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No segundo debate presidencial dos EUA no dia 16, Mitt Romney disse uma frase que lhe atormentará pelo resto da campanha e, oxalá, lhe custará a eleição:
Mas a fala de Romney não é um caso isolado, uma gafe impensada. Trata-se de um sintoma, mais uma manifestação do consistente ataque aos direitos já conquistados pelas mulheres norte-americanas, que passou a ser chamado, em inglês, de War on Women. E para os que acham que a expressão é exagerada, basta olhar para os acontecimentos dos últimos meses.
Em agosto, o também republicano Todd Akin, membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, falou em "estupro legítimo" (como se houvesse estupro de brincadeirinha) e, desafiando qualquer estudo científico e o mais básico senso comum, disse que "se o estupro for legítimo, o corpo feminino tem meios de bloquear [a gravidez]". Pulou a sexta série, coitado. Romney-Ryan rapidamente tentaram se dissociar do comentário, mas não é assim tão simples, já que a fala de Akin foi uma tentativa torpe de explicar por que o aborto nos casos de estupro deveria ser condenado, a mesma posição defendida pelo candidato à Vice-Presidência, Paul Ryan.
A frase em inglês soa igualmente bizarra e cheia de implicações: o candidato então não conhecia nenhuma mulher que pudesse chamar para trabalhar com ele? Talvez não muito surpreendente numa religião que tem a poligamia (masculina, claro) em sua raiz, praticada até hoje, ilegalmente, no Utah. Entendemos, então, o quão distante Romney está das lideranças políticas e sociais femininas, de travar um diálogo para entender as necessidades específicas dessa comunidade. Para que ouvir a voz dessas mulheres? Pega aí o catálogo, vamos vem o que tem.
Em resumo, uma vitória de Romney-Ryan seria um enorme passo em direção ao passado. E aqui deixo com vocês Sandra Fluke, ativista feminista que foi proibida de participar de um debate republicano sobre o aborto no começo do ano, em seu discurso na Convenção Nacional Democrata. Infelizmente o vídeo não tem legendas, mas vale a pena gastar o inglês para ouvir este discurso lúcido e inspirador.
por Roberta Gregoli
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| Ninguém deixa Baby numa pasta |
A frase tornou-se viral ainda durante o debate, com direito a memes como a acima, uma infinidade de twítes inteligentes sob a hashtag #binderfullofwomen e até uma página no Facebook que já conta com mais de 330 mil membros.I went on a number of women's groups and said: "Can you help us find folks," and they brought us whole binders full of women.
Abordei vários grupos de mulheres e disse: "Vocês podem nos ajudar a encontrar pessoas [para ocupar o gabinete]?" e eles me trouxeram fichários cheios de mulheres. (minha tradução)
Mas a fala de Romney não é um caso isolado, uma gafe impensada. Trata-se de um sintoma, mais uma manifestação do consistente ataque aos direitos já conquistados pelas mulheres norte-americanas, que passou a ser chamado, em inglês, de War on Women. E para os que acham que a expressão é exagerada, basta olhar para os acontecimentos dos últimos meses.
Planejamento familiar
Apesar de não articular claramente onde faria o corte orçamentário que permitiria aumentar o orçamento de defesa em US$ 2 trilhões, um dos únicos cortes declarados por Romney seria para o programa de planejamento familiar chamado Planned Parenthood, que os republicanos entendem encorajar o aborto. Educação sexual e a promoção de métodos contraceptivos, ambos extremamente importantes para o planejamento de vida das mulheres, estariam, então, certamente comprometidos.Estupro de leve
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| O útero de acordo com os republicanos |
Aborto
Apesar de terem negado nas últimas semanas, há razões para se suspeitar que, caso eleito, Romney tentará revogar o direito ao abortamento legal, em vigor em nível federal nos Estados Unidos desde 1973. (Curiosidade: 4 anos antes do divórcio ser legalizado no Brasil... A nossa luta ainda é longa.) O mais amedrontador é que, como Presidente, Romney estará duas nomeações da Suprema Corte mais perto de conseguir, de fato, reverter a lei.Um futuro de volta ao passado
A fala completa de Romney no debate está aqui e é possível verificar o tom totalmente paternalista e a linha de raciocínio toda equivocada. Como assim não existem mulheres qualificadas? Mais plausível que os assessores não sejam qualificados - ou vivam no século passado. E daí temos a pérola de que os grupos de mulheres enviaram "fichários cheios de mulheres". A palavra binder pode ser traduzida como pasta, fichário, arquivo ou catálogo, dependendo do contexto. Fico imaginando como são esses fichários: fotos e resumos, eu arrisco, talvez não muito diferente das revistas de moda.A frase em inglês soa igualmente bizarra e cheia de implicações: o candidato então não conhecia nenhuma mulher que pudesse chamar para trabalhar com ele? Talvez não muito surpreendente numa religião que tem a poligamia (masculina, claro) em sua raiz, praticada até hoje, ilegalmente, no Utah. Entendemos, então, o quão distante Romney está das lideranças políticas e sociais femininas, de travar um diálogo para entender as necessidades específicas dessa comunidade. Para que ouvir a voz dessas mulheres? Pega aí o catálogo, vamos vem o que tem.
Em resumo, uma vitória de Romney-Ryan seria um enorme passo em direção ao passado. E aqui deixo com vocês Sandra Fluke, ativista feminista que foi proibida de participar de um debate republicano sobre o aborto no começo do ano, em seu discurso na Convenção Nacional Democrata. Infelizmente o vídeo não tem legendas, mas vale a pena gastar o inglês para ouvir este discurso lúcido e inspirador.
Sobre os dois futuros para as mulheres nos Estados Unidos:
"Um desses futuros é uma relíquia ofensiva e obsoleta do nosso passado"
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por Mazu
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| Como é que é?? |
Este post vai ter um tom de
desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de
quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final
de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada,
extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo
eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque
eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu
chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.
Sei que tem uma das blogueiras
famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está
cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.
E sabe por que cansa tanto?
Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas
formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou,
tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo,
que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu
escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha
(a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice
de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na
China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece
que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.
De qualquer forma, serviu para
refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A
Época de outubro de 2012 traz a
seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam
mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para
não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”. Parece exagero, mas aí mora a origem de todo
o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que
poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus,
que bobagem!
Essa sensação de que já estamos
com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo.
E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos
milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos
meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso
tira peso de responsabilidade dos dois lados.
Sobre a tripla jornada de
trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia
mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as
coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor,
vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço
no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que
a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada,
absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a
ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão
sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito
motivo para existir.
Um dos objetivos do blog é
mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo
dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com
raiva, e a matéria da Época só não
está pior porque acabou em cinco páginas.
A matéria começa falando de uma
novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes,
não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que
como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete
isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e,
nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente
mais enturmada socialmente. Uau.
A partir daí, a matéria começa a
descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por
algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas
páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o
texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:
“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da
jornalista!
Depois de toda essa alegria,
alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um
troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar
os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de
trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais
estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe
a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a
participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei
muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas:
“ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos
dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma
de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma,
pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma
boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito
de escolher, ou uma coisa ou outra.
| Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista, não é um sinal de vitória para mulher nenhuma. |
De repente, a matéria ficou legal
apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição
patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E
é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se
vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e
percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
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| Grifei Teló e Du Loren, na lista de "sinais" de vitórias |
Bom, a matéria estava indo super
bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos
que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do
Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O
homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria
trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa
frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só
porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?
Tanto esforço e tempo que a gente
passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige
direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de
violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa
conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério
como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda
racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso
lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com
isso.
Que canseira e que desânimo. Para
começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que
ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais
responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de
ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não
ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.
15 de outubro de 2012
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Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
"Uma coisa é viver pela imagem, mas essas feministas aí são muito descuidadas, credo". Ora, um pouco de perspectiva histórica não faz mal a ninguém. Temos que pensar no significado da ruptura da imagem tradicional da mulher provocada pelo movimento feminista nos anos 60/70. As feministas desta época romperam com uma beleza considerada burguesa e alienada e valorizaram mais o natural: o natural de um corpo solto, livre.
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
por Barbara Falleiros
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| Atributos típicos da feminista padrão: cabelo mal cuidado, roupa desleixada, fumo e muitos pelos no corpo. |
Nos últimos meses, com as garotas da Femen oferecendo à grande mídia a imagem polida de neofeministas nórdicas geneticamente privilegiadas (como sugeriu Sara Winter), assistimos a uma grande revolução: a palavra feminista, que o vulgo assimilara anteriormente a sapatona hippie peluda desleixada, ganha a nova acepção de loirinha gostosa pagando peitinho. Como convém, a luta das mulheres reduz-se a este âmbito, por natureza "feminino", que é a beleza: só o que interessa é saber se a ativista é feia ou bonita, encaixá-la ou excluí-la de um padrão de beleza. E por quê? [Aqui termina a ironia desta introdução] Porque a beleza é o único poder que se concede às mulheres.
As relações entre feminismo e beleza são complexas; estes conceitos, por si só, já o são. Porém, mais uma vez a história nos ajuda a fugir das generalizações da ignorância. A grande bandeira do senso comum antifeminista é a de que feministas não são femininas, entendendo a feminilidade como uma certa graça, delicadeza, vaidade e beleza características das mulheres. Só aí já dava discussão para uma vida inteira.
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| "Linda e loira" já no século XV. Mas ainda nada de silicone, bronzeamento ou alisamento. |
Mas vamos devagar. Primeiramente, não dá para ser "contra a beleza" pois esta, enquanto experiência de apreciação estética, é própria do gênero humano. Padrões de beleza ideal estão presentes em todas as sociedades, em todos os tempos. No entanto, estes padrões não são absolutos mas variam conforme o lugar e a época. Por exemplo, na Europa do século XV, o ideal de beleza feminina caracterizava-se pela pele pálida, os seios pequenos, o ventre redondo. Jamais uma dama tentaria esconder com seus cabelos louros uma testa proeminente! Pelo contrário: as outras é que, desesperadas, tentavam aumentar a superfície da sua testa depilando com cal viva o alto da cabeça... Vale dizer também que, nesta época, a beleza era entendida como um reflexo das qualidades morais...
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
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| Benoîte Groult |
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
"Durante toda a minha infância, eu vivi obcecada pela obrigação de beleza e sedução que era imposta às meninas. Em 1936 eu tinha 16 anos e nessa idade, naquele tempo, entrávamos na horrível categoria de meninas "para casar" (...). Se, com 25 anos, a gente ainda não estivesse casada, entrávamos em outra categoria horrível, a das solteironas, o terrível arquétipo da literatura dos dois últimos séculos: tornávamo-nos aquela tia largada, desprezada, prima pobre, éramos consideradas necessariamente feias."
Bette Davis, solteirona em
The Old Maid
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
"Que libertação, que felicidade! Era como se eu tivesse renascido! Eu tinha mais de 40 anos, mas comecei a viver. Já não era obrigada a usar os vestidos de alta-costura da minha mãe. Nós não éramos obrigadas a obedecer aos cânones de beleza. Podíamos afrouxar as algemas, vestir-nos como gostávamos (...)"
Ao promoverem uma liberação física e mental em relação ao corpo feminino, elas conseguiram usufruir de uma liberdade que fez com que se sentissem
de fato belas. Uma ideia eficiente retomada por uma série de campanhas
atuais que procuram incentivar as mulheres a amarem e respeitarem o
próprio corpo.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
É desesperador! É como se a revolução de 1968 não tivesse servido para nada. Seios siliconados, lábios inchados artificialmente, coxas lipoaspiradas! Impõe-se uma beleza feminina estereotipada que é uma escravidão.
(...) Chegamos a um estágio inacreditável de pornô chique na moda. E ninguém diz: vocês são ridículas com seus saltos agulha torturando seus dedos, vocês morrerão de dores nas costas mais tarde. Estas mulheres que eu vejo nos aeroportos com seus saltos 12 cm, de saia apertada, arrastando malas pesadas, olho pra elas com a mesma pena que me inspiram as mulheres de véu. Todas elas se deixam condicionar, umas pela religião, outras pela sociedade de consumo ou pelas supostas fantasias masculinas.
Com esta crítica, retomo as perguntas colocadas acima. O cerne da questão não está em ser ou não ser bonita, mas em ser bonita para que, por que ou para quem? Para se sentir amada? Para se dar valor? Simplesmente para existir? É nas motivações que se escondem as amarras.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
14 de outubro de 2012
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história
0
por Tággidi Ribeiro
Li há alguns anos, em uma dessas revistas femininas que traz histórias de sofrimento e superação, um relato que me tocou profundamente. Era a história de uma mulher que havia encontrado seu amor. Ela e seu homem eram apaixonados um pelo outro, tinham uma convivência excelente, desejavam-se muito e eram ótimos amantes. Resolveram casar.
Tudo deu certo até o terceiro mês do casamento. A partir daí, o marido começou a distanciar-se sexualmente da esposa, até deixar de fazer sexo com ela. Continuou sendo um ótimo marido: carinhoso, gentil, compreensivo - uma ótima companhia. Nunca mais, contudo, quis de sua mulher algo além de amizade e companheirismo.
Essa esposa tentou de tudo: de jogos de sedução a conversas e brigas. Não teve de seu marido nada além de evasivas típicas: 'não há problema algum. Amo você', 'estou apenas cansado. A gente tenta depois'. O homem era sempre gentil, paciente, mesmo quando ela enlouquecia.
E ela enlouqueceu. Privada da satisfação do seu desejo sexual (a masturbação não era o suficiente) e incapaz de trair ou abandonar o marido especial que tinha, essa mulher entrou em depressão. Quase morreu. E iria morrer de culpa: ela não era boa o suficiente para aquele homem maravilhoso. Ela não conseguia deixar de querer sentir-se sexualmente desejável, ela não conseguia abrir mão do sexo a dois. Mas ela sabia, ela tinha certeza de que o que seu marido lhe proporcionava era muito mais importante do que alguns momentos de prazer algumas vezes por semana.
Essa mulher seguiu um caminho conhecido dos depressivos: terapia e remédios. Melhorou, decidiu se separar. Nessa da separação ela descobriu que o marido-anjo teve/tinha vários casos. Ele a fazia pensar que sexo não era importante, que ele não sentia falta, que ela não deveria sentir, que não era um problema casamento sem sexo. Mas ele a enganava.
Lembro que depois de ler essa história fiquei pensando sobre a vulnerabilidade de uma mulher (da gente), tão acostumada à obediência, ao sacrifício da própria felicidade em favor do outro, em nome do casamento, da estabilidade, da casa, da família - tudo isso que compõe uma espécie de ética feminina. Se o marido adoece, a mulher está lá para cuidar; se os filhos adoecem, ela está lá; se são os pais, idem. Quantos homens, contudo, vemos que cuidem de suas mulheres, filhos e pais em situações extremas e mesmo nas mais cotidianas? E quantos maridos continuariam casados - sem trair - com uma mulher que se recusa a fazer sexo com eles?
Pensei muito também sobre o quanto nós mulheres estamos acostumadas a deixar em segundo (terceiro, quarto) plano o sexo nas nossas vidas. Ensinam meninas a menosprezar o desejo sexual, a reprimi-lo e meninos a superestimá-lo e saciá-lo. Bem, alguma coisa só pode dar errado assim.
Sabendo que a falta de desejo sexual em geral sinaliza problemas; que a falta de satisfação sexual está na raiz de vários problemas e doenças; que não existem substitutos para o sexo, assim como não existem substitutos para o sono, não pude deixar de chegar a esta conclusão: mulheres, uma boa companhia não vale o sacrifício da sua felicidade sexual.
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| Parece perfeito |
Tudo deu certo até o terceiro mês do casamento. A partir daí, o marido começou a distanciar-se sexualmente da esposa, até deixar de fazer sexo com ela. Continuou sendo um ótimo marido: carinhoso, gentil, compreensivo - uma ótima companhia. Nunca mais, contudo, quis de sua mulher algo além de amizade e companheirismo.
Essa esposa tentou de tudo: de jogos de sedução a conversas e brigas. Não teve de seu marido nada além de evasivas típicas: 'não há problema algum. Amo você', 'estou apenas cansado. A gente tenta depois'. O homem era sempre gentil, paciente, mesmo quando ela enlouquecia.
E ela enlouqueceu. Privada da satisfação do seu desejo sexual (a masturbação não era o suficiente) e incapaz de trair ou abandonar o marido especial que tinha, essa mulher entrou em depressão. Quase morreu. E iria morrer de culpa: ela não era boa o suficiente para aquele homem maravilhoso. Ela não conseguia deixar de querer sentir-se sexualmente desejável, ela não conseguia abrir mão do sexo a dois. Mas ela sabia, ela tinha certeza de que o que seu marido lhe proporcionava era muito mais importante do que alguns momentos de prazer algumas vezes por semana.
Essa mulher seguiu um caminho conhecido dos depressivos: terapia e remédios. Melhorou, decidiu se separar. Nessa da separação ela descobriu que o marido-anjo teve/tinha vários casos. Ele a fazia pensar que sexo não era importante, que ele não sentia falta, que ela não deveria sentir, que não era um problema casamento sem sexo. Mas ele a enganava.
Lembro que depois de ler essa história fiquei pensando sobre a vulnerabilidade de uma mulher (da gente), tão acostumada à obediência, ao sacrifício da própria felicidade em favor do outro, em nome do casamento, da estabilidade, da casa, da família - tudo isso que compõe uma espécie de ética feminina. Se o marido adoece, a mulher está lá para cuidar; se os filhos adoecem, ela está lá; se são os pais, idem. Quantos homens, contudo, vemos que cuidem de suas mulheres, filhos e pais em situações extremas e mesmo nas mais cotidianas? E quantos maridos continuariam casados - sem trair - com uma mulher que se recusa a fazer sexo com eles?
Pensei muito também sobre o quanto nós mulheres estamos acostumadas a deixar em segundo (terceiro, quarto) plano o sexo nas nossas vidas. Ensinam meninas a menosprezar o desejo sexual, a reprimi-lo e meninos a superestimá-lo e saciá-lo. Bem, alguma coisa só pode dar errado assim.
Sabendo que a falta de desejo sexual em geral sinaliza problemas; que a falta de satisfação sexual está na raiz de vários problemas e doenças; que não existem substitutos para o sexo, assim como não existem substitutos para o sono, não pude deixar de chegar a esta conclusão: mulheres, uma boa companhia não vale o sacrifício da sua felicidade sexual.
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| Felizes? |
13 de outubro de 2012
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sexualidade,
Tággidi
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Esta semana tenho pensado muito na ignorância que paira sobre diversos assuntos relacionados ao feminismo. E digo ignorância no sentido mais neutro da palavra: o quanto as pessoas ignoram fatos e argumentos que, para quem está mais ligad@ nessas discussões, são considerados básicos. Neste e neste post comentei alguns pontos básicos sobre o aborto e a Bárbara e a Mazu já falaram um pouco da história do feminismo e das mulheres. A Tággidi e eu já discutimos o papel da mídia no que é, para todos os efeitos, o apagamento da perspectiva feminista (e, em muitos casos, simplesmente feminina). Este apagamento tem uma série de consequências para além do debate absolutamente rudimentar em torno dessas questões, a começar pela invisibilidade do próprio movimento - quantos não acham que não existe mais feminismo no mundo? Só porque a Globo não noticia não quer dizer que não exista.
por Roberta Gregoli
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| Não deu na Globo, mas estamos aqui |
Globo, aquela que acaba de promover violência doméstica no horário de maior audiência, na novela mais popular dos últimos tempos. Nem os 6 anos de Lei Maria da Penha e toda a visibilidade da lei servem para mudar esta mentalidade que é, agora no pior sentido da palavra, ignorante.
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| Violência doméstica em horário nobre |
Graças aos céus pelas mídias alternativas, que dão voz a nós, mer@s mortais sem conexões no mundo midiático nem famílias quatrocentonas. Fico muito contente de ver vári@s amig@s compartilhando comigo notícias, charges e vídeos. Não ligo que pensem "na amiga feminista" antes de pensarem "como o machismo é injusto": algo que antes passaria despercebido já não passa mais. O passar despercebido é justamente o que faz persistir um dos maiores mitos do patriarcado, segundo o qual o machismo não existe, sexismo é coisa do passado, feministas estão procurando pelo em ovo, a desqualificação do movimento, enfim. A conscientização, então, tem um papel fundamental porque é o primeiro passo para a revisão de comportamentos e valores e, com sorte, o primeiro passo para a mudança.
Pessoalmente, a minha conscientização se deu muito através de choques culturais, que me fizeram entender outras concepções do aceitável, e forçosamente levaram ao questionamento da minha cultura original. Fora o Brasil, a Inglaterra é o quarto país em que já morei e foram muitas as histórias de choque cultural com relação a gênero. Algumas engraçadas, outras preocupantes, mas todas elucidativas.
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| Tocar alguém sem consentimento é assédio |
Morei na Nova Zelândia por um ano num intercâmbio de graduação entre a Unicamp e a Universidade de Auckland e essa experiência foi marcante por ter sido a primeira vez que morei no exterior. Lá tinha contato com um brasileiro que a certa altura me contou que havia sido expulso de uma boate por "desrespeitar as mulheres" (a justificativa dada pelo segurança que o expulsou). Eu perguntei, nossa, o que ele tinha feito. Ele disse que o mesmo que fazia no Brasil, ou seja, nada demais. Mas aí está o ponto da questão: o que é aceitável no Brasil (nesse caso, confrontar mulheres numa boate com cantadas diretas e, dependendo do ponto de vista, agressivas), lá era desrespeito. A melhor parte da história vem depois, quando ele, estudante de classe alta de São Paulo, acima da lei, foi bater boca com o segurança, mas se esqueceu que lá era só um imigrante de segunda categoria e levou um murro na fuça.
Também me lembro de carregar um mochilão pesadíssimo ao lado de um amigo alemão que, mesmo de mãos abanando, não se ofereceu para me ajudar. Na época achei estranho, mas hoje entendo o quanto no Brasil a educação das meninas é ainda baseada fortemente em ideias de fraqueza e fragilidade. Hoje entendo que, por me considerar uma igual, ele não achou que eu precisasse de ajuda, assim como ele não ofereceria para um amigo homem naquela situação. Em resumo, ele não menosprezou a minha força física.
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| Eu não sou cachorro, não assobie para mim |
Ainda na Nova Zelândia, no começo achava que não era considerada atraente porque os homens não mexiam comigo na rua. Um ano depois, ao desembarcar de volta na América Latina, me lembro de como eram invasivos os olhares e as cantadas desrespeitosas nas ruas de Buenos Aires. Aprendemos que ser apreciada é ser assediada e isso simplesmente não está certo.
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| Assédio de rua |
A partir de hoje está no ar uma seção nova chamada 'Blogs feministas', logo abaixo à direita. Assim ajudamos a divulgar espaços de ideias alternativas à mídia tradicional, já que nela somos invisíveis.



















