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Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a vista,
a voltam para os céus
com a esperança infinita
de encontrar o que seu irmão
neste mundo lhe tira.
pombinha!
que coisas têm a vida,
ai zambita!*
Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a voz,
a voltam para os céus
buscando uma confissão
já que seu irmão não escuta
a voz de seu coração.
Porque os pobres não têm
neste mundo esperanças,
se amparam na outra vida
como a uma justa balança,
por isso as procissões,
as velas, os louvores.
De tempos imemoriais
que se inventou o inferno
para assustar aos pobres
com seus castigos eternos,
e o pobre, que é inocente,
com sua inocência crendo.
O céu tem as rendas,
a terra e o capital,
e os soldados do Papa
lhes enche bem o embornal,
e ao que trabalha lhe metem
a glória como um cabresto.
Para seguir a mentira,
o chama seu confessor,
lhe diz que deus não quer
nenhuma revolução,
nem papéis nem sindicatos,
que ofendem seu coração.
* zamba: é uma dança cantada popular do noroeste da Argentinae que se espalhou por outras partes da América Latina.
Entrevista com Violeta Parra
Documentário sobre Violeta Parra (em espanhol)
(Seleção e tradução de Jeff Vasques)
VIOLETA
PARRA (Chile, 1917-1967)
Cantora e compositora, poeta, ceramista, tecelã, pintora, pesquisadora e
militante comunista, Violeta realizou seus estudos escolares até o segundo ano
do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos,
desenvolvendo uma importante carreira como autodidata desde muito cedo. Em 1952 começou a
pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais
que a fariam famosa. Em 1954,
quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das
manifestações artísticas populares. Durante o ano de 1955 visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde
residiu por dois anos. Em 1958 começa importante produção como artista
plástica, chegando a expor no Louvre. Violeta Parra pode ser considerada a mãe
da canção comprometida com a luta d@s oprimid@s e explorad@s, influenciando e
inspirando milhares de artistas e trabalhadores na América e no mundo. Abaixo
segue uma canção de Violeta, traduzida; um trecho curto de uma entrevista em que deixa clara sua posição acerca do caráter de sua arte; e um documentário (em espanhol) sobre
essa mulher fascinante. Há uma ficção recente, chamada “Violeta se fue a los cielos”,
de Andrés Woods, que apesar de não retratar tão intensamente a veia política da vida de
Violeta, traz um tanto da poesia e luta dessa artista múltipla. Violeta Parra é uma mulher lutadora de "nuestra américa" que tod@s precisam conhecer!
Porque os pobres não têm
(Violeta Parra)
pra onde dirigir a vista,
a voltam para os céus
com a esperança infinita
de encontrar o que seu irmão
neste mundo lhe tira.
pombinha!
que coisas têm a vida,
ai zambita!*
Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a voz,
a voltam para os céus
buscando uma confissão
já que seu irmão não escuta
a voz de seu coração.
Porque os pobres não têm
neste mundo esperanças,
se amparam na outra vida
como a uma justa balança,
por isso as procissões,
as velas, os louvores.
De tempos imemoriais
que se inventou o inferno
para assustar aos pobres
com seus castigos eternos,
e o pobre, que é inocente,
com sua inocência crendo.
O céu tem as rendas,
a terra e o capital,
e os soldados do Papa
lhes enche bem o embornal,
e ao que trabalha lhe metem
a glória como um cabresto.
Para seguir a mentira,
o chama seu confessor,
lhe diz que deus não quer
nenhuma revolução,
nem papéis nem sindicatos,
que ofendem seu coração.
* zamba: é uma dança cantada popular do noroeste da Argentinae que se espalhou por outras partes da América Latina.
Entrevista com Violeta Parra
Documentário sobre Violeta Parra (em espanhol)
(Seleção e tradução de Jeff Vasques)
4 de julho de 2013
Categorias
arte,
ativismo político,
cinema,
Jeff,
literatura,
mulheres,
Versos e Subversas
6
Uma informação necessária: eu também já as chamei assim e não foi o feminismo que me 'salvou' de vê-las dessa forma; foi, antes mesmo de entrar em contato com o feminismo, a percepção de que, em algum momento de nossas vidas, todas nós somos putas. Putas porque traímos o namorado ou ficamos com o namorado de outra, porque aparecemos com uma saia curta demais, tiramos uma ótima nota, fomos antipáticas, porque usamos argumentos pertinentes em uma discussão ou porque simplesmente não foram com a nossa cara... Em algum momento, por um período breve ou nem tanto de nossas vidas, seremos chamadas de 'puta, vaca, piranha' (nos dirão isso na cara ou não). Acho que, a partir do momento em que entendi isso, eu passei a olhar para as mulheres, sobretudo para essas que eu achincalhava ou que eu via serem achincalhadas, de outra forma. E, claro, não pude deixar de comparar essa facilidade do ódio dirigido às mulheres à simpatia ou 'neutralidade' que eram dedicadas aos homens. Os comportamentos que geram o vilipêndio às mulheres são aceitos com naturalidade se são os homens que os protagonizam.
Esteja claro que não defendo que passemos a dispensar ao homem o mesmo ódio que dispensamos às mulheres. Imagina! A ideia do feminismo não é rebaixar o homem à mulher (que, sim, ainda é vista como inferior) e sim elevar a mulher ao homem, igualá-los naquilo o mais importante: o estatuto de ser humano. E é justamente aqui que entram as Nicoles e Sabrinas da vida, as que não se dão ao respeito, as putas (e, por extensão, todas as mulheres) - porque é como se elas precisassem (nós precisássemos) de algumas 'qualidades' para alcançar esse estatuto. Elas não são seres humanos a priori (não nos enganemos - não somos).
por Tággidi Ribeiro
Esses dias me vi 'obrigada' a explicar a seguinte frase: "Eu gosto dessas meninas. Da Sabrina Sato, da Nicole Bahls." Pois é. Eu falei isso. E, sim, eu gosto dessas meninas. Já me peguei rindo delas, de suas bobagens, da falta de papas na língua, de sua rudeza. Tem uma coisa crua nelas que me é familiar e me faz simpatizar com elas. Acho que também sinto empatia por elas porque sei que são mulheres não respeitadas. São as típicas mulheres pelas quais os homens babam e as meninas gritam no recalque - e vão, namorados, maldizer a vulgaridade das 'mulheres que não se dão ao respeito', das piranhas, vagabundas, putas.
Uma informação necessária: eu também já as chamei assim e não foi o feminismo que me 'salvou' de vê-las dessa forma; foi, antes mesmo de entrar em contato com o feminismo, a percepção de que, em algum momento de nossas vidas, todas nós somos putas. Putas porque traímos o namorado ou ficamos com o namorado de outra, porque aparecemos com uma saia curta demais, tiramos uma ótima nota, fomos antipáticas, porque usamos argumentos pertinentes em uma discussão ou porque simplesmente não foram com a nossa cara... Em algum momento, por um período breve ou nem tanto de nossas vidas, seremos chamadas de 'puta, vaca, piranha' (nos dirão isso na cara ou não). Acho que, a partir do momento em que entendi isso, eu passei a olhar para as mulheres, sobretudo para essas que eu achincalhava ou que eu via serem achincalhadas, de outra forma. E, claro, não pude deixar de comparar essa facilidade do ódio dirigido às mulheres à simpatia ou 'neutralidade' que eram dedicadas aos homens. Os comportamentos que geram o vilipêndio às mulheres são aceitos com naturalidade se são os homens que os protagonizam.
Verdade, verdade... quando odiamos os homens? Existe ódio aos homens correlato ao ódio que sentimos pelas mulheres (cotidiano, fácil e visceral)? Se existe, porque esse sentimento não se verifica na língua? Quer dizer: porque todo e qualquer xingamento dirigido a um homem parece fraco demais, parece nunca atingi-lo de fato? Dê uma olhada no vídeo abaixo, a partir do minuto 7:15.
Esteja claro que não defendo que passemos a dispensar ao homem o mesmo ódio que dispensamos às mulheres. Imagina! A ideia do feminismo não é rebaixar o homem à mulher (que, sim, ainda é vista como inferior) e sim elevar a mulher ao homem, igualá-los naquilo o mais importante: o estatuto de ser humano. E é justamente aqui que entram as Nicoles e Sabrinas da vida, as que não se dão ao respeito, as putas (e, por extensão, todas as mulheres) - porque é como se elas precisassem (nós precisássemos) de algumas 'qualidades' para alcançar esse estatuto. Elas não são seres humanos a priori (não nos enganemos - não somos).
Como contraponto a essas mulheres minoradas, há um discurso, um comportamento e uma imagem do que seria a mulher de 'valor'. Na mídia, elas são, por exemplo, Gisele Bündchen e Grazi Massafera, ambas casadas e mães, mulheres discretas, sem arroubos, sensuais em certa medida, lindas. Nós não a chamaríamos de vulgares, mesmo que sejam retratadas seminuas ou usem vestidos provocantes. Nós não diríamos que são burras, ainda que seus discursos sejam vazios. Elas são as 'mulheres que se dão ao respeito', não meros objetos sexuais... Nós não vilipendiamos essas mulheres, elas nos são simpáticas ou 'neutras'. Elas chegam bem perto daquilo que os homens são, com a diferença, salutar, de que homens não precisam casar, ser pais, discretos, algo sensuais, lindos... para serem objeto do nosso afeto e respeito. A outra diferença é que, mulheres que são, Gisele e Grazi a qualquer momento podem tornar-se alvo das bocas do inferno.
É interessante perceber que 'ideologicamente' não há diferenças entre Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis, pois todas se inserem em lugares esperados para as mulheres. As primeiras são as putas (as fáceis, as indignas, as pra trepar), as outras são as santas (as honestas, as direitas, as pra casar). Esses lugares são lugares de mercado: cada uma delas vende artigos diversos para classes diversas. As primeiras, para classes mais populares; as outras, para classes mais abastadas. Esses lugares também são lugares demarcados culturalmente, corporalmente, nas falas e nas formas. Nicoles e Sabrinas falam 'errado' e seus corpos são musculosos; Giseles e Grazis falam 'certo' e seus corpos são delgados. Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis são produtos pensados e nós, de uma forma ou de outra, no elogio ou no insulto, os compramos - enquanto sem perceber valoramos as mulheres a partir de uma identificação classista.
Mas, pera lá, se elas estão aí para a manutenção do status quo feminino, dentro de uma divisão de classes, do trabalho e da beleza feita por homens e para homens, porque não deveriam ser, todas, alvo? Simples: porque o alvo deve ser a indústria que as produz, e toda a cultura de uso da mulher - o alvo é sempre o patriarcado.
Para fechar a minha explicação, que começou laaaaá em cima: gosto de Nicoles e Sabrinas porque as vejo não como 'as vagabundas que estão atrás de dinheiro fácil', mas como sujeitos contingenciados pela história, como todos nós: por uma história de milênios de opressão da figura feminina (sobretudo dessa figura associada tão instantaneamente ao sexo); por uma história que sempre 'conspurcou' uma determinada parcela de mulheres para que ocupassem 'o pior lugar', o lugar indefensável, o da mulher 'desonrada', o da prostituta; por uma história de vida que eu não sei qual é, que pode ter sido feliz ou triste, mas na qual certamente também encontram-se os encadeamentos que as levaram a ser 'celebridades' e a ser esse tipo específico de celebridade. O simples fato de permitir ao outro uma história o humaniza - e isso mata em mim o ódio que mataria (ainda que apenas verbalmente) o outro.
Por fim, acho que nós mulheres não podemos nos furtar a pensar o quanto a exacerbação da sexualidade nos corpos de Nicoles e Sabrinas irritam a nossa própria sexualidade. O que quero dizer: assim como muitos homens homofóbicos desejam secretamente os corpos de outros homens, na nossa raiva voltada a esses corpos de mulheres não estaria também o nosso desejo?
É interessante perceber que 'ideologicamente' não há diferenças entre Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis, pois todas se inserem em lugares esperados para as mulheres. As primeiras são as putas (as fáceis, as indignas, as pra trepar), as outras são as santas (as honestas, as direitas, as pra casar). Esses lugares são lugares de mercado: cada uma delas vende artigos diversos para classes diversas. As primeiras, para classes mais populares; as outras, para classes mais abastadas. Esses lugares também são lugares demarcados culturalmente, corporalmente, nas falas e nas formas. Nicoles e Sabrinas falam 'errado' e seus corpos são musculosos; Giseles e Grazis falam 'certo' e seus corpos são delgados. Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis são produtos pensados e nós, de uma forma ou de outra, no elogio ou no insulto, os compramos - enquanto sem perceber valoramos as mulheres a partir de uma identificação classista.Mas, pera lá, se elas estão aí para a manutenção do status quo feminino, dentro de uma divisão de classes, do trabalho e da beleza feita por homens e para homens, porque não deveriam ser, todas, alvo? Simples: porque o alvo deve ser a indústria que as produz, e toda a cultura de uso da mulher - o alvo é sempre o patriarcado.
Para fechar a minha explicação, que começou laaaaá em cima: gosto de Nicoles e Sabrinas porque as vejo não como 'as vagabundas que estão atrás de dinheiro fácil', mas como sujeitos contingenciados pela história, como todos nós: por uma história de milênios de opressão da figura feminina (sobretudo dessa figura associada tão instantaneamente ao sexo); por uma história que sempre 'conspurcou' uma determinada parcela de mulheres para que ocupassem 'o pior lugar', o lugar indefensável, o da mulher 'desonrada', o da prostituta; por uma história de vida que eu não sei qual é, que pode ter sido feliz ou triste, mas na qual certamente também encontram-se os encadeamentos que as levaram a ser 'celebridades' e a ser esse tipo específico de celebridade. O simples fato de permitir ao outro uma história o humaniza - e isso mata em mim o ódio que mataria (ainda que apenas verbalmente) o outro.
Por fim, acho que nós mulheres não podemos nos furtar a pensar o quanto a exacerbação da sexualidade nos corpos de Nicoles e Sabrinas irritam a nossa própria sexualidade. O que quero dizer: assim como muitos homens homofóbicos desejam secretamente os corpos de outros homens, na nossa raiva voltada a esses corpos de mulheres não estaria também o nosso desejo?
4 de junho de 2013
Categorias
feminismo,
mulheres,
patriarcado,
solidariedade feminina,
Tággidi
5
por Tággidi Ribeiro
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| Atena, deusa da sabedoria. |
O prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, é ao fim interessantíssimo. A intenção clara do texto é não só desculpar a misoginia schopenhaueriana, posta na conta do humor ('é só uma piada'), mas também desculpar a misoginia da história e da filosofia ocidentais. Aliás, a palavra correta aqui é justificar, ou seja, demonstrar a justiça (histórica, universal) e legitimar as falas que calavam (ainda calam) a mulher. Contudo, nesse processo, Franco Volpi evidencia aquilo mesmo que o cega ou que ele se recusa a ver: o apagamento sistemático da figura feminina não por alguma sua inferioridade intrínseca, natural, mas dentro da própria construção discursiva dessa inferioridade. Vejamos o que ele nos diz:
6. Seja como for, a tradição do pensamento ocidental, apesar da diversidade das posições, das tendências e das escolas que a constituem, mostra uma surpreendente compactação ao remover, de princípio ou de fato, o sexo feminino, excluindo-o de um papel ativo na filosofia. Se o paralelo não suscitasse hilaridade, e se alguém já não o tivesse proposto, poderíamos arriscar a seguinte tese: assim como Heidegger afirmou que a filosofia ocidental é caracterizada pelo "esquecimento do Ser", poderíamos sustentar que ela é marcada por outro muito mais escandaloso: "o esquecimento da mulher".
O que me chama a atenção nessa fala, fora a questão posta, tanto histórica quanto metafísica, é que o paralelo traçado entre o esquecimento do ser e o da mulher seja, para mim, mulher, trágico, e nele provoque não só o riso, mas a explosão. A misoginia profunda de Franco Volpi tanto ri escandalosamente do esquecimento da mulher quanto esquece a mulher no tempo mesmo em que irrompe: as mulheres jamais seriam suas leitoras? Ou jamais chegariam a compreender, a penetrar esse discurso? Ou seriam obrigadas a capitular diante da verdade? Esta verdade(?):
7. (...) na República, ele (Platão) reivindicou a igualdade dos direitos para as mulheres, admitindo-as até no estudo da filosofia: infelizmente, o fato é que nessa obra ele ilustrou apenas uma utopia. Já no Timeu, quando expôs a doutrina das metempsicoses, Platão afirmou que as almas são originariamente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a reencarnar num corpo feminino e, se novamente se comportassem mal, transmigrariam para o corpo de um animal. Desse modo, ele terminou por atribuir à mulher o estatuto de ser inferior, a meio-caminho entre o homem e o animal.
O homem ocidental clássico tem horror ao animal. Por animal entende aquilo que deixou de ser, aquilo a que se tornou superior e que deve necessariamente dominar. O homem ocidental construiu sua identidade tendo como alter, como outro, não a mulher, mas o animal. A mulher só passa a ser também o outro num momento posterior da dominação do homem sobre a natureza. E para justificar (principal verbo desse post) sua ascensão sobre qualquer ser, o homem imediatamente o associa, o assemelha ao animal. Keith Thomas nos conta, em O homem e o mundo natural, que crianças, jovens, pobres, negros, loucos, povos inteiros e, é claro, mulheres são comparados a animais, sobretudo até o século XIX, quando a biologia ganha o status de conhecimento e os animais têm reconsiderado o seu valor. Mas ainda no século XX o mesmo expediente é usado: antes e durante a Segunda Guerra os judeus são descritos como ratos, para ficar em um só exemplo.
Quanto às mulheres, seguem animalizadas, ou melhor, seguem carregando a pecha que hoje pesa menos sobre o animal: praticamente todo o discurso midiático e muitas vezes também o biológico gira (propositadamente) em torno do estereótipo da mulher superemotiva, irracional. Seres irracionais não fazem filosofia, lugar primeiro da razão. Aqui o lugar de Franco Volpi.
ps: pincei apenas alguns trechos do prefácio e talvez em algum momento enfoque o texto de Schopenhauer, que segue de algum modo sendo replicado a sério. Veja nesta cena, para mim, tristíssima (min 11:06):
1
Olha, quando eu li isso, pouco ou muito pouco me importei com o pouco caso que Franco Volpi usa para nos informar dessa história inimaginada por todxs nós. Que eu tenha pressentido a zombaria na referência a 'um livro inteiro' sobre filósofas pitagóricas; mais zombaria na descrição, que não transcrevi aqui, de Gilles Ménage e zombaria certeira em 'divertimento e proveito', não importa. Perlustrando com alguma impaciência mas com sobejado interesse esse parágrafo, lembrei-me de que 'a história é contada pelos vencedores'. Durante muito tempo da minha vida não havia percebido que nós mulheres também fomos vencidas, que tivemos uma história não dita ou esquecida. Quantxs de nós ainda comem a história oficial? Quantxs de nós a regurgitam, na forma da 'emotividade, sensibilidade, impulsividade, irracionalidade femininas'? As perguntas feitas agorinha por muitas de vossas cabeças vêm formuladas e respondidas logo abaixo.
Franco Volpi é tão erudito, né? Puxa vida, ler (e entender) Hegel no original deve ser difícil pra caráleo. Mas o que deve ser difícil mesmo é formular, sobre o destino histórico de toda uma biblioteca, uma questão em que o 'acaso' aparece como única possibilidade de resposta ante o grande julgamento universal hegeliano. Mais difícil ainda deve ter sido refazer tautologicamente a questão - tipo assim, pra quem não entendeu chegar mais fácil à categórica resposta. A facilidade fica por conta da antiga arrogância da razão masculina, branca e ocidental, que de tão racional e merecedora de conservação, nos fez acompanhar no século passado os maiores genocídios da história. Franco Volpi foi um homem do século passado, nasceu no baby boom depois da Segunda Guerra, foi adolescente nos anos 1960, frequentou ambientes definitivamente intelectualmente intensos e escreveu esse prefácio em 2004: ele nos prova que difícil mesmo é achar um homem branco heterossexual privilegiado que duvide do merecimento de seu privilégio. A razão é solapada aqui - so sorry.
por Tággidi Ribeiro
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| Rosa Luxemburgo: filósofa |
Dando continuidade ao post da semana passada, com comentários sobre o prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do Schopenhauer. Você sabia que 'já na Antiguidade não faltavam figuras de pensadoras mulheres'? Então, vê só!
4. Todavia, se observarmos bem, veremos que não faltavam, já na Antiguidade, figuras de pensadoras mulheres. No primeiro século a. C., o estoico Apolônio encontrou matéria suficiente para redigir uma história da filosofia feminina, e Filocoro escreveu um livro inteiro sobre as filósofas pitagóricas, que efetivamente formaram um grupo numeroso. Mas nossa gratidão maior vai para Gilles Ménage (...). Perlustrando pacientemente os séculos, Ménage recolheu em 1690 uma Historia mulierum philosopharum, que se lê ainda hoje com divertimento e proveito.
Olha, quando eu li isso, pouco ou muito pouco me importei com o pouco caso que Franco Volpi usa para nos informar dessa história inimaginada por todxs nós. Que eu tenha pressentido a zombaria na referência a 'um livro inteiro' sobre filósofas pitagóricas; mais zombaria na descrição, que não transcrevi aqui, de Gilles Ménage e zombaria certeira em 'divertimento e proveito', não importa. Perlustrando com alguma impaciência mas com sobejado interesse esse parágrafo, lembrei-me de que 'a história é contada pelos vencedores'. Durante muito tempo da minha vida não havia percebido que nós mulheres também fomos vencidas, que tivemos uma história não dita ou esquecida. Quantxs de nós ainda comem a história oficial? Quantxs de nós a regurgitam, na forma da 'emotividade, sensibilidade, impulsividade, irracionalidade femininas'? As perguntas feitas agorinha por muitas de vossas cabeças vêm formuladas e respondidas logo abaixo.
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| Susan Sontag: filósofa |
5. No entanto, ocorre de nos perguntarmos: por que, de todas as venustas filósofas mencionadas nessa obra, não restou um só pensamento, nem um único fragmento se salvou da fúria destrutiva do tempo? Foi um acaso ou devemos pensar, com Hegel, que nessa matéria a história universal (Weltgeschichte) também emitiu seu julgamento universal (Weltgerischt)? Quer dizer: no fundo, esses pensamentos não mereciam ser conservados?
Franco Volpi é tão erudito, né? Puxa vida, ler (e entender) Hegel no original deve ser difícil pra caráleo. Mas o que deve ser difícil mesmo é formular, sobre o destino histórico de toda uma biblioteca, uma questão em que o 'acaso' aparece como única possibilidade de resposta ante o grande julgamento universal hegeliano. Mais difícil ainda deve ter sido refazer tautologicamente a questão - tipo assim, pra quem não entendeu chegar mais fácil à categórica resposta. A facilidade fica por conta da antiga arrogância da razão masculina, branca e ocidental, que de tão racional e merecedora de conservação, nos fez acompanhar no século passado os maiores genocídios da história. Franco Volpi foi um homem do século passado, nasceu no baby boom depois da Segunda Guerra, foi adolescente nos anos 1960, frequentou ambientes definitivamente intelectualmente intensos e escreveu esse prefácio em 2004: ele nos prova que difícil mesmo é achar um homem branco heterossexual privilegiado que duvide do merecimento de seu privilégio. A razão é solapada aqui - so sorry.
Semana que vem termino essa série, que ainda nos guarda umas tantas emoções, e volto a falar do grande fantasma que precisamos enfrentar: o estupro.
ps: escrevo e a palavra filósofa aparece com o grifo vermelho de erro. Até aqui só existem filósofos. Precisamos urgentemente de outra história.
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| Hannah Arendt: filósofa |
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por Tággidi Ribeiro
O vídeo abaixo traz as falas da neurocientista Suzana Herculano-Houzel sobre as diferenças entre os cérebros de homens e mulheres cis e heterossexuais, principalmente. Esse vídeo é muito interessante por diversas questões, mas sobretudo, a meu ver, por trazer uma mini-história do discurso desenvolvido sobre esse tema. A neurocientista nem imagina que as pesquisas às quais se refere dão suporte científico ao que o feminismo vem afirmando desde quando não existia feminismo e erra feio ao supor que feminismo é o contrário de machismo - tudo bem, gostamos dela mesmo assim. Atenção: assista ao vídeo antes de continuar a ler o post.
E aí, gostaram? Olha, eu perguntaria à Suzana se a capacidade masculina de responder a estímulos sexuais implica maior desejo e/ou intensidade sexual. Perguntaria se essa capacidade determinaria a cultura ou seria culturalmente determinada. Perguntaria como foram realizadas as pesquisas de que ela fala - quantos homens e quantas mulheres, de que idade, classe social, nacionalidade; que tarefas essas pessoas executaram ou exatamente a que estímulos foram expostas. Quer dizer, eu pediria a referência d@s teses/estudos, né? Ou uma cópia - rs. Também perguntaria se seria possível afirmar que os dados obtidos valem universalmente e atemporalmente considerando, claro, a idade de nossa espécie. Louca ou burra ao questionar isso? (Questão interna ainda sem resposta). Por fim perguntaria, desde que se considera a condição homossexual uma condição natural, definida na gestação e de conhecida localização no cérebro, se seria possível extirpar a homossexualidade - essa pergunta é detestável, é dolorida e é melhor pensarmos sobre ela e sobre as implicações das respostas antes que os grupos de ódio o façam.
Termino reafirmando o compromisso do feminismo com a igualdade e fazendo coro ao que a Suzana (e outras tantas mulheres que não se consideram feministas) expõe: são as expectativas depositadas sobre nós que terminam por nos definir a todos, homens e mulheres cis e trans. Podemos todos ser racionais ou irracionais, sensíveis, irascíveis, criativos e, ainda, gostar de rosa e/ou azul. Podemos ser matemáticos, empresários, artistas, políticos ou cientistas. E, mesmo que não pudéssemos, mesmo que houvesse diferenças profundas entre gêneros, raças e culturas, ainda assim caberia apenas um comportamento ético: o do respeito, da compreensão, do esforço no sentido da convivência pacífica justa e da promoção da igualdade.
2 de abril de 2013
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Tággidi









