Você está equivocada, permita-me mansplicar

por Roberta Gregoli



É engraçado como algumas palavras comuns em língua inglesa e bastante úteis para as mulheres são raras no Brasil: condescendência, paternalismo, misoginia, teto de vidro e por aí vamos. Quero enfatizar as duas primeiras e introduzir uma terceira, uma ideia que, de tão pouco disseminada, não tem nem tradução para o português: mansplain - que vou traduzir aqui como 'mansplicar' por falta de termo melhor (desafio nossas tradutoras a encontrarem uma tradução mais irreverente!).

O termo mansplain é um jogo de palavras inteligente, aglutinação de man (homem) e explain (explicação). E, segundo o Urban Dictionary significa (na minha tradução):

  • Deleitar-se em explicações condescendentes e imprecisas, proferidas com autoconfiança de pedra e aquela certeza nauseante de que é óbvio que ele está certo porque é o homem da conversa. "Ainda que ele tivesse ciência de que ela tinha um doutorado em neurociência, achou que deveria mansplicar que "existem moléculas no cérebro chamadas neurotransmissores."
  • Explicar de maneira paternalista, presumindo total ignorância da parte dxs interlocutorxs. O mansplicador normalmente fica chocado e chateado quando sua mansplicação não é aceita como fato absoluto, quando é criticada ou totalmente rejeitada. O termo foi cunhado para descrever o comportamento de novatos em fóruns da internet frequentados inicialmente por mulheres. [...] Ambos os sexos podem ser culpados de mansplicação.
  • Explicar algo de maneira excessiva e desnecessariamente longa, com o intuito de dominar a conversação usando afirmações que não são baseadas em fatos, presumindo que as pessoas irão acreditar e concordar com ele pelo simples fato de ser homem. "A recessão foi causada porque o governo gastou muito dinheiro e as pessoas deveriam tomar conta de si mesmas, não esperar que a sociedade cuide delas................. ad nauseam. E é tudo culpa das mulheres."

Palavras e a frequência com que ocorrem são bons barômetros culturais. É a velha história das dezenas de palavras que os inuítes têm para designar 'neve' enquanto para nós, em terras tropicais, uma já basta. E quando a palavra não existe, ou é pouco usada, isso significa que o fenômeno não existe? Quem dera não existisse teto de vidro no Brasil! A falta de conceituazalição indica, a meu ver, os apagamentos, silenciamentos e distorções que demandas progressistas normalmente sofrem: "isso não é racismo porque não existe racismo no Brasil", "a lei Maria da Penha é discriminatória contra os homens", etc.

Agora, me digam, quem nunca passou por aquela situação em que você está conversando sobre um assunto sobre o qual leu e se informou e chega uma pessoa (normalmente um cara), que nunca pensou sobre aquilo até aquele momento, com um ar super condescendente e paternalista, tentando explicar por que você está errada. Quando você rebate com dados e argumentos bem fundamentados, ele faz esta cara:

O sorriso irritantemente condescendente do mansplicador:
Mitt Romney levando um fora de Obama

O pior é quando querem discutir um assunto sobre o qual você tem qualificações palpáveis, tipo uma graduação, um mestrado, doutorado... Quando o assunto é gênero e sexualidade, então, são muitas as opiniões formadas sem nenhuma base teórica, e os mansplicadores se esquecem que existe toda uma área do conhecimento dedicada ao assunto, que eles provavelmente ignoram - o que não os impede, de maneira nenhuma, de discursar num tom absolutamente confiante.

Tem um doutorado na área
Você está muito ocupado mansplicando para notar

Isso acontece muito na universidade e o ótimo mainsplained.tumblr.com é uma vitrine dos casos de mansplicação no âmbito acadêmico.

É claro que nem todos os homens praticam a mansplicação #ufa Inversamente, temos mulheres que também são particularmente afeitas ao som da própria voz. Mas é fato que a mansplicação é muito mais comumente praticada por homens por uma questão cultural. Homens são, normalmente, criados e socialmente encorajados a falarem em público, têm suas opiniões consistentemente validadas por uma sociedade que quase automaticamente endossa a sua voz, sobretudo se forem também brancos e de classe média ou alta.

Este bem humorado artigo ensina as mulheres a reagirem aos mansplicadores de plantão, usando como  exemplo o recente mas já clássico episódio em que Hillary Clinton é sabatinada por um homem que parece mais preocupado em desafiiá-la e desmoralizá-la do que com o assunto em pauta.

Então você aprendeu a fazer perguntas, não mansplicar.
Isso é sexy. Agora podemos conversar.

5 comentários:

  1. Eu traduziria como homexplicar ou quiçá mascuexplicar.

    "Mas é fato que a mansplicação é muito mais comumente praticada por homens por uma questão cultural. Homens são, normalmente, criados e socialmente encorajados a falarem em público, têm suas opiniões consistentemente validadas por uma sociedade que quase automaticamente endossa a voz dos homens, sobretudo se forem também brancos e de classe média ou alta."

    E perfeito! Me lembrou uma imagem que vi no tumblr no qual aparece a Lisa e o avô Simpson dizendo que é um saco ser criança/idoso porque ninguém escuta o que eles têm a dizer e chega o Homer: "sou homem branco entre 18~49 anos. Todos me escutam, não importa quão idiotas minhas ideias sejam".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ótimas sugestões de tradução, Aline, obrigada! Inspiradas no seu comentário, lançamos uma enquete no Facebook: https://www.facebook.com/Subvertidas. Vote lá!

      Excluir