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Há alguns meses, no reality show A Fazenda 5, da Record, a declaração de uma participante provocou polêmica: "Estou de chico!", disse com naturalidade a bailarina. O que ela não sabia é que dessas coisas não se fala, menina! Ainda mais usando um eufemismo tão vulgar. Escândalo. Seus colegas não tardaram a reagir. Um humorista tentou corrigí-la: "Logo você? Toda bonitinha, toda jeitosinha, [dizendo] 'estou de chico'? [Diga] 'estou menstruada'..." Uma apresentadora ponderou que a expressão "estar de chico" seria aceitável em uma conversa entre mulheres, mas quando houvesse homens envolvidos o melhor seria dizer "estar naqueles dias". A dançarina Gretchen, a Rainha do Bumbum, foi quem mais se indignou: Como é que a outra pode falar aquilo na frente do caseiro? "O pior é que é um assunto nojento!" - concluiu. Assim como a Roberta apontou no post sobre humor escatológico, certos assuntos sujos e nojentos continuam proibidos para mulheres bonitinhas e bem educadas, mesmo quando dizem respeito ao seu próprio corpo.
Em suas vidas, as mulheres passam por etapas definidas pela presença ou ausência de sangue: a menstruação, a primeira vez, a gravidez, o parto, a menopausa... E na nossa civilização, a regulação desse corpo que sangra passou pela diabolização do fluxo menstrual. O sangue heroico das batalhas masculinas e dos sacrifícios é puro, vermelho-vivo, enquanto que a menstruação é impura, um sangue negro, coagulado, da não-fecundação. A mulher menstruada é ela mesma impura, contaminada - por isso as inúmeras interdições de relações sexuais durante o período - e também muito perigosa.
Muitos dos mitos em torno da menstruação hoje nos fazem rir. Exemplos:
É verdade que já se foi o tempo das "cintas sanitárias", em que fraldas ou toalhas eram presas com alfinetes (já se foi em termos, tem pra vender no ebay)... Os absorventes internos e externos, com alto poder de absorção, vangloriam-se de conceder à mulher toda a liberdade à qual ela anseia. Sei... Mas a bola da vez agora é o coletor menstrual, que voltou, associando "higiene, conforto, economia e consciência ambiental". Não acho que já existam propagandas na tv desses coletores, mas a publicidade de absorventes femininos segue um padrão notório: tudo é articulado para falar da menstruação sem falar da menstruação, sem mostrá-la, porém mostrando como escondê-la. Quanto mais invisível, melhor o absorvente. E porque o sangue é sujo, feio e não faz vender, e porque as consumidoras-alvo são princesas, litros de líquido azul são derramados... E às vezes o produto nem mesmo é mostrado, sendo substituído por um desenho, como se a visão de um absorvente de verdade fosse ofensiva. Quanto ao branco imaculado da roupa das modelos, ele é a prova de que o produto combate a imundice com pureza e higiene.
por Barbara Falleiros
Há alguns meses, no reality show A Fazenda 5, da Record, a declaração de uma participante provocou polêmica: "Estou de chico!", disse com naturalidade a bailarina. O que ela não sabia é que dessas coisas não se fala, menina! Ainda mais usando um eufemismo tão vulgar. Escândalo. Seus colegas não tardaram a reagir. Um humorista tentou corrigí-la: "Logo você? Toda bonitinha, toda jeitosinha, [dizendo] 'estou de chico'? [Diga] 'estou menstruada'..." Uma apresentadora ponderou que a expressão "estar de chico" seria aceitável em uma conversa entre mulheres, mas quando houvesse homens envolvidos o melhor seria dizer "estar naqueles dias". A dançarina Gretchen, a Rainha do Bumbum, foi quem mais se indignou: Como é que a outra pode falar aquilo na frente do caseiro? "O pior é que é um assunto nojento!" - concluiu. Assim como a Roberta apontou no post sobre humor escatológico, certos assuntos sujos e nojentos continuam proibidos para mulheres bonitinhas e bem educadas, mesmo quando dizem respeito ao seu próprio corpo.
O medo da mancha. Dentre todas as angústias que enfrentam as meninas no início da adolescência, talvez essa seja a maior. "Você pode ver se a minha calça está manchada?" - murmura-se num canto do pátio. Mais tarde, as mulheres adultas continuam a esconder seus absorventes em compartimentos ultrassecretos, e a ficarem vermelhas quando, por descuido, deixam cair da bolsa um OB. A menstruação exposta é o ápice da humiliação e vergonha.
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| "Menstruate with pride", da ativista e artista Sarah Maple |
Muitos dos mitos em torno da menstruação hoje nos fazem rir. Exemplos:
- Na Idade Média, pensava-se que uma criança nascia ruiva por ter sido engendrada durante o período menstrual;
- Nessa época, acreditava-se que as mulheres na menopausa, cujas impurezas não eram mais eliminadas pelo sangue, passavam a transmitir seu veneno pelo olhar. Por isso elas eram afastadas dos bebês, indefesos;
- Pensava-se também que a lepra era contraída durante a relação sexual com uma mulher menstruada;
- As mulheres menstruadas causavam terríveis estragos na cozinha: apodreciam a carne, azedavam o leite, impediam a fermentação do pão, escureciam o açúcar, destruíam o mel;
- Elas também embaçavam os espelhos, enferrujavam o ferro, deixavam o cobre com um odor insuportável;
- Por conta da atração do sangue pelo sangue, provocavam acidentes e atrapalhavam caçadores e pescadores;
- Elas queimavam a vegetação e impediam-na de crescer. Porém, combatendo o "mal pelo mal", o sangue menstrual podia ser usado para afastar os insetos! Na História Natural, Plínio afirma que quando mulheres menstruadas caminhavam, sem proteção, pelos campos de cereais, elas matavam lagartas, vermes, besouros e outros insetos nocivos. Em algumas regiões da França a prática parece ter sido de fato atestada, assim como na Turquia;
- Mulheres menstruadas faziam as flores murcharem.
- Para terminar: o sangue menstrual podia curar furúnculos!
| Sangue menstrual: o agrotóxico do passado |
Todos esses velhos mitos soam tão bobinhos, não é? Mas, pensando bem, a nossa visão da menstruação como algo impuro, sujo, nocivo e vergonhoso não mudou tanto assim com o passar do tempo. Se as mulheres hoje podem, no geral, exercer um controle maior sobre sua sexualidade e sobre a reprodução, se elas têm à disposição proteções práticas que não lhes forçam a parar suas atividades durante o período menstrual, muito do tabu permanece.
É verdade que já se foi o tempo das "cintas sanitárias", em que fraldas ou toalhas eram presas com alfinetes (já se foi em termos, tem pra vender no ebay)... Os absorventes internos e externos, com alto poder de absorção, vangloriam-se de conceder à mulher toda a liberdade à qual ela anseia. Sei... Mas a bola da vez agora é o coletor menstrual, que voltou, associando "higiene, conforto, economia e consciência ambiental". Não acho que já existam propagandas na tv desses coletores, mas a publicidade de absorventes femininos segue um padrão notório: tudo é articulado para falar da menstruação sem falar da menstruação, sem mostrá-la, porém mostrando como escondê-la. Quanto mais invisível, melhor o absorvente. E porque o sangue é sujo, feio e não faz vender, e porque as consumidoras-alvo são princesas, litros de líquido azul são derramados... E às vezes o produto nem mesmo é mostrado, sendo substituído por um desenho, como se a visão de um absorvente de verdade fosse ofensiva. Quanto ao branco imaculado da roupa das modelos, ele é a prova de que o produto combate a imundice com pureza e higiene.![]() |
| Propaganda alemã de 1996 |
Mas voltando aos mitos bobinhos que citei acima. Eles desapareceram mesmo? Muitos hábitos corriqueiros, aos quais damos pouca atenção, estão ligados ao velho mito da mulher impura:
- O homem é quem costuma cortar a carne e abrir o vinho;
- No açougue, é comum que os açougueiros sejam homens e que as caixas sejam mulheres;
- Os caçadores e pescadores continuam não apreciando mulheres em seu meio;
- A piscina ainda é às vezes desaconselhada às mulheres menstruadas;
- A profissão de parteira é majoritariamente feminina;
- As mulheres na menopausa são vistas socialmente como estéreis, inúteis. Se antes as acusavam, quando estavam menstruadas, de ficarem irritadiças, instáveis e histéricas, agora as acusam dos mesmos distúrbios psicológicos pela falta do sangue...
Fonte: os exemplos que citei foram tirados do texto Le sang: Mythes, symboles et réalités publicado no site das ativistas francesas Chiennes de garde. Algumas imagens vieram do museu digital Museum of Menstruation and Women's Health.
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por Tággidi Ribeiro
Estamos todos ainda chocados com a agressão ao estudante de direito André Baliera. Na segunda-feira, 03 de dezembro, Baliera voltava pra casa quando ouviu xingamentos de dois rapazes parados num sinal. Revidou, xingou também. Apanhou muito. Os agressores estão presos, vão ser julgados por tentativa de homicídio e pelo crime de homofobia (sim, aqui em São Paulo, pode-se ser julgado por tal). Esperamos que sejam condenados pelos dois, dado que a agressão só parou porque a polícia foi acionada e que, enquanto batiam, os agressores gritavam "Viado tem que tomar porrada". O próprio André Baliera colocou a mais tocante questão subjacente à violência sofrida: "Por que a minha existência provoca uma fúria tão desumana?".
Pois é, por quê? Por que a orientação sexual de alguém provoca fúria? Suponhamos que sua igreja diga que é contra a natureza, suponhamos que seu pai ou amigos digam que é uma 'safadeza' - ainda assim, por que chegar à agressão física? Nem a verbal é justificável, obviamente, mas agressão física pressupõe um gasto enorme de energia. Pressupõe, sobretudo, um sentimento de ódio tão arrebatador que não se contenta com a já terrível humilhação e o amedrontamento, mas visa à eliminação, à destruição do outro. Com qual outro não podemos conviver e precisamos destruir?
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| André. |
A minha moral, que muita gente diz que é cristã, só responde a essa pergunta de uma forma: não posso conviver com o outro que não convive comigo, preciso destruir quem quer me destruir. Basicamente, estou falando de legítima defesa - posso matar alguém para resguardar minha própria vida. Se o outro não me quer destruir, se convive comigo, então eu sigo pacificamente. (Parêntese rápido: segundo a moral cristã, eu deveria oferecer a outra face - é isso, né?)
Enfim, pergunto: Bruno Portieri e Diego Mosca, os agressores de André, agiram em legítima defesa? Sim, agiram sim. E não parem de ler aqui. Explico: a existência de André Baliera, simbolicamente, atenta contra a existência de Diego e Rodrigo. André Balieri simboliza um mundo novo, não mais dominado pelo machos viris; simboliza a conquista gradual da igualdade (ou pelo menos a redução da desigualdade) e a igualdade não se dá sem a distribuição do poder.
Sim, os machos viris estão perdendo poder e isso os assusta. E eu sei que o que eu estou falando vai soar para muitos como: 'está vendo, aí está a prova do que pretendem os gays e as feministas. Querem instaurar uma ditadura gay e feminazi'. Ninguém quer ditadura. Fato é, no entanto, que os machos estão perdendo poder e isso os assusta. Julgam que essa perda de poder é sua aniquiliação e por isso reagem de forma tão virulenta.
Mas é justamente essa virulência que nos diz que essa divisão de poder deve acontecer, é urgente que aconteça. Pois que o poder de um grupo sobre outro não é justificável se causa tantos danos - e o poder dos machos já causou e causa ainda muitos. Quero apelar aqui para a lógica heteronormativa dos homens, que sempre se consideraram mais racionais que as mulheres e os homossexuais: é defensável um poder que concentra direitos, impinge a violência, cerceia os corpos? É defensável um poder que produz tanta infelicidade no mundo? Não é imperativo ir contra ele, já que todo ser humano deseja ser livre?
A despeito da resposta masculina: o poder de Diego Mosca e Bruno Portieri é indefensável. E estamos todxs contra ele. Todxs em busca de liberdade.
7 de dezembro de 2012
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Para celebrar nosso aniversário, vamos inaugurar uma nova seção no blog, o Sexismo de cada dia. Inspirado no projeto The Everyday Sexism, uma iniciativa bem-sucedida e interessantíssima que gerou até ameaças de morte à autora. A ideia é compartilhar instâncias de sexismo e machismo vividas no dia-a-dia. Relatos de sexismo associado a outros preconceitos, como homofobia e racismo, são particularmente bem-vindos.
A iniciativa vai em linha com a concepção de blog coletivo, que tem como proposta dar espaço a uma pluralidade de vozes, refletindo a pluralidade do feminismo e da própria experiência das mulheres, que muitas vezes são mal representadas por noções essencializadoras como "a alma feminina", "a sexualidade feminina", etc. Não escondemos que nós, as colaboradoras, temos muito em comum, incluindo classe e etnia, por isso também aproveitamos a oportunidade para convidarmos novas colaboradoras a fazer parte da equipe.
por Roberta Gregoli
É uma satisfação anunciar que hoje o Subvertidas faz 7 meses!
Foram 106 postagens e mais de 34 mil visitas de diversos países do mundo. Parabéns às nossas excelentes colaboradoras e um obrigada enorme a todxs que nos acompanham e compartilham nossas postagens.
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| As Subvertidas ganhando o mundo: mapa de origem dos visitantes do blog |
Projetos parecidos existem já em português, como o Cantada de rua - conte o seu caso - que, na minha opinião, deveria se chamar assédio de rua. Essas iniciativas são importantes porque combatem um dos pilares fundamentais para a perpetuação da opressão de gênero: a negação de que a opressão de gênero ainda exista. O famoso "feminismo é coisa do passado", "machismo não existe mais", "feminista quer achar pelo em ovo" e diversas variações dessas frases.
A iniciativa vai em linha com a concepção de blog coletivo, que tem como proposta dar espaço a uma pluralidade de vozes, refletindo a pluralidade do feminismo e da própria experiência das mulheres, que muitas vezes são mal representadas por noções essencializadoras como "a alma feminina", "a sexualidade feminina", etc. Não escondemos que nós, as colaboradoras, temos muito em comum, incluindo classe e etnia, por isso também aproveitamos a oportunidade para convidarmos novas colaboradoras a fazer parte da equipe.
Para participar do "Sexismo de cada dia", envie sua contribuição (de qualquer tamanho) para subvertemos@gmail.com. Indique também no email como quer ser identificadx (pelo primeiro nome, nome completo, apelido ou de maneira anônima). Vamos montar uma fila de contribuições e vamos publicando aos poucos, nos intervalos das postagens das colaboradoras.
Para o pontapé inicial, começo eu:
Abordei dois professores brasileiros, ambos homens trabalhando em universidades de prestígio no Brasil e de renome internacional na área, para ver se se interessavam no meu projeto de pesquisa de doutorado (representações de gênero no cinema brasileiro). Ambos disseram que o corpus de filmes que eu tinha escolhido era interessante, mas que eu devia descartar a parte de gênero. Porque não era assim tão "interessante". Ignorei os dois, claro, e passei em Oxford com o projeto original.
Aguardamos suas contribuições!
5 de dezembro de 2012
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por Mazu
Faz algum tempo já que venho notando que o slutshaming é uma prática corriqueira entre adolescentes. Não só entre os adolescentes, é verdade, mas nas redes sociais em especial, a prática entre os adolescentes me assusta e preocupa bastante. Posso ser boba, mas eu sempre esperei mais das novas gerações. Estou pensando que a gente devia criar uma página no FB e um twitter chamado “Dicas das titias feministas” que nem tem as Dicas do He-man, só que feminista coisa que o He-man não é, enfim, a gente pode ir amadurecendo a ideia.
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Então, titia Mazu vai estrear As dicas das tias feministas e contar um segredinho: esses mitos românticos de pureza e delicadeza das princesas só existem para deixar as mulheres obedientes. Assim como a educação diferenciada que se dá aos meninos e meninas. Tudo isso tem como objetivo a nossa submissão. Não a nossa felicidade.
por Mazu
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| Sim, porque só as mães diriam isso. Aff. |
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Para quem mora em Marte e não sabe do que estou falando, a atriz norte-americana da saga Crepúsculo, Kristen Stewart, traiu seu namorado (Robert Pattinson) e foi crucificada loucamente na mídia e redes sociais. Como se isso fosse problema de mais alguém além de eles dois. No final, os dois continuam juntos e, pelos rumores, terão um bebê. Um final nada parecido e absolutamente horroroso teve a história da estudante brasileira, Karina Veiga, que dizem que traiu o namorado porque ninguém sabe mesmo (no caso da Stewart rolou uma fotos e tals), mas o que a gente sabe mesmo é que o namorado divulgou fotos e vídeos íntimos do casal, usando a conta dela do Facebook. Ah, a vingança! ¬¬
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Alguma companheira poderia dizer que era mais importante falar do comportamento machista do namorado envolvido na história da Karina Veiga, por exemplo, do que das meninas machistas, já que as meninas são mais vítimas de uma educação machista do que outra coisa. É fato, e a gente já tratou disso aqui e aqui. É lógico que eu não quero crucificar as meninas que têm comportamentos machistas, mas acho que o movimento tem que pensar em formas de abordar e tratar disso, porque é um grande problema.
No caso do machismo do namorado traído, sinceramente, me dá uma preguiça depressiva comentar sobre o tipo de ser humano que ele é. Para começar quem sou eu, o que eu sei, não é mesmo? A única coisa que sei sobre ele é essa atitude gigantescamente escrota. Com base nisso unicamente, o que dá pra dizer é que ele é um gigantesco imbecil, mas, vai saber se ele já não salvou uns filhotinhos de gato de algum incêndio e tals. O que para mim não significaria nada, mas para algumas meninas adolescentes parece que significa muito. O que me leva ao centro dessa discussão, que são os príncipes encantados contemporâneos.
Porque a questão está justamente nesses mitos imbecilississimos que derivam da literatura romântica e do mito do par perfeito. Só para constar, o romantismo não é, em si, um problema. Ia ser hipócrita da minha parte criticar o romantismo. O problema é quando a gente passa a justificar determinados atos de violência, como é o slutshaming, usando o amor e o romantismo.
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
O que me perturba muito é que algumas pessoas expressam esse tipo de opinião descrita acima e ninguém estranha, nenhum alerta de insanidade toca. Você lê um comentário com um conteúdo desse tipo e vai dormir à noite de boa, sério? Então, por amor, vale humilhar, vale bater, vale matar?! Alerta vermelho cereja intenso, gente! Grave isso, muito grave.
Não sei por qual motivo, razão ou circunstância determinados mitos (tipo que por amor se mata ou se morre) seguem sendo propagados. Junto com uma educação sexista de que a gente ainda não conseguiu se livrar, isso cria um grande problema, a propagação de uma sociedade sexista e machista. Porque o que eu percebo, entre algumas meninas mais novas, é que elas genuinamente acreditam que se elas forem princesas, encontrarão seus príncipes. E o pior, serão felizes para sempre. Aí toda e qualquer pessoa que fuja disso, que se comporte de outra forma, alguém que ameace esse imaginário de qualquer maneira é uma pessoa má, uma vadia, uma piranha e tals. É, no feminino mesmo, porque os meninos quando não são príncipes estão sendo homens e, então, tudo bem. #NOT
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| Dicas das tias feministas |
Um relacionamento para ser feliz e durar não depende do que é considerado um bom comportamento. Um relacionamento não pode depender de um elemento seu apenas, já que os relacionamentos têm pelo menos dois ou mais indivíduos. O relacionamento para ser bom e dar certo não vai prender ninguém a nenhuma espécie de estereótipo. Vai se basear em respeito pelas pessoas, não em respeito pelo orgulho masculino, por exemplo.
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
Então, é isso minha gente, até a próxima.
4 de dezembro de 2012
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por Barbara Falleiros
Na semana passada, falei sobre o debate na França a respeito do casamento civil entre adultos do mesmo sexo e da falta de clareza, quando não da explícita má-fé dos setores mais conservadores da sociedade. Comentei especialmente o preconceito demonstrado por certos políticos do partido direitista do ex-presidente Sarkozy. Pois agora foi a vez da ex-primeira-dama-herdeira-modelo-cantora Carla Bruni, de volta à mídia para promover seu novo disco, dar a sua opinião sobre o assunto. Em entrevista à Vogue, ela se disse favorável ao casamento para todos: "Não vejo nada instável ou pervertido em famílias homoparentais". Ponto pra ela! Mas na sequência da entrevista, a princesa boêmia deixou escapar uma prova de que sua existência na Villa Montmorency (espécie de condomínio fechado, reduto dos ricaços em Paris) é muito distante daquela das mulheres do mundo real.
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| "Humm... Acho que me expressei mal." |
Na minha geração - disse ela - a gente não precisa ser feminista. As pioneiras abriram o caminho. Eu não sou nem um pouco militante feminista. Por outro lado, eu sou burguesa. Eu gosto da vida em família, de fazer a mesma coisa todos os dias.
Foi o bastante para suscitar uma enxurrada de mensagens no Twitter (#ChereCarlaBruni) explicando porque nossa geração precisa sim ser feminista. Dias depois, Carla Bruni se explicou, disse que não era bem aquilo, que ela só tinha escolhido de se engajar em outras causas (a educação, a luta contra a Aids)... Mas, no fundo, o que mais me impressiona na sua fala é como se coloca a oposição entre a vida regrada de família (burguesa, como ela diz) e o militantismo feminista hoje, tudo isso após a defesa das famílias homoparentais. Quer dizer, a imagem de "abertura" com relação à configuração dos lares é traída por esta visão da família tradicional que é a sua, em que o pai é o grande homem de poder (presidente! Quer mais o quê?) e a mulher não pode ser feminista porque é, acima de tudo, discreta, com uma carreira menos importante que a do marido, assumindo a função maternal e cuja existência se coloca no campo da sensibilidade (arte, música).
Para mim, o casal Sarkozy é um dos mais emblemáticos do velho "cada qual em seu lugar" nas relações. Este homem irrascível, baixinho e poderoso, e esta mulher longilínea e bela, que se apaga atrás dele como que para ressaltar ainda mais seu poder. É sempre impressionante retraçar a trajetória de Carla Bruni. A imagem que ela exibia antes era a da sensibilidade poética associada à liberdade sexual: uma longa lista de relacionamentos incluindo, entre outros, Mick Jagger, Eric Clapton, um editor francês e em seguida um filósofo, filho deste editor... E é curioso vê-la exaltar a rotina quando, anos atrás, declarava que a monogamia era entediante e a poliandria preferível! Que contraste com essa Carla Bruni-Sarkozy, primeira-dama e mãe modelo, que amamentou sua bebezinha (a amamentação não é assim tão comum na França), tirando do ombro do pai a responsabilidade do cuidado do bebê: "[Por não ter que preparar a mamadeira] Você não tem que levantar à noite. Mesmo assim, por solidariedade, eu abro um olho!" - declarou na época Sarkozy.
Por mais que ela tente se justificar, as declarações de Carla são um reflexo dessa sua vida em conformidade com os valores de sua classe e de seu meio. O que não reflete em nada os problemas cotidianos das mulheres de sua geração, tampouco da nossa. Por isso, vale a ocasião de lembrar mais uma vez porque precisamos, ainda hoje, do feminismo. Seguem alguns dos twitts em resposta:
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| Corpo contido, sorriso forçado, olhar baixo. |
Por mais que ela tente se justificar, as declarações de Carla são um reflexo dessa sua vida em conformidade com os valores de sua classe e de seu meio. O que não reflete em nada os problemas cotidianos das mulheres de sua geração, tampouco da nossa. Por isso, vale a ocasião de lembrar mais uma vez porque precisamos, ainda hoje, do feminismo. Seguem alguns dos twitts em resposta:
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| Enquanto me perguntarem se eu sou a assistente do senador [ela é senadora], a geração seguinte precisará do feminismo. |
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| 80% das tarefas domésticas executadas pelas mulheres. |
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| Precisarei do feminismo enquanto me disserem: "Coloca um decote" quando me vestir para uma entrevista de emprego. |
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| Precisaremos do feminismo enquanto os homens que paparicam seus filhos forem vistos como perversos ou homossexuais. |
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| Enquanto se disser que um cara "come" e que uma mulher "é comida", precisaremos do feminismo. |
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| Minha geração precisará do feminismo enquanto o Carrefour fizer sua propaganda de compras online só com mulheres. |
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| 75000 mulheres adultas estupradas por ano na França são suficientes para me convencer de que minha geração precisa do feminismo. |
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| Pergunte às mulheres que pegam ônibus no Cairo se a nossa geração precisa do feminismo! |
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| Certamente precisamos de mais feministas do que de Carlas Bruni! |
























