Mulheres, humor e escatologia

por Roberta Gregoli

Adoro peidar

Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata. 

O problema é a ideologia que está por trás dos comentários. A Má já falou sobre comédia stand-up e concordo: muito do que tenho visto no Brasil é de virar o estômago, humor reacionário em seu estado mais puro. Reflexo de uma mentalidade reacionária (mas o Serra perdeu a eleição e talvez assinou o óbito de sua carreira política, o que significa que ainda há esperança!). 

Já defendi que não existe humor inofensivo, mas isso não significa que comédia só possa ser usada para banalizar e naturalizar preconceitos e discursos de ódio.

Margaret Cho e fã alucinada
Ontem fui a um show de comédia stand-up da coreana-americana Margaret Cho, em Londres. Como conheço a maioria dos seus shows, sei que ela tem a boca suja, mas ontem estava particularmente suja. E achei ótimo. Precisamos de mais mulheres falando de assuntos ainda hoje tidos como tabu: menstruação, menopausa, masturbação e sexo, muito sexo. Enquanto santa e puta forem categorias mutuamente excludentes, precisamos de mulheres fazendo piada sobre a própria vida sexual, sobre boquete, sexo anal; enquanto houver a ideia de orientação sexual como algo rígido, com a heterossexualidade como norma, precisamos de mulheres falando sobre sexo com homens e com mulheres.

Precisamos também de mulheres falando sobre o aborto. E aqui alguns podem se chocar. Mas ora, se piada de estupro é "só brincadeirinha", por que de aborto não pode? #padrãoduplo

A Sarah Silverman é outra comediante norte-americana, também de minoria étnica (judia) e gerou polêmica com este post no Twitter, em abril deste ano:


Ela escreveu e eu traduzo: fui ali fazer um aborto rápido caso a lei seja revogada ("R v W" é uma referência ao caso Roe contra Wade, que levou à descriminalização do aborto em âmbito nacional, em 1973).

Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito. 

Meninas passam bilhetes,
meninos 'passam' gases
Precisamos também de mulheres falando sobre temas escatológicos, o chamado 'humor de banheiro'. E a Margaret Cho é ótima nisso, ela fala sobre mijar nas calças, cagar nas calças, peidar. Independente de achar graça nesse tipo de humor ou não, acho importante que piadas assim estejam sendo feitas por mulheres. Porque homens falam abertamente sobre todas essas coisas, fazem piadas, enquanto nós somos educadas para, na melhor das hipóteses, usar eufemismos. E mais do que falar, nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se a nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada. Ou pelo menos nos fosse negado falar sobre ela, que é a mesma coisa. 

Ainda sobre mulheres e escatologia, me lembro que ano passado houve uma cena do filme Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) que foi particularmente criticada:


quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.

Ando pensando muito nas comediantes mulheres no Brasil, mas acho que esse é assunto para um outro post, mesmo porque ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão clara. O maravilhoso humor desbocado da Dercy Gonçalves é certamente transgressor, mas não sei o suficiente sobre a nova geração... Talvez a Ingrid Guimarães e a Heloísa Périssé se aproximem mais desse tipo de humor subversivo com relação ao papel da mulher. Comentários?


11 comentários:

  1. Sandra Seabra Moreira31/10/12 21:35

    Roberta querida!
    Lendo seu texto me vem a imagem de você na minha frente, e a gente falando com a matraca solta! Deu saudadinha.
    Seguinte, concordo que as mulheres precisam acertar a mão no humor que fazem, especialmente aqui no Brasil, pois, no geral, se referenciam no humor machista. Também acho que num tem nada a ver ficar reprimindo a vontade de falar de sexo, se for o caso. POR OUTRO LADO, tem muita gente - como eu - que detesta pornografia e escatologia. Duas coisas que, inclusive, me tiram a inspiração e o tesão completamente (exceto, claro, quando muito bem colocados, naquela hora certinha). O seu "precisamos de mais mulheres que falem merda" ficou bem engraçado, gostei, mas nessa trincheira eu tô fora. Tô mais pra algo genérico como "precisamos de mulheres que falem do que elas gostam de falar"?.Não é bom assim também? Então tá, beijo queridona!!!!

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  2. Sandra Seabra Moreira31/10/12 21:54

    Roberta! Putz, lembrei de uma coisa! Ontem mesmo estava com um amigo no inbox do Face e ele fez uma rima qualquer com a Lady Gaga e, nuooossa, me veio na cabeça uma rima bem grosseira. E rimos pra caramba, bem, pelo menos eu ri demais! É fato, rir da coisa tem um efeito interessante. Tem razão!!!Mas daí o que rola é uma responsa com a rima e o poema, é de outra ordem esse meu cuidado com as imagens que as palavras - escritas - evocam. Daí o que penso é que aquilo que a gente pode escancarar numa mesa de bar são como as substâncias etílicas que evaporam na madrugada. Outra bem diferente, pelo menos pra mim, é aquilo que registramos com a escrita. Enfim, rede social usada como bar da esquina não sei se é tão libertador assim. Ah, é por aí que vai.

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  3. Curti muito ter texto, Roberta, se pá dos melhores que li aqui.

    Acho que pra falar de mulher e fazer um humor de cotidiano feminino é preciso que a comediante seja mulher. Imagina um cara contando as mesmas piadas da Margaret Cho. Não faz sentido. Assim como não faz sentido as piadas do Chris Rock serem contadas por um branco. No primeiro caso, teríamos piadas machistas, e no segundo, racistas.

    Acredito que o caminho seja a quantidade. Só com a entrada de mais mulheres no humor (não como decoração "bunda" desses humorísticos da tv) é que será possível ver florescer no Brasil garotas com línguas afiadas. Eu acho que quem faz um humor muito firmeza por aqui é a Dani Calabresa. Vale ver esse videozinho: http://www.youtube.com/watch?v=Sb3yDl_688w

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  4. Mas no caso desse humor a que vc se refere, Roberta, a esse humor porco que eu adoro, e que os homens fazem muito bem pq nossa educação nos dá liberdade pra fazer isso, acho que as grandes gênias estão no quadrinho. Sério. Vale muito a pena conhecer a Pryscila Vieira (http://pryscila-freeakomics.blogspot.com.br/) que recentemente foi fortemente atacada pelo seu tipo de humor no blog da Lola.

    Tem também a linda maravilhosa Chiquinha, que já é bem conhecida e respeitada na área: http://chiqsland.uol.com.br/home/

    E tem outra mais desconhecida, que é a Mauren Veras, que é um talento pornograficamente refrescante: http://mulheresquehonramorole.blogspot.com.br/2012/06/mauren-veras.html

    Espero que goste das dicas.

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  5. Oi, Sandra,

    Acho que, no fim, estamos falando a mesma coisa. Acho que precisamos de *mais* mulheres que falem de merda porque precisamos de mulheres que falem de tudo, não que sejam taxadas como 'pouco femininas' por falarem coisas que 'não são apropriadas' para uma 'dama'.

    E estou falando de falar *de* merda, que é bem diferente de "falar merda", das coisas imbecis que por vezes vemos no Facebook. A Margaret Cho, por exemplo, é completamente genial. Olha só esse vídeo sobre o tabu em torno da menstruação e os padrões duplos sobre o que se 'pode' ou não falar: http://www.youtube.com/watch?v=E2hDdIuRIOM

    Sobre a "responsa com a rima e o poema", eu não romantizo muito a escrita, para mim ela é uma ferramenta de crítica cultural. Mas mesmo sendo usada como arte, a distinção entre belas artes (high art) e arte 'baixa' (low art) é bem mais tênue do que o patriarcado quer que acreditemos. Veja os poemas eróticos do Drummond, por exemplo: http://www.germinaliteratura.com.br/erot_ago06_cda.htm

    Saudades das nossas conversas também! Essa renderia muito pano para manga :)

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  6. Bill, amei as dicas! O vídeo que você mandou da Dani Calabresa é um ótimo exemplo desse tipo de humor inteligente, com elementos escatológicos.

    Gostei muito das cartunistas também! Li o guest post na Lola atacando a Pryscila Vieira e o direito de resposta dela. Achei genial a ideia de ter uma boneca inflável como protagonista, ainda mais porque ela parece uma mulher cheia de cirurgia plástica, que eu interpreto como um comentário irônico sobre o ideal de beleza feminino e a objetificação, literalmente, das mulheres.

    E todas as três, Dani Calabresa, Pryscila e a autora do guest post mencionam o clube do bolinha que é o humor. O patriarcado insiste que as mulheres não são engraçadas justamente porque o humor tem um potencial subversivo enorme. Por isso precisamos muito dessas mulheres e mais, muitas mulheres mais fazendo comédia de todos os tipos.

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  7. Sandra Seabra Moreira04/11/12 00:59

    Pois é, Roberta, uma coisa é humor porco, outra coisa é poesia erótica, que eu amo, adoro de paixão.Leio poemas eróticos, tenho alguns exercícios escritos nesse sentido e espero conseguir escrever algo que valha ser lido. "Lamber", por exemplo, acho uma palavra maravilhosa, assim como bunda. Adoro a palavra "corpo", "orgasmo", "mãos", "pés", nossa, é tudo maravilhoso na poesia erótica. A minha grande dificuldade tem sido tratar poeticamente a palavra pênis, por exemplo. Diz muito, muito, mas é definitivamente uma palavra feia. Quero rebatizar essa maravilha da natureza esse "arco da promessa".
    Mas humor porco é diferente de poesia erótica. É mesmo uma questão de gosto, de como você prefere gastar seu tempo livre, digamos assim. Nunca fui fã de comediante nenhum; a Dercy Gonçalves, por exemplo, sempre achei um porre. Embora concorde que precisemos, sim, de mulheres fazendo humor, justamente porque há muitas delas geniais e que acabam enrustidas, rindo só por dentro e adoecendo, por causa desse contexto machista e opressor.
    Bem, na verdade, estou opinando no assunto errado. Humor não é minha praia, num curto. Valeu, Linda, amo Drumond.

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  8. Sandra, leia a Hilda Hilst e talvez tenha mais ideias para tratar a palavras 'pênis', tanto humoradamente quanto eroticamente. :) Na poesia erótica sinto falta na verdade de outras palavras para 'vagina' - existem muitas, mas sinto falta de palavras que 'prestem', sem romantismo barato e sem vulgarização.

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  9. Sandra, independente de gosto pessoal, a Dercy revolucionou! Imagine uma mulher no Brasil da década de 1950 (!!) falando abertamente sobre a própria sexualidade, falando palavrão... A questão não é o que eu ou você gostamos, mas como essas mulheres desafiam as convenções do que é 'apropriado' para uma mulher falar ou fazer e, por consequência, contribuem para a libertação de todas.

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  10. Sandra Seabra Moreira12/04/13 20:02

    Olá garotas! Só agora vi a resposta de vocês. Concordo plenamente com o que Roberta fala da Dercy. E quanto à Hilda Hilst, adoro! E percebo que temos muito a caminhar e aprender em relação a mulheres escrevendo poesias eróticas e a reação do público. Imaginem, por exemplo, que outro dia escrevi a palavra "corpo" substituindo o que também poderia ser a palavra "presença" num diálogo escrito, informal, mas que se pretendia um tanto poético. Ixi, o muso em questão se sentiu ofendido. Muito maluco tudo isso. Quantas couraças a serem destituídas! Agora comecei a estudar um pouco acerca de Diotima, a sacerdotisa que iniciou Sócrates no conhecimento das ações de Eros. É inspiração para a busca de novas palavras/metáforas para substituir essas que já soam tão vulgares, ou de cunho estritamente anatômico, ou ainda, gastas. Aliás, uma pauta bem legal essa da Diotima, né não? Beijos.

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    1. Bom te ter de volta por aqui, Sandra! E que tal um guest post sobre a Diotima? Eu nunca tinha ouvido falar...

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