O que aprendi com o parto natural

por Thaís Bueno

Desde que comecei a contribuir para este blog, venho pensando em dedicar um post à minha experiência pessoal do nascimento do Pedro, meu filho. Quem acompanha este blog sabe que alguns posts já se dedicaram às questões e aos (vários) problemas relacionados à forma como a maternidade se dá no Brasil. Aqui e aqui, você teve a oportunidade de encontrar informações valiosas e ótimas reflexões sobre as consequências de um sistema que, obviamente, por questões econômicas, privilegia o parto por cesariana nos hospitais, e o resultado negativo que isso tem para mães e bebês. 

Pois bem, minha experiência começou quando eu descobri que estava grávida e que em nove meses teria o Pedro. Apesar de a gravidez não ter sido planejada, eu não cheguei a pensar em aborto (não porque eu fosse contra o aborto - muito pelo contrário -, e sim porque sou a favor da vida). Depois daquela sensação “uau, eu não esperava por isso”, veio a sensação “então, vamos ver o melhor jeito de passar por essa gravidez, para mim, para o bebê e para o pai”. A partir daí, foi um longo e maravilhoso processo, de nove meses, em que o aprendizado sobre muitas coisas foi bem mais relevante do que enjoos e outros detalhes. Entre as coisas que eu aprendi na prática e que eu gostaria de compartilhar, estas foram as mais valiosas: 

1. A gravidez também é do pai da criança, em todos os sentidos e em todos os momentos. Obviamente, muita gente já sabe disso e vive repetindo que o homem deve participar do processo (ou “ajudar”, que é um termo que eu abomino). Mas, na prática, pela divisão de tarefas que temos em nossa sociedade, é muito fácil desistirmos de incluir o pai no processo, quando, por exemplo, você precisa ir a uma consulta pré-natal e o pai não pode ir porque precisa trabalhar. Situações como essa são só o começo de toda uma sequência de dificuldades. E, na outra ponta, está o parto em si, momento do qual, em boa parte dos casos, o pai não participa ativamente. E isso pode acontecer porque ele não tem vontade de participar, porque não “tem estômago” (ou melhor, foi ensinado a não ter) ou, simplesmente, porque o hospital não permite que ele entre na sala de parto (sim, é absurdo, mas acontece). Isso quando o hospital não cobra uma taxa para que o pai esteja presente no nascimento da própria criança. 

Nos dias de hoje, nos grandes centros (infelizmente, cidades menores ainda carecem de grupos de parto alternativo), temos opções maravilhosas para o parto, que não só colocam o pai como parte ativa no processo, mas tiram de campo a figura do médico como aquele que vai determinar o curso da experiência. Nesse caso, a intervenção do obstetra é desnecessária, a menos que uma complicação ocorra. Mas, se tudo corre bem, o parto é, exclusivamente, do bebê, da mãe e do pai. E ponto final. Tirar de qualquer uma dessas três pessoas o direito de participar ativamente do processo é uma violência. 

Cena do filme "O Sentido da Vida", do grupo Monty Python: "É menino ou menina?"
"Acho que é um pouco cedo para começar a impor papéis à criança, não?"

2. A gravidez e o parto em si são experiências valiosíssimas para aprendermos e termos mais consciência de nosso corpo. E esse aprendizado vem tanto nas leituras que você faz durante a gravidez (sim, é importantíssimo ler e se informar de tudo o que vai acontecer com você e o bebê) quanto na prática e na experiência do parto. Por exemplo, você aprende que nenhum corpo gera algo que ele não seja capaz de comportar – ou seja, aquela velha desculpa de que “o bebê é grande demais para que a mãe tenha um parto normal” é, em boa parte dos casos, pura balela, e não pode nem deve justificar uma cesárea violenta. 

Você aprende, também, que o corpo não é só uma máquina separada da mente e comandada por ela. O corpo é muito mais complexo que isso, tem memória e subjetividade, e tudo isso aflora no momento do parto (se isso for permitido à gestante, claro). A experiência do parto normal é, para a gestante, literalmente, a possibilidade de se abrir ao mundo e assumir todas as qualidades que ela tem e que ficam guardadas devido a códigos de moral e de comportamento que nossa cultura nos impõe. Se você tem consciência disso, passa a entender a dor e o grito de forma totalmente diferente como são normalmente entendidos: dor e grito não significam sofrimento, e sim partes do processo, com suas respectivas funções. A dor e o grito nos conectam a uma dimensão do nosso ser que por muito tempo é reprimida e negligenciada, que foge aos padrões aceitos por nossa sociedade, e justamente por isso dor e grito são tão evitados em uma sala de parto convencional. Por isso, no ambiente de um hospital convencional, a mulher não deve sentir dor e também não deve gritar – pelo contrário, ela deve passar por tudo aquilo quieta, deitada, submissa às ordens de uma equipe de médicos e enfermeiras que, supostamente, sabem mais sobre seu corpo do que ela mesma. Mais uma violência


3. A educação e a forma como as informações circulam em nosso país não ajudam, mas é importantíssimo estar ciente de tudo que determina a forma como o sistema de saúde se estrutura e o porquê de tantas cesarianas acontecerem em nosso país. Mães e pais devem ler e se informar a respeito dessas questões, e não apenas se basear naquilo que o médico diz durante as consultas. Muita gente sabe e já cansou de ouvir em programas de TV que o Brasil tem, todo ano, um número elevadíssimo de cesáreas desnecessárias sendo realizadas em seus hospitais. O que esses jornais não falam é que uma cesárea é muito, mas muito mais lucrativa para o hospital do que um parto normal. Eu não sou administradora hospitalar, mas sei que uma cesárea é um procedimento agendado, ou seja, o processo é muito mais rápido do que um parto normal, que pode (e atenção aqui para o "pode") levar horas e horas. Isso sem falar em todos os procedimentos médicos, ultraviolentos, todo o equipamento e todos os produtos farmacêuticos utilizados em uma cesárea e que, portanto, geram dinheiro para muita gente. Já o parto normal, além de mais longo, geralmente não exige intervenção médica, e por isso o lucro do hospital é menor.

Pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP [1]

Nesse sentido, é necessário que mãe e pai se informem não apenas para ficarem cientes do processo e para garantirem um nascimento saudável e humanizado, mas como postura política mesmo. Em nossa sociedade, tudo o que não gera lucro pode ser considerado algo politicamente subversivo. E não falo de ONGs, pois sabemos que ONGs (ou a grande maioria delas) geram, sim, lucro. Falo de práticas saudáveis não apenas durante a gravidez, mas durante toda a vida da criança (a alimentação e a educação infantil são outros capítulos da mesma história, que igualmente podem ser entendidos e praticados de forma crítica e política). Durante minha gravidez, o pai do Pedro e eu tivemos duas opções para o parto: por um plano de saúde privado, em minha cidade natal, onde toda a família mora e poderia ajudar no processo pós-parto; ou em um centro de saúde localizado dentro da universidade onde eu estudava, em Campinas, e que contava com uma equipe de parto humanizado e apoio fisioterápico e psicológico, que me seria oferecido pelo SUS. 

Obviamente, a segunda opção me oferecia muito mais vantagens, mas a sigla SUS assusta muita gente (e eu mesma via o SUS como um cenário pós-apocalíptico). E a dúvida ia ficando cada vez maior, sem que conseguíssemos tomar uma decisão. Até que, em uma conversa com uma grande amiga, ela me falou: “Thaís, se você escolher o plano de saúde particular, o parto vai acabar em cesárea”. Depois disso, não tive mais dúvidas: fiz todo o pré-natal pelo SUS, longe da família, contando com o pai durante o parto, que foi natural e sem intervenção médica. Foi uma experiência maravilhosa e determinante para quem eu sou hoje (e também para o Pedro e para o pai dele). 

Ou seja, meu conselho é: se está em dúvida, não tenha medo de colocar um grupo de parto humanizado na sua lista de opções para o nascimento de seu filho, ainda que o grupo signifique um parto pelo SUS. Informe-se, leia (hoje em dia há muita informação sobre parto humanizado em grupos na internet) e procure ser críticx, politicamente falando. Porque o que é politicamente bom para toda a sociedade também vai ser para seu bebê.

E para finalizar: a amiga sobre a qual escrevi e que foi tão importante para nós é hoje madrinha do meu filho. Escrevo este post em agradecimento a ela.

OBS.: As atividades do Grupo de Parto Alternativo, do qual participei durante minha gravidez, acontecem no Caism - Centro de Apoio Integrado à Saude da Mulher), localizado dentro da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas. 

[1] BARALDI, Ana Cynthia Paulin; DAUD, Zaira Prado; ALMEIDA, Ana Maria; GOMES, Flávia Azevedo; NAKANO, Ana Márcia. Gravidez na adolescência: estudo comparativo de usuárias das maternidades públicas e privadas. Disponível aqui. Acesso em: 11 mar. 2013.


5 comentários:

  1. Thais Torres11/03/2013 14:19

    Que emocionante, Tha!!!!

    Aumentou mais ainda a minha vontade enorme de ser mãe.

    Fico pensando como o resultade maior de tudo isso é o Pedro. Com certeza, ele será uma pessoa sensacional. Um homem que vai respeitar as meninas e meninos com os quais vai conviver ao longo da vida, que vai achar bacana trabalhar, estudar e se dedicar com intensidade a tudo que vale a pena. Enfim, um cara que eu quero que minha futura filha namore!!!

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    1. Obrigada, Tha! Adorei ler este comentário seu. Bom, como mãe eu sei que erro e aprendo praticamente todo dia, e quando eu acho que sou um fracasso total, ele faz alguma coisa que deixa feliz e me faz acreditar na educação de novo. Enfim, é complexo, mas a gente tenta! E agora preciso exercitar o desapego também, para poder ser uma sogra legal para a sua filha no futuro! hahaha. Beijo!

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  2. Era só isso que eu precisava pra ter a coragem que me faltava! Obrigada Thais! Tô na 29 semana e ACABEI de voltar da GO (convênio) onde faço meu pré natal.
    Falei que quero parto humanizado, que já tenho uma doula etc. Torceu o nariz, disse que doula não serve pra nada e tudo q já sabia que eu poderia escutar.
    Saímos de lá e meu marido: relaxa, quer ir pro CAISM?

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    1. Que maravilha, Fernanda! Primeiramente, parabéns!
      Olha, eu não posso dizer o que é melhor para vocês, mas sei que, com certeza, vale a pena dar uma passada no Caism, nem que seja para saber em que dias da semana o grupo se reúne e para conhecer tudo. Quando você for, pergunte pelo Dr. Hugo Sabatino (ele foi pioneiro nessa área e criou grupo, e foi com ele que eu tive minha primeira conversa, e me ajudou muito) ou pela dra. Silvia (que é esposa dele e trabalha como psicoterapeuta do grupo). Você vai ficar encantada com os dois. E, se você já tem doula, maravilha! No parto alternativo a equipe de médicos não se mete (no meu parto, o médico sentou num canto e ficou lendo um livro, para você ter uma ideia), você vai poder levar a doula e quem mais quiser (a não ser que o esquema de lá tenha mudado).
      De qualquer forma, por convênio ou pelo Caism, o importante é você se informar bastante e estar ciente daquilo pelo qual vai passar. Porque o momento do parto é uma hora em que nós ficamos vulneráveis e emotivas, e o pré-natal serve como preparação para esse momento.
      E, se precisar de qualquer outra dica ou ajuda, pode me escrever, ok?
      Beijo e um ótimo pré-natal para vocês. Quando tiver novidades, me escreve!

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    2. Mariana W guimarães13/03/2013 09:14

      Oi Fernanda Isack!
      O grupo do Dr. Hugo Sabatino foi extinto do CAISM quando ele se aposentou. Não existe mais o grupo de parto alternativo e as coisas por lá andam meio rotineiras: episio de rotina, credê de rotina etc...
      Em Campinas existem 2 opções de GO realmente humanizadas, com taxas de cesáreas dentro do que a OMS recomenda. São a Mariana Simões e a Priscila Huguet. A Priscila atende as consultas pela Unimed, apesar de cobrar os honorários do parto. Elas negociam BASTANTE pra poder facilitar pra vc e os honorários não são tão caros assim pelo atendimento que elas prestam. Te indico procurar o Grupo Samaúma (www.gruposamauma.com.br) e frequentar as reuniões para gestantes. São bastante informativas.

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