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Saúde feminina: entre humilhação e controle

por Barbara Falleiros

Era uma vez, na Bahia, uma mulher pobre e gorda. Ela vai ao médico para tentar emagrecer e ele escreve na receita: "cadialina". Em seguida, explica que é um cadeado para a boca, um para a geladeira, outro para o armário... E que se a paciente não quiser os cadeados, que faça jejum quatro dias na semana e, nos outros três, beba apenas água. A dona de casa, humilhada, presta queixa ao Conselho Regional de Medicina. O médico se defende, fora mal interpretado!

O que acontece, na verdade, é que a dona de casa é burra e louca. Sim, sim, palavra do doutor. Incapaz de entender uma linguagem figurada porque vem de "uma comunidade que não tem sensibilidade para abstrair as coisas", sentiu-se humilhada e ficou deprimida porque apresenta "um estado psicopatológico", "uma sensibilidade psíquica", "um quadro psicológico delicado que não cabe, por uma questão de ética, ser levado a público" (mas agora já foi). O doutor ama seus pacientes, garante. Ama até a jornalista.


Ao comentar esse caso aqui, num blog feminista, esclareço que não estou dizendo que o médico tratou a paciente mal "porque ela é mulher". Neste caso, não necessariamente [A gente tenta não ser daquelas cabeças simplistas que só martelam a sua causa: Choveu no feriado! Tudo culpa do PT! A Dilma não quer que a gente desça para a praia!]. Embora esta carta na manga do "problema psicológico" seja frequentemente lançada quando se trata de uma mulher - veja abaixo - e que a gordofobia atinja as mulheres em cheio, muitas pessoas vulneráveis - homens, mulheres, adultos, idosos -  são menosprezadas por maus médicos que se aproveitam do poder que lhes garante o conhecimento. Em outras palavras, quem nunca foi tratado como imbecil por um médico arrogante? Nem precisa ser mulher para isso. [ಠ_ಠ]

Mas mesmo que este caso não implique necessariamente preconceito de gênero (e mais um preconceito de classe), ele me fez pensar em uma outra história que ouvi de uma resposta médica grosseira e ofensiva. Nos tempos idos da pré-pílula, já com uma boa dezena de filhos, uma senhora respeitável ousa perguntar ao seu médico, à meia-voz: "Doutor, como eu faço para não ficar mais grávida?" E ela ouve como resposta: "É fácil, basta a senhora colocar uma boa tábua de madeira no meio da cama, para separar a senhora do seu marido." 

Esta história, por sua vez, lembrou-me de uma cena que marcou o primeiro episódio da série Mad men, ambientada nos anos 60. Uma jovem solteira, Peggy, visita um ginecologista em busca de contraceptivos. O médico, com seu olhar condescendente, diz algo assim: "Mas escute bem, se você abusar, eu corto o medicamento. É para o seu bem! Mulheres fáceis não arrumam maridos."  Quanto a uma outra personagem, casada e com uma vida suburbana "perfeita" que esconde mal o seu vazio, esta acaba indo ver um psiquiatra que, em seguida, relata o que ela disse nas sessões ao seu marido...


Humilhação, controle do corpo e da psique femininos. Esta dinâmica parece funcionar há muito tempo quando a questão é a saúde da mulher. Da histeria freudiana (distúrbios sensoriais causados por uma forte instabilidade emocional feminina) à prática rotineira da episiotomia durante o parto hospitalar, passando pelo tratamento de doenças majoritariamente femininas como a fibromialgia, à qual muitos médicos insistem em atribuir uma causa puramente psicológica: "A dor que a senhora diz que sente não existe, ela está na sua cabeça". 

"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
Sobre uma mulher doente parece sempre pairar a desconfiança em relação à sua sanidade mental. Como disse a médica e professora da Universidade de Barcelona, Carme Valls-Lloret, autora do livro Mujeres invisibles, em uma entrevista a respeito da fibromialgia:

As demandas e queixas das mulheres, em torno de 25% dos casos, são consideradas psicossomáticas, enquanto que as queixas masculinas, qualquer que seja a demanda, são consideradas mais sérias. Por outro lado, nós sabemos que na saúde mental existem muitas encruzilhadas. Que a deficiência de ferro aumenta a ansiedade e que carências de tiroxina aumentam a depressão. Sabemos também que o papel [da mulher] de cuidadora, a discriminação social e no trabalho, assim como a história pessoal, também provocam problemas de saúde mental. [Mas] a saúde pública "soluciona" o problema receitando às mulheres medicamentos psicotrópicos para "silenciá-las".

E então, à base de fluoxetina e Rivotril, obtém-se mulheres calmas, felizes, dóceis e caladas, assim como deve ser.
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm

[Por hoje, fica esta introdução. Mas aproveitarei o gancho desse caso da paciente baiana para discutir algumas dessas questões de saúde feminina nos próximos posts. Se eu continuar sã até lá.]


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As mulheres e a música - compositoras brasileiras

por Tággidi Ribeiro
 

Desejo mostrar ao mundo, tanto como pode a arte musical, a errônea presunção de que só os homens possuem os dons da arte e do intelecto e de que estes dons nunca são atributos da mulher. 
Maddalena Casulana (1544-1590), compositora renascentista. 
Admito desde já que estou há pouco tempo pensando sobre as mulheres na música e que pesquisei muito pouco sobre. Trago mais de memória uma linha do tempo de figuras femininas, sobretudo cantoras, que fizeram história. Mas esse texto não vai falar sobre as cantoras. Ou, pelo menos, não vai falar sobre as 'apenas' cantoras. Meu foco aqui são as compositoras. As brasileiras.

Pesquisei pouco, mas achei, numa rápida ida ao santo Google esses dois endereços que contêm muito mais coisa do que eu imaginei que poderia encontrar. Obviamente, isso só diz do meu despreparo. Mas vamos lá. Haverá coisa aqui nesse textinho que você não vai encontrar tão facilmente.

Chiquinha Gonzaga
Quando penso nas mulheres compositoras do Brasil, me vem logo à mente Chiquinha Gonzaga. Já foi personagem de minissérie da Globo, razão pela qual gente da minha geração pode se lembrar tão bem dela. Do contrário, saberíamos quem compôs 'Ô abre alas!'? No mais, fora ter sido uma mulher compositora em sua época, foi também absolutamente transgressora, ao não admitir os abusos e traições dos dois primeiros maridos e ao unir-se, aos 52 anos, com um jovem de apenas 16. Embora eu não julgue que uma união com essa diferença de idade seja salutar, o fato é que durante os 36 anos seguintes, até a morte de Chiquinha, ela e seu maior amor permaneceram juntos. Só pra merecer mais respeito, Chiquinha Gonzaga ainda era politicamente progressista e ativa, defensora da causa abolicionista e republicana.

No vazio feminino da composição - ou na falta de memória, história e pesquisa -, depois de mais de 10 anos da morte de Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran desponta como cantora. Dolores Duran viveu apenas 29 intensos anos. Morreu em 1959 tendo composto alguns dos maiores sucessos da música apelidada de 'dor de cotovelo', como 'A Noite do Meu Bem'. Compondo com Tom Jobim, é considerada precursora da bossa nova e portanto de tudo que veio na música brasileira como reação à bossa. Uma biografia recém-lançada sobre ela mostra a incrível mulher vinda de família pobre, autodidata e politizada que foi Dolores Duran.

Ali quase ao lado de Dolores Duran, vem outra 'grande dama' da dor de cotovelo: Maysa. Também personagem de minissérie da Globo (e por isso certamente mais conhecida), Maysa foi outra cantora/compositora talentosa que fez história na música popular brasileira.

Tânia Maria
Falei de apenas três nomes femininos da música brasileira em quatro séculos e meio de história, e da década de 1960 até a de 1980 do século passado tenho somente alguns outros poucos para referir: Rita Lee, Suely Costa, Joyce, Marina Lima e Ana Mazzotti. E a Tânia Maria: cantora, compositora e pianista genial que fez toda a carreira dela 'na gringa', porque não teria espaço aqui. 

Bem, quero crer que minha pouca memória e minha falta de conhecimento é que reduzem os números. De qualquer forma, não há como negar, há menos compositoras que compositores no Brasil (e no mundo). E tenho certeza de que vocês leitores deste blog imaginam, como eu, que esse dado se deve ao fato de que as mulheres tiveram seu espaço restrito à casa e foram proibidas de estudar durantes milênios, o que deve ter contribuído só um pouquinho para que não seguissem outra 'vocação' que não a de mães e donas de casa.

Por isso, definitivamente, devemos comemorar o que vem acontecendo no Brasil desde a década de 1990. As mulheres aportaram no cais da música, como corpo e voz, mas sobretudo como palavra - criação. Marisa Monte, Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Fernanda Abreu, Vanessa da Mata foram abrindo caminho às demais. As de quase agora: Mallu Magalhães, Maria Gadú, Tulipa Ruiz, Céu, Bárbara Eugênia, Tiê, Ana Cañas e Karina Buhr. Esperamos tantas mais.

Karina Buhr
Tomo a liberdade de findar este post de referências com a Karina Buhr, compositora que toca a dimensão demasiadamente humana do feminino: 'Eu sou uma pessoa má/Eu menti pra você/Você não podia esperar/Ouvir uma mentira de mim/Que pena eu não sou/O que você quer de mim/Se você tiver que escolher entre você e o seu amor/Você escolhe quem?'.


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Apanhando igual mulher: quando a vítima é o homem

por Barbara Falleiros

Não digo que toda mulher gosta de apanhar. 
Só as normais. As neuróticas reagem.
Nelson Rodrigues, macho reaça.

Na semana passada, escrevi sobre os mecanismos da violência doméstica e familiar com base em uma cartilha do Ministério Público de São Paulo. Esta cartilha foi especificamente elaborada para mulheres vítimas de violência. Deste modo, falei a respeito de relacionamentos heterossexuais abusivos em que o homem (companheiro, ex-marido, namorado) apresenta-se como agressor. Recebi então uma crítica evocando as violências, sobretudo psicológicas, perpetradas por mulheres de  comportamento agressivo, que se aproveitam da facilidade de adotar um discurso de vitimização para exercer sobre o parceiro um terror psicológico. Caso verídico, garantia meu interlocutor, e bastante recorrente. Não que eu duvide,  mas há quem identificará neste discurso elementos do masculinismo, movimento contra um suposto sexismo antimasculino. E, de fato, uma das bandeiras do masculinismo é o combate ao que ele vê como um favorecimento legal das mulheres (com a Lei Maria da Penha, por exemplo), além do combate à minimização e à ridicularização da violência contra os homens.

Os masculinistas gostam muito de citar um artigo que saiu na mídia em 2008, com base em estatísticas de um estudo realizado na Unifesp, artigo este que recebeu o título apelativo de "Mulheres agridem mais do que os homens". É só pesquisar no Google para ver que este texto é citado em tudo quanto é página masculinista. Porém, as estatísticas provêm do Primeiro Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool no Brasil, que resultou em uma tese de doutorado, defendida em 2009, a ser lida aqui. Ora, os dados da Violência entre Parceiros Íntimos (VPI) analisados pelo autor foram baseados em questionários respondidos por 631 homens e 814 mulheres que perpetraram ou sofreram violência, e são relacionados ao consumo de álcool. As questões diferenciavam a violência leve (empurrar, sacudir, dar tapas, atirar objetos) e a violência grave (dar chutes, mordidas, atirar objetos sobre, queimar, escaldar, agredir sexualmente, ameaçar ou tentar atingir com faca ou arma de fogo). Segundo o autor:

  • O grau de violência nas agressões contra as mulheres tende a ser maior
"Embora algumas evidências apontem para o fato de que as agressões de mulheres contra seus companheiros sejam tão ou mais prevalentes do que as agressões sofridas por elas (Schaefer et al., 1998; Straus,1995; Straus & Gelles, 1990), as mulheres sofrem mais lesões e necessitam de cuidados médicos mais frequentemente do que os homens (Browne, 1993; Morse, 1995; Tjaden & Thoennes, 1998; Stets & Straus, 1990)." (p. 11-12)

  • Em suas respostas, os homens podem ter omitido ou minimizado a violência cometida, enquanto que as mulheres tendem a omitir a violência sofrida
"Surpreendentemente, as mulheres reportaram uma porcentagem maior de episódios de perpetração de violência leve ou grave do que os homens (apesar de que os homens são geralmente mais violentos do que as mulheres). Isto pode resultar do fato de os homens parecerem deixar de relatar a perpetração da violência com mais frequência do que as mulheres (Caetano, Schaefer, Field & Nelson, 2002). Por outro lado, as mulheres podem ter medo de estigmatização, represália e outros resultados negativos caso revelarem experiências de vitimização, o que pode ter contribuído para sua omissão (Miller, Wilsnack & Cunradi, 2000). Em nosso estudo, naqueles que envolveram unicamente a vitimização, a porcentagem de mulheres é maior do que de homens." (p. 91-92, tradução nossa)

Ou seja, mesmo o autor é cauteloso ao apresentar seus dados e confirma, de toda forma, que as mulheres são mais frequentemente vítimas de violência doméstica.

  • A Lei Maria da Penha e os homens agredidos
Como eu disse mais acima, os masculinistas costumam ver na Lei Maria da Penha a prova da desigualdade entre homens e mulheres e das "vantagens" conseguidas pelas mulheres em termos jurídicos. Porém, há poucos dias, houve um certo alarde em torno da aplicação desta lei em um caso de violência doméstica envolvendo um pai e seu filho agressor. Ué, como é que funciona isso? Vou resumir uma boa explicação que pode ser encontrada aqui. É o seguinte: o artigo 129 do Código Penal trata da lesão corporal, seja qual for o sexo do agressor e da vítima. Porém, em 2004, acrescentou-se o 9º parágrafo que diz respeito a situações de violência doméstica, levando em conta as "especificidades que caracterizam [esta violência] praticada contra a mulher". Esta política especial é necessária porque, historicamente, a vítima mulher se encontra em uma situação de vulnerabilidade particular: "observa-se a persistência de algumas características desta situação de violência, tais como relação de dependência econômica e emocional entre agressor e agredida, naturalização e banalização do conflito, despreparo de profissionais atuantes na área de atendimento às vítimas (desestimulando denúncias)".

A gente repete toda semana e vai continuar repetindo: é para os processos históricos que temos que olhar, só eles dão plena significação aos acontecimentos individuais. 

Mas voltando aos homens agredidos. O meu interlocutor falava de uma refinada violência psicológica da parte da agressora mulher. Talvez seja isso: as mulheres [ah, essas bruxas diabólicas! ... Não resisti. Mas não é verdade que, historicamente, as mulheres sejam vistas como manipuladoras e perversas?] talvez elas batam menos só porque são capazes de atordoar mais! Escolha sua arma, não é?


Agora falando sério: é claro que existem homens vítimas de violência doméstica e que esta violência deve nos preocupar. Já me arrependo do sarcasmo das minhas últimas linhas porque, vejam só, minha atitude é um exemplo de comportamento execrável face à violência: eu ironizei o potencial feminino de agredir e o potencial masculino de ser agredido. Tiro no pé. Mas, na verdade, o problema está colocado em termos errados. Não é briguinha de quem sofre mais. E aproveitando para uma ressalva, eu diria que tampouco é uma questão de sexo físico, biológico, ou coisa do tipo: a violência pode acontecer em qualquer uma das variadas configurações possíveis de uma relação conjugal. O que existem são construções de papéis sociais e modos de relacionamento que encorajam ou provocam a vitimização feminina (para estatísticas da violência contra as mulheres, ver por exemplo aqui). Porém, quando sofre violência física ou psicológica por parte da sua companheira, frequentemente o homem também acaba sendo uma vítima do machismo. Por quê? Porque, para o machismo, homem que é homem não leva desaforo. Como bem disse meu interlocutor, o homem que sofre é visto como frouxo. Onde já se viu sofrer por mulher? Onde já se viu apanhar de mulher? Ou, como li por aí, no submundo da internet: "Homem que apanha da mulher não tem que procurar a justiça, tem que procurar onde se vende vergonha na cara". E é assim que, por vergonha, o agredido esconde a situação, reluta em compartilhar seu sofrimento com amigos e família, com medo de ser julgado, nem sequer sonha em buscar respaldo jurídico.

Se nós criticamos a identificação da mulher como sexo frágil, recusamos igualmente a do homem como sexo forte. Reconhecer o homem na sua força e na sua fragilidade é reconhecê-lo como igual. Ainda que historicamente as tendências se desenhem de forma mais polarizada no caso da violência doméstica, não interessa de modo algum ao feminismo colar na mulher a etiqueta de coitadinha e no homem a de vilão. Muito pelo contrário. A violência, de onde quer que venha, precisa ser combatida. Reconhecer o sofrimento masculino, saber que o homem pode ser levado a sofrer, que pode ser ofendido, insultado, agredido e violentado e que a lei deve protegê-lo, tudo isso faz parte da luta pela igualdade.





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Capital erótico my ass 3 - último e tenso

por Tággidi Ribeiro

Esse é o terceiro e último post sobre a entrevista da Catherine Hakim à Veja e está tenso. Muita coisa discutida e ainda a discutir. Leia os anteriores aqui e aqui.

Os tipos de feminismo - “O feminismo é uma ideologia abrangente, contém muitos elementos adversos.”
1. Se você quer entender o feminismo, veja este post da Roberta Gregoli. 
Igualdade entre os sexos - “O mito feminista da igualdade dos sexos é tão infundado quanto a afirmação de que todas as mulheres almejam a total simetria nos papéis familiares, emprego e salário. As feministas insistem que a independência financeira é necessária para a igualdade em casa. Argumentam ainda que a maior parte das mulheres é carreirista, como os homens, e detesta ficar em casa para criar os filhos. Diversos estudos indicam o contrário. A maioria das mulheres prefere ficar em casa em tempo integral quando as crianças são pequenas, pelo menos até elas começarem a frequentar a escola. Um parceiro bem-sucedido torna essa opção mais viável.”
2. É bem interessante que alguém fale de "mito" da igualdade entre sexos. A questão aqui é simples até demais: apesar de homens e mulheres termos cromossomos diferentes, somos igualmente human@s. Não há motivo para sermos tratadas como inferiores, desrespeitadas, pra não termos os mesmos direitos. No mais, as mudanças culturais têm mostrado que, se não somos biologicamente iguais, somos ao menos bem menos diferentes do que imaginavámos. O que é infundado, mesmo, é o mito de que mulher é frágil e fraca. E o mito de que homem que é homem não chora.


3. Pesquisas que abordam aspirações masculinas ou femininas dizem mais sobre em que tipo de sociedade somos criad@s e menos sobre aspirações 'naturais' (aliás, que aspirações são naturais?!). O feminismo é tão pouco difundido (e tão mal compreendido) que a maioria das mulheres e dos homens sequer têm a possibilidade de deixar de repetir padrões.

O marido ideal - “Tornar-se uma dona de casa ‘à toa’, em tempo integral, é uma utopia moderna para a maioria das mulheres. Em estudos realizados em todo o mundo, quando questionadas sobre as características mais valorizadas em um parceiro, as mulheres afirmam preferir homens com recursos, condição que viabiliza a permanência delas no lar.”
4. Não sei que pesquisas realizadas 'em todo o mundo' são essas, mas sei de uma coisa: no mundo quase inteiro, mulheres são criadas para serem mães e para estar dentro de casa. O espaço de fora da casa não é delas, elas não o conhecem. São milênios de confinamento, é pouco mais de um século de feminismo. Até as mulheres ao redor do mundo saberem que o espaço de dentro de casa é mais violento que o de fora, vai levar tempo. Quando acontecer, essa balela do conforto, do trabalho doméstico leve e da segurança que é ter um homem 'provedor' vai se dirimir. E mulheres como nós, que temos o mundo inteiro para nós, e não só nossas casas, serão maioria.

Déficit sexual masculino - “Desejo sexual é uma questão de gênero. As mulheres têm um nível mais baixo de desejo sexual, de forma que os homens passam a maior parte da vida sexualmente frustrados em vários graus. Existe um sistemático e, ao que parece, universal -- déficit sexual masculino. Os homens geralmente querem muito mais sexo do que conseguem, em todas as idades. Assim, a capacidade de atração sexual feminina perante os hormônios deles pode ser uma ferramenta valiosa de que as mulheres se beneficiem. Os homens sempre exploraram as mulheres, razão pela qual o feminismo foi necessário. Nós, mulheres, deveríamos explorar qualquer vantagem que temos sobre os homens, sempre que possível.”
5. Esse trecho da entrevista de Catherine Hakim me dá nos nervos. Como alguém que se diz pensador sério e feminista pode afirmar que mulheres têm menos desejo sexual do que homens? Nós mulheres fomos milenarmente reprimidas, nosso prazer era associado ao MAL. Quando eu era pequena, nos anos 80, ainda se contavam as histórias do tempo em que mulher que sentia prazer era considerada puta pelo marido. Podia perder o marido e acabar indo trabalhar na zona mesmo. Eram as histórias do anos 50, 60. Esse tempo de mulher que gosta de sexo e sente prazer é historicamente e culturalmente ínfimo. A verdade é que sabemos praticamente nada sobre o desejo sexual feminino. E mais ignorantes ficamos se levamos em consideração a batelada de pesquisas fajutas feitas por homens ou mulheres machistas como Catherine Hakim. Felizmente, as histórias que ouço hoje contam que mulheres livres sentem tanto desejo quanto seus parceiros.

6. É impressão minha ou a Catherine Hakim justifica com essa fala a pornografia, a prostituição, o golpe do baú, o teste do sofá? Ou ela diz que devemos excitar a fantasia masculina, mas deixar os homens na mão? Nossa, que ética! Me sinto realmente empoderada... ao dizer que feministas não querem 'explorar' homens, nem vender seus corpos ou falsas promessas sexuais. Feministas acreditam no direito ao prazer, na liberdade dos corpos de homens e mulheres - sem exploração.

Barriga de aluguel - “Se os homens pudessem produzir bebês, essa seria uma das maiores ocupações pagas do mundo. As leis foram inventadas pelos homens para o interesse deles próprios, e não incluem os interesses femininos. Muitas vezes, a legislação impede que as mulheres recebam integralmente os lucros de seus talentos, com valor comercial adequado. A barriga de aluguel, por exemplo, é um fluxo de receita inexplorado e do qual nós, mulheres, podería-mos [sic] nos beneficiar.”
 7. 'Oportunidade de carreira: alugue a sua barriga. Pagamos bem. Obs: não nos responsabilizamos pela saúde física ou mental da barriga após o parto.' Uau, hein?, Catherine Hakim! Nós feministinhas idiotas pensando em incentivar as meninas a serem o quiserem sem medo: atletas, cientistas, políticas, donas de indústrias. E você com essa visão thundercat de como ganhar dinheiro fácil.

Pelo fim da hipocrisia - “Sou uma feminista convicta. Sempre busquei o melhor para as mulheres. Dediquei mais de duas décadas de minha carreira a responder a uma questão: por que as mulheres raramente são as heroínas? Há quem não me entenda, mas o que ofereço é uma nova perspectiva feminista, sem hipocrisia. Muitos dos escritos feministas modernos conspiram a favor das perspectivas chauvinistas masculinas ao perpetuar o desprezo pela beleza e pelo sex appeal das mulheres. O feminismo radical deprecia o encanto feminino. Por que não estimular a feminilidade em vez de aboli-la?”
 8. Então quer dizer que feminilidade é sinônimo de beleza e sex appeal? Qué dizê, quer dizer que é um conceito dado e imutável e é isso: beleza e sensualidade? Quer dizer que feminilidade não é construção sócio-histórica? Quer dizer, também, que justamente esse conceito de feminilidade que vem atravessando séculos não foi o que nos tirou do papel central da história e nos relegou à categoria de adereço? Você quer dizer isso, Catherine Hakim, mesmo?

9. Com beleza e sex appeal exaustivamente explorados, hoje, no mundo inteiro, a maioria das mulheres somos: bbbs, panicats, strippers, coelhinhas, prostitutas de luxo, atrizes pornô, marias-chuteira, marias-gasolina, belas da torcida, as mais belas presidiárias, acompanhantes de luxo, musas, piriguetes. Somos também muito facilmente destratadas, agredidas, assediadas, estupradas e mortas. Mas, quando isso acontece, dizem que a gente tava 'pedindo'.

A liberdade é o único poder.


 

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Mulheres, humor e escatologia

por Roberta Gregoli

Adoro peidar

Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata. 

O problema é a ideologia que está por trás dos comentários. A Má já falou sobre comédia stand-up e concordo: muito do que tenho visto no Brasil é de virar o estômago, humor reacionário em seu estado mais puro. Reflexo de uma mentalidade reacionária (mas o Serra perdeu a eleição e talvez assinou o óbito de sua carreira política, o que significa que ainda há esperança!). 

Já defendi que não existe humor inofensivo, mas isso não significa que comédia só possa ser usada para banalizar e naturalizar preconceitos e discursos de ódio.

Margaret Cho e fã alucinada
Ontem fui a um show de comédia stand-up da coreana-americana Margaret Cho, em Londres. Como conheço a maioria dos seus shows, sei que ela tem a boca suja, mas ontem estava particularmente suja. E achei ótimo. Precisamos de mais mulheres falando de assuntos ainda hoje tidos como tabu: menstruação, menopausa, masturbação e sexo, muito sexo. Enquanto santa e puta forem categorias mutuamente excludentes, precisamos de mulheres fazendo piada sobre a própria vida sexual, sobre boquete, sexo anal; enquanto houver a ideia de orientação sexual como algo rígido, com a heterossexualidade como norma, precisamos de mulheres falando sobre sexo com homens e com mulheres.

Precisamos também de mulheres falando sobre o aborto. E aqui alguns podem se chocar. Mas ora, se piada de estupro é "só brincadeirinha", por que de aborto não pode? #padrãoduplo

A Sarah Silverman é outra comediante norte-americana, também de minoria étnica (judia) e gerou polêmica com este post no Twitter, em abril deste ano:


Ela escreveu e eu traduzo: fui ali fazer um aborto rápido caso a lei seja revogada ("R v W" é uma referência ao caso Roe contra Wade, que levou à descriminalização do aborto em âmbito nacional, em 1973).

Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito. 

Meninas passam bilhetes,
meninos 'passam' gases
Precisamos também de mulheres falando sobre temas escatológicos, o chamado 'humor de banheiro'. E a Margaret Cho é ótima nisso, ela fala sobre mijar nas calças, cagar nas calças, peidar. Independente de achar graça nesse tipo de humor ou não, acho importante que piadas assim estejam sendo feitas por mulheres. Porque homens falam abertamente sobre todas essas coisas, fazem piadas, enquanto nós somos educadas para, na melhor das hipóteses, usar eufemismos. E mais do que falar, nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se a nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada. Ou pelo menos nos fosse negado falar sobre ela, que é a mesma coisa. 

Ainda sobre mulheres e escatologia, me lembro que ano passado houve uma cena do filme Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) que foi particularmente criticada:


Há quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.

Ando pensando muito nas comediantes mulheres no Brasil, mas acho que esse é assunto para um outro post, mesmo porque ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão clara. O maravilhoso humor desbocado da Dercy Gonçalves é certamente transgressor, mas não sei o suficiente sobre a nova geração... Talvez a Ingrid Guimarães e a Heloísa Périssé se aproximem mais desse tipo de humor subversivo com relação ao papel da mulher. Comentários?