Perversidades


por Roberta Gregoli
Violência doméstica é tão engraçado
Tenho comprado muita briga por não ficar quieta quando ouço piadas machistas e sexistas. A última foi com relação a uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, que termina com o marido dizendo que vai dar uma surra na esposa. Eu disse para a pessoa que postou a piada que banalizar a violência doméstica não tinha graça, pelo menos não para as 7,2 milhões de mulheres que já foram agredidas no Brasil.
A cada 2 minutos, 5 mulheres agredidas
Outra pessoa entrou na discussão e, indignadíssima, disse que mais grave que a violência contra as mulheres era a minha falta de bom senso. Essa afirmação, em si, já é obviamente perversa. Ainda assim, pedi que o cidadão me iluminasse. Notei então que o argumento dele se baseava em dois pontos: 1) que o Veríssimo era magnífico e 2) em insultos pessoais, ex. eu não entendi "nada" e o meu posicionamento (ignorante) era perigoso, quase fascista (!).

Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:


A arte da opressão

O fato de um escritor ser considerado bom - e aqui vale lembrar que nenhum cânone é imparcial - nada tem a ver com seu posicionamento político. Pode espernear, mas o fato é que Monteiro Lobato era racista e Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jorge Benjor (só para citar alguns nomes) eram abertamente machistas.

Causa uma tremenda indignação dizer que as mulheres, em média, são menos inteligentes do que os homens, mas acontece que isso é verdade.
Millôr Fernandes, 'Barbarelas', O Pasquim, n. 27, dez. 1969

O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?

Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:

Na França, os artistas e intelectuais são deuses seculares, tratados com deferência em qualquer circunstância, tenham lá cometido roubos (Jean Genet), feito panfletagem antissemita (Louis-Ferdinand Céline) e estrangulado a mulher (Louis Althusser). 
Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 10/10/2009

Soa familiar?

Democracia e/ou Autoritarismo

Não entendi direito por que o moço da história do Veríssimo me chamou de fascista (ele não conseguiu articular direito o argumento), mas o curioso foi que, ao tentar me silenciar sem muita coerência, ele fez justamente o que condenava. 

É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário

Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.

O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).

E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.

É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.

A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.

Um comentário:

  1. Natasha Avital02/08/2012 18:18

    Meio irrelevante para o tema do post, mas não pude deixar de comentar:

    Em primeiro lugar, essa crônica do Veríssimo termina dizendo "Vou ter que te dar um tiro". Não entendo pq alguém trocaria esse trecho. Se a pessoa acha que "um tiro" é forte demais, então deveria simplesmente não compartilhar a crônica, em vez de sair por aí alterando a obra alheia a seu bel prazer (até pq, se a pessoa acha que a violência não tem lugar em uma crônica de humor, não deveria estar confortável com "vou ter que te dar uma surra". Tudo bem bater na mulher desde que ela fique viva?!)

    Em segundo lugar, eu enxergo essa crônica como uma demonstração do ridículo ao qual as pessoas chegam para se enquadrar em certos padrões pré-estabelecidos. Tanto é que ela não se chama O Motel, e sim Convenções (sim, quem reproduziu mutilou não só o texto, como tb o título). Acho que o título original é importantíssimo na hora de entender qual é o objetivo do texto. É uma crônica da qual eu gosto muito, pq mostra essas pessoas querendo fazer mudanças radicais de vida (se separar do marido) ou até atos criminosos (atirar na mulher), tudo em nome do que "os outros vão pensar".

    Acho que ajuda analisar o contexto da obra de um escritor. Curto muito as crônicas do Veríssimo, já li várias coletâneas dele, e não me lembro de nenhum momento em que ele tenha sido machista. Então, realmente acho que a intenção dele na crônica era ridicularizar a hipocrisia, e não minimizar a violência doméstica.

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