Doentes somos nós

por Roberta Gregoli


A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.

(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)

Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:


E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".

É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.

Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:

Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]

Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).


Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."

Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).


Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.

Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.

É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.


Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.

Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.

Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.

E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.


2 comentários:

  1. parabéns pelo texto. quero acompanhar demais o seu blog, obrigada!

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  2. Obrigada, Nina!

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