Vai encarar?


por Roberta Gregoli

Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!

Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.

Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".

Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".

Reproduzo aqui a resposta que ela deu em seu blog, na tradução do Coletivo de Mulheres PUC-Rio (acesse o texto original em inglês aqui):

"Uma ofensa óbvia quando falamos de levantamento de peso feminino é 'como é pouco feminino, garotas não devem ser fortes e ter músculos, isso é errado'. E talvez estejam certos... na era vitoriana. Imaginar que as pessoas ainda pensam assim é ridículo, estamos em 2012! Isso pode soar como uma generalização, mas a maioria das pessoas que pensam assim parecem chauvinistas, caras cabeça-dura que se sentem fracos pelo fato de que nós, três garotas pequenas e muito femininas, somos mais fortes do que eles. Simples assim. Eu discuti com um cara que disse que "nós provavelmente somos todas lésbicas e nos parecemos com homens", apenas para explicar o fato de que sua opinião não é válida porque ele é um idiota. Ele veio com a resposta original que eu deveria voltar para a cozinha. Eu ri.

Como a Hannah disse anteriormente, nós não levantamos pesos para parecermos gostosas, especialmente para agradar homens assim. O que os faz pensar que nós ao menos QUEREMOS que nos achem atraentes? Se você achar, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se não, por que você realmente precisa dizer isso e o que faz você pensar que nós, pessoalmente, nos importamos se você nos acha atraentes?

O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.


Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."

Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.

5 comentários:

  1. Sandra Seabra Moreira09/08/2012 00:56

    Grande, Roberta!

    Só questiono se essa força masculina é mesmo apenas cultural. Fui criada tão pra ser dona do meu nariz mas, como já comentei antes, por mais que eu queira, não consigo ser mais forte do que a maioria dos homens que eu conheço. Pelo menos, não faço a menor questão de sê-lo no dia a dia; acho custoso. Porém, me lembro de um dia em que minha filha, então com pouco mais de um aninho, sumiu no meio de uma bagunça federal aqui em casa. O povo - na época éramos uns 10 - saiu procurando e alguém disparou: "deve estar embaixo da cama". Fiquei tão maluca e com medo de que ela pudesse estar lá embaixo, sei lá, machucada ou algo assim,que levantei a cama instintivamente. Detalhe: era uma cama de casal e, deitado em cima, estava meu marido, com seus 90 quilos. Sim, eu levantei a cama sozinha. E ela estava lá embaixo, dormindo como uma anja. Por causa de episódios assim - há outros, que num próximo almoço ou café lhe contarei - sei muito bem a força que eu tenho. Mas, sinceramente, prefiro não usar.Beijo!

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  2. Oi, Sandra! Acho que preferir usar a força ou não, achar isso custoso, etc é cultural, você não acha?

    Estou muito curiosa para ouvir as outras histórias - e descobrir qual filha desapareceu! Beijos!

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  3. Sandra Seabra Moreira09/08/2012 11:53

    Você tem razão. Uma falsa fragilidade é incutida na educação das meninas, ou em nós, para que possamos desempenhar nossos papéis direitinho. Por outro lado, a maternidade fragiliza, e muito. É por aí que eu fico pensando e repensando.

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  4. Gostei do texto, Roberta, e obrigado pela menção ao blog.

    Entrando na onda do seu post, deixo 2 links de garotas fortes, exemplo de determinação e profissionalismo.

    http://mulheresquehonramorole.blogspot.com.br/2011/09/cris-cyborg.html

    http://mulheresquehonramorole.blogspot.com.br/2011/07/marilia-coutinho.html

    Beijos!

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  5. Adorei os dois posts, Bill. E ninguém encara mesmo, né? Ha!

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