Meu sexismo de cada dia

por Tággidi Ribeiro


Sabe, nunca me passaram a mão no ônibus, nem no metrô - o que já aconteceu com a maioria das meninas com quem falei sobre. Mas já aconteceram coisas "chatas" que quero relatar a vocês. Hoje é o dia do meu sexismo de cada dia.

Da primeira vez, no ônibus, eu na fila para pagar achava o cobrador muito animadinho com as mulheres. Estranhei. Quando eu fui passar, encostando o bilhete único na máquina, ele roubou a minha mão (acho que tocar é um verbo muito bonito e portanto não adequado pra eu usar aqui). Ele roubou a minha mão e eu me senti invadida. Eu fui invadida, porque havia bastante espaço para que a mão daquele homem estivesse bem distante da minha. O ônibus não chacoalhou, nem nada. Ele propositadamente encostou sua mão em mim. Parece mimimi de feminista, né? Pois bem. Não era a primeira vez que eu via isso acontecer, nem a última que eu veria: uma vez no metrô, outra no ônibus (respectivamente). Dois caras, duas meninas. Eles olhavam. O do metrô tinha aquele sorriso escroto. O do ônibus tinha cara de bonzinho, tímido. Tanto o metrô quanto o ônibus estavam vazios e eles deram um jeito de se encostar nas meninas. O do metrô, no braço. O do ônibus, no ombro. Houve cálculo, houve método. Havia a ideia de que isso deve ser feito: invadir, desrespeitar o espaço do corpo do outro se o outro é uma mulher vulnerável de alguma forma - uma mulher em um espaço público. O olhar excita, o toque é a prévia da punheta se não há chance para o abuso, para o estupro. Não digo com isso que esses homens são estupradores, mas tampouco posso dizer que não o são.

Da segunda vez, eu nem havia olhado para o cobrador. Simplesmente esperava com a mão aberta para receber o troco de moedas. Ele colocou o montinho no centro da minha mão e roçou com seus dedos toda ela. Eu disse "obrigada" e saí me sentindo estranha, novamente invadida. Já na rua (desci logo), me sentindo cada vez mais invadida (como se estivesse acordando para o sentido do ato daquele homem), lembrei de uma 'brincadeirinha' que os meninos da minha cidade faziam com as meninas - roçar, fazer cócegas (n)o centro de suas mãos, para excitá-las. Nós éramos meninas, adolescentes de 11, 12 anos e os meninos provavelmente haviam aprendido isto com seus amigos, parentes mais velhos: o centro da mão é algo tão íntimo quanto uma vagina. Mentira. O que é constrangedor, e que para nós, meninas, era desconcertante (reagíamos rindo às vezes, e sempre protestando), é um toque que não está no programa, é o toque inesperado, não consentido. Quantas vezes não ouvimos, depois de um toque inesperado na cintura ou no joelho: "cócega só até os 12 anos"? Esse tipo de ciência (no mau sentido) do corpo e dos desejos de uma mulher (menina, criança até), passada de geração para geração e que autoriza a invasão do corpo feminino é a base familiar, cotidiana da cultura do estupro. Não é a mídia que gera essa cultura - a mídia pertence a homens inseridos nessa cultura, que receberam esse tipo de (de)formação. A mídia perpetua a cultura de estupro - e muito bem por sinal.

Tem muito mimimi feminista guardado. Aconteceram outras coisas mais, menos e mais violentas, mas vou parar aqui por hoje, falando o pior. O pior é que eu não consigo reagir. Quem me conhece sabe da minha capacidade de ser agressiva e, hell, eu sou feminista. Eu fico paralisada, eu não entendo, eu agradeço ao cobrador (!). Eu já imaginava que essa inação tivesse  que ver com meu histórico de abuso (já falei sobre isso aqui no blog, em textos antigos). Voltando ao divã, a terapeuta confirmou. Agora, vou começar mais uma longa jornada na minha noite adentro, depois de todo o trabalho tentando me livrar da culpa, da sensação de ser suja, de achar que não merecia amor - que deu muito certo, mas acho que porque, além de eu ser resistente pra diabo, também não sofri abusos contínuos como muitas das mais sofridas vítimas...    

Eu obviamente vou conseguir. Achei que pudesse sozinha, mas vou precisar de ajuda: tudo bem, o importante é superar a questão. Até porque, quando eu superar, quando eu conseguir reagir... Quando, em vez de abaixar a cabeça, eu apertar a garganta do sujeito (já falei que eu sou agressiva?)... É nossa revolução, sabe? Eu sou vocês. Eu serei todas nós.

Espero que vocês, assim como eu, estejam em busca da reação. Ensinar os homens a respeitar e ensinar as mulheres a reagir ao desrespeito.

4 comentários:

  1. Thais Torres07/05/2013 22:47

    Comigo acontece o mesmo: nunca ocnsigo reagir nessas situações. Uma vez um cara me ofereceu uma carona. Estava uma chuva torrencial, daquelas de inundar Barão Geraldo. Eu, pindamonhangabense nata, entrei no carro. O cara inventou que tinha um bicho entrando na minha roup. E tinha mesmo: era a mãe dele entrendo na minha blusa. Eu fiquei assustada, desesperada. Nem lembro direito como sai do carro.

    Mais tarde, o mesmo cara fez o mesmo com uma amiga minha. Terrível!

    A gente acaba se sentindo meio impotente por não ter reagido. Fica brigando mentalmente, imaginando todos os insultos que deveriam ter sido ditos, mas não foram. A mente vira um filme do Tarantino, mas não adianta muito. Nunca é demais lembrar: não é nossa culpa. Nunca foi.

    Parabéns pelo post, Tággidi!

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    1. Obrigada, Thaís! Nunca é nossa culpa, mesmo. Mas reagir é um exercício, mental e físico. Também é um exercício da coragem. Quanto menos medo, quanto mais reagirmos, menos os homens se sentirão à vontade para nos agredir.

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  2. Nossa, sei bem como é. Parece que ficamos vulneráveis, e ao menos eu sinto que um pouco é pela fragilidade física, se estou sozinha com esse bicho e o irrito, pode ocorrer o pior. Mas já me cansei dessas invasões, estou cansada de ser abusada. Tive um chefe muito nojento, insuportável, que dava cantadas e sempre dava um jeito de falar de "cama", OMG! Corria dele como o diabo da cruz, mas chegou a um ponto em que eu fui ficando tão revoltada que perdi o medo, fiquei bruta e grosseira mesmo. Claro que me demiti, não dá pra suportar um ambiente desses.

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    1. E não pensou em processá-lo?
      Sabe que o que mais me irrita nesse mundo de homens é não poder andar sossegada pela rua, pelo mundo, a qualquer hora do dia ou da noite? Tem um amigo meu que anda a pé em São Paulo, de madrugada, sozinho, tranquilamente. Mas acho que precisamos inclusive, dentro do movimento feminista, pensar em ocupar as ruas a qualquer hora - naturalizar nosso corpo nesse espaço-tempo.

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