Amor a toda prova: ensinando o que é ser homem

por Tággidi Ribeiro


Assisti esses dias ao filme Amor a toda prova, que pensei fosse uma comediazinha romântica inocente. Nada. É mais uma dessas produções machistas em que as mulheres são todas loucas e os homens se dividem nos estereótipos de 'banana', 'babaca' e 'o cara'. O cara é aquele tipo David Beckham, que se veste muito bem, é rico e elegante, absolutamente educado e bonito. O Beckham do filme, de nome Jacob Palmer e interpretado pelo Ryan Gosling (as mina pira), é ainda espirituoso e tem estratégias infalíveis pra levar uma mulher pra cama. Obviamente, Gosling/Jacob Palmer é o macho alfa do filme: as mulheres nunca tomam a iniciativa - ele escolhe quem vai pegar. E elas todas caem na dele. E quem não?

Bem, eu apostaria que mulheres que não gostem do tipo macho alfa arrogante de tanta confiança na testosterona rejeitem esse cara; que mulheres que não estejam a fim de transar no dia específico JP igualmente o façam; e que mulher, enfim, que não se sente à vontade pra transar com um cara que provavelmente não vai ligar depois rejeita Jacob Palmer. De outro lado, mulheres que gostem do tipo macho alfa, que estejam com vontade de transar e que estejam confortáveis com o fato de que provavelmente Jacob Palmer se materializará apenas uma noite irão efetivamente pra casa dele ouvir Dirty Dancing.


Nada de errado com essas mulheres - dizer sim ou não é uma prerrogativa, afinal, o corpo delas é delas. Suas ações ou reações, em todo caso, visam à satisfação própria ou do eventual parceiro ou ao menos não chegam a causar dano. Mas os homens sintetizados na figura de Jacob Palmer são claramente um problema. Não por quererem sexo - tem problema nenhum querer, inclusive com várias mulheres, ao mesmo tempo ou não. O problema é a essência desse querer e as práticas que derivam daí.

Esse homem crê, pois trata-se de crença e não mais, que nasceu para dominar, que esse é seu estar e ser no mundo. A mulher é inferior a ele, deve necessariamente sê-lo, de modo que qualquer tipo de relação em que ela esteja a seu lado como igual ou a ele seja superior é impensável. Esse homem não usa a mulher para fazer sexo, usa do sexo para reafirmar seu poder sobre a mulher - não importa o quão gentil ele seja, ele menospreza a parceira com quem dorme: por ser mulher, de antemão; por ter dito 'sim' e, portanto, ser 'fácil', 'vadia', 'puta' etc. No limite, homens como Jacob Palmer não fazem sexo, masturbam-se com uma mulher, já que o sexo, aqui, é elemento de afirmação de (uma ideia de) masculinidade, de heterossexualidade. Então, temos que: 1) nada há de mais importante para um (esse) homem que ser homem (senso comum = heterossexual, superior, poderoso); 2) essa forma do masculino não admite outra forma do feminino que não a da inferioridade e da submissão - sem a existência desta, a forma masculina se extingue; 3) o sexo é usado pra manutenção dessas formas, não objetiva o prazer.

Amor a toda prova é exemplar nesse sentido. Jacob Palmer faz um discurso sobre a perda da masculinidade a Cal (Steve Carell) quando o conhece e sabe que este foi traído e abandonado pela mulher; zomba dele por ter transado apenas com a esposa em toda a vida; deprecia eventuais gestos 'femininos' (como usar canudo para tomar drink). A partir daí, todo o esforço de Cal, auxiliado por Jacob, objetiva a recuperação de sua 'masculinidade' através da 'conquista' do sexo oposto.

Claro que tudo feito com uma boa dose de charme e carisma dos atores, além de algum humor, dá impressão de ser ok. Tudo dá certo no final. Cal recupera sua masculinidade, quer dizer, sua mulher. E Jacob Palmer acaba se apaixonando por, obviamente, uma mulher que recusa suas investidas e com quem não transa na primeira noite... Prova de que mesmo os grandes cafajestes se redimem quanto encontram uma mulher de valor, né?

Não.



3 comentários:

  1. Eu não perdi meu tempo precioso vendo esse filme, mas me lembro de ter visto o thriller e achei um insulto à inteligência feminina aquela parte ali, em que o "cara tira a camisa e amoça diz que parece photoshop", fala sériooooo... A mim, parece ultra contraditória a forma como se colocam nos filmes, uma "mocinha pensante e desprendida, encantadora até" dizendo uma idiotice dessas... Um dos filmes que mais odeio nessa vida é aquele "minhas adoráveis ex-namoradas". No entanto, o fato de o anti-herói ser um otário não é o que mais irrita, ele tinha mesmo que ser um otário, como em todas as comédias românticas, o que me choca é o fato de a mocinha que é seu par ter plena consciência disso, conhecê-lo desde a infância, saber que ele jamais mudará, e diante de um único ato de redenção - no casamento de seu irmão, o mínimo a se esperar de um ser humano - resolve voltar com o paspalho. Subvertidas, respondam-me, tudo isso é mesmo pra nos manter nos nossos devidos grilhões? É muito esforço e muita estorinha pra boi dormir né?

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  2. Como homem só não entendo porque o Cal tinha de voltar para a mesma mulher! Se recuperou sua masculinidade poderia arranjar outras e pelo jeito continuou o mesmo banana de sempre! Não aprendeu com seu erro! Infelizmente uma verdade histórica é que o homem que respeita sua mulher será desrespeitado por ela!

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  3. As Feminazzis piram kkk. Tá, parei!
    O maior problema é que as mulheres, em geral, se conhecem infinitamente menos do que imaginam, ou mentem descaradamente sobre quem são.
    Digo isso porque se você conversar meia hora com uma mulher, sobre o tipo de cara que ela gosta, ela vai te descrever uma pessoa. Agora se você relacionar os parceiros que ela efetivamente escolhe, verá que eles, geralmente, são exatamente o oposto do que ela descreveu.
    Verá também que essa mesma mulher, está cercada de caras com as tais características que ela descreveu, mas que ela só os trata como amigos, não por iniciativa deles, mas por que ela os colocaram lá e porque eles não foram "homens o suficiente" para sair daquilo. Então se você quer saber do que uma mulher (específica) gosta, analise as atitudes e escolhas dela, mas NUNCA pergunte à ela porque ela não vai saber responder!
    Mas em uma parte eu posso concordar com essa crítica toda. NENHUMA regra vale pra todas as mulheres, nem pra todos homens, pelo mesmo motivo que foi a dificuldade de tornar a psicologia uma ciência, não somos exatos nem previsíveis. E tenho dito!

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