As mulheres e a música - compositoras brasileiras

por Tággidi Ribeiro
 

Desejo mostrar ao mundo, tanto como pode a arte musical, a errônea presunção de que só os homens possuem os dons da arte e do intelecto e de que estes dons nunca são atributos da mulher. 
Maddalena Casulana (1544-1590), compositora renascentista. 
Admito desde já que estou há pouco tempo pensando sobre as mulheres na música e que pesquisei muito pouco sobre. Trago mais de memória uma linha do tempo de figuras femininas, sobretudo cantoras, que fizeram história. Mas esse texto não vai falar sobre as cantoras. Ou, pelo menos, não vai falar sobre as 'apenas' cantoras. Meu foco aqui são as compositoras. As brasileiras.

Pesquisei pouco, mas achei, numa rápida ida ao santo Google esses dois endereços que contêm muito mais coisa do que eu imaginei que poderia encontrar. Obviamente, isso só diz do meu despreparo. Mas vamos lá. Haverá coisa aqui nesse textinho que você não vai encontrar tão facilmente.

Chiquinha Gonzaga
Quando penso nas mulheres compositoras do Brasil, me vem logo à mente Chiquinha Gonzaga. Já foi personagem de minissérie da Globo, razão pela qual gente da minha geração pode se lembrar tão bem dela. Do contrário, saberíamos quem compôs 'Ô abre alas!'? No mais, fora ter sido uma mulher compositora em sua época, foi também absolutamente transgressora, ao não admitir os abusos e traições dos dois primeiros maridos e ao unir-se, aos 52 anos, com um jovem de apenas 16. Embora eu não julgue que uma união com essa diferença de idade seja salutar, o fato é que durante os 36 anos seguintes, até a morte de Chiquinha, ela e seu maior amor permaneceram juntos. Só pra merecer mais respeito, Chiquinha Gonzaga ainda era politicamente progressista e ativa, defensora da causa abolicionista e republicana.

No vazio feminino da composição - ou na falta de memória, história e pesquisa -, depois de mais de 10 anos da morte de Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran desponta como cantora. Dolores Duran viveu apenas 29 intensos anos. Morreu em 1959 tendo composto alguns dos maiores sucessos da música apelidada de 'dor de cotovelo', como 'A Noite do Meu Bem'. Compondo com Tom Jobim, é considerada precursora da bossa nova e portanto de tudo que veio na música brasileira como reação à bossa. Uma biografia recém-lançada sobre ela mostra a incrível mulher vinda de família pobre, autodidata e politizada que foi Dolores Duran.

Ali quase ao lado de Dolores Duran, vem outra 'grande dama' da dor de cotovelo: Maysa. Também personagem de minissérie da Globo (e por isso certamente mais conhecida), Maysa foi outra cantora/compositora talentosa que fez história na música popular brasileira.

Tânia Maria
Falei de apenas três nomes femininos da música brasileira em quatro séculos e meio de história, e da década de 1960 até a de 1980 do século passado tenho somente alguns outros poucos para referir: Rita Lee, Suely Costa, Joyce, Marina Lima e Ana Mazzotti. E a Tânia Maria: cantora, compositora e pianista genial que fez toda a carreira dela 'na gringa', porque não teria espaço aqui. 

Bem, quero crer que minha pouca memória e minha falta de conhecimento é que reduzem os números. De qualquer forma, não há como negar, há menos compositoras que compositores no Brasil (e no mundo). E tenho certeza de que vocês leitores deste blog imaginam, como eu, que esse dado se deve ao fato de que as mulheres tiveram seu espaço restrito à casa e foram proibidas de estudar durantes milênios, o que deve ter contribuído um pouquinho para que não seguissem outra 'vocação' que não a de mães e donas de casa.

Por isso, definitivamente, devemos comemorar o que vem acontecendo no Brasil desde a década de 1990. As mulheres aportaram no cais da música, como corpo e voz, mas sobretudo como palavra - criação. Marisa Monte, Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Fernanda Abreu, Vanessa da Mata foram abrindo caminho às demais. As de quase agora: Mallu Magalhães, Maria Gadú, Tulipa Ruiz, Céu, Bárbara Eugênia, Tiê, Ana Cañas e Karina Buhr. Esperamos tantas mais.

Karina Buhr
Tomo a liberdade de findar este post de referências com a Karina Buhr, compositora que toca a dimensão demasiadamente humana do feminino: 'Eu sou uma pessoa má/Eu menti pra você/Você não podia esperar/Ouvir uma mentira de mim/Que pena eu não sou/O que você quer de mim/Se você tiver que escolher entre você e o seu amor/Você escolhe quem?'.


7 comentários:

  1. Realmente, ficou faltando a Fátima Guedes. E espero que tenham faltando outras tantas, pra que possamos descobri-las ou redescobri-las. :) Deixo um vídeo da Fátima com a Elis Regina, muito bonito: http://www.youtube.com/watch?v=iyQHC0MbB1g

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  2. Dona Ivone Lara?

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  3. Dalva de oliveira, claudia barroso, clara nunes (uma grande cantora e pesquisadora da africanidade no Brasil), Alcione, Angela Ro Ro... E infelizmente ainda sofremos preconceitos nas artes, alguns velados que insistem em reduzir nosso valor e querer que façamos uma arte para homens apreciarem

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  4. Joyce - Feminina, Tereza Cristina, Leci Brandão, Luli e Lucina, Marlui Miranda, Teca Calazans, Anastácia - Eu só quero um xodó, Sueli Costa, Clementina de Jesus, Ivone Lara - Sonho meu, Rosinha de Valença, Kátia de França, ...

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  5. Rosa Passos, outra grande compositora não citada.

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  6. Rosa Passos, outra grande compositora não citada.

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