda.
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| E quando as mulheres podiam ter barriga. |
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| Padrão atual. |
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| Vênus de Milo. |
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| A origem do mundo. |
6
por Roberta Gregoli
Desde que comecei este blog e, mesmo antes disso, quando comecei a me identificar mais forte e abertamente com o feminismo, várixs conhecidxs, em graus variados de boa intencionalidade, me questionaram. Me perguntaram se feminismo não era o contrário de machismo, e por isso igualmente radical; me perguntaram se não era melhor ver as pessoas simplesmente como pessoas, sem rótulos como mulheres, negros, etc (a resposta para estas perguntas estão aqui); e sempre tem um ou outro que faz piada, fica desconfortável ou ri quando eu digo que sou feminista.
por Roberta Gregoli
Desde que comecei este blog e, mesmo antes disso, quando comecei a me identificar mais forte e abertamente com o feminismo, várixs conhecidxs, em graus variados de boa intencionalidade, me questionaram. Me perguntaram se feminismo não era o contrário de machismo, e por isso igualmente radical; me perguntaram se não era melhor ver as pessoas simplesmente como pessoas, sem rótulos como mulheres, negros, etc (a resposta para estas perguntas estão aqui); e sempre tem um ou outro que faz piada, fica desconfortável ou ri quando eu digo que sou feminista.
Isso não me incomoda, mas me levou a um outro tipo de auto-questionamento: por que agora? Afinal de contas, eu sempre fui mulher e a sociedade não mudou muito nos 30 anos em que estive neste mundo.
Acho que existem alguns fatores pessoais, outros mais gerais. Pessoalmente, tenho estudado gênero há alguns anos e, quanto mais 'treinamento' se tem, mais se enxerga o machismo. É a velha história do fusca verde. Você compra um achando que não tem igual, mas a partir daquele momento começa a ver fuscas verdes em todo o lugar. A conscientização é um processo muito forte e é um dos principais objetivos deste blog.
Mas mesmo quem nunca estudou gênero pode se identificar com as ideias feministas, sobretudo quando o sexismo bate na porta - e ele certamente bate na nossa porta aos 30.
Aos 30 anos algumas pressões sociais começam a pesar mais forte: você começa a se questionar sobre a sua carreira e, como mulher, percebe que é mais difícil chegar ao topo. Na escola e na faculdade você provavelmente se destacou - não faltam evidências de que as mulheres em geral vão melhor na escola e formam a maioria dxs ingressantes, e concluintes, na universidade -, mas, de repente, se vê ganhando menos que a maioria dos seus colegas homens. É como se, até o final dos estudos nos dissessem que podemos chegar lá, e, por nós mesmas nos damos conta de que, na verdade, não. Essa barreira invisível, porém amplamente verificada no mundo todo, é chamada teto de vidro (minha tradução de glass ceiling, já que o conceito não está ainda popularizado no Brasil). O teto de vidro não se resume a um fator isolado, mas sim a uma combinação de fatores, mensuráveis ou não, que impedem as mulheres de chegar ao topo, independente do grau de escolaridade e qualificação profissional.
Aos 30 anos algumas pressões sociais começam a pesar mais forte: você começa a se questionar sobre a sua carreira e, como mulher, percebe que é mais difícil chegar ao topo. Na escola e na faculdade você provavelmente se destacou - não faltam evidências de que as mulheres em geral vão melhor na escola e formam a maioria dxs ingressantes, e concluintes, na universidade -, mas, de repente, se vê ganhando menos que a maioria dos seus colegas homens. É como se, até o final dos estudos nos dissessem que podemos chegar lá, e, por nós mesmas nos damos conta de que, na verdade, não. Essa barreira invisível, porém amplamente verificada no mundo todo, é chamada teto de vidro (minha tradução de glass ceiling, já que o conceito não está ainda popularizado no Brasil). O teto de vidro não se resume a um fator isolado, mas sim a uma combinação de fatores, mensuráveis ou não, que impedem as mulheres de chegar ao topo, independente do grau de escolaridade e qualificação profissional.
E evidências da existência do teto de vidro não faltam: lacuna salarial de quase 30% no Brasil, menos de 4% de mulheres CEOs nas 500 maiores empresas dos Estados Unidos, 18% de mulheres nos cargos mais alto das universidades europeias (e apenas 9% de reitoras, apesar de 59% dxs graduandxs serem mulheres), discriminação de gênero e raça em processos seletivos (que pode ser consciente, do tipo "pede-se boa aparência", que é outro jeito de dizer "brancx", ou inconsciente, e aqui entram processos de identificação em que o chefe, muito provavelmente homem e branco, tem mais chances de se enxergar naquele "jovem promissor" do que numa jovem tão promissora, e talvez tão ou mais qualificada).
Para as que ainda não se decidiram, os 30 é também a época em que provavelmente mais nos questionamos se queremos ou não ter filhos - e enfatizo estas palavras porque está claro que no Brasil ainda persiste a infeliz ideia da maternidade compulsória. Aí entram questões como o equilíbrio entre vida pessoal e carreira e o desafio de se passar da jornada dupla para a jornada tripla de trabalho.
Aos 30 anos, começamos a sentir os primeiros sinais do envelhecimento e, num contexto em o valor das mulheres é medido exclusivamente pela aparência, trata-se de um processo desafiador. Não importa a competência, o sucesso, a inteligência, o talento... que o diga Hillary Clinton, Adele, Dilma Rousseff.
Enfim, acho que os 30 é quando começamos a ficar fartas - tirando as que foram mais espertas mais cedo. É quando cansamos de ver que os chefes dão mais atenção, e valor, ao que um homem fala do que ao que você fala, mesmo você sabendo que suas ideias têm mais substância; quando cansamos de trabalhar o dobro para ter o mesmo reconhecimento; quando estamos sábias o suficiente para entender que cantadas não são elogios e sim mais uma forma de abuso verbal; quando entendemos que a impossibilidade de amizade entre homens e mulheres é um mito baseado na ideia de que mulheres não podem ser mais do que objetos sexuais; quando nos damos conta de a competição feminina é uma grande balela com o objetivo de nos manter desunidas.
É por isso que sou feminista. E é por isso que agora, mais do nunca: porque, para mim, o feminismo me ajuda a entender, melhor do que nunca, o mundo e a minha circunscrição nele.
Aos 30 anos, começamos a sentir os primeiros sinais do envelhecimento e, num contexto em o valor das mulheres é medido exclusivamente pela aparência, trata-se de um processo desafiador. Não importa a competência, o sucesso, a inteligência, o talento... que o diga Hillary Clinton, Adele, Dilma Rousseff.
Enfim, acho que os 30 é quando começamos a ficar fartas - tirando as que foram mais espertas mais cedo. É quando cansamos de ver que os chefes dão mais atenção, e valor, ao que um homem fala do que ao que você fala, mesmo você sabendo que suas ideias têm mais substância; quando cansamos de trabalhar o dobro para ter o mesmo reconhecimento; quando estamos sábias o suficiente para entender que cantadas não são elogios e sim mais uma forma de abuso verbal; quando entendemos que a impossibilidade de amizade entre homens e mulheres é um mito baseado na ideia de que mulheres não podem ser mais do que objetos sexuais; quando nos damos conta de a competição feminina é uma grande balela com o objetivo de nos manter desunidas.
É por isso que sou feminista. E é por isso que agora, mais do nunca: porque, para mim, o feminismo me ajuda a entender, melhor do que nunca, o mundo e a minha circunscrição nele.
3 de outubro de 2012
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Roberta,
solidariedade feminina
4
por Mazu
![]() |
| Nada mais parecido com um machista de direita que um machista de esquerda |
Este post não tem intenção nenhuma de defender ou atacar determinados regimes políticos, nem responder ou solucionar qualquer crise. Faço somente uma observação, baseada em notícias de jornal, sobre a situação do Partido Comunista Chinês (PCCh) e a crise do
atual regime na China. O objetivo maior deste texto é comentar o
relatório do partido sobre a expulsão de Bo Xilai, um dos grandes quadros do partido. O mencionado relatório afirma que a culpa das atitudes corruptas de Xilai são, na verdade, da mulher dele, Gu Kailai.
Um pouquinho de contexto e cautela nunca fizeram mal a ninguém
Vou resumir a história que o Ocidente tem contado
sobre a crise política chinesa, e eu sei o quanto isso é problemático.
O negócio é que, aparentemente, depois que tudo estourou, a censura internética
na China foi de "mencione a 'revolução cultural' e seu site/perfil será tirado do ar" para "mencione 'política' e receba uma visita da polícia
na sua casa". Exageros à parte, tenho tentado falar com amigo que estuda
lá para saber como ele está sentido a tal crise e ainda não consegui, quando
rolar, publico nos comentários.
Em julho de 2010, Bo Xilai foi um dos
protagonistas de uma mega-operação contra a corrupção na China que culminou,
entre outras coisas, na execução de um ex-comandante da Polícia, Wen Qiang,
acusado de aceitar suborno e proteger mafiosos. Segundo a Folha, alguns
analistas consideraram isso um "esforço ensaiado" para crescer no
cenário político, especialmente porque, na época, Bo Xilai ocupava um
ministério não relacionado diretamente com o combate à corrupção.
A história de Bo Xilai no partido comunista é
notória, ele já era uma liderança do partido na juventude. Teria passado cinco
anos preso por pertencer a uma família de intelectuais, durante a Revolução
Cultural. Filho de Bo Ybo, líder do PCCh e camarada de Mao Tsé-Tung, as ações
de Xilai no partido sempre demonstraram o quanto ele defendia a volta do
maoísmo, por isso foi apelidado de "vermelho".
Em março deste ano, Wang Lijun, ex-chefe de
polícia de Bo Xilai, então prefeito de Chongqing, uma metrópole chinesa de 31
milhões de habitantes aproximadamente, foi destituído do cargo por corrupção.
Ele teria procurado asilo político na Embaixada dos EUA, ocasião em que teria
delatado "aos inimigos do regime" o envolvimento de Bo Xilai e sua
esposa, Gu Kailai, em vários esquemas de corrupção e no assassinato do
empresário expatriado britânico, Neil Heywood.
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| Família Bo |
Então, em agosto deste ano, Gu confessou ter
envenenado o empresário porque ele teria ameaçado o filho dela, Bo Guagua. Depois da confissão, Gu
foi condenada à pena de morte suspensa (que é uma prisão perpétua desde que mantido o bom comportamento). O ex-chefe de polícia, considerado um traidor pelos
membros do PCCh, teve pena de 15 anos apenas por ter se entregado às
autoridades.
Na sexta-feira, 28/9/12, Bo Xilai foi expulso do
Partido Comunista Chinês por acobertar o assassinato do empresário britânico,
aceitar suborno, enquanto Ministro do Comércio, e manter relações sexuais
impróprias com várias mulheres. Com sua expulsão do partido, ele perde sua
imunidade e será entregue à justiça comum.
Ontem, começou a rolar umas notícias, aquelas com
fontes internas e misteriosas, enfim. E essas fontes secretas - dentro do
Partido Comunista chinês - afirmaram que o relatório interno do partido sobre
a expulsão de Bo Xilai colocava toda a culpa em Gu Kailai. Ela e
sua ambição desmedida por dinheiro e poder teriam sido o motivo da derrocada de
Xilai. Segundo as tais fontes misteriosas, ela também teria obrigado Xilai a
promover Lijun dentro da polícia.
Olha só, o cara aceitou propinas, subornos e fez
tudo o que fez por pressão da mulher. Alguém aí, levanta a mão se já escutou
alguma coisa parecida na história da humanidade antes!
Jackie Kennedy da China
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| Gu Kailai |
Gu é quase sempre descrita como brilhante e
ambiciosa. Formou-se em direito em uma importante universidade chinesa, ainda
jovem criou sua própria firma e teve algumas grandes vitórias no direito
corporativo que chamaram a atenção. Publicou um livro com um nome do tipo
"Como ganhar ações contra empresas norte-americanas".
Depois de conhecer e se casar com Xilai, ela
fechou sua firma. Muitos dizem em um momento de ápice e muito entusiasmo
profissional. A explicação seria o cargo público do marido, ela teria fechado a
firma para evitar conflitos de interesse e acusações de favorecimento. Ficava
lendo em casa, era o que diziam.
A história do assassinato de Heywood por Gu é
muito mal contada. Quer dizer, é contada de diversas formas diferentes, na
verdade. Para começar, ninguém desconfiou de assassinato até Lijun abrir a
boca. É, pois é.
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| Bo filho e Bo pai |
Enfim, li a Folha, The Guardian, Times e
blogueiros independentes e todos têm uma versão diferente. Ela, Gu Kailai,
afirmou, durante seu julgamento, que o empresário teria ameaçado seu filho e,
consequentemente, em um surto psicótico, ela o envenenou. Contudo, existem
várias teorias: alguns dizem que o garoto de 24 anos é um playboy festeiro em
Harvard (teria entrado lá com ajuda de Heywood, inclusive). E nessas aventuras
da vida universitária teria ouvido de Heywood "me dê 13 milhões ou eu vou
te destruir". Outros dizem que Gu e Heywood eram amantes. Quase todos
falam de um conflito de interesse econômico entre Gu e Heywood, ninguém
específica bem a natureza do negócio, contudo.
Por sua vez, Bo Guagua, o filho, fez um
testemunho morno no caso da mãe e uma defesa pública veemente, em diversos
meios, de seu pai. Vai vendo. Para mamãe "os fatos falarão por si
mesmos", para papai: "o pai que eu conheço é reto em suas crenças e
devoto às obrigações".
Complexo de Eva
| Jian Quing, companheira de Mao |
Como eu disse no começo, não temos a menor
condição de entender muito bem os fatos do que os especialistas estão chamando
de "maior crise política na China depois de 1989". Sinto, contudo,
que o complexo de Eva e do pecado original se repete. A gente pode lembrar, por
exemplo, que a esposa de Mao Tsé-Tung foi condenada pelos excessos da
revolução. Então, Mao = herói, esposa = condenada. Perceba.
Em outro lugar, em outro momento, Bill Clinton
mentiu em juízo e todo mundo acha que o problema da vida dele foi transar com a
estagiária. Estagiária, por sinal, que andava desempregada até esses tempos,
quando decidiu voltar a falar de um assunto que não a abandona e vai ganhar aí
uma boladinha. Bill, não, lavou ficou novo, e sua carreira como consultor sempre
foi e continua muito bem, obrigada. Na real, dá para fazer uma lista bem
extensa de todas as vezes que uma mulher foi a justificativa ou explicação de
um erro de uma grande personagem histórica masculina. Mas quem tem todo esse
tempo?
Eu insisto, não dá para dizermos que tipo de
pessoas são Gu Kailai e Bo Xilai. Aparentemente, são criminosas e corruptas.
Mas tudo é sempre tão obscuro quando se fala em um sistema político tão
fechado.
Crucificar Gu, unicamente, poderia ser um jeito
de minimizar a culpa e salvaguardar a imagem de um dos mais proeminentes
membros do Partido Comunista que, até a erupção dos escândalos, estava cotado para
integrar o Conselho Central do partido. Alguns diriam que Bo Xilai chegaria a
presidente.
Culpar a ambição e o consumismo feminino da
esposa também poderia ser um jeito de não falar da crise interna do PCCh que,
mesmo com todo secretismo do partido, vem vindo cada vez mais à tona. Alguns
colunistas dizem que o PCCh tem várias facções e que as brigas internas andam
implodindo o partido. Existem inúmeros defensores de Xilai, maoístas ferrenhos,
dizendo que tudo é um grande esquema para manter Xilai e o maoísmo fora do
poder. Um monte de gente vem falando em outra revolução cultural, o que
economicamente seria uma tragédia (inclusive para o Brasil, vide BRICS e tudo
mais).
E esse é justamente o problema: são muitos
fatores de ordem política e social para serem escondidos e explicados tão somente pela suposta ambição de Gu Kailai.
Cara, não é possível que este argumento cole.
Será? Será que vai ter gente achando mesmo que todos os subornos,
todos os crimes e, consequentemente, os problemas do sistema político que tais crimes
apontam, se devem ao fato da Gu Kailai gostar de dinheiro? Cara, na boa, espero
que não.
É engraçado que, quando um político vai bem e faz
coisas legais, ninguém dá os créditos para a sua companheira. Agora quando os
caras erram, uh, tem sempre uma mulher para mal encaminhá-los. Ah, tá, claro.
Pobrezinhos.
Bora abandonar isso, né?A gente atrai gente
parecida com a gente, oras. Nunca vi urubu voando com beija-flor.
No nosso ordenamento jurídico respondem pelo crime
o mandante e o executor, a não ser que haja coação. E se o Xilai foi coagido
pela mulher por tantos anos e tantos feitos corruptos, ia ser legal ele provar
e explicar bem explicadinho, porque a carta da "esposa interesseira"
não vai dar conta de explicar toda a sua fortuna, nem a boa vida do filhão.
1 de outubro de 2012
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