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Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.
por Thais Torres, a mais nova Subvertida :)
Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.
A vida do professor no Brasil tem muitos desafios e discutir assuntos que envolvam os direitos daqueles que trabalham e que se subordinam às ordens da família dos alunos é um deles. Na tentativa de cumprir essa e outras tarefas, há insatisfações das mais diversas ordens, mas uma me incomoda em particular: a crueldade com que jovens de 17, 18, 20 anos, no máximo, olham para pobreza que caracteriza o país e o total desinteresse deles em mudar essa realidade.
Enfim, estou me desviando do assunto. Na leitura do referido caderno da Folha, encontrei um artigo, pretensamente divertido e descolado, chamado 'Empregada pra quê?'. Escrito pelo ilustre desconhecido Sandro Macedo, é de um machismo atroz. Não pude deixar de me lembrar de um post (ótimo) da Bárbara Falleiros, aqui nesse blog, sobre a associação entre mulheres e a responsabilidade de limpar a casa.
O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define:
Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:
O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define:
Felizmente, ou não, faço parte de uma turma que não tem uma empregada. Aliás, minha família nunca teve empregada. Se puxar pela memória, vou me lembrar de mim mesmo enxugando a louça, sem direito a mesada, num exercício a seis mãos (a irmã lavava e o caçula guardava).
Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:
Mas só de escutar os amigos reclamando ("Ela não sabe lavar", "Mudou tudo de lugar", "Comeu o alfajor argentino") dá um desânimo.
Logo em seguida, ele dá “dicas” para evitar a empregada doméstica em casa. Algumas pouco higiênicas (“O copo de cerveja de ontem, por exemplo, é o copo de hoje. Se você for moderninho e quiser tomar uma IPA ou uma stout, melhor ainda. Pode misturar aromas”), outras até engraçadas (“Primeira dica: a cama. Para que arrumar de manhã o que será bagunçado à noite?”).
As mais interessantes são as que envolvem uma espécie de mentira que ele prega na mãe e na namorada para ter a casa limpa. O foco do texto não parece ser outro senão ensinar o leitor, um “macho-cristão-ocidental-solteiro” como ele, a conseguir ter serviços de empregadas domésticas, sem precisar pagar por isso, já que elas têm carinho e amor por ele.
A primeira a ser usada é a namorada. A dica é um primor: ajuda até a fingir romantismo, quem sabe, o leitor “macho-cristão-ocidental-solteiro” não consegue usar a mulher para a sua segunda função mais comum, aquela que ele não mencionou no texto:
No dia em que quiser trocar a cama, chame a namorada para dormir lá e faça tudo a dois. Vai parecer romântico.
A segunda a servir de empregada é a mãe. Mas cuidado, leitor! Não vá exagerar! É preciso lembrar que ela não é a sua empregada mais. Ela já foi, mas isso passou. Agora você tem mais de 18 anos, mora sozinho e é um macho solteiro. Não seja infantil!
E importante: a cada 15 dias, convide sua mãe para fazer uma visita. Use a camisa amarrotada. Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado.
Roupa passada e até uma minifaxina são quase garantidos. Mas, lembre-se, ela não é sua empregada. Ela já fez tudo isso para você até os 18.
Preciso interpretar o machismo da frase “Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado”? E, a pergunta que não quer calar, “Filho que é filho” convida a mãe para uma visita apenas para ter suas camisas passadas?
Os absurdos não param por aí. A mãe é uma empregada muito mais barata. Não precisa de salário, muito menos dessas bobagens como direito a descanso, férias e hora extra que andam exigindo por aí... Basta pagar um almoço que fica tudo resolvido.
E, se você levá-la para almoçar em seguida, todo mundo vai ficar feliz e agradecido. E sua roupa vai ficar com o cheiro que você gosta.
Podem se passar anos sem que essa lógica seja quebrada... ou até você se casar.
O texto é idiota, é claro. Mas não deixa de ser sintomático o recado – claríssimo e límpido como a mãe e a namorada do autor da crônica devem deixar as roupas de cama dele: empregadas domésticas roubam nossos alfajores importados e, por esse motivo não devemos contratá-las. Além disso, é desnecessário pagar alguém para arrumar sua casa, se você tem uma mãe que faz isso para você até os 18 anos – e quinzenalmente depois disso. Isso até você casar, é claro. Depois disso, fique tranquilo: suas namoradas cumprirão a função que sua mãe exercia. Você não ficará um único instante desamparado.
O texto termina com uma indicação: a série Downton Abbey, que está passando no GNT. Assista, leitor-machão-solteiro, para matar as saudades do tempo em que “subalternos até se estapeavam para poder ajudar o patrão a colocar a luva, com direito a livro de ponto”. Bons tempos aqueles, não é?
Não consigo deixar de também dar a minha dica para o autor do texto e para os leitores que concordam com ele. Recebi a brincadeira abaixo esta semana, publicada por amigos do Facebook:
O post fica sem a ilustração que eu queria, portanto, pois ao digitar no Google “Machão + limpeza”, não encontrei uma única imagem de um homem de vassoura na mão. Mas o cartoon anterior me parece mais ilustrativo para compreender a relação entre essas duas palavras.
13 de abril de 2013
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machismo,
mídia,
Thais T
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A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
por Mazu
Existem muitos estigmas sociais que marcam as mulheres, existem os mais novos e os mais antigos. A questão da limpeza, que provavelmente tem algo que ver com a da pureza, é provavelmente um dos estigmas mais antigos. Do meu ponto de vista, um dos mais irritantes. Ele se manifesta de várias maneiras e em várias situações, hoje, vou listar três que, especialmente, chamaram minha atenção nos últimos dias.
No banheiro do trabalho, agora, existem várias mensagens do que a mulher tem que fazer para "não jogar a compostura pelo ralo", todas essas mensagens que aparentemente nos ensinam a ter compostura trazem princípios básicos de higiene e até um princípio errado de higiene (diz que devemos deixar a tampa levantada, quando a gente sabe que dar descarga com a tampa levantada espalha partículas pelo banheiro inteiro). Sinceramente, não me oponho às questões de higiene e ficaria mais feliz se as pessoas as seguissem, agora, por que cargas d'água isso tem algo com a minha compostura? Lógico, porque somos mulheres e isso significa que temos que ser limpinhas. Perceba, não estou dizendo que as mulheres nem os homens devem ser sujinhos, só estou tentando mostrar que higiene para mulher é quase uma questão moral. Vai vendo. No banheiro dos homens, não tem nada para ler. Coitadinhos.
Enfim, algo me diz que esse estigma da pureza e da limpeza é o que transformou a gente nas faxineiras oficiais do mundo. Aparentemente, nenhum homem pode fazer uma faxina melhor do que uma mulher. A gente sabe que isso é mentira, cuidar da casa é uma tarefa super difícil, mas todos e todas podemos aprender. Bom, nessa de limpeza ser tarefa de mulher, tudo que diz respeito à faxina, cuidar da casa e cuidar dos homens está voltado para o público feminino. Bons exemplos são estes dois materiais promocionais das marcas Veja e Vanish.
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| Captura de tela do site da Vanish: a gente limpa primeiro, depois vamos trabalhar e conquistar nosso espaço |
A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
As mulheres trabalhando fora de casa também é um fenômeno mais ou menos recente. Inclusive, hoje, quase 40% dos lares brasileiros são mantidos por mulheres. E, sério, que pessoa, depois de um dia de trabalho, chega em casa a fim de fazer faxina? Ou quer passar o final de semana assim? Quem gostaria disso?
Uma das minhas colegas do trabalho tem dois filhos e um marido, todos eles trabalham menos e trazem menos renda para casa, e é ela que faz faxina, lava a roupa e cozinha. Já perguntei, por que eles não fazem nada? E ela me disse que quando fazem, fazem errado. Há! Esse é o truque mais antigo do mundo, tenho quase certeza que fui eu quem inventou. Toda vez que meus pais me pediam para fazer alguma coisa que eu não queria, eu fazia errado para não ter que fazer mais. Para não ser injusta, podemos dizer que ninguém os ensinou, logo, eles não sabem. Mas se as meninas aprendem, tenho certeza, que os meninos aprendem.
Falando agora dos materiais promocionais, acho que a bola fora da marca Veja foi mais explícita, eles receberam muitas críticas e mudaram a apresentação da sua página no Facebook. O grande problema foi o termo escolhido, usar o termo "mulher" é excluir os homens do seu nicho. A gente já discutiu isso, se usarmos "homem" a gente pode estar falando da humanidade inteira, assim como o masculino engloba toda uma coletividade, ainda que os homens, num determinado grupo, sejam minoria. Agora dizer "mulher" é só para mulher, nada mais.
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| Arte de Laís Bicudo para o Subvertidas |
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
10 de março de 2013
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divisão do trabalho,
educação,
Mazu,
padrões duplos
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por Mazu
Semana passada, escrevi sobre a escritora e acadêmica, Yadira Calvo, e suas posições sobre linguagem e discriminação de gênero. Na oportunidade, comecei o texto com o currículo dela, seus feitos, sua formação, seus prêmios. Essa pode parecer uma fórmula comum, você vai falar sobre alguém, você apresenta esse alguém primeiro, certo? Mas existem mais razões para esse tipo de introdução. Se a gente for analisar bem, o jeito que apresentamos o tema de que falamos já é uma forma de defendermos nossa posição. Então, comecei o texto com o “currículo dela” para dar a ela e, consequentemente, a mim, a autorização necessária para se pronunciar sobre os temas abordados e, consequentemente, legitimar os argumentos.
Semana passada, escrevi sobre a escritora e acadêmica, Yadira Calvo, e suas posições sobre linguagem e discriminação de gênero. Na oportunidade, comecei o texto com o currículo dela, seus feitos, sua formação, seus prêmios. Essa pode parecer uma fórmula comum, você vai falar sobre alguém, você apresenta esse alguém primeiro, certo? Mas existem mais razões para esse tipo de introdução. Se a gente for analisar bem, o jeito que apresentamos o tema de que falamos já é uma forma de defendermos nossa posição. Então, comecei o texto com o “currículo dela” para dar a ela e, consequentemente, a mim, a autorização necessária para se pronunciar sobre os temas abordados e, consequentemente, legitimar os argumentos.
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| Não aguento quando |
Esse exercício metalinguístico
pode parecer meio deslocado, mas serve bem ao tema de hoje: o poder de falar, se
pronunciar, de abrir a boca em qualquer instância de uma sociedade.
Bom, para começar, a gente sabe que vive em uma sociedade predominantemente sexista e preconceituosa, logo, não pode ser surpresa para ninguém que o direito de abrir a boca seja bem mais de uns que de outros. Determinados assuntos são especialidades dos homens, outros, das mulheres. Na minha vida profissional, na militância, percebo que os homens têm mais autorização para falar e são mais ouvidos quando fazem. Obviamente, isso já foi pior, afinal, participamos, as mulheres, da vida política e profissional da nossa sociedade há pouco tempo. Contudo, em determinadas instâncias, muito ainda falta para que esse direito de abrir a boca, essa autorização para falar a que me referi acima, seja assim fácil para nós como é para os homens.
Alguém poderia dizer que exagero ou que as mulheres, na realidade, falam bem mais que os homens, mas o direito de se pronunciar, de que falo aqui, é o direito de ser ouvida e não só sobre temas ditos femininos, mas sobre tudo, inclusive ciência, política ou sexo. Vou ilustrar com duas matérias da mesma revista sobre o mundo feminino. Antes de mais nada, vou dizer, gosto da Superinteressante, mas quando era mais nova fui instruída pelo meu professor de física do colégio a tomar cuidado com as publicações porque eles, às vezes, pegavam um dado pequeno, um indício, e embasavam uma afirmação categórica sobre alguma coisa. Esta matéria é um bom exemplo disso. Outras matérias têm como objetivo derrubar mitos científicos, tipo esta aqui.
Bom, para começar, a gente sabe que vive em uma sociedade predominantemente sexista e preconceituosa, logo, não pode ser surpresa para ninguém que o direito de abrir a boca seja bem mais de uns que de outros. Determinados assuntos são especialidades dos homens, outros, das mulheres. Na minha vida profissional, na militância, percebo que os homens têm mais autorização para falar e são mais ouvidos quando fazem. Obviamente, isso já foi pior, afinal, participamos, as mulheres, da vida política e profissional da nossa sociedade há pouco tempo. Contudo, em determinadas instâncias, muito ainda falta para que esse direito de abrir a boca, essa autorização para falar a que me referi acima, seja assim fácil para nós como é para os homens.
Alguém poderia dizer que exagero ou que as mulheres, na realidade, falam bem mais que os homens, mas o direito de se pronunciar, de que falo aqui, é o direito de ser ouvida e não só sobre temas ditos femininos, mas sobre tudo, inclusive ciência, política ou sexo. Vou ilustrar com duas matérias da mesma revista sobre o mundo feminino. Antes de mais nada, vou dizer, gosto da Superinteressante, mas quando era mais nova fui instruída pelo meu professor de física do colégio a tomar cuidado com as publicações porque eles, às vezes, pegavam um dado pequeno, um indício, e embasavam uma afirmação categórica sobre alguma coisa. Esta matéria é um bom exemplo disso. Outras matérias têm como objetivo derrubar mitos científicos, tipo esta aqui.
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| Detalhe da segunda matéria |
De verdade, não vou entrar no mérito
científico das matérias, especialmente, porque elas me fizeram pensar sobre
questões culturais. Questões culturais que explicariam bem mais o falar e o não
falar de homens e mulheres. Entre o falar demais e o sofrer calada pode haver
menos espaço do que a gente imagina. Foi por isso que disse que, em
determinadas instâncias, falta-nos voz, em outras situações, a voz é
obrigatoriamente nossa, por exemplo, quando se trata da criação dos filhos
parece que as mães sabem mais que os pais. Existem também limites do que falar
impostos aos homens, por exemplo, sentimentos, moda, por aí vai. Quando um
homem se aventura por essas áreas, ele sempre é enquadrado em alguma espécie de
estereótipo.
Em algumas áreas, como política e ciência, o caminho para se ter voz é, ainda, mais complicado para as mulheres, não dá para negar. É só olhar ao redor, ver os números. O trajeto que é necessário para se ocupar um lugar que permita o posicionamento pode variar muito quando se é homem e quando se é mulher.
Em algumas áreas, como política e ciência, o caminho para se ter voz é, ainda, mais complicado para as mulheres, não dá para negar. É só olhar ao redor, ver os números. O trajeto que é necessário para se ocupar um lugar que permita o posicionamento pode variar muito quando se é homem e quando se é mulher.
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| Comentário na primeira matéria, ilustrando o senso comum sobre os dizeres femininos e a falta que as vírgulas fazem |
Como já existe uma preferência
perceptível, mas não expressa, por profissionais masculinos, quando uma mulher
chega a uma determinada posição, a formação e a experiência dela precisa ser
bem maior. E ela sempre vai ser mais
questionada e se questionar mais que os homens porque nós somos educados assim.
Hoje e, não se enganem, só hoje, porque são eventos contemporâneos mesmo, a gente chega lá, ocupa esse ou aquele espaço, emite opinião especializada. Ainda assim, se a gente reparar bem, o nosso trabalho, nessas áreas em especial, sempre passa pelo filtro do sexismo. A Sheryl Sanberg, por exemplo, é um ícone do mundo dos negócios, mas tem quem se refira a ela como babá do Zuckerberg. Nossa presidenta, nos seus acertos ou nos seus erros, nunca escapa desse ou daquele comentário sobre sua aparência física ou sexualidade. E o mais engraçado disso é que a gente nunca teve um presidente com aspecto físico padrão, tipo bonitão, em contrapartida, só a Dilma é agraciada com esse ou aquele comentário.
Na vida profissional, é possível perceber a relação de competência com exigência. Isso funciona com homens e mulheres, mas os rótulos são sempre diversos. O chefe é bravo, exigente, a chefe é mal comida, encalhada, histérica.
Acontece bastante, quando se é mulher, de ouvir comentários sobre seu aspecto físico durante uma discussão ou no desempenho de uma função que não seja minimamente relacionada à aparência ou à sexualidade. “Feia”, “gorda”, “mal-comida” ou até mesmo “linda” são formas de lembrar que por mais competente ou inteligente que uma mulher seja, ela é uma mulher. E, na nossa sociedade, há uma crença de que mulher que fala demais, reclama demais, não é feliz sexualmente. Mulher satisfeita e que satisfaz vive calada. A triste ironia disso é que, nessa mesma sociedade, as autoridades precisam fazer campanhas e campanhas para que vítimas de violência contra a mulher se pronunciem.
Por isso, disse que entre o falar demais aqui e o falar de menos ali quase não há distância, já que ambos se originam de um mesmo problema, a imposição social do que uma mulher deve dizer ou não, e toda a discriminação decorrente de sua decisão de dizer ou não dizer em certas situações.
Hoje e, não se enganem, só hoje, porque são eventos contemporâneos mesmo, a gente chega lá, ocupa esse ou aquele espaço, emite opinião especializada. Ainda assim, se a gente reparar bem, o nosso trabalho, nessas áreas em especial, sempre passa pelo filtro do sexismo. A Sheryl Sanberg, por exemplo, é um ícone do mundo dos negócios, mas tem quem se refira a ela como babá do Zuckerberg. Nossa presidenta, nos seus acertos ou nos seus erros, nunca escapa desse ou daquele comentário sobre sua aparência física ou sexualidade. E o mais engraçado disso é que a gente nunca teve um presidente com aspecto físico padrão, tipo bonitão, em contrapartida, só a Dilma é agraciada com esse ou aquele comentário.
Na vida profissional, é possível perceber a relação de competência com exigência. Isso funciona com homens e mulheres, mas os rótulos são sempre diversos. O chefe é bravo, exigente, a chefe é mal comida, encalhada, histérica.
Acontece bastante, quando se é mulher, de ouvir comentários sobre seu aspecto físico durante uma discussão ou no desempenho de uma função que não seja minimamente relacionada à aparência ou à sexualidade. “Feia”, “gorda”, “mal-comida” ou até mesmo “linda” são formas de lembrar que por mais competente ou inteligente que uma mulher seja, ela é uma mulher. E, na nossa sociedade, há uma crença de que mulher que fala demais, reclama demais, não é feliz sexualmente. Mulher satisfeita e que satisfaz vive calada. A triste ironia disso é que, nessa mesma sociedade, as autoridades precisam fazer campanhas e campanhas para que vítimas de violência contra a mulher se pronunciem.
Por isso, disse que entre o falar demais aqui e o falar de menos ali quase não há distância, já que ambos se originam de um mesmo problema, a imposição social do que uma mulher deve dizer ou não, e toda a discriminação decorrente de sua decisão de dizer ou não dizer em certas situações.
1 de março de 2013
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divisão do trabalho,
educação,
liberdade de expressão,
Mazu
7
por Barbara Falleiros
Ao longo desses anos passados na universidade francesa, sempre me surpreendeu a ausência de crianças circulando no meio universitário. Não, não falo de superdotados, mas dos filhos dos estudantes. No Brasil, durante a graduação, via pelo campus estudantes grávidas e seus bebês (os amigos da Unicamp talvez se lembrarão do episódio de uma pequena que fez xixi em plena sala de aula...). Eu mesma cresci tomando o leite do bandejão da USP. Em Paris, as pouquíssimas estudantes grávidas que encontrei estavam, em geral, terminando o doutorado. Nunca vi um único bebê nos locais da faculdade. Procurei estatísticas sobre as estudantes-mães por aqui e não encontrei, sei apenas que existem na cidade três creches universitárias com capacidade conjunta para 100 crianças.
Pode-se até dizer que isso é bom, que os longos estudos, a maternidade numa fase mais madura e a prioridade dada à carreira são indícios de uma sociedade "desenvolvida". O que eu desconfio é que o fato de o aborto ser legalizado contribua para que as estudantes se tornem mães mais tarde, fazendo da maternidade uma escolha altamente planejada. Mas de qualquer maneira, a impressão que tenho é de que, no meio acadêmico, nunca há hora propícia para se ter um bebê. Do ponto de vista profissional, a maternidade é sempre um demérito, uma fraqueza. Falo deste meio porque é nele que estou inserida, mas sei que a situação não difere em outros ambientes profissionais.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
Mas há outras formas mais ou menos sutis de assédio moral e discriminação, como a perda de promoções ou mesmo a não contratação de mulheres que se aproximam do prazo de validade, ameaças ("Ah, mas você tem certeza de que não fazer uma encomenda para a cegonha, não é? Por que veja bem, para nós não vale a pena investir em alguém que não se mostrará 100% comprometido com a nossa empresa"); desvalorização de mulheres que já têm filhos servindo-se da desculpa de que seu foco não está na empresa; horários para a amamentação não respeitados ou dificultados; avaliações de desempenho negativas e atribuição de funções inferiores na volta da licença-maternidade; recusa de benefícios e oportunidades; ou ainda a discriminação por parte dos próprios colegas, que encaram as adaptações das condições de trabalho da funcionária grávida como privilégios ilegítimos ou que pensam que a licença maternidade é o equivalente a férias.
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
“A ausência paterna sobrecarrega a mãe, que se encontra no delicado período puerperal, cuja duração é de 30 a 45 dias após o parto, muitas vezes em pós-operatório, com limitações físicas e carências psíquicas, e que necessita ser auxiliada nos cuidados imediatos do bebê”
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
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| Discriminada no trabalho e com um computador do século passado! (brincadeirinha) |
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
27 de janeiro de 2013
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O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
por Roberta Gregoli
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.
E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
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| É raro no cinema um quadro composto somente por mulheres, ainda mais em posição de poder |
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
16 de janeiro de 2013
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E chegou o momento mágico do Natal! Nas últimas semanas, Mattel e companhia concentraram seus esforços no bombardeamento de pais e crianças com lançamentos como... a "Barbie Professora do Jardim de Infância" (sim, sim). Ora, como a Roberta comentou esta semana, ao oferecermos às crianças brinquedos que não reforcem os velhos estereótipos de gênero (carrinho para menino, boneca para menina, e só), não apenas ajudamos a criar adultos menos sexistas, como incentivamos essas crianças a desenvolverem novas habilidades. Com isso, proporcionamo-lhes outras possibilidades de identificação que podem contribuir, mais tarde, para combater a divisão sexual do trabalho e das profissões. Não basta que cada criança possa ser o que quiser quando crescer, é preciso ensinar às meninas que também é legal querer ser engenheira e cientista.
por Barbara Falleiros
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| Barbie professora e sua aluninha |
Assisti esses dias a um vídeo publicitário de um brinquedo chamado GoldieBlox, um jogo de construção desenvolvido por uma engenheira de Stanford que, surpresa com a quantidade ínfima de mulheres na sua turma, decidiu fundar uma companhia de brinquedos para encorajar as meninas a se interessarem por engenharia. Para ela, não era suficiente pintar um jogo de construção de cor-de-rosa (como fazem muitas marcas de brinquedo). Suas pesquisas mostraram que meninas tendiam a gostar mais de ler, por isso ela associou o jogo de construção a uma série de livros.
Incentivar as mulheres a seguirem carreiras científicas... Muitos dos que acompanham as Subvertidas devem se lembrar de um vídeo produzido pela União Europeia com esta finalidade. Caricatura grotesca e sexista da "mulher cientista", o vídeo mostrava mulheres fatais em salto agulha, num fundo rosa, alternando instrumentos de laboratório e maquiagem.
Em resposta, a European Science Foundation lançou um concurso de vídeos: Science, it's your thing. O vídeo vencedor mostra como, em razão da presença massiva de homens nas áreas científicas (nota: há apenas 14% de mulheres na presidência das universidades europeias), as pesquisas acabam seguindo involuntariamente (ou não...) uma perspectiva masculina. É assim que os manequins de crash-test são baseados em corpos masculinos, os cintos de segurança dos carros não são adaptados para grávidas, 4/5 dos medicamentos retirados da venda num determinado período, nos Estados Unidos, traziam mais risco para a saúde das mulheres do que para a dos homens, que a compreensão da dor vem de estudos feitos unicamente em ratos machos... E se as mulheres não conseguem conquistar seu lugar na ciência, não é por falta de capacidade: estatísticas comprovam que sua presença em empresas e laboratórios aumenta a produtividade, a performance e o número de patentes registradas.
Já num registro cômico, jovens pesquisadoras britânicas realizaram uma paródia do vídeo da União Europeia. O contraste entre o ambiente real de trabalho (um verdadeiro laboratório) e a caricatura da cientista sexy mostra o quão ridícula e absurda é a imagem veiculada pelo vídeo oficial. E as cientistas tiveram a ótima ideia de convidar seus colegas homens para aparecerem dançando, como elas, de forma sexy/constrangedora. É quando o ridículo, exposto pelo padrão duplo, atinge seu máximo... Divirtam-se!
23 de dezembro de 2012
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A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
por Roberta Gregoli
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
19 de dezembro de 2012
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